2 de março de 2018

Capítulo 9

Fletcher não sabia bem por que tinha se dado ao trabalho de se esgueirar até o cemitério. Não era como se alguma coisa fosse realmente acontecer, afinal. Para começar, ele sabia que a maioria dos camponeses descobertos como adeptos exibia pequenos sinais de habilidades especiais mesmo antes de ser encontrado, como o poder de mover pequenos objetos ou mesmo de criar uma fagulha. O rapaz estava certo de que a coisa mais próxima que ele tinha de uma habilidade especial era o talento de enrolar a língua.
Mesmo assim, era uma atividade empolgante, e talvez, depois de ter lido o encantamento, Fletcher pudesse vender o pergaminho na sua próxima viagem à frente élfica sem o arrependimento de não ter tentado. Ele encontraria Rotherham e dividiria os lucros com ele, é claro. Afinal de contas, tinha sido um presente generoso e, no fundo, era Fletcher quem estava em dívida com o soldado, e não o contrário.
O rapaz se sentou numa lápide partida e pousou o livro aberto num velho toco de árvore logo adiante. Tinha ficado em dúvida quanto a trazer o livro ou deixá-lo em casa. Didric e seus capangas poderiam invadir a ferraria enquanto ele estivesse fora, ou o assaltar se o encontrassem a caminho do cemitério. No fim, o trouxera simplesmente porque odiaria perdê-lo de vista.
O pergaminho tinha textura de couro, e Fletcher percebeu, em um momento de horror, que os símbolos provavelmente haviam sido entalhados na carne da vítima, para cicatrizar antes que ela fosse esfolada viva. O rapaz estremeceu com o pensamento apavorante, e resolveu segurar o documento com o mínimo de dedos possível. A superfície era surpreendentemente seca e poeirenta.
As palavras no pergaminho não passavam de uma lista de sílabas, mais algum tipo de dó ré mi musical que qualquer forma de linguagem órquica. De qualquer maneira, o menino não fazia ideia de qual língua era usada em conjuros; talvez os orcs tivessem traduzido o que ele estava prestes a ler para a escrita de seu próprio povo a partir de alguma outra linguagem completamente diferente. Além disso, James Baker tinha escrito que este demônio já tinha sido capturado por um xamã e, de alguma forma, “presenteado”. Quem poderia saber o que isso acarretava? Ainda assim, ele leria as palavras, então voltaria à cama quente, feliz ao saber que tinha tentado.
— Di rah go mai lo fa lo go rah lo... — começou ele, sentindo-se um tanto ridículo e feliz porque ninguém o assistia, exceto talvez os fantasmas de pessoas havia muito mortas.
As palavras fluíram da língua de Fletcher como se ele as conhecesse de cor, e ele não poderia mais parar nem se quisesse, tão grande era o impulso de pronunciá-las alto e claro. Uma sensação impetuosa e inebriante se espalhou por seu corpo como um cobertor quentinho, só que, em vez da névoa trazida pela cerveja, o menino sentia uma clareza perfeita, como se estivesse contemplando as águas plácidas de um lago montanhês. Na mente de Fletcher, as palavras eram mais como uma equação mística, cada uma se repetindo em ciclos variáveis que eram quase melodiosos em sua pronúncia.
— Fai lo so nei di roh…
As palavras seguiam monótonas, quase um zumbido implacável, até que ele finalmente chegou à última linha. Ao articular as palavras finais, Fletcher sentiu a mente se deslocar de uma forma que ele reconhecia. Aquela sensação de agudeza afiada como uma navalha que experimentava quando soltava a flecha, só que duas vezes mais forte do que jamais sentira. As cores do mundo se tornaram vívidas, quase iridescentes. As pequenas flores de inverno que cresciam por entre os túmulos pareciam quase incandescer com luz etérea, de tão brilhantes que estavam em sua visão.
O coração do menino trovejava no peito, e ele sentiu um puxão na mente, no começo hesitante, depois insistente e tão poderoso que Fletcher caiu de joelhos.
Ao erguer a cabeça, ele percebeu que a capa do livro cintilava. Seus olhos se arregalaram ao ver as linhas do pentagrama se acenderem, a estrela dentro do círculo tremulante com um brilho arroxeado. Então, como se tivesse estado ali desde o começo, um orbe de luz azul apareceu alguns centímetros acima do símbolo. Inicialmente não passava do pontinho de um vagalume, chegando ao tamanho de um pedregulho em poucos segundos. Pairou ali, tão brilhante que Fletcher foi obrigado a desviar os olhos e cobri-los com as mãos conforme a claridade se intensificava até uma esfera ardente, luminosa como o sol. Um rugir como das chamas atiçadas na forja de Berdon chegavam a seus ouvidos, lançando ondas de dor pela cabeça.
Depois do que pareceram horas, tudo cessou. Na escuridão e silêncio súbitos, Fletcher achou que estava morto. Ele se ajoelhou com a testa na terra macia, inspirando grandes golfadas do cheiro de grama para se convencer de que ainda estava lá, mesmo que o ar agora estivesse marcado por um odor sulfúrico que o rapaz não reconhecia. Foi só o soar de um trinado suave que fez Fletcher erguer a cabeça.
Havia um demônio agachado num morrete de grama a 60 centímetros do livro, sentado sobre as patas traseiras. A cauda chicoteava atrás dele como o rabo de um gato do mato, e as garras seguravam os restos de algo negro e brilhoso, algum tipo de diabrete com forma de inseto do outro mundo. O ser roía o besouro-demônio como um esquilo a uma noz, esmigalhando e escavando a carapaça.
A criatura tinha mais ou menos o tamanho de um furão, com um corpo similarmente ágil e flexível e membros longos o bastante para que fosse capaz de avançar como um lobo da montanha, em vez de correr aos poucos como um lagarto. Sua pele lisa era de um vermelho profundo, a cor de um bom vinho tinto. Os olhos eram grandes e redondos como os de uma coruja, ferozmente inteligentes e da cor de âmbar bruto. Para a surpresa de Fletcher, o demônio não tinha dentes de verdade; seu focinho terminava numa ponta afiada, quase como o bico de uma tartaruga do rio. Ele o usou para abocanhar o resto do besouro antes de voltar sua atenção ao menino.
Fletcher empalideceu e se arrastou para trás, encostando-se na lápide partida. Por sua vez, a criatura guinchou e se escondeu detrás do toco, saltando sinuosamente enquanto a cauda balançava de um lado ao outro. Fletcher notou um ferrão afiado na extremidade, como uma ponta de flecha entalhada em osso de cervo. O cemitério estava quieto, nem uma brisa ousava romper o silêncio que se assentara sobre o mundo de Fletcher como uma coberta.
A esfera amarela do olho da criatura espiou desconfiada sobre a beira do toco. Quando os olhares de ambos se encontraram, Fletcher sentiu algo estranho no limite da consciência, uma identidade distinta que parecia estar conectada a ele de alguma forma. O menino sentiu uma intensa curiosidade, irresistível em sua insistência, mesmo enquanto estava dominado pela vontade de fugir. Ele inspirou mais uma vez de maneira funda e soluçante, e se preparou para correr.
Subitamente, o demônio disparou por sobre o toco num salto lânguido, pousando no peito arfante de Fletcher. Ele fitou o menino, inclinando a cabeça para o lado como se lhe examinasse o rosto.
Fletcher segurou a respiração quando a criatura chilreou incompreensivelmente e lhe deu tapinhas com a pata da frente. O rapaz ficou ali sentado, paralisado.
Mais uma vez a criatura trinou para ele. Então, para o horror de Fletcher, ela continuou a escalada, cada garra perfurando o tecido da camisa. O demônio se enrolou no pescoço do rapaz como uma cobra, e a pele coriácea de sua barriga era lisa e quente. A cauda chicoteou diante do rosto de Fletcher, continuando o movimento e circundando-lhe a nuca. O aprendiz de ferreiro sentia a respiração quente do ser na orelha, ciente de que ele iria esganá-lo naquele instante; uma morte dolorosa que Didric já tentara lhe conceder. Pelo menos eles não teriam que transportar seu corpo por muito tempo para o enterro, pensou com morbidez. Quando a pressão começou, Fletcher fechou os olhos, rezando para que fosse rápido.


7 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!