31 de março de 2018

Capítulo 8

MORRIGHAN

Passei voando pelo campo. Corri sem fôlego pelo cânion. O dia já estava quente, e o suor rolava pelas minhas costas. Não parei para colher nada, minha bolsa vazia flutuava no aperto do meu punho. Quando cheguei à trilha que levava à antiga construção de livros, vi seu cavalo amarrado ao galho baixo de uma árvore. E então eu o vi.
Ele estava no meio da ampla entrada da varanda entre dois pilares, assistindo eu me aproximar. Ele estava adiantado, assim como eu. Desacelerei na base dos degraus, recuperando o fôlego. Olhei para ele de uma maneira que nunca tinha feito antes — de certa forma, eu não me permitia vê-lo. Como ele ficou alto. Suas costelas já não saltavam pateticamente em seu tórax, e seus cabelos enrolados de alguma forma se tornaram algo que o deixava bonito e poderoso. Seus cabelos caíam graciosamente sobre os ombros, que agora estavam largos e musculosos. Meu olhar percorreu seu peito, largo e forte, peito que tinha roçado minhas costas ontem.
Ele me observou subir os degraus, mas não disse nada. Eu não disse nada também, mas sabia que hoje não seria como o dia anterior ou todos os nossos dias antes disso. Quando cheguei lá, um pequeno e silencioso olá escapou dos meus lábios. Ele recuou e engoliu em seco.
— Desculpe por ter saído tão rápido ontem.
— Você não precisa explicar.
— Eu vim te dizer que não voltarei mais. Há caça melhor em outros lugares.
Senti um vazio dentro de mim. Minha mente girou com descrença.
— Não posso perder meus dias aqui com você — acrescentou.
Como em um estalar de dedos, minha descrença inflamou-se de raiva. Olhei para ele.
— Porque ser amigo de uma garota Remanescente é uma coisa, mas ser...
— Você não me conhece! — Ele gritou enquanto saía de perto de mim rapidamente, quase caindo pelos degraus.
— Vá, Jafir! — gritei pra ele. — Vá e nunca mais volte!
Ele desamarrou seu cavalo com movimentos rápidos e irritados.
— Vá! — Eu gritei, minha visão embaçando.
Ele fez uma pausa, olhando para a sela, as mãos apertadas nas rédeas, furioso.
Meu coração bateu dolorosamente em uma longa e esperançosa batida, aguardando. Ele balançou a cabeça, depois montou seu cavalo e foi embora. O ar que estava nos meus pulmões desapareceu.
Tropecei na ruína, minha mão deslizando pelas paredes para conseguir apoio. A escuridão me engoliu. Cheguei a um pilar e escorreguei para o chão, não mais tentando reter minhas lágrimas. Meus pensamentos se afogaram entre tristeza, ressentimento e raiva. Nunca mais voltarei aqui também, Jafir! Nunca mais! Vou esquecer tudo sobre esse vale, incluindo você!
Mas mesmo na minha raiva, eu sofria por ele. Sofria por todos os nossos ontens.
Uma porta fora aberta e não poderia ser fechada novamente, não importava quão irritada ele me deixasse. Ele estava em meus pensamentos, meus cabelos, meus dedos, meus olhos, sua memória em lugares onde ninguém mais havia estado, de cem maneiras que não faziam sentido. Olhei para o saco vazio ainda apertado no meu punho, meus dedos pálidos.
— Não há futuro para nós, Morrighan. Nunca haverá.
Me assustei, olhando para cima. Ele estava na entrada, uma silhueta alta bloqueando a brilhante luz do dia atrás dele. Eu sabia que ele estava certo. Um futuro era impossível. Eu nunca poderia adotar sua casa ou algo do tipo, nem ele a minha. O que restava para nós?
Fiquei de pé.
— Por que você voltou?
Ele entrou no frio da caverna.
— Porque... — suas sobrancelhas abaixaram, seus olhos tornando-se nuvens escuras, ainda irritadas. — Porque eu não podia ir embora.
Ele caminhou para mais perto até que apenas alguns centímetros nos separassem. Seu olhar era nítido e minucioso. Havia tanto que eu não conhecia sobre as maneiras entre um homem e uma mulher, mas sabia que o queria. E eu sabia que ele me queria.
— Toque-me, Jafir — pedi. — Toque-me da maneira como fez ontem.
Seu peito levantou em uma respiração profunda e ele hesitou, mas então ergueu um único dedo, lentamente traçando uma linha pelo meu braço nu, seus olhos seguindo o caminho como se memorizando-o, e então o caminho se virou e seu dedo atravessou meu colo, descansando na cavidade do meu pescoço. Algo brilhante, líquido e quente correu por minha pele e através do meu peito. Meus dedos relaxaram, e deixei cair a bolsa que ainda estava segurando.
Estendi as mãos e as apoiei em seu peito, com as pontas dos dedos abrasadoras, tremendo com a sensação de sua pele sob a minha, a batida rápida de seu coração, e respirei o aroma de tudo o que era Jafir: terra e ar, e suor. Minhas mãos queimaram enquanto passeavam por seu peito, sentindo suas costelas e os músculos de seu abdômen. Sua respiração vacilou, um momento, e as mãos dele seguraram meu rosto, o polegar deslizando pela minha bochecha. Nós trouxemos nossos lábios mais perto, nossos narizes se chocando, mas então minha cabeça foi para um lado, a dele para o outro, e nossas bocas se encontraram, nossas línguas se encontraram, e parecia que não havia outra maneira de sermos, saboreando um ao outro, explorando a sensação um do outro, descobrindo um ao outro de uma maneira que nunca fizemos antes.
Suas mãos deslizaram pelas minhas costas, fortes, puxando-me contra si, e seus lábios roçaram minha nuca, meus cílios, minhas têmporas e todos os espaços vazios entre eles.
Não pensei sobre o mundo dele, nem no meu, nem no futuro que não podíamos ter. Só pensei sobre a luz quente atrás dos meus olhos, seus suaves murmúrios no meu ouvido e a plenitude do que tínhamos naquele momento. E nos tocamos de todas as formas que fizemos ontem e mais.

2 comentários:

  1. Eita danadinha
    Quero muito um perigo desses

    Mirtiz lazza

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  2. Oooooxi ahuahuahuahua

    Não sabia, mas vai aprendendo :3 É isso ai 💜

    Ok... Agora deve vir a separação -.-" Chances da Ama, do chefe e do irmão dele intervirem nisso :/

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Boa leitura, E SEM SPOILER!