2 de março de 2018

Capítulo 7

O sol estava começando a se pôr, e o humor do soldado ficava cada vez melhor conforme faturava uma pequena fortuna na sua barraca improvisada. Não restava mais nada, exceto o livro, deixado com otimismo no centro do pano aos seus pés. Ao longo do dia, o soldado exaltava as virtudes dos produtos de Fletcher sempre que um cliente inspecionava a barraca. Graças a todos os elogios, o rapaz acabou vendendo mais duas adagas e uma das espadas mais baratas a um bom preço. O saldo do dia não tinha sido assim tão ruim, afinal, e Fletcher mal podia esperar para botar as mãos na jaqueta de couro.
— Talvez pudéssemos tomar um drinque na taverna depois disso para comemorar nossa boa sorte — sugeriu o soldado, enquanto atravessava a estrada novamente.
— A taverna parece uma boa ideia, se você me deixar fazer uma parada rápida antes. Tenho que comprar uma coisa — respondeu Fletcher com um sorriso, erguendo uma bolsa pesada e chacoalhando para o outro ver.
— Isso aí é para o livro? — indagou o soldado meio que brincando, mas com um toque de esperança na voz.
— Não, apesar de que, honestamente, se eu tivesse dinheiro sobrando, eu lhe faria uma oferta justa por ele. Mas tem uma jaqueta que eu quero muito, e tenho o dinheiro contado. Esta barraca é do meu... mestre, Berdon, então o que ganhamos hoje vai para ele.
Ao som do próprio nome, Berdon ergueu o olhar do casco de cavalo que segurava nas enormes mãos e lançou um aceno respeitoso de cabeça ao soldado antes de voltar ao trabalho.
— Meu nome é Fletcher, e o seu? — perguntou Fletcher, estendendo a mão.
— Meu nome de família é Rotherham, mas meus amigos me chamam de Rotter — respondeu ele, segurando a mão de Fletcher com uma palma dura como couro. O aperto de mão lhe pareceu firme e honesto. Berdon sempre falara que dava para dizer muita coisa sobre uma pessoa pelo aperto de mão.
— Você está liberado, Fletcher. Trabalhou bem hoje — disse Berdon. — Eu guardo a barraca sozinho.
— Tem certeza? — indagou o aprendiz, ansioso para se afastar dos cavalos e escutar as histórias de guerra do soldado no calor da taverna.
— Caia fora daqui antes que eu mude de ideia — retrucou o ferreiro, acima do chiado do casco.
A barraca de couros não ficava muito longe, e Fletcher sentiu uma profunda decepção ao notar que a jaqueta que queria não estava mais à mostra. Ele correu à frente de Rotherham rua abaixo, com a esperança de que a peça tivesse sido guardada por engano. Janet olhou para o rapaz enquanto contava o lucro do dia; uma bela pilha de xelins de prata e soberanos de ouro que cobriu com os braços.
— Eu sei o que você vai me perguntar, Fletcher, mas temo que você esteja sem sorte. Vendi a jaqueta faz uma hora. Não se preocupe, porém. Eu sei que a venda será garantida, então começarei a fazer outra imediatamente. Vai ficar pronta em algumas semanas.
Fletcher cerrou os punhos de frustração, mas concordou com a cabeça. Ele teria de ser paciente.
— Vamos lá, garoto. Eu te pago um drinque. Amanhã será outro dia. — Rotherham lhe deu tapinhas nos ombros.
Fletcher empurrou o desapontamento para escanteio e forçou um sorriso.
— A temporada de caça está quase no fim — comentou o menino, espantando a frustração com argumentos. — Eu não teria muitos dias para usar a jaqueta neste inverno, de qualquer jeito, porque estarei na forja quente preparando minha próxima viagem à frente élfica. Eles precisam desesperadamente de novas armas para cumprir as cotas.
— Não que a gente vá usá-las. — Rotherham riu.
A taverna estava barulhenta e lotada de aldeões e mercadores que celebravam o fim da feira. Apesar disso, Fletcher e Rotherham abriram caminho até um canto, cada um com uma grande caneca, conseguindo de alguma forma manter a maior parte da cerveja dentro do recipiente, longe do piso de madeira já grudento de drinques derramados. Eles se sentaram num nicho com dois bancos e uma mesa bamba, onde estava mais silencioso e eles poderiam ouvir um ao outro.
— Você se importa se eu perguntar sobre a guerra, ou é um assunto que você prefere evitar? — indagou o rapaz, lembrando-se da emoção que o homem tinha demonstrado ao recontar a noite em que perdera os camaradas na floresta.
— De maneira alguma, Fletcher. É tudo o que eu fiz nas últimas décadas, provavelmente não tenho mais sobre o que falar — respondeu Rotherham, fortificando-se com um longo gole. A cerveja desceu pelo queixo grisalho, e o homem estalou os lábios e suspirou.
— Ouvimos rumores de que a guerra não vai bem para nós. Que os orcs estão se tornando mais ousados, mais organizados. Por que isso acontece? — perguntou Fletcher, mantendo a voz baixa.
O pessimismo em relação à guerra era considerado pouco patriótico, talvez até uma traição. Isso era um dos muitos motivos para que as notícias da frente órquica viajassem tão lentamente até Pelego.
— Só posso responder com mais rumores, mas provavelmente de fontes melhores que as suas. — Ele se inclinou para a frente, chegando tão perto que Fletcher sentiu o bafo de cerveja. — Tem um orc unindo as tribos sob uma bandeira, liderando-os como chefe de guerra. Não sabemos muito sobre ele, além do fato de ser albino e o maior orc já visto. As tribos acreditam que ele é algum tipo de messias, enviado para salvá-los da gente, então o seguem sem questionamento. Que a gente saiba, só houve um outro orc desses, nos tempos da Primeira Guerra Órquica, dois mil anos atrás. É por causa desse albino que os xamãs orcs compartilham seu conhecimento e poder, para assim mandar ondas e mais ondas de demônios contra nós e lançar bolas de fogo no céu para nos bombardear à noite.
Os olhos de Fletcher se arregalaram conforme Rotherham falava, a cerveja já esquecida. As coisas estavam piores do que ele tinha pensado. Não era de se espantar que perdões estivessem sendo trocados pelo alistamento de criminosos.
— Às vezes eles rompem as linhas e grupos de saqueadores avançam bastante em Hominum. Nossas patrulhas sempre os pegam no fim, mas nunca rápido o bastante. Já vi muitas vilas completamente incendiadas, sem mais nada além de ossos e cinzas. — Rotherham agora estava a todo vapor, cuspindo cerveja a cada gole. — Eles se livram de veteranos como eu, colocam um mosquete nas mãos de um menino e dizem a ele que é um soldado. Você deveria ver o que acontece quando os orcs investem com força total. Se os rapazes forem sortudos, disparam uma salva e então dão meia-volta e correm. É uma maldita desgraça! — gritou ele, batendo a caneca na mesa. — Garotos demais estão morrendo, e é tudo culpa do rei. Foi Hominum que transformou a incursão ocasional numa guerra para valer. Quando rei Harold recebeu o trono do pai, ele começou a fazer pressão contra as selvas, mandando homens para cortar as árvores e escavar a terra.
Rotherham fez uma pausa e fitou o fundo da caneca. Tomou um longo gole e voltou a falar:
— Vou te contar uma coisa. Se não fossem os conjuradores, a gente estaria com sérios problemas. Eles são uns camaradas meio cheios de si, se acham os tais, mas a gente precisa deles mais do que de qualquer outra coisa. Os demônios deles ficam de olho nas fronteiras e nos avisam quando um ataque está chegando, e um demônio dos grandes é a única coisa capaz de deter um rinoceronte de guerra, afora um canhão ou uma salva de cem mosquetes. Quando chovem as bolas de fogo, os magos de batalha erguem um escudo sobre as linhas de frente. Ele ilumina o céu como um domo de vidro brilhante. O escudo leva uma surra e fica todo rachado durante a noite, mas o pior que acontece com a gente é uma noite de sono ruim. — Rotherham tomou mais um pouco da caneca e a ergueu num brinde. — Deus abençoe aqueles palhaços engomadinhos.
Ele deu um tapa no joelho e virou o restante do líquido. Assim que se levantou para ir até o balcão comprar mais cerveja, a mão pesada de alguém o empurrou de volta ao banco.
— Ora, ora. Mas que coisa mais previsível, vocês dois se tornarem amigos. Eles realmente dizem que as cobras viajam em pares — comentou Didric, com um sorriso sarcástico.
Jakov tirou a mão do ombro de Rotherham e fez gestos exagerados de limpar a mão nas calças, o que fez Didric dar uma risadinha. Ambos vestiam seus uniformes de guarda, cota de malha pesada sob um tabardo alaranjado da mesma cor das tochas na taverna.
— Acredito que tivéssemos uma compra combinada previamente. Aqui estão os quatro xelins, conforme acordado. Mais do que você merece, mas precisamos sempre ser caridosos com aqueles menos afortunados que nós. Não é mesmo, Jakov? — indagou Didric, jogando as moedas na mesa.
Jakov riu e concordou com a cabeça. Fletcher fungou; o guarda mal tinha mais dinheiro do que ele, e era tão malnascido quanto possível. Seu rosto estava vermelho de embriaguez, e Fletcher suspeitou que Didric tivesse amaciado o colega com cerveja a noite inteira para conquistá-lo à sua causa. Não que Jakov precisasse de muita persuasão; o homem venderia a própria mãe por alguns xelins.
Rotherham não fez menção de recolher as moedas. Em vez disso, encarou Didric até que o garoto se ajeitou, desconfortável.
— Vamos lá. Um acordo é um acordo. Não é culpa minha que você seja uma fraude. Tem sorte de não estar acorrentado, a caminho de uma corte marcial por deserção — continuou Didric, protegendo-se atrás do outro guarda.
A realidade da situação começou a ficar clara para Fletcher, e o menino adquiriu uma nova percepção de Jakov. Ele era um sujeito grande, pelo menos uns 30 centímetros mais alto que Rotherham, e quase tão musculoso quanto Berdon. Não tinha sido contratado como guarda pela inteligência, sem dúvida.
Mesmo Didric era meia cabeça mais alto que Fletcher, e seu corpo rechonchudo tinha o dobro da largura do esguio ajudante de ferreiro.
Rotherham continuou a encarar, desconcertando Fletcher com seu olhar de aço ainda cravado na cara gorducha de Didric. A tensão no recinto aumentou mais alguns graus quando Jakov levou a mão ao cabo da espada.
— Olhe na bolsa dele. Provavelmente está lá — ordenou Didric, mas sua voz trazia um toque de incerteza.
Quando Jakov fez menção de pegar a bolsa, Rotherham se levantou subitamente, assustando o par de guardas, que deu um passo atrás. Fletcher se levantou junto, com os punhos cerrados. Seu pulso estava acelerado, e ele ouvia o próprio coração vibrando, conforme a adrenalina tomava conta de seu corpo. Sentiu uma pontada de satisfação quando as sobrancelhas de Didric se ergueram em alerta com a confrontação.
— Se você vai desembainhar essa espada, é melhor saber usá-la — rosnou Rotherham, com a própria mão apoiada no cabo da espada que tinha comprado de Fletcher.
Didric empalideceu ao vê-la. Ele tinha notado que o soldado não portava armas no mercado, e claramente não esperava que estivesse armado agora. Seus olhos dardejaram furtivamente entre Jakov e o velho. Numa luta de espadas, o soldado teria a vantagem.
— Sem armas — declarou Didric, desatando a espada e a deixando cair no chão. Jakov o imitou.
— É, nada de armas — concordou Fletcher, erguendo os punhos. — Eu lembro como você estava preocupado em não sujar o seu uniforme de sangue.
Rotherham grunhiu em concordância e deixou a bainha na mesa.
— Faz um bom tempo desde a última vez que me meti numa boa e velha briga de taverna — declarou ele, divertido, catando a caneca de Fletcher e levando-a aos lábios. — Lute sujo e bata na cara. Regras de cavalheiros são para cavalheiros — murmurou Rotherham pelo canto da boca, e com isso ele girou e jogou cerveja nos olhos de Jakov, cegando-o. Rápido como um raio, mergulhou o joelho na virilha do brutamontes e, no que o guarda se curvou, Rotherham lhe deu uma cabeçada no nariz, provocando um estalo.
Então Fletcher estava no meio da confusão, socando a cara redonda de Didric. O alvo era fácil, e o primeiro golpe amassou o nariz, espirrando algo vermelho como um tomate maduro demais. O aprendiz de ferreiro sentiu uma explosão de dor no punho, mas a ignorou, usando o impulso para dar uma ombrada no peito de Didric e lançá-lo ao chão. Isso foi um erro. Quando a luta passou para o chão, o jovem guarda conseguiu usar seu peso, que é maior, como vantagem. Passou um braço carnudo pelo pescoço de Fletcher e aplicou pressão. A visão do menino escureceu e sua consciência começou a se esvair. Num último esforço, ele cravou os dentes na pele nua do pulso de Didric, tão forte que sentiu os ossos raspando. Um guincho de dor soou em seu ouvido, e o braço recuou. O alívio deixou Fletcher tonto enquanto ele ofegava como um peixe encalhado na praia. Acertou uma cotovelada na barriga blindada de Didric e então girou, ficando de cócoras.
Quase imediatamente, Didric estava em cima dele de novo, tentando achatá-lo no chão. Desta vez, Fletcher estava preparado, puxando na mesma direção que o outro empurrou e usando o impulso do menino gordo para rolar para cima dele. Então seus dedos estavam apertando a garganta de Didric, sufocando-o com toda força que as mãos continham. O jovem guarda estapeou o pescoço, então levou a mão ao lado.
— Cuidado! — gritou Rotherham, e Fletcher pulou para trás bem a tempo. Uma adaga curva cortou sua túnica azul e um corte feito linha ardeu em sua barriga. Gotas de sangue brotaram e mancharam o tecido de vermelho, mas o rapaz sentiu que era apenas um arranhão. Didric se levantou de qualquer jeito e golpeou de novo, mas Fletcher tinha recuado.
Então Rotherham estava lá, com a espada tocando a base do pomo de adão de Didric.
— O que aconteceu com “um acordo é um acordo”? — grunhiu Rotherham, avançando de modo que Didric teve que cambalear para trás sobre o corpo inconsciente de Jakov.
Fletcher percebeu que a taverna inteira estava assistindo. O único som eram os engasgos estridentes de Didric enquanto este tentava falar, sem que nenhuma palavra lhe saísse da boca.
— O que você me diz, Fletcher? Vamos fazer com ele o que ele tentou fazer com você? Suas tripas estariam espalhadas no chão se eu não o tivesse visto pegando aquela adaga — proclamou Rotherham, para que toda a plateia pudesse ouvir. Desta vez, os murmúrios estavam firmemente do lado do soldado.
— Não, acho que não, Rotherham. Precisamos sempre ser caridosos com aqueles menos afortunados que nós. — As palavras de Fletcher saíram encharcadas de desdém enquanto ele baixava a espada de Rotherham.
Antes mesmo que as palavras tivessem terminado de deixar a boca do menino, Didric já tinha corrido à porta, largando tanto Jakov quanto sua espada esquecidos no chão.
Os homens na taverna ergueram as vozes em desprezo quando a porta bateu atrás do guarda, que fugiu apressado. A risada logo brotou conforme o divertimento recomeçava.
— Vamos — disse Fletcher a Rotherham, os pensamentos trôpegos de alívio. — Vou fazer uma cama para você na nossa forja. Você não estará seguro em nenhum outro lugar esta noite.


6 comentários:

  1. Filha de Apolo....4 de maio de 2018 09:42

    bem feito Didric.
    mereceu fdp

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  2. Esse final me lembrou muito Aragorn quando abriga Frodo e seus amigos no livro/filme "A sociedade do Anel"

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  3. Mary Gray: conjuradora das trevas, bruxa no último ano em Horgwarts, vampira(melhor amiga do Jacob Black), peculiar, filha de Poseidon,sanguenova, caçadora de sombras, protegida de durga, divergente,tordo, anjo caido,narniana,esfinge, Hobbit ( e outros títulos intermináveis) u.u17 de julho de 2018 14:27

    Grande orc Albino? Alguém mais aí lembrou do Hobbit? Esse livro tá cheio de referências? Eu acho que o início esrava meio jogos vorazes, depois algo como trono de vidro, ai os bichinhos parecidos com os elfos domésticos de Harry Potter, e agora O Hobbit? Muitas referências!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!