22 de março de 2018

Capítulo 9

O grupo olhou para a copa acima, comendo suas pétalas. Seus estômagos já estavam cheios — a carne-seca tinha sido um bom aperitivo, e Fletcher cozinhara alguns dos ossos enormes do Catoblepas sobre o fogo fraco, e depois os abrira para que pudessem comer o tutano nutritivo e amarelo que havia no interior. Só desejava que tivessem um pouco de pão para acompanhar — era como ele sempre comera tutano de veado quando a comida rareava em Pelego.
A água tinha sido reabastecida depois de uma breve chuva naquela manhã, que eles coletaram esticando o couro curtido do Catoblepas e depois usando-o para reabastecer os cantis. O líquido ficara com gosto de fumaça, mas era bem mais fresco que a água das poças que encontravam de vez em quando pela floresta.
Eles tiveram de apagar o fogo depois da refeição, porque a fumaça e o cheiro poderiam alertar caçadores de sua presença. Estranhamente, ao acordar, Fletcher encontrara Ignácio enrodilhado nas chamas, cochilando entre as brasas reluzentes. Fletcher imaginou que, depois de nadar em lava derretida, uma fogueira devia ser coisa de criança, mas ficou preocupado: Ignácio jamais fizera aquilo antes.
A voz de Otelo interrompeu seus pensamentos.
— Precisamos de outra pessoa para inspecionar o terreno, principalmente quando atravessarmos as montanhas — argumentou ele, palitando os dentes com um ramo afiado. — Atena não pode voar. Tosk e Ignácio poderiam subir em uma das árvores mais altas e inspecionar o horizonte, mas precisamos ver o que está adiante.
— Lisandro é grande demais. Pode ser visto — emendou Sylva depressa, porém ninguém discordou.
— Precisamos de um Caruncho — murmurou Cress, raspando o interior de um osso com seu seax. — Ou algo parecido.
Fletcher sabia que eles tinham razão. Estavam quase na metade do suprimento de pétalas, e as montanhas assomavam à frente. Sheldon não tinha se desviado de seu caminho, mas ainda assim seria melhor saber o que os aguardava ao sopé da cordilheira.
— Seria melhor mandarmos os demônios caçarem sozinhos. Eles poderão se desviar de qualquer coisa grande demais, mas seriam capazes de capturar pequenos demônios voadores para um de nós conjurar — disse Fletcher.
Então o jovem se deu conta de que ele — e Sylva também, aliás — não tinha experiência alguma em caçar ou capturar demônios do éter; Rook nunca permitira que os plebeus caçassem em seu primeiro e único ano na Vocans.
— Você caçou bastante no éter, Cress? — perguntou Fletcher.
— Os alunos do primeiro ano eram proibidos de ir ao éter quando eu estudava lá — respondeu ela, dando de ombros. — Tinha algo a ver com o que aconteceu com a Capitã Lovett. Eu estava tão feliz com Tosk que nem me importava. Otelo caçou um pouco, porém, por estar no segundo ano.
— Sim, é verdade — confirmou o anão, coçando a cabeça melancolicamente. — Mas Salomão era completamente inútil. As mãos enormes e desastradas não conseguiam segurar nada pequeno, e ele é lento demais e ruidoso demais para capturar qualquer coisa, aliás.
— Bem, suponho que nenhum de nós, a não ser Sylva, tenha um nível de conjuração sobrando para capturar um Caruncho — disse Fletcher, sorrindo. — Você bem que poderia deixar Salomão esticar as pernas, por mais inútil que seja; ele já está infundido há tempo demais.
Assim, Salomão e Lisandro foram conjurados e enviados com os outros demônios para caçar na floresta, que vinha se tornando mais espessa e mais tropical a cada passo de Sheldon. Na verdade, ele agora se via obrigado a deixar o avanço em linha para seguir uma trilha natural na floresta, de tão cerrada que era a vegetação.
Logo estavam sentados em um círculo, e Fletcher colocou as lentes de visualização enquanto os outros miravam seus cristais. Até mesmo Alice veio juntar-se a eles, embora ele não soubesse se pelo cheiro da carne ou pelo desejo de ficar perto.
Todos os demônios partiram, menos Atena, que cuidava da asa quebrada aninhada no colo de Alice. As duas pareciam satisfeitas em descansarem juntas, portanto Fletcher se concentrou em seu cristal de visualização para acompanhar o avanço de Ignácio.
A Salamandra era ágil na floresta, correndo em disparada pelas silveiras e troncos caídos, olhando para o céu. Sua empolgação era contagiante, e o coração de Fletcher se acelerava a cada salto que levava Ignácio mais fundo na floresta e mais distante do tumulto ruidoso que Lisandro e Salomão inevitavelmente causavam enquanto abriam caminho pelos arbustos.
Carunchos menores zumbiam aqui e ali, mas Ignácio os ignorou. Eles não serviam para um conjurador — exigiriam um nível completo de realização tal como um Caruncho Escaravelho, mas sem serem dotados das mesmas mandíbulas, ferrões e inteligência de seus primos de maior porte.
Ignácio, em vez disso, escutava atentamente o ar ao redor. Fletcher sabia que a Salamandra percebia a diferença entre os demônios apenas pela frequência e o timbre do bater de suas asas, pois, depois de centenas de anos caçando no éter, seus sentidos tinham ficado bastante afinados. Apesar disso, nada. Os demônios de fogo-fátuo haviam eliminado todos os demônios da floresta, exceto os de nível mais baixo na cadeia alimentar. O único outro demônio que ele avistou foi um solitário Coatl, pendurado em um galho mais acima; um demônio semelhante a uma serpente, coberto com as penas vistosas típicas de um pássaro exótico. Era, contudo, vagaroso e chamativo demais para ser de alguma utilidade.
Enquanto aguardavam, Fletcher explorava a mente do demônio, esperando ouvir o som de uma presa. Mas... havia algo diferente em Ignácio — e Fletcher, de fato, só o percebia agora, que se concentrava com tanta atenção. A consciência da Salamandra se ampliara em sua mente. Parecia inclusive que os níveis de mana contidos no pequeno demônio haviam aumentado também. Na verdade, “pequeno” era um adjetivo que não parecia mais apropriado para descrevê-lo, pois percebeu que Ignácio parecia ter crescido desde que haviam entrado no éter. Seu peso fora perceptível quando Fletcher o carregara naquela manhã, e suas costas haviam ficado penduradas para além dos ombros do rapaz.
Uma onda de empolgação atravessou a consciência de Ignácio, interrompendo os pensamentos de Fletcher. A Salamandra estava na base de uma árvore, subindo pela casca cinzenta com cuidado calculado. Lá no alto, o bater das asas de outro demônio havia chamado sua atenção. Fletcher pôde ouvi-lo também, um pulsar fraco que se intensificava de modo intermitente quando o demônio voava de um lado para o outro.
Então ele o viu; avistou o reluzir iridescente do estranho corpo. Era como se um lagarto alado tivesse sido formado a partir das partes do corpo de um inseto. Suas asas, embora tivessem o mesmo formato das de uma Serpe, eram feitas do mesmo material frágil das asas de uma borboleta, com um trecho translúcido e entremeado no centro, cercado pela mescla vívida de azul e verde típica de uma lagoa rasa. Seu corpo era malhado da mesma cor e parecia muito a carapaça de um besouro, segmentada nas articulações. Tinha apenas quatro patas, mas cada uma delas era coberta de pelos finíssimos e terminava em pequeninas garras. Uma cauda com um pequeno, mas potente, ferrão na ponta funcionava como leme e contrapeso.
Os olhos, no entanto... os olhos eram o traço mais artrópode de todos: negras esferas feitas de milhares de formas menores, posicionadas sob um par de antenas parecidas com as de uma formiga. Somente a boca permanecia sendo reptiliana, revelando uma língua comprida e camaleônica que chicoteou para fora a fim de apanhar um Caruncho menor no ar.
Era um Pyrausta — tão raro que não havia registros de sua captura, apenas descrições escritas às pressas de conjuradores que tinham catalogado as lembranças infundidas de seus demônios. Era mau lutador, porém famoso por dois talentos específicos, que ele demonstrou ao pousar em uma grande folha perto de Ignácio para devorar a presa.
No mesmo instante, o corpo assumiu o mesmo tom vivo de verde, camuflando-se com tanta perfeição que chegou a imitar os veios da planta. O Pyrausta engoliu o Caruncho com a ajuda das garras da frente.
Enquanto Fletcher fitava pasmo suas lentes, o demônio agitou as antenas e saiu em disparada em um acesso súbito de velocidade. As antenas eram seu segundo talento peculiar, conferindo-lhe sentidos apenas sonhados por outros demônios.
Ignácio já estava em pleno ar, tendo previsto o movimento repentino.
Apesar disso, quase não conseguiu alcançá-lo com uma de suas garras. Mas prendeu-se na cauda e arrastou-o consigo enquanto o Pyrausta caía no chão.
Ao atingir o solo, imediatamente Ignácio o aprisionou com a própria cauda, fazendo com que asas e ferrão ficassem imobilizados.
Foi tudo muito bem-feito. Fletcher enviou a Ignácio um pulso congratulatório cheio de orgulho, e a Salamandra soltou um guincho de empolgação antes de voltar em disparada para o casco.
— Apanhamos algo — anunciou Fletcher. — Chamem os caçadores de volta, temos um novo demônio para conjurar.

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