13 de março de 2018

Capítulo 8

O salão desandou em conversas esparsas, e a fila da frente se inclinou para ver melhor. Otelo gritava pela mordaça, a barba e bigode tremendo enquanto tentava roer o pano.
— Isso é mentira! — gritou Fletcher em seu lugar, apesar das tentativas de Arcturo de silenciá-lo. — Essa machadinha foi roubada de nós semanas antes, quando esses dois monstros quebraram as costelas de Otelo.
— Semanas antes do quê? — indagou Rook, erguendo a mão para que todos se calassem. O burburinho cessou quase imediatamente, e Fletcher se viu sob o escrutínio de todo o salão.
— Semanas. Antes. Do quê? — repetiu Charles.
— Antes... do ataque — respondeu Fletcher, com a cabeça funcionando à toda. O que tinha acabado de fazer?
— Então você sabe que o ataque aconteceu? Você admite que estava lá? — inquiriu Charles, detectando a fraqueza.
— Não foi isso o que eu falei — respondeu Fletcher, sem convicção.
Arcturo pousou a mão no ombro do rapaz, apertando com tanta força que o rapaz teve que fazer um esforço para não se encolher.
— Eu contei a Fletcher onde e quando o incidente supostamente aconteceu. Isso responde a sua pergunta? — afirmou Arcturo, encarando Charles.
Os dois se fitaram por alguns momentos, como dois lobos lutando pela supremacia. Foi Charles quem rompeu o contato visual primeiro, mas partiu para o ataque no instante seguinte.
— A arma do crime traz o emblema dos Thorsager, então só poderia pertencer a um dos homens da família. Tanto o pai de Otelo, Uthred, quanto o irmão, Átila, forneceram álibis para onde estavam naquela noite. Mesmo que Otelo seja aluno em Vocans, os funcionários não puderam comprovar um álibi por ele. Assim sendo, está claro que foi Otelo quem massacrou os soldados.
O júri examinou o objeto com interesse, alguns deles sussurrando entre si. Fletcher sabia que não era um bom sinal.
— Obrigado, inquisidor Faversham, muito convincente. Por favor, apresente a próxima prova — disse Rook, escrevendo alguma coisa no papel diante de si.
Dessa vez, Charles não chamou ninguém. Tirou um simples cartão de um bolso do uniforme, brandindo-o bem alto para que todos vissem.
— Este é um cartão de membro dos Bigornas. Foi encontrado dentre as posses de Fletcher após sua prisão. Tivemos sorte de encontrá-lo; o aposento havia sido vasculhado por um benfeitor misterioso — afirmou Charles, erguendo a sobrancelha para Arcturo. — Depois de assistir ao julgamento anterior e ver o pergaminho de posse da defesa, acho que podemos seguramente afirmar que sabemos quem foi.
Fletcher sentiu uma pontada de confusão. O cartão lhe fora dado muito tempo antes, no seu primeiro dia em Corcillum. Sabia muito pouco sobre os Bigornas, só que eram um grupo de humanos simpatizantes dos anões que fazia campanhas pelos direitos destes.
— O que isso tem a ver com qualquer coisa? Eu recebi isso há dois anos — argumentou Fletcher, apesar de um sibilo de frustração de Arcturo.
— Inquisidores, os senhores me concederiam um breve recesso para falar com meus clientes? — indagou Arcturo, e sem espremer o ombro de Fletcher dessa vez.
— Sim, por que não? — decidiu Rook com voz animada. — Talvez isso ensine o jovem Fletcher a ficar de boca fechada. Não que faça muita diferença; ele se calará para sempre até o fim da semana.
Arcturo fez uma mesura rígida e se agachou ao lado de Otelo e Fletcher. Esperou até que as conversas tomassem conta do recinto para começar a falar.
— Fletcher, no ano que se passou desde sua prisão, ocorreram explosões e ataques contra Pinkertons e civis. Todas as vezes, as provas apontaram a participação dos Bigornas.
Otelo grunhiu alto, agitando a cabeça.
— Desculpe-me, Otelo. Vou tirar a mordaça, mas você tem que me prometer que não vamos ter mais explosões, de nenhum de vocês. Terão uma chance de se defender depois que a Inquisição apresentar o caso.
Otelo cuspiu e soprou quando a mordaça foi cortada.
— Aquilo tinha gosto de tanga de gremlin — reclamou o anão, cuspindo a mordaça para longe.
— Por que você não explica a ele a significância do cartão dos Bigornas? — sugeriu Arcturo, entregando a Otelo um frasco tirado do cinto. Otelo tomou alguns goles profundos, depois se virou para Fletcher.
— É bom ver seu rosto, Fletcher. Só queria que nosso reencontro tivesse acontecido em outras circunstâncias. — Otelo pegou o braço do amigo e o puxou para perto. — Aconteceu muita coisa enquanto você esteve... longe. A tensão entre humanos e anões nunca esteve tão alta, tudo por causa desses supostos ataques dos Bigornas. Participar da organização agora é ilegal, e muitos dos líderes tiveram que se esconder.
— Por que os Bigornas estão fazendo isso? — indagou Fletcher. — Certamente só está piorando as coisas.
— Acreditamos que há um traidor entre eles, a mesma pessoa que contou aos Forsyth sobre a reunião do conselho e nos meteu nessa confusão em primeiro lugar — sussurrou Otelo.
Rook pigarreou.
— Achei que você tinha dito “breve”, Capitão — comentou o inquisidor.
— Escutem bem, agora que os dois estão aqui comigo — sussurrou Arcturo, ignorando o olhar de Rook. — Não há tempo ou motivo para inventar uma história. Vocês não sabem nada sobre o que aconteceu e vão ficar calados, entenderam?
— Agora, Capitão — ordenou Rook, acenando para os guardas avançarem.
Arcturo se afastou, mãos erguidas em rendição.
— Viu, não foi tão difícil. — Rook riu e liberou os guardas. — Acredito que o cartão fala por si mesmo, vocês não concordam?
Fletcher tentou ignorar os gestos de concordância do júri. Seriam ele e Otelo já culpados aos olhos deles ou ainda haveria uma chance?
— Tragam a testemunha. Ele dará seu depoimento, e então eu interrogarei os acusados — ordenou Rook, antes de se virar para Arcturo. — Você apresentará sua defesa pela manhã, Capitão; contudo, se quiser colocar qualquer pessoa para depor, ele ou ela terá que falar hoje. Vamos adiantar logo todo o interrogatório para chegarmos a um veredito rápido amanhã.
Arcturo tensionou o queixo, mas ficou calado.
Fletcher se perguntou quem poderia ser a testemunha de defesa. Serafim, talvez?
Jakov voltou conduzindo um soldado que vestia o uniforme cor de carvão dos Forsyth. Fletcher não o reconheceu, mas não achou que fosse um dos homens de Grindle. Eles tinham sido durões e musculosos, enquanto aquele ali era jovem e magricelo, pouco mais velho que o próprio Fletcher.
Ele se sentou num dos pódios de testemunhas.
— Diga seu nome para o júri — ordenou Charles.
— Sou o soldado John Butcher, dos Fúrias de Forsyth — afirmou o soldado com voz confiante. Ele olhava adiante, ignorando Fletcher e Otelo.
— Diga-me, John, o que você viu na noite em questão?
— Estávamos num exercício de treinamento noturno quando ouvimos tiros. Cinco homens estavam mortos quando meu esquadrão chegou, então começamos a procurar os atacantes. Acabei me separando do grupo na escuridão. Foi então que eu os vi. — John finalmente olhou para Fletcher e Otelo, apontando cada um deles com um dedo firme. — Eu os rendi com o mosquete, na esperança de que os reforços chegariam a tempo, mas fui paralisado por uma ferroada de Caruncho e eles fugiram. Foi a última vez que eu os vi. Meu esquadrão me encontrou várias horas mais tarde.
— Obrigado, John. Isso é tudo — disse Rook.
John se levantou e prestou continência; em seguida, foi embora marchando. Fletcher observou as costas eretas do rapaz com coração pesado. Reconhecia o soldado agora. A pior parte era que o relato era verdadeiro.
— Isso conclui as provas da acusação — declarou Rook, erguendo as anotações para lê-las em voz alta. — Em sumário: temos a motivação. Fletcher era membro dos Bigornas, e Otelo... — Hesitou e ergueu outra folha de papel. — Bem, Otelo tem uma ficha criminal longa como meu braço. Agressão a um Pinkerton, resistência à prisão, apologia antihumanista. Um encrenqueiro conhecido.
— Circunstancial! — exclamou Arcturo, olhando para o júri.
— Ainda assim, motivação! — rosnou o inquisidor, desafiando Arcturo a discordar.
Fletcher ficou ainda mais desanimado quando Rook entregou a folha de papel ao júri para que a passassem entre si. Otelo não tinha culpa de nenhuma daquelas acusações. Ele simplesmente assumira a responsabilidade, e as surras, pelo irmão gêmeo, Átila.
— Conhecemos as armas do crime, das queimaduras nos corpos causadas pela Salamandra de Fletcher à descoberta da machadinha Thorsager — continuou Rook, indicando a arma na mesa. — Por fim, temos uma testemunha confiável que os coloca na cena do crime. Agora, vamos interrogar os réus. Guardas, tragam o anão ao pódio das testemunhas!
Otelo fez um esforço para se levantar enquanto os grilhões eram retirados, depois arrastou os pés até o pódio. Olhou com raiva para Rook, o bigode eriçado ao franzir os lábios, enojado.
— Onde você estava na noite do ataque? — inquiriu Rook, juntando as pontas dos dedos.
Otelo encarava Rook, desafiador. Cruzou os braços com um tilintar de correntes.
— Por que você atacou aqueles homens? — perguntou Rook, inclinando-se para a frente. — Foi um crime premeditado ou simplesmente improviso?
O olhar de Otelo nunca vacilou. Ele era como uma estátua, sem piscar e imóvel, afora o subir e descer constante do peito.
— Bem, parece que a sua mordaça funcionou bem demais, Jakov — comentou Rook, entre risos. — Ele acabou engolindo a língua!
Uma risadinha soou atrás de Fletcher, que se virou e viu o velho rei Alfric sorrindo.
— Ainda assim, ele me encara de uma forma claramente desrespeitosa, você não concorda, Charles? — comentou Rook, subitamente sem humor nenhum na voz.
— Sem dúvida alguma. Incrivelmente desrespeitosa. Aparência desleixada, também. Barba desgrenhada, cabelo por todo lado — respondeu Charles, esfregando o queixo. — O trato pessoal não demonstra o respeito devido ao tribunal.
Eles estavam encenando agora, percebeu Fletcher. Era como assistir a uma pantomima mal-ensaiada, e aquilo enchia o rapaz de terror; fora tudo planejado.
— Jakov, por que você não vem até aqui e dá uma aparadinha? — chamou Charles, acenando para que o guarda grandalhão viesse.
Otelo empalideceu. Tentou se levantar, mas Charles o segurou pelos ombros, mantendo-o na cadeira. Normalmente, o anão musculoso não teria dificuldades em escapar das mãos do Inquisidor, mas as correntes o impediam, deixando apenas que ele balançasse.
— Vocês não podem! — gritou Fletcher, forçando os grilhões. — É sacrilégio cortar o cabelo de um anão!
Ele puxou e forçou até que o metal feriu a pele e fez o sangue escorrer em finas torrentes por entre seus dedos.
Arcturo se virou para o rei Harold, mas o monarca ficou apenas sentado em silêncio, de braços cruzados.
Lorde Forsyth, Didric e lady Faversham sorriam com empolgação selvagem, e o velho rei Alfric sussurrava animado no ouvido de Didric.
— Isso fere os direitos civis de Otelo — afirmou Arcturo, apelando ao júri. — É ilegal!
— Anões não têm direitos — riu Rook, enquanto Jakov se aproximava do pódio. — Vamos deixá-lo apresentável ao tribunal. Um corte de cabelo nunca fez mal a ninguém.
— Vocês não farão isso! — urrou Arcturo, erguendo o indicador que faiscava em azul. O clique dos mosquetes o fez hesitar, e os guardas avançaram, com armas apontadas para seu peito. O capitão caiu de joelhos ao lado de Fletcher enquanto Jakov sacava uma lâmina curva e se postava entre Charles e Otelo.
— Não olhe — sussurrou Arcturo, agarrando o pulso de Fletcher para que ele parasse de forçar as pulseiras afiadas das correntes. — Eles querem vê-lo sofrer.
Fletcher contemplou Otelo enquanto este lutava, debatendo-se da esquerda para a direita e tentando morder as mãos. A cena fazia com que ele parecesse um animal, e o júri balançou a cabeça em desgosto.
— Estou além do sofrimento — respondeu Fletcher, afinal, com olhos secos.
Tudo que sentia era raiva, ardendo furiosamente dentro de si. Mal conseguia se conter para não explodir os grilhões das mãos e atacar o pódio. Só que ele sabia que seria suicídio, além de exatamente o que os inimigos queriam.
A palma musculosa de Jakov manteve Otelo no lugar enquanto a lâmina era erguida.
— Fique quieto — rosnou ele, agarrando a barba do anão. — Não queremos um corte de cabelo torto, queremos?
Otelo baixou a cabeça, derrotado, sem forças para lutar conforme o primeiro corte foi feito, o soar da faca afiada no silêncio do tribunal. Ele olhou nos olhos de Fletcher enquanto um tufo de cabelo flutuava até o chão.
Uma lágrima lenta escorreu pelo rosto, mas Otelo não chorou em voz alta. A lâmina faiscou repetidamente, e, a cada vez, era como se fosse cravada no peito de Fletcher. Aquela lágrima foi a última. Otelo aguentou o restante do ataque num silêncio estoico, e Fletcher buscou canalizar toda a força e coragem que ainda lhe restavam ao amigo.
— Está bom agora, inquisidores? — indagou Jakov, afastando-se para admirar o próprio trabalho. A barba estava aparada agora, quase tão curta quanto a de Rook.
— Humm. O rabo de cavalo. Vou guardar de suvenir — decidiu Charles, erguendo-o.
Otelo fechou os olhos conforme a faca cortava uma última vez.
— Talvez eu o transforme num pincel de barbear — riu Charles, balançando a mecha de cabeça de um lado para o outro, como um rabo de cavalo de verdade.
— É sujo demais para isso — respondeu Rook, franzindo o nariz com nojo. — Agora o bigode. Cortem-no inteiro; sempre me perguntei como seria a cara de um anão sem...
Mas ele não chegou a terminar a frase. As portas no fundo do tribunal foram abertas violentamente, deixando entrar uma tempestade de chuva e vento uivante. Um Grifo atravessou as portas, emergindo das trevas com um grito. Trazia uma oficial uniformizada nas costas, os cabelos negros colados no rosto pálido. Ela ergueu os óculos de voo e revelou um par de olhos cinzentos que esquadrinharam a cena com fúria gélida.
— Capitã Lovett — sussurrou Fletcher, mal acreditando em seus olhos.
Da última vez que a vira, Lovett estivera em coma, capaz de se comunicar apenas por meio de seu Caruncho, Valens.
Lovett avançou até o centro do tribunal, deixando uma trilha de pingos e ignorando os olhares chocados da plateia de ambos os lados. Ainda montada na fera elegante, ela parou ao lado de Jakov e arrancou a faca de sua mão. Rook, que ficara momentaneamente mudo, de repente reencontrou as palavras.
— Capitã Lovett. Como você ousa entrar montada num tribunal! Desmonte imediatamente ou será presa por desacato!
Lovett deixou a faca cair no chão, desprezo estampado claramente no rosto.
— Não posso.
— Não pode ou não quer? — rosnou Rook, levantando-se atrás da grande mesa.
— Não posso — repetiu Lovett, jogando o cabelo pelo ombro. — Estou paralisada da cintura para baixo.

9 comentários:

  1. Rook e todos os outros (inclusuve o Rei)são monstros covardes
    `-´

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    1. Nao sabemos disso calma nao podemos genetalizar principalmente o rei que estava começando a abolir as leis absurdas contra os anoes

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    2. Será que o rei faz parte dos bigornas sem q ninguém saiba???

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  2. Meu sangue nunca ferveu tanto enquanto eu lia os primeiros capítulos de um livro
    Lovett,fico muito feliz em te ver bem de novo (mesmo q esteja paralítica)

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  3. Que vontade de socar alguém que eu tou agora

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  4. Bicho, eles me lembram a Clave; bem suja e corrupta, só que com menos etiqueta

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  5. "Mudou de ideia: a prisão já não lhe parecia mais tão ruim."

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Boa leitura, E SEM SPOILER!