13 de março de 2018

Capítulo

Didric encarou Fletcher com um olhar maldoso e um sorriso torto. Inclinou-se para trás a fim de iluminar o rosto. O lado direito era ceroso e manchado de vermelho, e o canto do lábio direito fora completamente queimado, revelando dentes brancos. As sobrancelhas e cílios tinham desaparecido, deixando seu olhar arregalado, como se estivesse constantemente alarmado. Partes do couro cabeludo estavam quase calvas, cobertas apenas por mechas esparsas de cabelo, que abriam caminho pela carne derretida que cobriam.
— Bonito, né? — comentou Didric, acariciando a pele arruinada com um dedo longo e fino. — Na noite em que você fez isso comigo, meu pai pagou os olhos da cara para que um conjurador fosse trazido e executasse o feitiço de cura. Lorde Faversham, aliás. Engraçado que ele estivesse consertando a cagada do filho sem saber, não acha?
Fletcher ficou sem palavras, se por conta da paralisia ou do choque, não saberia dizer. Como Didric teria ouvido falar do suposto parentesco de Fletcher com os Faversham? Muita coisa havia mudado em um ano.
— Na verdade, eu provavelmente deveria lhe agradecer — continuou Didric, escovando os longos cabelos do lado ileso do rosto para cobrir o crânio queimado. — Foi por sua causa que tanto coisas maravilhosas quanto detestáveis aconteceram comigo neste último ano.
— Como? — perguntou Fletcher, sufocado, observando Rubens perambular sobre o peito de Didric. Ele não era um conjurador... haveria alguém mais controlando o Caruncho para enganá-lo?
— Foi tudo graças a você, Fletcher. — Didric abriu um sorriso torto e acendeu um fogo-fátuo, banhando a cela em luz azul. — É um fenômeno que só aconteceu uma vez antes na história registrada, por mais que algumas lendas a respeito sempre tenham persistido no mundo dos conjuradores. Um ataque mágico que deixa a vítima à beira da morte muito raramente transfere o dom a ela. Tem a ver com algo sobre como o mana do demônio interage com o corpo. As chamas da sua Salamandra podem ter torrado minhas cordas vocais e arruinado meu rosto, mas também me concederam um presente sem preço. Por isso, eu lhe agradeço.
— Não pode ser. — A mente de Fletcher girava com a implicação.
— É verdade — afirmou Didric, acariciando a carapaça de Rubens. — Aconteceu a outra família nobre, séculos atrás, numa trágica discussão entre irmãos. Veneno de Mantícora, direto na corrente sanguínea do irmão mais novo. Uma dose letal que deveria ter matado o rapaz. Em vez disso, ele herdou o dom.
Didric sorriu ante ao horror no rosto de Fletcher. Estava se divertindo.
— Venha, está na hora do seu julgamento. Não se preocupe, você estará de volta à sua cova esquálida muito em breve. Mal posso esperar para trancá-lo aqui outra vez e jogar a chave fora.
Fletcher se levantou, cambaleante, balançando de leve enquanto seus músculos tremiam e se contraíam com o veneno. Um julgamento... justiça, afinal? Ele sentiu a mais tênue fagulha de esperança, pela primeira vez no que parecia toda uma vida.
Apontou a palma tatuada à palha, onde Ignácio se escondia. O pentagrama na pele brilhou violeta, e o demônio se dissolveu em filamentos de luz branca, que flutuaram até sua mão. Era melhor manter o demônio infundido dentro de si para que ninguém pudesse separá-los. Não queria imaginar como seria ficar preso sem o pequeno companheiro.
— Você primeiro — comandou Didric, acenando com a pistola na direção da porta aberta.
Fletcher cambaleou cela afora. Por um momento, ficou encantado com a nova liberdade e curtiu a sensação de andar mais que alguns passos na mesma direção. Então a boca fria do cano da pistola foi pressionada em sua nuca.
— Tente não fazer nenhum movimento súbito. Não quero ser obrigado a estourar sua cabeça antes da diversão começar — rosnou Didric, enquanto os dois seguiam por um longo corredor de pedra.
Havia portas idênticas à da cela de Fletcher engastadas nas paredes. Um silêncio mortal pairava, rompido apenas pelo eco de seus passos.
Didric o deteve diante de uma escadaria embutida na parede. De ambos os lados, o corredor seguia por dezenas de metros, até desaparecer nas trevas densas.
— Mantemos os prisioneiros mais perigosos aqui. Gente da sua laia: rebeldes, assassinos, estupradores. O rei nos paga muito bem para mantê-los aqui, e só nos custa o preço de um balde de água e uma refeição por dia. É lindo de se ver.
Fletcher teve um calafrio, imaginando como seria estar sozinho na cela, sem Ignácio, livros ou feitiços para mantê-lo são, e a consciência de que nunca mais deixaria aquele lugar. Sentiu uma pontada de pena das almas perdidas presas ali dentro, por mais horrendos que fossem seus crimes. Então percebeu que muito em breve poderia estar entre eles, para sempre encarcerado nas profundezas da montanha.
Tentáculos gélidos de medo agarraram seu coração.
— Continue andando — cuspiu Didric, cutucando-o para que subisse as escadas. Galgaram numa espiral ascendente, como Fletcher fizera num lar enânico, só que, a intervalos, havia portas de barras, mantidas abertas por guardas. Eles subiram e subiram, até que os joelhos de Fletcher começaram a doer com o esforço. Ele tinha feito o possível para se exercitar na cela minúscula, mas tantos meses sem caminhar ou comer direito o deixaram fraco e malnutrido. Não sabia se conseguiria sobreviver a mais um ano naquelas condições, que diria uma vida inteira.
Didric o empurrou por um grande par de portas no alto de uma escadaria, que dava para um pátio lotado. Ao redor deles, guardas enfileirados praticavam manobras de mosquete e baioneta. O uniforme era de um amarelo e preto de vespa, uma mistura de cota de malha e couro leve. Havia soldados suficientes para que fossem um exército particular de Didric.
Fletcher engoliu enormes golfadas de ar fresco. Deleitou-se na luz do céu aberto mais uma vez, sentindo o calor gentil do sol no rosto. A cabeça girou de vertigem com todo o espaço aberto acima, mas, ainda assim, ele abriu bem os braços e sentiu a brisa fresca na pele. Era divino.
Didric empurrou Fletcher adiante, e os dois passaram por enormes portões de ferro e saíram para a rua. O garoto ficou surpreso ao descobrir que sabia onde estavam. Deu meia-volta e contemplou a prisão, reconhecendo algumas das características originais. Era a antiga mansão de Didric.
— Amei o que você fez com o lugar — comentou Fletcher secamente.
— É, o meu velho território. Estava na hora de dar uma aprimorada, sabe, considerando minha nova posição social. O que você achou dos novos alojamentos?
Didric apontou para cima. A vila de Pelego ficava no sopé do maior pico da cordilheira Dente de Urso, que sombreava a cidadezinha ao pôr do sol, erguendo-se sobre as casas, como um vasto monólito. Fletcher seguiu o dedo de Didric e viu que a ponta do pico não existia mais. Em seu lugar, um castelo fora construído, cheio de ameias, torres e seteiras. Havia canhões por todas as muralhas, os bocais negros dos canos apontados e ameaçando a vila, como se pudessem abrir fogo a qualquer momento. Era mais uma fortaleza que um lar.
— O lugar mais seguro de Hominum, com um estoque de suprimentos grande o bastante para aguentar um cerco de dez anos. Os elfos poderiam nos trair, os orcs poderiam invadir Hominum; os prisioneiros poderiam até tomar a aldeia, e nada disso importaria. Nem o maior exército do mundo conseguiria romper aquelas muralhas, mesmo que chegassem a escalar os penhascos verticais dos dois lados.
— Você soa paranoico, Didric — retrucou Fletcher, apesar de ter sido pego despreparado pelas palavras do rival. — Como se tivesse alguma coisa a esconder.
— Só nossa imensa riqueza, Fletcher. Meu pai não confia em bancos. Ele tem bons motivos, tendo sido banqueiro também.
— Um agiota desonesto não é um banqueiro — afirmou Fletcher. O outro rapaz enrijeceu, mas o cutucou para que seguisse em frente e ignorou a alfinetada.
Enquanto os dois caminhavam pelas ruas desertas, Fletcher viu pobreza por todas as partes.
Muitas das casas e lojas eram cascas vazias, enquanto outras tinham sido transformadas em prisões. Rostos ásperos e sujos eram pressionados contra as barras, observando silenciosamente e com ódio no olhar a silhueta arrogante de Didric. A vila inteira fedia a miséria e desespero; era muito diferente do vilarejo diligente em que Fletcher crescera.
O pai de Didric, Caspar Cavell, havia se tornado o homem mais rico da vila emprestando dinheiro aos necessitados e desesperados; forçando-os a assinar contratos blindados, que acabariam lhe custando muito mais do que o que fora pago em primeiro lugar. Parecia que os Cavell tinham cobrado tudo que lhes era devido, tomando as economias dos devedores e expulsando a maioria dos cidadãos de Pelego de seus lares para poder construir a prisão.
Enojado, Fletcher reduziu o passo e flexionou os dedos, lutando contra a tentação de socar a cara do outro.
— Ande — rosnou Didric, dando um tapa na nuca de seu prisioneiro com a mão livre.
Fletcher sentia a raiva arder, mas as mãos ainda estavam dormentes. A paralisia atrapalhava suas reações. Mesmo que estivesse em melhor forma, duvidava de suas chances de tomar a arma que tinha pressionada contra as costas. Teria que esperar.
Quando chegaram aos portões frontais da vila, o estômago de Fletcher gelou. A cabana de Berdon tinha sumido! Mas aquela não era a única coisa fora do normal na cena. A área ao redor dos portões fora demolida, com estantes de piques, baionetas e espadas substituindo as casas. Ainda mais estranho era o fato de haver uma fila de homens junto aos portões, em frente a uma longa e baixa mesa com pilhas de uniformes vermelhos.
Não. Não eram homens.
— Anões! — exclamou Fletcher.
Centenas deles, ainda mais do que tinha visto no Conselho de Guerra Enânico. Vestiam trajes tradicionais: couro pesado com camisas de lona. Pareciam mais rústicos que os anões que Fletcher encontrara antes, com tranças frouxas e irregulares, roupas manchadas de lama, fuligem e suor. Os rostos eram severos e taciturnos, e eles conversavam entre si em vozes graves e irritadas.
— Vieram marchando pela Dente de Urso para coletar o novo equipamento — explicou Didric, sorrindo —, depois de dois anos protegendo a fronteira setentrional dos elfos. Levou um bom tempo para a guerra élfica acabar, mas eu bem queria que ela durasse mais. As conversas de paz foram atrasadas quando os líderes dos clãs élficos viram o estado daquela elfa depois do Torneio em Vocans. Ela era sua amiga, não era?
Imagens de Sylva ferida e quebrada surgiram sem convite na mente de Fletcher, mas ele se manteve calado. Sabia que não poderia confiar em nada que Didric dissesse sobre ela.
— Milorde! — gritou um guarda, trazendo Fletcher de volta à realidade. — Esse marginal já tentou matá-lo. Não é seguro. Permita que nós o escoltemos para o senhor.
— E eu pedi sua opinião, seu lambe-botas? — retrucou Didric, brandindo a pistola. — Não se atreva a falar comigo sem que lhe seja dirigida a palavra. Volte ao trabalho.
— Como desejar, milorde — respondeu o homem, curvando-se profundamente. Didric o empurrou com a bota, e o sujeito se esparramou na lama.
O comportamento do inimigo deixou Fletcher enojado, era como se ele estivesse acima de todos os outros. Virou-se para Didric, sentindo os vestígios finais da paralisia se dissipando.
— Mandou os guardas chamarem você de “milorde”? — caçoou Fletcher, carregando no tom de desprezo. — Aposto que eles riem de você pelas costas. Você não passa de um carcereiro metido a besta, seu asno pomposo.
Por um momento Didric o encarou, o rosto lentamente corando. Fletcher desconfiava de que fazia muito tempo que ninguém falava assim com ele. Então, para sua completa surpresa, Didric caiu na risada. O gargalhar rouco ecoou pelo pátio, virando cabeças enquanto o jovem se dobrava de rir.
— Quer saber por que eles me chamam de milorde, Fletchy? — Didric ofegou, enxugando uma lágrima. — É por que eu sou um lorde. Lorde Cavell.

4 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!