31 de março de 2018

Capítulo 7

MORRIGHAN

Ele não se escondeu nos arbustos desta vez. Subiu os largos degraus de mármore de uma maneira assustadora. Como se fosse dono deles. Por que esse abutre era tão difícil de ser compreendido? Seu peito estava nu e seu rosto reluzia. Ele havia se banhado. Sem a sujeira, sua pele agora era de uma tonalidade dourada, e seus longos cabelos brilhavam mais. A largura maior de seus ombros fez com que suas costelas parecessem ainda mais patéticas. Mas a expressão em seus olhos era feroz.
— Pensei que você não fosse vir? — falei, dando um passo para trás quando ele parou na minha frente.
  Ele me observou por um longo tempo antes de responder.
— Eu vou e volto, quando e onde eu quiser. Por que Harik, o Grande, sabe o seu nome?
Senti como se tivesse levado um soco e não pudesse respirar. Eu havia escutado cochichos no acampamento entre as mulheres. Ama e as outras o detestavam. Seu nome era como veneno, não podia ser tocado. Me alarmou o fato de que ele poderia saber o meu nome. Jafir estava enganado.
— Ele não sabe o meu nome — eu disse. — Ele não me conhece. Eu só o vi à distância, quando ele roubou nosso acampamento muito tempo atrás. — Eu me afastei. — E para a sua informação, abutre, ele não é grande. Ele é um covarde, como todos os... — eu parei, medindo as palavras com a ponta da língua, temendo que isso o afastasse... ou pior.
— Como todos nós? — ele terminou. — Era isso o que você ia dizer?
Por que nós estamos aqui?, pensei. Nós estávamos sempre lançados à sorte, mas mesmo assim nossos caminhos continuavam se cruzando. Não Morrighan, não se cruzando ao acaso. Você o convidou para retornar. Queria que esse encontro acontecesse. Eu não me compreendia, nem compreendia tudo a que fui ensinada a acreditar. Os abutres eram perigosos para nós, mas eu estava imensamente curiosa com esse que havia demonstrado piedade por mim oito anos atrás quando ele era pouco mais que uma criança.
— Jafir — falei, dizendo seu nome com respeito — você gostaria de ler? — E então, como um sinal de trégua, acrescentei sua própria descrição. — Um livro dos Antigos?
Nós lemos por uma hora até ele precisar ir embora. Não foi o nosso último encontro. Os primeiros continuaram sendo difíceis e experimentais. Os abutres e aqueles que eles caçavam não tinham um meio termo. Mas aqui, escondidos por longas trilhas e muros de pedras, nós aprendemos a deixar pelo menos alguma parte do que éramos para trás. Nossa confiança oscilava entre altos e baixos, mas sempre foi um acordo velado que nossos encontros permaneceriam em segredo. Se ele contasse a alguém, eu poderia morrer. Se eu contasse a alguém, seria proibida de retornar.
Nunca pensei que duraria. Afinal de contas, nossa tribo nunca ficava no mesmo lugar por muito tempo. Seguir em frente era o que fazíamos. Em breve deixaríamos o vale, iríamos para algum lugar longínquo, e esses dias acabariam. Mas a tribo não seguiu em frente. Não havia necessidade. O vale era muito bem escondido, e nós podíamos colher e plantar sem preocupação. Ninguém se aventurava a ir até lá. Nossos dias se transformaram em estações, e as estações se transformaram em anos.
Ensinei as letras a Jafir, e, depois disso, as palavras. Logo ele estava lendo para mim também. Ele praticava a escrita, seus dedos traçando letras na poeira.
— Como se escreve Morrighan? — ele perguntou.
Letra por letra, ele as repetia enquanto escrevia no chão. Eu me lembro de olhar para as palavras muito depois que ele as havia escrito, admirando as curvas e as linhas que seu dedo tinham traçado e como meu nome parecia diferente para mim mesma.
Ao longo de semanas e meses, nós compartilhamos tudo. Sua curiosidade era tão grande quanto a minha. Ele vivia com onze pessoas. Eles eram uma família, mas ele não tinha certeza quantos deles eram realmente parentes. Fergus não explicava essas coisas para ele. Não eram importantes. Uma mulher chamada Laurida o tomou como filho, mas ele sabia que não era verdade. Ela era a esposa de Fergus, mas ela só havia chegado ao clã quando Jafir tinha sete anos — de onde ela viera, ele não sabia. Um dia ela simplesmente chegou a cavalo com Fergus e ficou. Ele tinha uma vaga lembrança de uma mulher que ele imaginava ser sua mãe, mas lembrava somente de sua voz, não de seu rosto.
Ele perguntou se Gaudrel era minha mãe. Expliquei que ela era minha avó, um termo que ele não conhecia.
— Mãe da minha mãe — expliquei. — Ama me criou. Minha mãe morreu no parto.
— E seu pai?
— Eu nunca o conheci. Ama diz que ele está morto também.
Os lábios de Jafir se estreitaram. Talvez ele se perguntasse se meu pai fora morto pelas mãos de alguém de sua família. Era provável que sim. Ama nunca contou como aconteceu, mas seus olhos sempre brilhavam de raiva antes de ela mudar de assunto.
Eu estava curiosa sobre seu irmão. Jafir somente deu de ombros quando lhe perguntei a respeito disso. Ele mostrou uma cicatriz em seu braço.
— Steffan fala mais com suas mãos do que com sua boca.
— Então eu não gostaria de conhecê-lo.
— E eu não gostaria que você o conhecesse — Jafir disse, caçoando da maneira como eu falava as coisas diferente dele, e nós dois rimos.
Eu não sabia que o que nós dois estávamos construindo era uma amizade. Parecia impossível. Mas descobri que o garoto que havia me mantido escondida de seus companheiros abutres uma vez tinha outras coisas boas também – um bracelete trançado com a relva das planícies, um prato lascado banhado em ouro que ele havia encontrado em uma ruína. Um dia ele me deu um punhado do céu quando me viu olhando para as nuvens, somente para me ver sorrir. Eu guardei no meu bolso. Outras vezes nós enlouquecíamos um ao outro além da conta com nossas maneiras diferentes, mas nós sempre retornávamos, a discussão esquecida. Nós mudávamos juntos, imperceptivelmente dia após dia, tão devagar quanto uma flor se abrindo na primavera.
Mas então um dia, tudo mudou de uma hora para outra, permanentemente e para sempre.
Ele havia atingido um esquilo aquela manhã a dez passos de distância com se estilingue, e tentava me ensinar como fazer o mesmo, mas a cada vez que eu tentava, minhas pedras erravam miseravelmente o alvo. Ele estava brigando comigo por causa da minha mira, e eu lançava olhares frustrados para ele.
— Não, não desse jeito — ele reclamava. Ele se ergueu de onde estava na campina e se aproximou. — Assim — ele disse, ficando de pé atrás de mim e colocando seus braços ao meu redor. Ele pegou minha mão com as suas, seu peito encostado nas minhas costas, puxando lentamente a corda. Então ele parou, uma longa e desconfortável pausa que pareceu durar para sempre, mas nenhum dos dois se moveu. Tentei entender porque isso parecia tão diferente. Seu hálito quente se agitava atrás de minha orelha, e senti meu coração acelerar, senti algo entre nós que não estava ali antes. Algo grande e selvagem e incerto. Ele soltou minhas mãos de repente e se afastou. — Não importa — ele disse. — Tenho que ir.
Ele subiu em seu cavalo e saiu sem se despedir. Eu o observei galopar até estar fora de vista.
Não tentei impedi-lo. Eu queria que ele fosse embora.

* * *

A cabana comum zumbiu com vibração, mas não me sentia parte dela. Olhei para as estacas, as cordas e as peles de animais que compunham as paredes enquanto empilhava as cabaças limpas.
— Você quase não falou uma palavra a noite toda. O que há de errado, criança?
Eu me virei.
— Eu não sou uma criança, Ama! — Gritei. — Você não consegue ver isso? — Respirei assustada por minha própria explosão.
Ama tirou as cabaças das minhas mãos e as colocou de lado.
— Sim — ela disse suavemente. — A criança em você se foi, e uma... jovem está diante de mim.
Os seus olhos cinzentos pálidos brilhavam.
— Eu simplesmente me recusei a ver. Não tenho certeza de como aconteceu tão rápido.
Caí em seus braços, segurando-a forte.
— Sinto muito, Ama. Eu não queria ser grossa com você. Eu...
Mas eu não tinha mais palavras para me explicar. Minha mente estava balançada e confusa, e meu corpo já não parecia como se fosse meu. Em vez disso, dedos quentes apertavam meu coração com a lembrança da respiração quente de Jafir na minha pele.
— Eu estou bem — eu disse. — Os outros estão esperando.
Ama me puxou para o centro da cabana, onde todos tinham se acomodado ao redor do fogo. Sentei-me entre Micah e Brynna. Ele tinha treze anos, e ela, doze, mas agora pareciam tão jovens para mim. Os gêmeos, Shay e Shantal, oito, estavam sentados a minha frente. Para mim, todos eram crianças.
— Conte-nos uma história, Ama — pedi. — Sobre antes.
Eu precisava de uma história para me acalmar, pois minha mente ainda pulava como um gafanhoto do campo.
As crianças gritaram suas escolhas, as torres, os deuses, a tempestade.
— Não — eu disse. — Conte-nos sobre quando você conheceu o Pai.
Ama olhou-me com incerteza.
— Mas essa não é uma história de antes. Essa é uma história de depois.
Engoli em seco, tentando esconder minha miséria.
— Então, conte-nos uma história de depois. — Eu tinha ouvido a história antes, mas fazia muito tempo. E precisava ouvi-la novamente.
— Foi doze anos após a tempestade. Eu era apenas uma garota de dezessete anos. Até então, viajava muito com os Remanescentes que tinham sobrevivido, mas apenas para lugares que pareciam mais desolados a cada parada. Vivemos por nossa inteligência e determinação, minha mãe me ensinando como confiar na linguagem do saber dentro de mim, pois pouco mais importava. Os mapas, os aparelhos e as invenções do homem não podiam nos ajudar a sobreviver ou a encontrar comida. Cada dia eu ia mais a fundo, desbloqueando as habilidades que os deuses nos deram desde o início dos tempos. Pensei que toda a minha vida seria assim, mas um dia eu o vi.
— Ele era bonito?
— Ah, claro.
— Ele era forte?
— Muito.
— Ele era...
—- Pare de interromper — falei para a criança. — Deixe-a terminar!
Ama olhou para mim. Vi o pensamento em seus olhos, mas ela continuou.
— Mas o mais importante que notei nele foi que ele era gentil. O desespero governava o mundo, e a bondade era tão rara quanto um céu azul-claro. Nós alcançamos uma das adegas de antes. Ainda era possível encontrar algum alimento naqueles dias, estoques que ainda não tinham estragado ou que haviam sidos invadidos, mas era arriscado aventurar-se em tais lugares. O líder nos viu chegando e nos expulsou, mas seu Pai interveio, pedindo por nós, e o líder aceitou. Eles nos aceitaram e compartilharam o pouco da comida que tinham. Foi a última vez que experimentei uma azeitona, mas essa pequena prova foi o começo de algo muito mais... satisfatório.
Pata revirou os olhos e as outras mulheres riram. Riram bastante. Os significados ocultos das histórias de Ama já não me escapavam.

* * *

— Por que está com tanta pressa? — perguntou Ama. — Os besouros do campo cobrarão uma taxa se chegar atrasada? — Seu tom era desconfiado. Eu a tinha visto me observando enquanto eu corria com minhas tarefas matutinas.
Desacelerei o passo, com vergonha de não ter dito a Ama sobre a construção com os livros, ou Jafir. Mas não tão envergonhada por esconder a verdade. Uma coisa que aprendi era que Ama não conseguia ler a minha mente como eu acreditei uma vez. Mas ela conhecia minha mente. Ela a respirava. Ela vivia. Assim como fazia com toda a tribo. Era uma carga pesada para ela suportar. Parte desse peso passaria um dia para mim.
— Você precisa de alguma coisa, Ama?
— Não, criança — ela disse acariciando minha bochecha. — Vá. Colha. Eu entendo a necessidade de solidão. Apenas fique atenta. Não permita que este tempo de paz faça com que você deixe sua guarda baixa. O perigo está sempre por ai.
— Estou sempre atenta, Ama. E eu sempre me lembro dos perigos.

5 comentários:

  1. — Estou sempre atenta, Ama. E eu sempre me lembro dos perigos.
    sei, me engana que eu gosto

    ResponderExcluir
  2. Perigo lindo do cão quero esse perigo pra mim quem acha isso pedi primeiro

    Mirtiz lazza

    ResponderExcluir
  3. Eu bem q queria uns perigos desses kkkkk

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!