13 de março de 2018

Capítulo 7

O tribunal estava ainda mais cheio que antes, mas, apesar disso, o silêncio pairava pesado no ar. Uma fila dupla de bancos tinha sido montada perto da mesa elevada do juiz, onde dez homens e mulheres estavam sentados com seus resplandecentes robes vermelhos. Observavam Fletcher com hostilidade, como se o rapaz pudesse atacá-los a qualquer momento.
Atrás de Fletcher, generais e nobres adornados em seus paramentos militares formavam as fileiras dianteiras. Uma nuvem de fumaça pairava acima deles, pois muitos davam baforadas em longos charutos, sussurrando uns para os outros, como se estivessem no teatro.
Lorde e lady Faversham estavam sentados no banco da frente. Lorde Forsyth, ali perto, ocupava dois lugares do banco com seu físico volumoso e imponente. Ao seu lado, sentava-se uma elegante dama loira que Fletcher só poderia presumir que seria sua esposa. Didric e o pai ocupavam os lugares mais próximos de Fletcher, trajando veludo e com grossos anéis de ouro pesando nos dedos.
Todos estes fitaram Fletcher e Arcturo com olhares de puro ódio enquanto os guardas mais uma vez agrilhoaram o rapaz ao chão. Fletcher resistiu ao impulso de estremecer, e ergueu o queixo; não daria a eles a satisfação de ver o seu medo. Arcturo retribuiu o olhar sem demonstrar emoção, mas Fletcher notou que as mãos do capitão tremiam.
— Todos de pé para os inquisidores Damian Rook e Charles Faversham! — gritou um guarda.
Rook adentrou o aposento, seguido por um homem de nariz adunco, olhos escuros e cabelos negros. Tinha a pele tão pálida quanto a de Rook era amarelada, e era magérrimo, a ponto de parecer esquelético. Os dois inquisidores tomaram seus assentos à mesa alta e contemplaram regiamente o salão.
— Não fico no mesmo aposento que meu pai e meio-irmão desde os meus 15 anos — murmurou Arcturo, indicando o inquisidor de cabelos negros com a cabeça.
Fletcher encarou Charles, comparando o rosto do sujeito ao seu. Se a teoria de Arcturo estivesse correta, Fletcher era um filho ilegítimo do lorde Faversham, tal qual o próprio Arcturo, o que fazia dele meio-irmão de Charles. Viu pouca semelhança com o próprio rosto, mas os cabelos de Charles eram tão espessos e negros quanto os seus.
— Tragam o co-conspirador! — exclamou Charles numa voz aguda e débil.
As portas se abriram violentamente, e Jakov entrou no tribunal, puxando Otelo. O anão estava embrulhado em correntes, tantas que só podia arrastar os pés alguns centímetros de cada vez. Tinha um trapo sujo enfiado na boca e um dos olhos não se abria de tão inchado, num roxo feio, como uma ameixa que passara do ponto.
Uthred veio em seguida, o rosto escurecido pela raiva. Caminhava com os punhos cerrados e o passo gingado de um homem pronto para brigar.
— O que vocês fizeram com ele? — inquiriu Arcturus, enquanto Jakov agrilhoava Otelo ao lado de Fletcher.
— Ele foi insubordinado. — O sargento sorriu. — Então a gente deu uns tapas amigáveis e uma mordaça para lhe calar a boca. É a única coisa que esses meios-homens entendem.
— Não crie caso, capitão — grunhiu Uthred em voz baixa, puxando Arcturo para o lado. — Não há como dialogar com esses animais. Deixe que o júri veja; talvez isso cause alguma simpatia.
— Duvido — sussurrou Arcturo de volta, enquanto Jakov acenava para um dos membros do júri e partia.
— Só um de nós pode falar em defesa dos rapazes. Acredito que você esteja melhor equipado para isso, dado o seu trabalho no último julgamento — afirmou Uthred, dando um beijo no cocoruto de Otelo. — Não vou assistir; duvido que consiga me manter calmo. Já gastei toda a minha paciência para não arrancar a cabeça daquele gorila. Boa sorte... vejo vocês quando tiver acabado.
Antes que Arcturo pudesse responder, Rook pigarreou; o aposento passou de um burburinho suave ao silêncio. Fletcher deu uma última olhada em Uthred, que partia, e então as portas laterais foram fechadas.
— Senhoras e senhores, obrigado pela presença — declarou Rook, gesticulando de forma teatral. — Não é sempre que nós, inquisidores, temos a oportunidade de presidir um julgamento de traição. Afinal, é o mais hediondo dos crimes, cuja pena é a morte.
Dessa vez, Fletcher sentiu um entorpecimento estranho perante a ameaça. De alguma forma, parecia um destino melhor que passar a vida aprisionado naquela cela.
— Quero um julgamento rápido, hoje; sei que todos temos mais o que fazer — proclamou Rook, magnânimo. — Nós, a Inquisição, agiremos como acusadores e árbitros neste caso. Caberá ao júri decidir a culpa dos acusados. Se vocês não se importarem, vamos direto ao ponto. Inquisidor Faversham, por favor, declare os fatos.
Charles espiou Fletcher por sobre o nariz, ajeitando as anotações.
— Durante um exercício de treinamento noturno, cinco dos homens de lorde Faversham foram assassinados. Um deles tinha queimaduras no rosto, consistente com um ataque de Salamandra, um raro demônio possuído exclusivamente por Fletcher. Acreditamos que ele estava acompanhado de Otelo Thorsager, que ajudou a perpetrar o massacre. — Charles apontou o anão agrilhoado, incapaz de qualquer resposta além de encará-lo de volta. — Foi um ataque motivado pelo desejo de destronar o rei Harold, o primeiro passo em direção a uma rebelião enânica. Se Fletcher não tivesse sido preso pela tentativa de assassinato do lorde Cavell, poderíamos estar no meio de uma guerra civil neste exato instante.
— Uma prisão injustificada — argumentou Arcturo. — Fletcher foi inocentado de todas as acusações. Lorde Cavell tem sorte de não ter sido ele mesmo acusado de tentativa de homicídio.
— Ah, Arcturo, finalmente toma a palavra — zombou Charles, que ergueu a mão quando Rook tomou fôlego para gritar com o capitão. — Conceda-nos a cortesia de segurar essa sua língua até que tenhamos terminado de apresentar todas as nossas provas.
— Ande logo com isso, em vez de ficar falando em acusações que já foram retiradas.
Charles o ignorou e desceu da mesa alta.
— Temos três provas diferentes. A primeira, a arma que Otelo Thorsager usou no ataque. A segunda é a prova da afiliação de Fletcher com os dissidentes enânicos. A terceira e final, o depoimento de testemunhas. Acredito que essas três peças comprovarão a culpa de ambos. Logo em seguida os criminosos serão rapidamente decapitados. Sei que o inquisidor Rook está muito interessado em sugerir a morte mais... tradicional, por meio de enforcamento seguido de esquartejamento, mas o método de execução será decidido pelo júri, algo talvez afortunado para os réus.
Fletcher viu os punhos cerrados de Otelo, que lançou um olhar arregalado ao amigo. Era uma morte terrível, cujo mero pensamento lhe era insuportável.
Mudou de ideia: a prisão já não lhe parecia mais tão ruim.
— Capitão Arcturo, você tem alguma prova ou testemunha para apresentar? — indagou Charles com inocência, enquanto os olhos faiscavam de malícia.
— Já que as acusações só foram apresentadas contra Fletcher há apenas uma hora e eu não estava ciente da prisão de Otelo, creio que não ficará surpreso ao saber que não estou preparado — respondeu Arcturo, sarcasmo escorrendo da voz.
— Se eu bem me lembro, era você quem estava peticionando ao próprio rei Harold para que Fletcher tivesse um julgamento rápido. Achei que ficaria feliz! — apontou Charles, igualmente sarcástico.
— Há uma grande diferença entre um ano e uma hora, como você bem sabe, Charles. Felizmente, testemunhas e amigos virão voando e não estão muito longe. — Arcturo encarou o inquisidor com raiva. — Pelo menos uma dessas pessoas falará a favor de Fletcher e Otelo se tiverem recebido minha mensagem a tempo.
— Excelente! — exclamou Charles, juntando as mãos. — Então você não se incomodará se a acusação for a primeira a apresentar as provas. Antes de começarmos, gostaria de prestar meus respeitos ao rei Harold.
Houve aplausos esparsos, e Fletcher se pôs a ouvir atentamente. Charles sorriu e continuou:
— E, é claro, não posso esquecer seu ilustre pai, o fundador da Inquisição, líder dos Pinkertons e patrono dos Juízes; o velho rei Alfric.
Fletcher se virou e viu dois homens na plateia, sentados ao lado do Triunvirato. Mal os tinha notado antes, pois se vestiam de forma muito semelhante aos outros nobres ao redor, mas agora entendia os aros metálicos que repousavam em suas cabeças.
— Nem tão velho assim — comentou Alfric num tom amalucado, que provocou uma risada agradecida na plateia.
O filho de Alfric, rei Harold, parecia estar na faixa dos 30 anos, a mesma idade de Arcturo. O aro dourado estava pousado num manto de cabelos muito loiros, acima de um rosto elegante e olhos cinzentos penetrantes. Em contrapartida, o velho rei Alfric tinha um aro prateado, com uma longa juba de cabelos brancos e nariz aquilino. Contemplou, impassível, o salão inteiro, mas estreitou os olhos ao fitar Fletcher.
— Agora, vou chamar os sargentos Murphy e Turner, investigadores-chefes, para apresentar a primeira prova — anunciou Charles, acompanhado por uma ordem gritada por Rook.
Otelo rosnou sob a mordaça quando os dois Pinkertons entraram no tribunal, brandindo um pequeno objeto embrulhado em pano branco. Entregaram-no a Charles e lançaram sorrisos desagradáveis a Otelo e Fletcher. Não se demoraram muito, limitando-se a tirar os quepes para o júri e, em seguida, saindo pela porta lateral.
Charles esperou até que tivessem deixado a sala para levantar o pano branco com os dedos em pinça.
— Nossa primeira prova — exclamou Charles, removendo a cobertura com um floreio. — Uma machadinha pertencente a Otelo Thorsager!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!