22 de março de 2018

Capítulo 6

As folhas verdes passavam como um borrão enquanto Atena atravessava a copa das árvores a toda a velocidade, em busca de uma árvore alta para pousar. Ela não queria se embrenhar em céu aberto — ainda não, pelo menos. Em vez disso, encontrou uma conífera, semelhante a um pinheiro, com casca retorcida e folhas afiadas feito agulhas que assomava acima das outras árvores ao redor, e ali aterrissou com as garras abertas. Cuidando para não ser detectada, subiu pelo tronco e enfiou-se entre as agulhas do topo.
Algumas centenas de metros para trás, e bem mais abaixo, Fletcher e seu grupo olhavam para o cristal de Verity, que Cress sem a menor vergonha confessara ter “pegado emprestado” quando a jovem nobre não estivera olhando.
— Não consigo ver nada — murmurou Otelo, chegando mais perto. — Tem galhos demais na frente.
Com um pensamento, Fletcher incitou Atena a ir um pouco mais adiante.
Estranhamente, ela não parecia estar com medo algum. Fletcher sentiu nela, em vez disso, empolgação, e percebeu que, em meio a copa das árvores, ela estava em sua zona de conforto. Griforujas eram nômades solitárias por natureza; jamais permaneciam em um mesmo lugar por muito tempo, e, portanto, aquele território desconhecido não a intimidava.
Enfiada entre os galhos, Atena usou as garras para afastar as agulhas verdes, depois meteu a cabeça pelo meio para inspecionar a paisagem em torno. Virou seu pescoço flexível, parecido com o de uma coruja, para proporcionar a eles uma visão panorâmica do horizonte.
— Puta merda! — xingou Cress baixinho.
Montanhas erguiam-se na direção dos céus, o tom vermelho-ferrugem contrastando com o amarelo-claro do céu na decrescente luminosidade. Elas curvavam-se para o leste, semienvolvendo-os em uma serra de picos acidentados, tão altas que as montanhas do Dente de Urso pareciam colinas em comparação. A oeste, cintilava um oceano de águas verdes rasas que lentamente se escureciam até se transformarem no azul-cinzento de profundezas insondáveis.
Os céus não exibiam quase nenhum sinal de vida, salvo por alguns poucos pontinhos que se movimentavam tão ao longe que era impossível identificá-los. Uma mortalha de nuvens pairava baixo, impedindo a visão do que estava diretamente acima. Um Ropen que voava baixo a um quilômetro de distância era a única criatura identificável — um grande híbrido de morcego e pássaro, sem penas, com asas de membrana, bico de pelicano e dentes, crista alongada na parte de trás da cabeça.
— Estamos presos — declarou Sylva, tracejando o dedo ao longo do topo das montanhas. — Mar à esquerda, montanhas à frente e à direita. Não podemos atravessar e ver o que está além. Por isso, precisamos voltar e nos arriscar a ficar na região órquica do éter.
— Sim — concordou Otelo, balançando a cabeça.
Fletcher rangeu os dentes; o coração batia forte em frustração. Eles haviam perdido quinze horas desde a chegada — e o caminho de volta implicava na travessia de pântanos e de águas infestadas de Sobeks. Sem falar que precisariam de Sheldon para atravessar as águas: e ele não havia se desviado nem uma vez do curso, nem mesmo quando o caminho estivera obstruído com galhos caídos.
— Sheldon — disse Fletcher, pensando alto. — Ele não mudou de direção sequer uma vez.
— Do que você está falando? — Quis saber Sylva, arrancando um punhado de líquen do casco e atirando-o raivosamente na direção das árvores.
— Sheldon está seguindo reto na direção daquelas montanhas — respondeu Fletcher, levantando-se e olhando na direção do Zaratan. Como se reconhecesse seu nome, Sheldon balançou a cabeça pesada em sua direção, e piscou devagar, antes de retomar seu passo lento pelas terras pantanosas.
— E daí? — perguntou Sylva, embora os olhos tivessem se iluminado.
— Ele está indo na direção de alguma coisa, e não foi feito para escaladas. Deve existir um caminho por entre as montanhas. Gente, o que vocês lembram sobre os Zaratans? Eles são bons em orientação? — perguntou Fletcher.
Ele jamais havia pensado que suas aulas de demonologia serviriam de alguma coisa, pelo menos não aquelas sobre demônios obscuros, tais como aquele em que viajavam.
— Eles podem ficar bem grandes, talvez três ou quatro vezes maiores que Sheldon — disse Cress. — Mas acho que só os muito velhos. Sheldon provavelmente está na flor da idade.
— Eles migram todos os anos, assim como muitas outras espécies de demônios — emendou Otelo, coçando a barba. — Reúnem-se para se acasalar e colocar ovos... embora onde não esteja especificado.
— Quando? — perguntou Fletcher. — Quando eles fazem isso?
— No inverno — respondeu Otelo, com um meio sorriso espalhando-se lentamente em seu rosto. — Tipo... nessa época.
— Então, a não ser que ele jamais tenha feito essa jornada antes, é provável que saiba exatamente para onde está indo. — Fletcher sorriu, sentindo-se de repente como se um peso enorme tivesse sido erguido de seus ombros. — Se ficarmos aqui por tempo suficiente, ele nos levará para além das montanhas.
— Seu demoniozinho safado — disse Cress, dando um tapinha no casco de Sheldon. — Está indo encontrar uma namorada, não é?
Fletcher caiu na risada. Era bom rir, e os outros juntaram-se a ele, até as laterais do corpo doerem e Fletcher não conseguir respirar direito. Até mesmo Ignácio parecia mais feliz, latindo e rodopiando. Atena veio unir-se novamente a eles, e se acomodou no colo de Alice. Pelo menos por algum tempo, eles sentiram-se felizes.
Mas logo a luz começou a diminuir, e, com ela, a felicidade. Seus estômagos roncavam, e seus frascos de água estavam quase vazios. Apesar da aparente desolação dos arredores, ruídos estranhos ecoaram do topo das árvores, e eles ouviram o som de criaturas noturnas se aproximando. Agora os mangues haviam ficado para trás, e a vegetação começava a se tornar tão espessa que Sheldon tinha de se esforçar para atravessar as árvores.
Tosk ficou de sentinela à noite, mas a cada estalo de galho e farfalhar Fletcher sentava, encarando a escuridão. Não enxergava nada além de sombras e mais sombras. Apesar disso, Tosk parecia não se incomodar, nem mesmo quando ouvia um rugido baixo a poucos metros de distância.
Um instante mais tarde, na escuridão quase total, surgiu um brilho azul, e a luz fria combinou com o medo gelado que lhe invadiu.
— Gente, acordem — sussurrou Fletcher, sacudindo os outros.
— Você achou que eu estivesse dormindo? — disse Otelo, virando de lado e esfregando as costas. — É impossível, com esse casco que mais parece um abacaxi e aquela algazarra...
— Silêncio! — sibilou Fletcher, cobrindo com a mão a boca do anão.
Sylva estava quieta, mas rolou o corpo e ficou bem agachada, com a falx meio retirada da bainha às costas.
— Fogo-fátuo... bem ali — sussurrou Fletcher, apontando para o brilho que aumentava de intensidade a cada segundo. Ele pôde ver vultos escuros passando por eles; pequeninos demônios fugindo da luz artificial.
Fletcher ouviu o estalo de madeira e metal quando Cress lentamente preparou seu arco, e, ao olhar para a escuridão, o coração bateu com força no peito.
— Xamãs? — sibilou Sylva.
O primeiro pontinho então surgiu com clareza, emitindo um brilho azul-elétrico na escuridão. Logo outros se seguiram. Eram pequenos, talvez menores que um fogo-fátuo normal, no entanto mais brilhantes e mais numerosos, e centenas estavam espalhados em uma linha ao longo da floresta, até onde a vista alcançava. O mais estranho é que seu movimento parecia decidido e coordenado.
Então eles os viram: vultos andando atrás do enxame de luzes com o passo vagaroso dos sonâmbulos.
— Estão vasculhando a floresta atrás de nós — disse Cress, a voz engasgada, afastando o corpo enquanto um halo de luz fazia com que o casco de Sheldon assumisse um tom claro de azul. — É melhor a gente subir nas árvores!
— Não, espere — grunhiu Otelo, levantando a mão. — Olhe.
Os vultos escuros eram demônios. De início, eles confirmaram as suspeitas de Fletcher de que havia xamãs por perto, pois havia uma mixórdia de espécies raramente vistas juntas. Um Canídeo de pelo desgrenhado tropeçou em uma raiz de árvore, os olhos fixos nas luzes acima. Três Lavellans, roedores parecidos com ratos de presas venenosas, seguiam em fila ali perto.
Uma dúzia de Carunchos de cores variadas avançava com dificuldade no chão ao lado deles, os tamanhos variando do de um gorgulho ao de um escaravelho. Havia até mesmo um Baku, um demônio raro, do tamanho de um porco, com tromba e presas de elefante, o pelo alaranjado e listrado de um tigre. Mas todos caminhavam como os zumbis lendários, mesmerizados com as luzes acima.
— Demônios de fogos-fátuos — constatou Otelo, a testa crispada com preocupação. — Não há motivo para nos preocuparmos.
— Como assim? — perguntou Fletcher, recuando depressa à medida que os pontinhos tremeluzentes de luz azul se aproximavam do casco.
— Eles preenchem seus abdomens translúcidos com fogo-fátuo e o utilizam para se mover, como vaga-lumes minúsculos e sem patas.
Enquanto Otelo respondia, Fletcher viu pequeninos ciscos negros sob as luzes.
— O que eles estão fazendo? — sussurrou Sylva, agitando a mão quando um flutuou por eles.
— Guiando-os até a morte — respondeu Otelo.
O Canídeo bateu contra a pata troncuda de Sheldon, mas pareceu não notar, e simplesmente continuou seguindo caminho por baixo do ventre do Zaratan.
— Eles hipnotizam os demônios com suas luzes e os conduzem até mangues, ou areias-movediças, ou qualquer outro lugar onde as vítimas possam morrer. Depois se alimentam de seus cadáveres e colocam ovos sobre eles. Provavelmente é por esse motivo que essa região é tão sem vida... deve estar infestada deles. Por sorte, isso só funciona com os demônios menores e selvagens.
Fletcher estremeceu e puxou o casaco para mais perto do corpo. Eles lhe haviam parecido muito belos, mas seu objetivo real lhe deixou uma sensação gelada na boca do estômago.
Percebeu que Otelo era o único do grupo que tinha estudado por dois anos na Vocans, e o conhecimento do anão seria útil nos dias que viriam. Esperava apenas que pudessem evitar os demônios mais perigosos do éter.
O grupo observou em silêncio a luz azul se dissipar, e os demônios hipnotizados desaparecerem na escuridão. Fletcher se aproximou da mãe, mas percebeu que ela estava adormecida, enrodilhada junto a Ignácio, Atena a seu lado.
— Devíamos tê-lo matado — murmurou Sylva, tão baixo que Fletcher mal pôde ouvir sua voz por cima do som seco dos passos de Sheldon.
— Matado quem?
— O Baku — respondeu ela, apontando para o caminho pelo qual os demônios tinham sumido. — Ele é um demônio-presa, baixo na cadeia alimentar. Tem muita carne.
— Você quer comer demônios? — perguntou Cress, meio horrorizada, ouvindo a conversa.
— Você está comendo demônios desde que chegou aqui... que diabo, desde antes de chegar aqui — retrucou Sylva, apontando para o suprimento reduzido de pétalas. — Electra não disse que, tecnicamente, as plantas do éter são demônios?
— Sim, mas... não parece certo — respondeu Cress, puxando Tosk para junto do peito e afagando-o protetoramente.
— Bem, é isso ou morrer de fome — respondeu Sylva. — A menos que a região de Hominum no éter esteja logo ali virando a esquina, coisa que não está, pela aparência dessas montanhas: em algum momento teremos de nos alimentar.
— Nunca ouvi falar de ninguém ter comido um demônio antes, embora já tenha ouvido dizer que os xamãs fazem isso em algumas cerimônias — refletiu Cress.
A ideia de comer um demônio jamais passara pela cabeça de Fletcher. Aquilo o repugnava de certa maneira, mas os demônios comiam carne proveniente da dimensão do rapaz. Por que ele não poderia fazer o mesmo ali?
— Fletcher, o que você acha? — perguntou Otelo, observando seu rosto enquanto o rapaz pensava no assunto.
Fletcher sorriu e balançou a cabeça melancolicamente, de súbito tomando consciência aguda do estômago vazio.
— Vão dormir — disse ele, indo até onde estava a mãe, e deitando-se a seu lado. — Amanhã iremos caçar.

Um comentário:

  1. Não gosto muito de eles terem que comer demônios... Mas, é pra sobrevivência né? Fazer o que...

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Boa leitura! E SEM SPOILER!