13 de março de 2018

Capítulo 6

Eles levaram Fletcher para uma cela temporária, completa com mesa, cadeiras e até mesmo uma bacia com água e sabão. Removeram as correntes, segurando o nariz devido ao odor, e foram embora no instante que Fletcher se viu livre. Assim que as portas se fecharam, o rapaz começou a esfregar o rosto e lavar os longos cabelos sebosos. Era incrível ter mais que um pequeno balde de água potável para usar.
Depois de dez minutos lutando contra os cabelos, ele passou ao resto do corpo, lançando olhadelas à porta para o caso de alguém entrar. Enquanto pulava para se secar, botou a túnica e os culotes de molho na bacia, de forma a lavar um ano inteiro de sujeira e fuligem. No fim, a água ficou com uma nojenta tonalidade amarronzada, mas Fletcher, por sua vez, se sentiu renovado.
Ele conjurou Ignácio e puxou o diabrete num abraço. Sua pele molhada estava toda arrepiada, mas a Salamandra quente se achatou contra o peito do rapaz, soltando uma agradável baforada de ar quente no seu rosto.
— Ainda não escapamos dessa, Ignácio, mas pelo menos você não terá o meu destino. Se eu morrer, você se desvanecerá de volta ao éter, são e salvo.
Ignácio miou, tristonho, e enrolou a cauda na barriga de Fletcher.
— Não se preocupe, vamos dar um jeito de sair dessa. — Ele tentou se soltar da Salamandra, mas, teimoso, Ignácio continuou se agarrando. — Vamos, camaradinha, eu sei que você fica feliz em andar peladão o dia inteiro, mas eu não. Os guardas teriam um belo show se entrassem agora.
Ignácio se afastou, relutante, e se contentou em explorar a nova cela, farejando desconfiado as cadeiras, como se elas pudessem atacá-los de repente.
Enquanto Fletcher tentava se enfiar nas roupas encharcadas, ouviu uma batida na porta, e Arcturo entrou, com expressão severa e marcada de preocupação.
Abriu um sorriso forçado para Fletcher e disse:
— Você parece um rato afogado. Só Deus sabe o que Berdon vai pensar quando o vir.
— Ele está vindo? — indagou Fletcher, mal conseguindo acreditar.
— Está. O caso dele foi logo depois do seu. Após o showzinho de Rook, o juiz estava disposto a soltar Berdon temporariamente para que se encontrasse com você hoje, mesmo que tenha que passar os próximos dois dias na cadeia. Um lado bom para uma situação muito ruim. — Arcturo puxou uma cadeira e se sentou diante dele.
— Arcturo, obrigado — disse Fletcher, segurando as mãos do capitão. — Por tudo. Você me devolveu a vida.
Arcturo abriu um sorriso fugaz, mas o rosto logo ficou soturno e agourento outra vez.
— Eu não agradeceria tão cedo. A situação está feia, Fletcher. Você foi acusado de matar as tropas do lorde Forsyth, ao apoiar uma rebelião enânica malsucedida. Eles têm provas – testemunhas que dizem que tanto você quanto Otelo estavam presentes – e até evidências de que nutrem simpatias antimonárquicas. Soube que Otelo foi preso há algumas noites... Não sabia nem que ele estava aqui. Lamento, Fletcher, foi tudo culpa minha. Eles nos distraíram com o julgamento de Didric enquanto preparavam esse.
Fletcher desabou numa cadeira e enterrou o rosto nas mãos. De alguma forma, não lhe tinha caído a ficha dessa acusação até aquele momento. Ignácio cutucou a perna do rapaz, grunhindo de preocupação.
— Saí da frigideira para o fogo — murmurou Fletcher, tomado pelo pavor de voltar à cela. — Eu me lembro daquela noite. Nós estávamos lá, Arcturo.
— E isso não é o pior. A Inquisição conduz todos os julgamentos militares e, como um cadete de oficial do exército real, você está apto a receber um. Sem falar no fato de que vai haver um júri, e desconfio de que eles todos terão ouvido falar na acusação de assassinato, isso se já não tiverem sido subornados pelo Triunvirato...
— Espere, me conte mais sobre o Triunvirato — interrompeu Fletcher.
— Como eu disse, é lorde Forsyth, lady Faversham e Didric — respondeu Arcturo com severidade. — Didric os conheceu quando lorde Faversham veio curar as queimaduras dele e descobriu nessa ocasião que detinham o contrato exclusivo de armamentos para a fronteira norte. Faversham apresentou a família de Didric aos Forsyth; eles já eram aliados desde o começo, antes mesmo de você botar o pé em Vocans. Juntas, as três famílias agora controlam a maior parte das prisões e fábricas de armamentos em Hominum, motivo pelo qual são agressivamente antienânicos. Estão determinados a fazer qualquer coisa para expulsar os anões do negócio de armas de fogo. Infelizmente, eles têm a Inquisição e os Pinkertons bem no fundo do bolso, além da amizade do velho rei Alfric.
— Uma aliança maligna como nenhuma outra — murmurou Fletcher.
— Sim, e muito poderosa. Eles também promovem uma vendeta em particular contra você. De algum jeito, você conseguiu ofender as três famílias, considerando o que aconteceu ao rosto de Didric, sua participação na derrocada das tramoias dos Forsyth e a possibilidade de você ser filho bastardo do lorde Faversham.
— E como é que nós vamos sair dessa? — indagou Fletcher, passando as mãos pelos cabelos molhados.
— O único jeito de vencermos é provar, além de toda e qualquer dúvida, que você é inocente, de modo que o júri considere impossível condená-lo. Agora, me diga, que argumentos eles têm contra você?
Mas Fletcher não teve uma chance de responder. A porta se abriu de súbito, revelando a forma parruda de Berdon. O menino mal teve tempo de se levantar antes de ser embrulhado num abraço de urso, perdido no cheiro de couro e pó de carvão do pai adotivo.
— Filho... meu filho... — soluçou Berdon. O ferreiro se afastou e segurou o rosto de Fletcher, examinando-o com olhos faiscantes. — Você cresceu. Está quase batendo na minha barba — comentou ele, meio rindo e meio chorando. — Já é um homem. Mas ainda não tem um bigode decente.
Fletcher sorriu e o abraçou de novo, sem saber direito o que dizer. Não encontrava palavras para descrever o quanto sentira saudades do gigante amistoso.
— Eu tenho tanta coisa para lhe contar — murmurou Fletcher.
— Seu amigo, Otelo, me contou tudo — respondeu Berdon, bagunçando o cabelo de Fletcher. — Um ano é muito tempo, e trabalhei com a família dele para conseguir um julgamento justo para você. Ouvi dizer que é um baita guerreiro.
Fletcher arrastou os pés e balançou a cabeça, envergonhado.
— O pai de Otelo, Uthred, é um ferreiro decente — continuou Berdon, preenchendo o silêncio depois de uma breve pausa. — Você é um bom juiz de caráter, filho.
— Eles são boa gente — concordou Fletcher, assentindo com olhos marejados. — Eu não teria durado em Vocans sem eles.
Berdon se sentou atrás de Fletcher e começou a cuidar dos emaranhados no cabelo do rapaz com um pente que tirou do bolso. Ignácio farejou os pés dele, desconfiado, sem saber o que pensar daquele homenzarrão. Berdon olhou para baixo e improvisou um cafuné brincalhão na cabeça de Ignácio, que fez uma cara de ofendido. Cuspiu uma baforada de fumaça, e Berdon riu quando a Salamandra se afastou, altiva e com o focinho no ar.
— Faz tempo que eu não via esse bichinho. Espero que você tenha cuidado bem dele — comentou Berdon.
— Acho que ele é quem está cuidando de mim — respondeu Fletcher, mandando Ignácio se comportar com um pensamento.
Arcturo, que permanecia sentado ao lado deles, meio constrangido, tossiu educadamente.
— Lamento interromper, mas o julgamento logo vai começar e nós não tivemos tempo de preparar sua defesa. Otelo e o pai também estarão presentes. Eles me contaram o que aconteceu na noite do conselho enânico.
— Melhor eu dar um jeito em você enquanto conversa com o capitão Arcturo aqui — murmurou Berdon. — Você nunca foi muito fã de ficar se arrumando.
— Obrigado... pai. — A palavra soava pouco familiar na própria voz, mas o enorme sorriso de Berdon confirmou que havia dito a coisa certa.
— Posso? — indagou Berdon a Arcturo, apontando para uma faca estreita que o capitão trazia numa bainha atada ao cinto.
— Por favor. — Arcturo sorriu e entregou a faca.
Berdon sentiu o peso da faca, depois deu um fim no bigodinho e nos fiapos de barba do rapaz com movimentos hábeis da lâmina. Considerou os cabelos longos de Fletcher por um momento, então deu de ombros e devolveu a faca a Arcturo.
— Cuidamos dessa cabeleira mais tarde — decidiu Berdon, pegando o pente de novo.
Arcturo pigarreou, e, por um instante, Fletcher pensou ter visto uma lágrima no olho do capitão. O oficial se virou para embainhar a faca, e Fletcher se perguntou se por acaso se enganara, pois, quando Arcturo se virou de volta, não havia mais nada lá.
— Vou recapitular, e você me conta qualquer coisa que Otelo e Uthred possam ter deixado de fora — disse Arcturo.
— Vá em frente — concordou Fletcher.
— Você e Sylva seguiram Otelo quando ele saiu escondido para participar da reunião do conselho enânico. Alguém delatou o local da reunião, e os homens do lorde Forsyth se reuniram do lado de fora para emboscar os anões, sob o pretexto de impedir uma rebelião. Vocês conseguiram avisar os anões antes que os soldados pudessem atacar, mas mataram cinco homens quando você, Sylva, Otelo e Átila fugiram da área. Átila foi ferido, e você o carregou até a enfermaria em Vocans, guiado pela capitã Lovett por meio do seu Caruncho, Valens. No caminho, um jovem soldado abordou vocês, mas foi incapacitado, graças ao Caruncho. Isso resume tudo?
— Acredito que sim... — respondeu Fletcher, fazendo um esforço para lembrar. Era difícil pensar claramente com Berdon penteando seu cabelo. Trazia memórias de quando Berdon fazia a mesma coisa enquanto os dois se sentavam diante do brilho caloroso da lareira na velha cabana, escutando o crepitar das chamas.
Sentindo o humor de Fletcher, Ignácio voltou e deu uma lambida relutante nos dedos de Berdon. Depois fungou e cuspiu, limpando a língua com as patas.
— É pó de carvão — explicou Berdon, sorrindo para o diabrete. — Vai fazer crescer cabelo no seu peito.
Ignácio enterrou a cabeça na bacia de água para lavar a boca, depois deu uma cambalhota de costas e quase vomitou com o gosto do líquido marrom turvo.
Fletcher riu das macaquices do demônio, mas a expressão séria de Arcturo o trouxe de volta à realidade.
— Você consegue pensar em mais alguma coisa? Qualquer coisa mesmo — insistiu o capitão.
— Grindle e quatro de seus homens podem ser testemunhas — disse Fletcher, pensando no enorme capanga que tentara matar Sylva e depois atacar a reunião do conselho dos anões. — Mas duvido que sejam chamados; são um bando muito mal encarado. Não tem mais nenhuma prova de que eu consiga me lembrar. Só vamos saber quando chegarmos lá.
Arcturo balançou a cabeça e esfregou os olhos enquanto tentava pensar.
— Não tive tempo para preparar nosso caso. Eles vão executar você e Otelo por isso, Fletcher. É a única punição possível para traição: enforcamento ou decapitação.
O estômago de Fletcher se revirou com a lembrança. Percebeu que estava esfregando o pescoço e forçou as mãos de volta ao colo. O suor frio se materializou nas costas, e, de repente, o peito ficou apertado.
— Eles querem acabar com você e os anões com um só golpe, disso tenho certeza — continuou Arcturo. — Mesmo o mais leve sussurro de rebelião resultará na prisão do conselho dos anões e no confisco de todas as armas e forjas enânicas. Os negócios de armamentos do Triunvirato perderiam seu maior competidor, restando apenas Serafim e sua família na concorrência. Vão dedicar todos os recursos contra vocês. Só precisamos do tempo para criar um plano.
Enquanto ele falava, um dos guardas bateu à porta.
— Fletcher Wulf. Estão prontos para você.

6 comentários:

  1. Caramba ele só se lasca...mas pelo menos Berdon apareceu pra apaziguar até o meu coração frustado!

    ResponderExcluir
  2. A Sylva podia ajuda porque o cara quase matou ela em publico, e ja que o Otelo tava tentando não causar uma rebelião isso pode constar como auto defesa contra o ataque

    ResponderExcluir
  3. Finalmente algo emocionante. A história de tudo dar certo já estava enjoando.

    ResponderExcluir
  4. Mano fletcher so entra em problemas kkk todos querer mata ele como vai cuida disso kk...


    Ass:filho de adão

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!