22 de março de 2018

Capítulo 8

Quando os outros enfim o encontraram, ele ainda segurava Atena nos braços. Enquanto Lisandro ajudava a arrastar o corpo do Catoblepas até o casco de Sheldon, Fletcher começou a cuidar dos ferimentos de Atena. Ficou feliz ao ver que ela não estava mortalmente ferida, ainda que tivesse de ficar sem voar por um bom tempo. Ignácio fez tudo o que podia para confortá-la, afagando-a com o bico e lambendo ineficientemente sua asa quebrada, mas sua saliva curadora não exercia efeito algum em ossos quebrados, e Fletcher não podia se arriscar a fazer um feitiço de cura, com medo de que os ossos se fixassem incorretamente.
Sentiu-se tentado a infundi-la e deixar que ela se curasse dentro de si, mas sabia que a visão noturna da Griforuja logo seria necessária: aquela seria a noite mais perigosa de todas até então, agora que carregavam uma carcaça sangrenta no casco de Sheldon. Não, eles teriam de lidar com aquela situação à moda antiga.
Por não haver muita madeira por perto, ele endireitou a asa quebrada com o cabo reto de uma de suas flechas e prendeu a asa contra a lateral do corpo do demônio. Atena andou bamboleante pelo casco, arrasada por ficar restrita ao chão. Seu desânimo, contudo, não durou muito, pois os dias de fome tinham acabado e um banquete começava a tomar forma diante de seus olhos.
A carcaça foi cortada com as lâminas de todos e separada em nacos enormes, cortes de carne escura e pilhas de órgãos gelatinosos. Os intestinos e outros órgãos venenosos foram retirados com cuidado e enterrados a alguma distância de seu caminho, pois o fedor era horrível e ajudaria a impedir que os animais necrófagos seguissem o rastro de Sheldon.
O restante foi cuidadosamente espalhado sobre o couro do monstro, que, esticado, era tão extenso que poderiam usar como tenda.
Cozinhar a carne era essencial, mas eles não queriam acender uma fogueira diretamente sobre o casco de Sheldon, com medo de machucá-lo.
Portanto formaram um monte alto de terra para isolar o casco, e usaram os galhos secos e meio apodrecidos espalhados pelo chão da floresta para fazer uma fogueira razoável.
Os órgãos comestíveis foram comidos primeiro, assados sobre as chamas formadas entre fogueiras de galhos que Fletcher cortara e raspara com seu khopesh. Cada órgão tinha um gosto diferente; o fígado era seco e macio, os rins, gordurosos e substanciais, e o coração, mesmo meio fibroso, não era ruim.
Salomão e Tosk, herbívoros, comeram brotos colhidos na floresta ao redor, mas os carnívoros Lisandro, Atena e Ignácio estavam famintos e comeram os pulmões crus, chegando a mordiscar nacos dos miolos enquanto esperavam pela carne cozida. Ver seus bicos sangrentos banqueteando-se daquela carne quase arruinou o apetite de Fletcher. Quase.
Os cortes foram devorados em seguida, assados em grandes grupos retirados apressadamente do monte de carne. A carne escura tinha veios de gordura da cor de manteiga que se derretiam e faziam o fogo chiar. Fletcher, Otelo, Sylva, Cress e Alice a comeram ainda bem quente e mastigaram com a boca muito cheia, inclinando a cabeça e arrancando os nacos com os dentes.
Foi a melhor refeição que Fletcher já comera. Havia cortes das patas, dos flancos, das costas e da corcova. Eles jantaram como os mais finos nobres de Hominum, saboreando cada corte e maravilhando-se com as variações de textura e sabor.
Desfrutaram felizes da luminosidade e do calor de sua pequena fogueira, pois tinham decidido que aquela seria a única noite em que se permitiriam acender uma — tinham medo de serem avistados do alto. Comeram em satisfeito silêncio, enchendo-o dos sons de mastigação e deglutição que mais pareciam os de cachorros atacando uma tigela que o de pessoas civilizadas fazendo uma refeição.
Otelo foi o primeiro a falar.
— Você ainda acha que comer demônios é errado? — murmurou ele, de boca cheia.
Cress mastigou, pensativa, por um momento.
— Que nada, esse treco aqui é delicioso — respondeu, continuando a roer um enorme fêmur.
Fletcher tombou de costas, grunhindo, o estômago cheio. Virou a cabeça e inspecionou a montanha de carne que ainda restava.
— Que desperdício — disse Cress, atirando um osso na escuridão e deitando ao lado de Fletcher. — Se tivermos sorte, talvez a gente consiga comer um pouco da carne no café da manhã, antes que ela se estrague.
— Pois é — disse Otelo, ouvindo a conversa de ambos. — É por isso que vou encher a pança. Depois do que aconteceu com Atena, só quero voltar a caçar de novo quando for mesmo preciso. Banquete e fome; é assim que vai ter de ser.
Eles ficaram sentados por mais algum tempo, então Sylva disse:
— Seria tão bom se tivéssemos um elfo silvestre aqui... — suspirou, retirando as botas e as meias, e agitando os dedos perto do fogo.
Fletcher sorriu, lembrando que Otelo tinha feito exatamente a mesma coisa, muito tempo antes, quando eles se abrigaram da chuva em um barracão depois da tentativa de assassinato de Sylva. Houve uma época quando ela teria torcido o nariz para esse tipo de comportamento. Como as coisas tinham mudado!
— Por quê? — perguntou Cress. — E qual a diferença?
— Os elfos silvestres são caçadores natos. Passam a maior parte da vida no chão da Grande Floresta, cuidando de nossos bandos de veados e caçando a muitos quilômetros da terra natal. Eles saberiam o que devemos fazer para conservar a carne e até mesmo o couro.
— Fletcher, você não costumava caçar em sua terra natal? — perguntou Otelo.
Mas a cabeça de Fletcher já estava funcionando. Ele não era nenhum especialista em curtir couro, pois simplesmente o entregava aos coureiros antes de o processo começar. Porém ele sabia como secar carne para fazer charque. Tinha feito aquilo em Pelego, ao lado da fornalha de Berdon. De alguma maneira, aquilo lhe parecera ser impossível de fazer ali, naquela floresta estranha e úmida; contudo, de repente, Fletcher decidiu fazer uma tentativa.
— Vamos precisar de mais madeira para a fogueira — disse, sentando-se mais empertigado. — Mas acho que consigo fazer as duas coisas. Perfeito não vai ficar; que diabo, pode ser até que nem dê certo, mas acho que vale a pena tentar.
E, assim, Fletcher lançou-se ao trabalho. Foi difícil fazê-lo na escuridão, uma vez que só havia a fogueira para guiá-los, porém Fletcher tinha tudo o necessário por perto. Cortou galhos robustos das árvores de galhos baixos e construiu uma espécie de tenda, usando os tendões do Catoblepas para prendê-la. Depois entrelaçou tudo com raminhos finos para formar uma grade onde seria possível pendurar pedaços de carne para secar.
Enquanto os outros começavam a cortar a carne em tiras finas, ele se pôs a limpar a imensa pele, usando o seax de Cress para raspar o excesso de carne. Logo tinha em mãos uma membrana de couro retesada, peluda de um lado e branco-rosada do outro.
A parte mais repugnante vinha em seguida. Por não ter panela, Fletcher foi obrigado a cortar o crânio da cabeça do Catoblepas e usá-la para esse fim.
— Que diabo você está fazendo? — gemeu Otelo, observando Fletcher cortar e macerar os miolos do Catoblepas até virarem uma pasta cremosa.
— E com meu seax! — exclamou Cress.
— Isso ajuda a curtir o couro — explicou Fletcher, fazendo uma careta enquanto mexia a mistura nojenta. — Os caçadores fazem isso há séculos.
Logo, estava relutantemente espalhando o líquido no couro com as mãos, enquanto Ignácio soprava o ar quente para secá-lo. O fogo estava quase apagado quando concluíram o trabalho.
— Agora só temos brasas, e coloquei algumas toras de madeira seca por cima, que irão arder lentamente e soltar fumaça a noite inteira. Agora, me ajudem com a pele — ordenou Fletcher.
Os outros foram um para cada lado da pele e juntos a levantaram. Depois seguiram a passos bambos até o fogo e com ela envolveram a armação repleta de carne. As tiras tinham sido presas ali como uma costura — primeiro eles as perfuraram com a lâmina do punhal de Sylva e depois usaram como linha o restante dos tendões do monstro, usando um feitiço para mantê-las no lugar. Finalmente eles deram um passo para trás e admiraram seu trabalho.
Uma nuvem fumegante de fumaça soprava do alto da estrutura, como uma chaminé. Por sorte a fumaça parecia fina o bastante para se dissolver no ar antes de alcançar a copa das árvores.
— Vamos alimentar o fogo com folhas verdes e mais madeira ao longo da noite — instruiu Fletcher. — Isso deve ao mesmo tempo curtir o couro e secar a carne. Só não se esqueçam de que não é para cozinhá-la, mas para secá-la. Então o calor deve ser muito baixo e constante: nada de fazer o fogo ficar muito alto. O couro vai providenciar uma cobertura bastante útil se chover, ou pelo menos deixará o casco mais confortável para as costas de Otelo.
— É isso aí — disse Otelo, esfregando o cóccix disfarçadamente.
— Eu fico com o primeiro turno de sentinela — ofereceu Sylva.
— Me acorde daqui a duas horas — respondeu Fletcher, apanhando Atena e Ignácio nos braços e deitando-se ao lado da mãe. Era bom estarem de barriga cheia, e com sorte eles teriam carne-seca para os próximos dias.
Apesar disso, Fletcher viu-se com dificuldade para dormir.
Tentou não pensar no tempo que estava passando, ignorando as pontadas de frustração com aquele ritmo lento e pesado pela floresta úmida. Contudo, a cada respiração, sabia que o ar o envenenava, sugando a vida de seu corpo.
Não havia nada que pudessem fazer: apenas esperar e torcer pelo melhor.
Ele se virava de um lado para o outro no casco duro, ouvindo o estalo de galhos e os estranhos barulhos noturnos da floresta.
Até que, por fim, quando o céu já começava a clarear mais uma vez, Fletcher adormeceu.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!