31 de março de 2018

Capitulo 9

JAFIR

Ela se ajoelhou atrás de mim, suas mãos cobrindo meus olhos.
— Não olhe.
— Estou com os olhos fechados — prometi enquanto a alcançava e levava uma de suas mãos para os meus lábios.
— Jafir, preste atenção — disse ela, afastando a mão. Eu a virei e puxei-a para cima de mim, atraindo seu rosto para o meu, beijando-a, sussurrando entre respirações:
— Você é tudo o que preciso provar.
Ela sorriu, traçando uma linha ao redor da minha boca.
— Mas um dia você ficará feliz por uma fruta extinguir a sua sede.
— Você é…
— Jafir! — Ela disse, sentando-se, me empurrando e colocando um dedo nos meus lábios para me silenciar.
Fechei os olhos obedientemente.
Perguntei-lhe sobre o saber, o dom que a Siarrah de Harik, o Grande, aparentava ter. Ela franziu a testa e disse que era um presente para muitas das tribos Remanescentes, exceto que alguns o procuravam com mais fervor que outros.
Aqui, ela me contou, apertando seu punho suavemente contra as minhas costelas.
E aqui, ela disse novamente, pressionando-o contra meu esterno.
Esta é a mesma instrução que minha ama me deu.
É a linguagem do saber, Jafir.
Linguagem esta tão antiga quanto o próprio universo.
É o ver sem olhos,
E ouvir sem ouvidos.
Foi o que me trouxe até esse vale.
Foi assim que os Antigos sobreviveram naqueles primeiros anos.
Como sobreviveremos até agora.
Confie na força dentro de você.
Agora ela tentava me ensinar essa maneira de saber.
Ela já tinha me ensinado muito — a diferença entre frutas que poderiam nutrir ou matar, as estações da thannis selvagem e os deuses que governavam tudo. Nos últimos meses, não perdi um dia de viagem ao vale escondido para estar com ela. Ela consumiu meus pensamentos e sonhos. Tudo mudou entre nós no dia em que ela segurou meu estilingue e coloquei meus braços ao redor dela. Isso me assustou, essa mudança, do jeito que me fez sentir e até pensar de forma diferente, mas todos os dias desde então, enquanto eu montava para o vale, tudo em que eu podia pensar era em segurá-la novamente, beijá-la, ouvi-la, vê-la rir.
Assim como desde a primeira vez que a vi, ela me fascinava, exceto que agora eu precisava dela como um corvo precisa do céu. Fora um jogo perigoso que jogamos e, desde o início, sabíamos que não poderia durar, mas agora eu questionava isso. Ela questionava. Nós conversávamos sobre isso. Amor. Era isso o que tínhamos? Eu amo você, Jafir, ela diria em qualquer momento do dia, apenas para ouvir em voz alta. Ela ria e depois dizia novamente, seus olhos solenes fixos nos meus. Eu amo você, Jafir de Aldrid. E não importava quantas vezes ela dissesse, eu esperava que ela falasse outra vez.
— Agora, o que você ouve? — perguntou, com as mãos apoiadas no meu peito.
Não ouvi nada além do canto distante de um besouro, o som da respiração do meu cavalo, o sibilar da grama do prado na brisa — e então ela colocou uma frutinha na minha boca, doce e suculenta.
— Está te chamando, Jafir. Sussurrando, uma voz que cavalga pelo vento. Aqui estou, venha me encontrar. Ouça.
Mas tudo o que ouvi foi um tipo diferente de saber, um que até Morrighan não podia ouvir, um saber que parecia tão certo e antigo quanto a própria Terra. Sussurrava no fundo das minhas entranhas, eu sou seu, Morrighan, para sempre... e quando a última estrela do universo piscar em silêncio, eu ainda serei seu.

4 comentários:

  1. Que fofo
    - Thalita Guadagnini

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  2. "eu sou seu, Morrighan, para sempre... e quando a última estrela do universo piscar em silêncio, eu ainda serei seu."

    Mas gente 😍😍😍

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  3. eu sou seu, Morrighan, para sempre... e quando a última estrela do universo piscar em silêncio, eu ainda serei seu.

    Onde é que eu já vi isso ?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!