2 de março de 2018

Capítulo 8

Fletcher abriu os olhos e se arrependeu imediatamente. A luz cinzenta que entrava pela janela aberta era de uma luminosidade cegante. O rapaz se sentou, tremendo, e cambaleou para fechá-la; a respiração saindo em baforadas no ar gelado. Provavelmente tinha deixado a janela aberta em seu estado de embriaguez.
O menino piscou para o quarto escuro, mas não viu o soldado. Apenas a pilha de peles que tinha ajeitado para ele no canto. Sentindo o medo crescer, Fletcher saiu e viu que a mula de Rotherham tinha sumido; não havia sinal dele em lugar algum.
— Finalmente acordou, é? — perguntou Berdon detrás dele, com a voz repleta de desaprovação. Estava parado junto à forja com os braços cruzados e uma expressão perplexa no rosto.
Fletcher assentiu, incapaz de falar ao sentir a primeira onda de náusea. Ele nunca mais ia beber na vida.
— O soldado me informou dos eventos da noite passada antes de partir. Não posso dizer que aprovo brigas, e muito menos essa facada que você só não levou por um triz, mas fico feliz por você ter dado uma lição naquele seboso — disse Berdon com um sorriso pesaroso. Ele bagunçou o cabelo de seu aprendiz com afeto rude, fazendo a cabeça do menino balançar, entontecida.
Fletcher sentiu a ânsia chegando e correu para o lado de fora, despejando o conteúdo do estômago nos paralelepípedos.
— Bem feito! Que lhe sirva de lição — gritou o ferreiro do lado de dentro, rindo entre dentes do infortúnio do menino. — Espere só até você provar os destilados. Na manhã seguinte, você vai lembrar do que está passando agora e sentir saudades.
Fletcher grunhiu e tossiu, na tentativa de tirar o gosto amargo de ácido da garganta, então cambaleou até a forja. Juntou as peles que tinham servido de cama improvisada a Rotherham e desabou no catre do seu quarto.
— Acho que já botei tudo para fora — comentou o menino, limpando a boca com as costas da mão.
— É, você deixou uma bela refeição para os ratos — disse Berdon da forja. — Vou fritar umas salsichas de porco para você e buscar água gelada no poço.
Fletcher se sentiu mal só de pensar em comida, mas decidiu que lhe faria bem. Rolou na cama para voltar a dormir e ficou deitado no calor reconfortante das peles por um tempo. O chiado das salsichas fritando começou a soar, e o rapaz se ajeitou, tentando ficar confortável.
Havia algo embaixo dele, cutucando-lhe o flanco. Fletcher enfiou a mão nas peles e puxou o objeto.
Um saco tinha sido deixado entre as peles de Rotherham, com um pedaço de pergaminho preso do lado de fora. Fletcher soltou-o e espremeu os olhos para decifrar os garranchos quase ilegíveis.


O soldado não tinha mentido quando disse que não era lá muito bom com as letras, mas Fletcher entendeu a nota razoavelmente bem. O velho malandro tinha escapulido de manhã, mas deixara um presente de despedida. Fletcher não se incomodou. Tinha certeza de que poderia ver Rotherham em breve, mesmo que não soubesse bem o que poderia fazer com uma tanga de gremlin, se fosse esse o presente.
Fletcher abriu o cordão da bolsinha e sua mão sentiu algo rígido e retangular. Não poderia ser... poderia? Ele despejou o conteúdo do saco e exclamou de espanto, segurando o objeto com ambas as mãos. Era o livro do conjurador!
O rapaz tocou o couro marrom macio, traçando com a ponta dos dedos o pentagrama entalhado na capa. Símbolos estranhos estavam gravados nas extremidades da estrela, cada um mais bizarro que o anterior. Fletcher folheou as páginas, descobrindo cada centímetro preenchido com caligrafia elegante, interrompida intermitentemente com rascunhos de símbolos e criaturas estranhas que o menino não conseguia reconhecer. O livro era grosso como um lingote de ferro, e pesava mais ou menos o mesmo. Levaria meses para ler tudo aquilo.
O som de Berdon colocando comida no prato chegou aos seus ouvidos, e ele se apressou em esconder o livro debaixo das peles.
Berdon trouxe as salsichas e as colocou na cama com cuidado exagerado. Fletcher percebeu que estavam perfeitamente douradas em todos os lados, e temperadas com sal de rocha e pimenta-do-reino moída.
— Mande isso para dentro. Você vai se sentir melhor rapidinho. — Berdon lhe deu um sorriso solidário e saiu do quarto, fechando a porta.
Apesar do cheiro delicioso que preenchia o aposento, Fletcher ignorou as salsichas e recuperou o livro do esconderijo.
Uma única página caiu bem do fim do livro, de um papel feito de um tecido estranho e similar a couro, diferente do resto. Fletcher abriu o tomo no lugar de onde o papel tinha caído e leu as palavras ali escritas:

Completamos no dia de hoje exatamente um ano desde que lorde Etherington ordenou que minha pesquisa começasse, porém não estou nem um pouco mais perto de descobrir um novo caminho até o éter. Os pentagramas usados pelos xamãs orcs têm chaves diferentes das nossas, disso eu agora tenho certeza. Porém, eles cobrem seus rastros com regularidade surpreendente. Ainda não consegui recriá-los com sucesso, mas estou certo de que, se eu me aventurar em terreno ainda não maculado pelo toque de Hominum, pistas de sua natureza poderão ser descobertas. Devo portanto empreender todos os esforços possíveis para avançar além das linhas de frente, onde poderei ver um orc executando um conjuro e, talvez, obter um vislumbre de seus pentagramas. É essencial descobrir que chaves eles utilizam, e em qual ordem.
Hoje minha busca finalmente rendeu frutos, mas não do tipo que eu esperava. Nas minhas escavações dos resquícios de um velho acampamento órquico, descobri um encantamento entalhado num pergaminho feito de pele humana. Encontrei uma surpreendente alegria em sua tradução; a linguagem órquica é muito brutal em sua expressão, mas há nela uma beleza selvagem que não consigo explicar.
Suspeito que o pergaminho conceda um demônio ao adepto que o ler. Muito provavelmente será um diabrete de nível baixo, um presente de um xamã mais velho ao seu aprendiz, para iniciá-lo no aprendizado da arte das trevas. Será uma rara oportunidade de examinar um demônio de uma região diferente do éter. Talvez, através de um escrutínio mais cuidadoso, esse diabrete me indique a direção certa. Com cada fracasso minha determinação cresce, porém não consigo afastar a sensação de que minha missão seja percebida pelos meus colegas como um esforço inútil. Mesmo que meu demônio seja fraco, eu provarei aos opositores que tenho tanto direito de ser um oficial quanto aqueles de sangue azul.
Agora preciso partir, pois meu comandante me convocou à sua barraca. Talvez essa seja minha primeira oportunidade de penetrar em território inimigo.

Estas últimas palavras estavam escritas num rabisco irregular, como se o autor estivesse com pressa. Era claramente algum tipo de diário. Fletcher folheou até o começo para ver se havia um nome, e lá estava; inscrito em letras douradas viam-se as palavras O Diário de James Baker.
Fletcher reconheceu o sobrenome comum. O homem deveria ter sido um dos raros camponeses com a habilidade de conjurar, uma ocorrência descoberta puramente por acaso quando um cavalariço intrometido lia alguma coisa que não deveria e conjurava um demônio por acidente. Com essa revelação, a maioria dos rapazes e garotas da idade de Fletcher nas cidades grandes passaram a ser testados em busca de minúsculos traços das habilidades necessárias para se controlar um demônio.
Mas Pelego era pequena e isolada demais para merecer uma visita da Inquisição. Ele inspecionou a folha solta, fazendo uma careta ao perceber do que o material era feito. Runas bárbaras a marcavam, com a caligrafia elegante do conjurador abaixo ensinando a pronúncia fonética.
Fletcher sorriu e começou a comer as salsichas, saboreando cada fatia. Era difícil evitar que seus olhos voltassem à página horrenda. Ele sabia o que iria tentar fazer naquela noite...


2 comentários:

  1. "mas fico feliz por você ter dado uma lição naquele seboso"

    É isso ai ahuahuahuahuahuahuahuahua

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  2. kkkkk, sabia que ele iria tentar invocar.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!