31 de março de 2018

Capítulo 6

JAFIR

Separei o restante da carne da pele — uma ótima lebre suculenta que fez com que Laurida suspirasse quando retornei ao acampamento. Pendurei o animal esfolado em uma árvore. Nós não tínhamos carne fresca em nosso ensopado por quatro dias agora, e Fergus estava cada dia mais amargo em relação às raízes e ossos que davam sabor à água.
— Onde você o pegou? — Laurida perguntou.
Eu havia encurralado a lebre em uma ravina não muito distante de onde encontrei a garota Morrighan, mas Laurida não precisava saber disso. Ela poderia contar ao Steffan, e então ele tomaria para si meu terreno de caça assim como fazia com tudo o mais.
— Em uma fossa logo depois do pântano — respondi.
— Humm — ela disse com desconfiança.
— Eu não o roubei — acrescentei. — Eu o cacei. — Apesar de que, no final, não fez a menor diferença, comida era comida, e Laurida parecia apreciar mais a caçada. — Vou limpar isso. — Peguei as entranhas para lavar no ancoradouro.
— Caminhe com cuidado perto do Steffan hoje — ela disse. — Ele está com um mau temperamento.
Dei de ombros enquanto me afastava. Quando Steffan não era grosseiro? Pelo menos esta noite ele não conseguiria socar minhas orelhas ou me bater nas costelas. Ele seria envergonhado por Piers e Fergus por causa da minha caça. Ambos amavam lebre, e tudo o que Steffan trazia para casa ultimamente eram doninhas esqueléticas.
Foi somente quando eu já estava a meio caminho de casa que percebi que havia esquecido de perguntar a Morrighan porque Harik sabia seu nome. Era a primeira coisa que eu ia dizer, mas então ela me desconcentrou com toda aquela conversa. Se eu tomo banho? Afundei as entranhas dentro da água. Que diferença isso fazia? Mas então pensei em sua pele, em como ela parecia brilhar com a cor de um pôr do sol esfumaçado. Eu queria tocá-la e sentir como era. Ela teria aquela cor porque se banhava? Nós não tínhamos garotas em nosso acampamento — somente garotos, homens, e três mulheres como Laurida — seus rostos enrijecidos e marcados pelo tempo. As bochechas de Morrighan eram tão macias quanto uma folha de primavera.
Ouvi uma agitação e o relinchar de cavalos. E então o aviso de Steffan de que os outros estavam de volta, como se não fosse óbvio. Chacoalhei as entranhas e subi penosamente a encosta para voltar ao acampamento. Meus passos hesitaram quando avistei Harik com os mais velhos do clã. Ele não aparecia com tanta frequência em nosso acampamento hoje em dia, ficando ao invés disso em sua sólida fortaleza do outro lado do rio — cujo nome era Venda por causa de sua noiva, a Siarrah. Mas a água estava subindo e a ponte estava desmoronando. Não demoraria muito para que a sua fortaleza fosse separada do restante de nós, e ele nunca mais viria. Fergus disse que o rio engoliria a ponte em breve. Harik não dava importância e dizia que ele construiria outra, o que parecia ser uma tarefa impossível, mas ele era maior em poder e vontade do que os outros, e havia rumores de que seu pai fora um dos poderosos Antigos. Talvez ele tivesse meios que desconhecíamos.
— Você se lembra do garoto, não é mesmo? — Fergus disse apontando para mim.
— Steffan — Harik disse, colocando sua enorme mão em meu ombro.
— Ele é meu irmão. Sou Jafir — falei, mas ele já havia se virado e se acomodava perto do fogo com Piers.
A noite se desenrolou como todas as outras — comida, disputas e notícias de parentes afastados. Fergus disse que nossos parentes no Norte devaneavam novamente sobre o que estaria além das montanhas ocidentais. Eles estavam considerando se aventurar à procura de melhor sorte do que a que era oferecida aqui e havia perguntando a Fergus se ele queria se juntar a eles. Eu revirei os olhos. Eles estavam sempre “considerando”, mas nada resultava disso. As montanhas continham a praga. Nada crescia lá. Atravessá-las significava morrer. Mesmo os clãs mais poderosos mantinham-se temerários. Havia ainda alguns entre nós, como Piers, que estavam aqui quando a nuvem de morte rolou pela terra.  Ele só tinha seis na época, mas se lembrava do terror.
Após o jantar, Harik passou entre eles uma garrafa que havia trazido consigo. Enquanto comida podia ser escassa, em seu lado do rio eles ainda conseguiam fermentar aquele líquido. Mesmo eu estando sentado na roda com todo mundo, a bebida não me foi oferecida. Piers passou a bebida para Reeve, que estava sentado no meu outro lado. Tentei fingir que não percebi quando Harik passou a garrafa para Steffan. Ele bebeu e se engasgou com o álcool, e todos riram. Eu também ri, mas Steffan reconheceu minha risada no meio das outras. Ele se virou e me encarou, o tipo de olhar que dizia que eu pagaria por isso mais tarde.
Então a conversa se voltou para as tribos. Harik perguntava, como já havia feito em outras visitas, aonde uma tribo particular tinha ido. Eles não eram vistos há quatro anos. A tribo de Gaudrel. Quando ele falou o nome dela, senti raiva em sua voz.
— E aquela pirralha que ela arrasta junto — ele acrescentou. — Morrighan.
Vi a ânsia em seus olhos. Ele a queria. O homem mais poderoso da terra — mais poderoso que Fergus — queria Morrighan.
E eu era o único que sabia onde ela estava.

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Boa leitura! E SEM SPOILER!