22 de março de 2018

Capítulo 7

O céu já estava escurecendo, e o estômago de Fletcher se contorcia, gorgolejando, sem digerir mais nada além da pétala consumida horas antes.
O grupo tinha passado o dia inteiro caçando, deixado por Lisandro vários quilômetros à frente do caminho de Sheldon; mas não encontraram nada. Haviam se separado para cobrir mais terreno.
Fletcher já passara esse tipo de fome antes, quando o inverno chegou mais cedo em Pelego e as trilhas nas montanhas estavam tão cobertas de gelo que era difícil demais as percorrer. Caçar servira para afastar a fome. Naquelas circunstâncias, assim como agora, os sentidos se tornavam mais aguçados, afiados pelo desespero, porém, por outro lado, ele também ficava mais fraco e vagaroso. A diferença era que nas florestas de Pelego uma tentativa fracassada significava mais um dia de fome. Ali, significava a morte.
Agachado nas sombras de um arbusto retorcido, Fletcher escutou o barulho de cascos sobre o solo úmido ali perto, e, em seguida, um resfolegar grave. Depois o ruído baixo e rítmico de folhas sendo ruminadas até se transformarem em polpa. Era o primeiro sinal de vida que lhe aparecia pela frente.
Fletcher arriscou uma discreta aproximação, colocando um pé na frente do outro com a cautela nascida de muito tempo de prática. Não se atreveu a preparar o arco, porque o rangido da corda poderia denunciar sua presença.
Outro passo, e ele pressionou a flecha no arco para evitar a possibilidade que ela, solta, o acertasse e fizesse ruído. Atrás da cobertura de folhas que cada vez menor, Fletcher avistou a presa.
Era um animal enorme, grande como um búfalo, com um formato parecido: ombros poderosos no meio dos quais crescia uma crina não muito diferente da de um cavalo selvagem. A cauda tinha um tufo que se agitava de um lado para o outro, em sinal de inquietação, o que deixou Fletcher incomodado.
Como se sentisse observado, o animal balançou a cabeça bem baixo e para o lado, resfolegando e farejando, umedecendo o ar com seu muco.
Protegido por não mais que umas poucas folhas e ramos, Fletcher estacou, torcendo desesperadamente para que o animal enxergasse mal. Ele tinha olhinhos pequenos e vermelhos, afinal, e uma cabeça de porco que lembrava um pouco a de um javali, mas com um par de chifres curvos na testa, presas bem mais proeminentes. O focinho era manchado de verde nas extremidades, e Fletcher viu a pilha de agulhas de coníferas que o bicho estivera ruminando.
Naquele momento descobriu o que estava adiante. Não era uma presa fácil, embora carnívoros de níveis mais avançados as caçassem e comessem. Um ser humano, por outro lado, seria louco de atacar uma daquelas criaturas, mesmo que estivesse morrendo de fome e desesperado. Era um Catoblepas.
Aquela espécie só comia plantas venenosas que poucos outros demônios consumiriam, tendo, portanto, bastante alimento. Poderia perfurar um atacante com as presas ou os chifres, o que viesse primeiro, mas nenhum dos dois era a arma mais potente daquele demônio. Não: era a saliva esverdeada, onde as toxinas naturais das plantas se concentravam. Uma mordida apenas era praticamente uma sentença de morte, e seu hálito era tão tóxico que podia cegar qualquer atacante, ou matar quem o inalasse. E, agora, ele estava olhando para Fletcher com os olhos vermelhos de porco e virando-se bem devagar, os flancos musculosos unindo-se e flexionando-se a cada passo lento e deliberado.
Um guincho do alto ecoou pelas árvores: Atena, tentando distrair a fera.
O barulho só fez o Catoblepas agitar as orelhas, nada mais. Ignácio ficara com Sheldon para proteger Alice, a um quilômetro de distância. Os outros caçavam ainda mais longe. Ele e Atena estavam por conta própria.
O demônio grunhiu, borrifando uma nuvem de fumaça pelas narinas. A umidade queimou o monte de folhas castanhas que recobria o chão.
Feitiços não eram muito eficientes contra demônios, e escudos muito menos, pois a energia demoníaca que formava seus corpos era capaz de atravessá-los com facilidade. Ele pensou em suas pistolas — ambas estavam carregadas, mas o ruído da explosão da pólvora poderia chamar a atenção dos xamãs próximos que procuravam por eles nos céus, alertando-os de sua presença. O arco teria de bastar.
Muito lentamente ele preparou a flecha, puxando a corda, e o esforço pressionou seus músculos fracos. Ele estava exausto até os ossos, de modo que a ponta da flecha parecia entrar e sair de foco, retorcendo-se, enquanto os tendões de seu braço se retesavam e travavam. Centímetro a centímetro, o arco rangeu até estar completamente teso. Apesar disso, ele não disparou, nem mesmo quando o monstro cavou a terra com o casco, o lombo curvando-se em uma silhueta arredondada à fraca luz do crepúsculo.
A cabeça da fera era enorme, mas Fletcher tinha uma decisão a tomar. O crânio era espesso demais para ser perfurado — apenas um tiro certeiro na carne macia de seus olhos mataria o monstro. Um tiro difícil, mesmo para o mais experiente dos arqueiros.
Embaixo, o peito amplo apresentava um alvo maior. As chances de uma flecha atravessar a caixa torácica eram melhores, mas o animal talvez não morresse rápido; poderia ficar enraivecido e atacar, destroçando o corpo de Fletcher antes de sucumbir. Então, como se tivesse sentido sua indecisão, o Catoblepas soltou um rugido e investiu contra ele.
Fletcher afrouxou a flecha, e o cabo chocou-se com sua mão ao voar. Xingando, ele mergulhou para o lado, aterrissando dolorosamente entre as raízes de uma arvore próxima. Bem na hora, pois o monstro arrasou a fina cobertura de galhos meio segundo mais tarde, batendo as mandíbulas com abandono feroz.
Havia sangue no solo; a flecha tinha se alojado profundamente na barriga do bicho, pendendo da ferida como um cordão umbilical macabro. Tinha atingido o intestino, um ferimento que levaria horas para matar.
Com um rugido gutural de dor, o demônio deu meia-volta, buscando seu algoz. Fletcher parou onde estava, imóvel feito um lago plácido. O animal farejou o chão, uma língua comprida lambendo o solo, como se para sentir o gosto de seu rastro. Não podia vê-lo, pois Fletcher tinha se escondido na sombra da árvore, e a última luz do dia havia quase acabado.
O rapaz esticou a mão para apanhar outra flecha, mas sua mão só encontrou ar. Olhou por cima do ombro e viu sua munição espalhada pelo chão, fora de alcance atrás dele, pois seu mergulho desesperado soltara a aljava de suas costas.
Ele deixou que a mão pousasse no cabo do khopesh, mas não o desembainhou: o ruído rascante da lâmina na bainha chamaria a atenção da fera. Ele teria de fazer isso em movimento, num ataque definitivo, que significaria a morte para um dos dois.
Um pio do alto lembrou-lhe de que Atena continuava por ali. Ele notou o desespero frenético da Griforuja e sabia que Ignácio também podia senti-lo.
Fletcher percebeu que a Salamandra estava correndo, mas ele se afastara demais de Sheldon para que qualquer resgate chegasse em tempo. O focinho do Catoblepas já o farejava, e o animal, babando e grunhindo sobre a terra úmida, vinha em sua direção.
Ele precisava alterar o curso da criatura. Uma expiração, uma gota de saliva, poderia matá-lo no mesmo instante. Atena podia... não, seria arriscado demais.
A Griforuja, contudo, sentiu sua ideia e, de repente, veio deslizando pelos ares na direção de ambos. Fletcher ordenou que desse meia-volta — esforçou-se tanto que os olhos rolaram para o interior da cabeça, mas, enquanto ele fazia o máximo para controlá-la e fazer com que se desviasse, Atena fez o impensável. Dobrou as asas e despencou como uma pedra.
Houve um momento de pânico cego, em seguida ela investiu contra o flanco da fera e, então, girou para o chão. A mente de Fletcher recebeu uma ordem de Atena: corra!
O Catoblepas rodopiou, espalhando salpicos de saliva com um urro gutural, mas eles passaram por cima da cabeça de Atena, pois ela estava colada ao chão, atônita com a colisão com a lateral da fera, dura como um barril.
Os flancos do Catoblepas encheram o campo de visão de Fletcher, a longa cauda chicoteando para os lados. Ele se levantou de um pulo e saiu correndo na direção do monstro, sacando até a metade o khopesh da bainha.
Com um grito irado, enfiou a lâmina bem no fundo da espinha da besta, atingindo os órgãos vitais abaixo. A respiração lhe saía do corpo em rompantes conforme ele esfaqueava as costas do demônio. A única coisa que o impedia de cair de cima do animal era o cabo da espada.
Sentiu o cheiro cru e animalesco do monstro, que caiu de joelhos em agonia. O pelo áspero ao longo de sua espinha raspava nas mãos de Fletcher enquanto ele girava a lâmina, sendo jogado para os lados a cada coice do Catoblepas. Uma massa de vapor tóxico foi lançada no ar, mas Fletcher estava fora de alcance. Ele inclinou-se sobre a lâmina com abandono desesperado, até que quase metade do cabo da espada estivesse enterrada na espinha da criatura.
Então, abaixando-se suavemente e quase com um lamento, a criatura caiu de vez e soltou seu último e venenoso suspiro.
— Atena! — gritou Fletcher, deslizando do lombo do Catoblepas e indo até onde o demônio estava caído.
Uma das asas havia sido esmagada pela barriga do monstro, mas seus olhos estavam abertos e cheios de vida. Com um rosnado, ele ergueu o cadáver do Catoblepas para libertá-la, espirrando saliva com o esforço.
Atena conseguiu retirar a asa, mas Fletcher sentiu sua agonia quando ela moveu os ossos delicados, que tinham sido fraturados pelo peso descomunal da fera. Ele soltou o cadáver de qualquer jeito e se ajoelhou para apanhar a Griforuja.
— Por que fez isso? — perguntou ele, aninhando seu corpo quebrado.
Ela olhou para ele, e o amor em seus olhos azuis lhe revelou a resposta.

Um comentário:

  1. — Por que fez isso? — perguntou ele, aninhando seu corpo quebrado.
    Ela olhou para ele, e o amor em seus olhos azuis lhe revelou a resposta.

    Que lindo...

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Boa leitura, E SEM SPOILER!