22 de março de 2018

Capítulo 62

O átrio ondulava frente aos olhos de Fletcher. A dor era demais; esmagava seu crânio, como um torno. Ignácio. Ele precisava encontrar Ignácio.
A superfície coriácea sob ele tinha amortecido sua queda: uma asa quebrada, espalhada ao longo do comprimento de um saguão cavernoso. Ele cambaleou para se levantar, e saiu caminhando trôpego pelas cristas irregulares daquele apêndice despedaçado.
O Dragão estava morto.
Seu pescoço estava virado para trás em um ângulo reto grotesco, o bico semiaberto, a língua balançando. E, perto da base de seus ombros, Fletcher viu um vulto flácido, rubro.
— Ignácio! — gritou Fletcher, indo aos tropeções na direção do Drake. Os ecos suaves da batalha lá fora desciam do alto.
O demônio levantou a cabeça quando Fletcher se aproximou. Ele ganiu e tentou se levantar, mas caiu, pois a dor era demais. A agonia na mente do rapaz dobrou de intensidade, e ele caiu de joelhos. Cacos de vidro tinham cravado no pescoço e nas laterais do corpo de Ignácio, cada um do tamanho e profundidade de uma espada. Enrodilhada junto ao peito do demônio, Fletcher viu a forma inconsciente de Sylva. A criatura valente a protegera com o próprio corpo quando eles caíram pelo domo acima.
— Você vai ficar bem — sussurrou para o Drake, pousando uma das mãos sobre a lateral do corpo do demônio. — Sylva vai acordar e curar você.
Ele sacudiu a elfa, mas ela permaneceu imóvel e inconsciente. O único sinal de vitalidade nela era o subir e descer vagaroso de seu peito. Ele viu um hematoma espalhado em sua testa, e o sangue de Ignácio pingando no piso de mármore. O demônio não possuía nenhum mana para curar a si mesmo. Ele estava morrendo.
— Eu estava errado — falou alguém.
O coração de Fletcher encheu-se de horror.
Lentamente, um vulto pálido emergiu da escuridão.
Khan.
Ele caminhou até a luz que vinha do domo quebrado acima, e seus longos cabelos brancos reluziam como prata à luz fraca do anoitecer. Não vestia nada além de uma simples tanga, tão branca quanto a pele de quem a usava.
O orc levantou sua macaná e a apontou para Fletcher.
— A Salamandra das profecias não era a minha. Era a sua.
Os olhos de Fletcher dardejaram de um lado para o outro, procurando uma arma. O khopesh havia desaparecido, perdido em algum lugar das profundezas do átrio. Então ele viu um brilho atrás do orc enorme: era a falx de Sylva, enterrada profundamente no olho do Dragão. Ele precisava apanhá-la.
— Você perdeu, Khan — disse Fletcher, tentando rodear o oponente. — A profecia era uma mentira.
O orc sorriu embaixo das presas e interrompeu-o com um passo lânguido para o lado. Fletcher mal podia acreditar no tamanho daquele orc. Ele assomava com 2,50 metros de altura, e sua espada era quase do mesmo tamanho de Fletcher.
— A profecia é verdadeira — declarou Khan, balançando a cabeça. — Aquele que tiver a Salamandra vencerá a guerra.
Fletcher distraiu-se. Atena. Ele sentiu sua presença, escondida entre as vigas que sustentavam o grande teto do salão. Obrigou-se a manter os olhos focados em Khan e ignorar a Griforuja que veio deslizando até o chão acima deles e escondeu-se atrás das grades protetoras de metal do saguão.
— Se isso for verdade, então eu já venci — disse Fletcher.
— Não — rosnou o orc. — Não se eu tomá-la de você.
Fletcher levantou a mão tatuada, e Khan estremeceu ao vê-la.
— Seu Dragão está morto — blefou Fletcher. — Você não tem mais mana. Eu poderia matá-lo em um segundo.
Enquanto os olhos do orc focavam-se em seus dedos, Fletcher tornou a rodear Khan, conseguindo aproximar-se alguns centímetros da espada.
— Então me mostre — disse Khan de repente.
— Não me faça rir — rebateu Fletcher, desdobrando o dedo com a tatuagem de raio. Ele deu alguns passos mais para perto da espada.
— Eu disse, então me mostre! — berrou Khan, e atirou-se em cima de Fletcher.
Fletcher mergulhou para a frente e sentiu a macaná passar de raspão pela cabeça quando o orc tentou atingi-lo. Então saiu rolando pelo piso de mármore e apanhou a falx.
Ele a arrancou do olho do Dragão com um barulho doentio e a ergueu à frente.
Khan gargalhou.
— Ah, então o filhotinho quer brincar — zombou ele, girando a macaná em sua mão. — Gosto disso.
A lâmina comprida era pesada e estranha nas mãos de Fletcher: ele nunca tinha segurado uma arma daquelas antes.
— Venha, vamos começar logo — convidou Khan, agitando a macaná na direção de Fletcher.
Suas espadas se encontraram, e os braços do rapaz estremeceram com a potência do golpe do orc, que quase arrancou a arma das mãos de Fletcher.
O jovem saltou para trás e escorregou no mármore liso.
— Isso foi só um toque fraco — desdenhou Khan.
O golpe tinha arrancado fora um pedacinho de obsidiana do porrete comprido de ponta negra, que caiu no chão e saiu ricocheteando até as sombras. Fletcher sabia que o vidro vulcânico era quebradiço, mas, mesmo assim, mais afiado que o mais preciso dos bisturis, capaz de cortar a carne com muito mais facilidade. Não dava para enfrentar o orc frente a frente. Seria suicídio.
Khan brandiu a macaná outra vez, e seu golpe passou zunindo pela cabeça de Fletcher quando este se abaixou. Seguiu-se então um golpe por trás, incrivelmente veloz, e Fletcher precisou sair rolando pelo chão para evitá-lo. Se tivesse tentado aparar aquele golpe, a macaná teria cortado sua defesa ao meio.
— Agora dance, garotinho! — gargalhou Khan.
Rotherham o ensinara a mirar os joelhos.
Fletcher brandiu a falx ao se levantar, um golpe desajeitado que Khan defendeu com a parte achatada do porrete. Um de seus pés girou para a frente e acertou as costelas de Fletcher, lançando-o ao outro lado do átrio. A lâmina quase saiu voando de sua mão, chocando-se no piso de pedra, e a agonia espalhou-se ardente pela lateral de seu corpo.
— Chega de joguinhos! — rosnou Khan, enquanto Fletcher se punha de pé. — Tenho um império para derrubar.
— Você... já... perdeu — ofegou Fletcher.
Ele mal conseguia levantar a falx; algo tinha se quebrado dentro de si. Doía até respirar.
Atena sentiu sua dor. Agachou-se acima de Khan, os olhos mirando as costas expostas do orc branco. Era agora ou nunca. Agora.
Fletcher saiu correndo na direção do orc com um grito feral, lutando contra a dor que o arrasava. Atena mergulhou, com as garras esticadas para a frente. Khan brandiu a espada bem no momento em que a Griforuja o atacou e cravou as garras profundamente em seus olhos. Cego, errou o golpe, que por um fio de cabelo não atingiu o rosto de Fletcher, mas, em vez disso, cortou-lhe a orelha.
Fletcher atacou com toda a força de que foi capaz. Sentiu a espada entrar na perna de Khan, chocar-se contra o osso. Ouviu o clangor da macaná caindo no chão.
Porém faltou força ao ataque, pois suas costelas quebradas prejudicaram o golpe. Atena soltou um guincho quando uma mãozorra a afastou com um tapa. Fletcher sentiu dedos rodearem seu pescoço e levantarem-no do chão.
Khan rugiu diante de seu rosto, trazendo-o para perto do seu, como a um amante.
— Morra! — rosnou o orc através das presas.
Fletcher deu-lhe um chute na barriga. Foi como chutar uma pedra. As mãos de Khan intensificaram o aperto quando ele o trouxe ainda mais para perto.
— Olhe em meus olhos — sibilou o orc, as órbitas vermelhas dos próprios olhos estreitando-se enquanto ele apertava mais. — Quero ver a luz morrer dentro de você.
O mundo entrava e saía de foco. A escuridão pressionou as bordas de sua visão. Ele viu Atena arrastar-se pelo chão, sentiu a dor dos ossos quebrados do demônio espelhar a própria. Ignácio. Mal conseguia sentir Ignácio.
Ele estava morrendo. Fletcher fechou os olhos e esperou pelo fim.
E, então, a pressão afrouxou. Ele caiu no chão, ofegando em busca de ar. Sangue formava uma poça no chão a seu lado, escorrendo pelas pernas brancas e poderosas do orc.
Ele olhou para cima e viu a lâmina de sua khopesh enterrada na lateral do corpo de Khan. Viu o gigante girar e derrubar seu atacante com um golpe rápido do punho esticado.
Sylva.
— Elfa nojenta — rosnou Khan, chutando o corpo dela pelo chão e pisando em cima de seu pescoço. Sylva ficou ali, lutando fracamente enquanto ele inclinava o corpo na direção dela e ela tentava agarrar a própria garganta com as mãos.
— Não — ofegou Fletcher. O mana. Ela precisava usar o mana.
Porém ela estava alheia àquilo, as mãos tentando segurar o pé que esmagava seu pescoço.
Uma onda de náusea tomou conta de Fletcher quando ele tateou em busca da falx. Suas mãos encontraram um punho. A macaná.
Ele ouviu Sylva gorgolejando e a gargalhada rouca do orc albino enquanto ele a sufocava até a morte.
Então ele sentiu: um filete de mana, vindo das consciências gêmeas que havia dentro dele. Ignácio e Atena. Eles estavam lhe dando tudo o que tinham, mesmo quando mais precisavam de mana. Era o bastante para uma última tentativa desesperada.
Ele levantou a mão, a dor retalhando toda a lateral de seu corpo.
Levantou um dedo, apontou-o para a parte interna do joelho de Khan. E lançou o último resto de mana que ainda tinha em uma explosão cinética.
A perna do orc sacudiu para a frente e Khan caiu de joelhos, berrando de raiva, Então, com os últimos vestígios de suas forças, Fletcher levantou-se de uma só vez e saiu berrando e brandindo a macaná com toda a sua força.
O tempo pareceu andar mais devagar no momento que o imenso porrete atravessou o ar. Um instante de dúvida, enquanto a lâmina de obsidiana encontrava a carne pálida, e então ela atravessou o pescoço do orc, fazendo a grande cabeça cair rolando no chão. O corpo de Khan dobrou-se para a frente e despencou como um grande naco de carne.
Porém não havia tempo para alívio, nem mesmo na vitória. Ele precisava curar Ignácio.
Sylva virou a cabeça, ofegando como um peixe fora d’água.
— Vim assim que pude — sussurrou ela.
Os olhos dela estavam desfocados, e o hematoma em sua testa tinha se espalhado em uma mancha feia até a têmpora.
Fletcher sentiu uma onda de tontura tomar conta de si quando lutou para se levantar. A cada respiração, sentia suas forças retornarem, o bastante para conseguir ir cambaleando até Sylva e arrastá-la pelo chão de mármore, embora a dor em suas costelas ardesse como atiçadores em brasa, atravessando seu peito. Ele arfou, escorregou no sangue de Khan e praguejou contra a própria fraqueza.
Os olhos do Drake estavam fechados; o sangue formara uma poça em torno dele em um grande halo vermelho. Fletcher buscou sua consciência. Ainda havia um fraco lampejo de vida. Que se esgotava rapidamente.
A cabeça de Sylva rolava para um lado e para o outro, seus olhos beirando a inconsciência.
— Acorde! — berrou Fletcher, sacudindo Sylva. — Você precisa curar Ignácio!
Ela abriu os olhos e estendeu uma mão fraca. Um dedo rodou no ar, e o símbolo do coração foi desenhado com um fio azul. Dele pulsou uma luz branca, que flutuou por cima dos estilhaços de vidro.
Lentamente as feridas se fecharam, longos fragmentos de cristal retirados, caindo tilintando no chão. A faísca de consciência de Ignácio voltou a arder, de início uma luzinha pequena na mente de Fletcher, depois um fogo feroz quando o demônio se levantou e arfou em uma grande inspiração.
Fletcher soluçou e atirou-se num abraço ao pescoço do demônio. Alívio inundou-o como uma droga, suavizando a dor na lateral de seu corpo.
Ele sentiu um corpo cheio de penas deslizar por baixo do braço, afagando o local de seu ferimento — Atena tinha voltado até ele. Estava cheia de hematomas, mas viva e bem. Ele soltou-se do abraço ao Drake e levou a Griforuja até o peito.
— Obrigado — sussurrou, beijando a testa do demônio.
Então ele percebeu. O silêncio. A ausência de tiros, de gritos, de armas chocando-se.
— Será que vencemos? — sussurrou Sylva.
Ela estendeu o braço, e Fletcher a ajudou a levantar-se. Eles se apoiaram um no outro, como marinheiros bêbados.
Apesar do silêncio, Fletcher não sentiu medo. Aquilo já não estava mais em suas mãos. Ele tinha feito tudo o que podia.
— Vamos sair e descobrir.
Ignácio se abaixou até o chão, e Fletcher estremeceu de dor quando eles subiram no lombo do Drake. Sylva sentou-se na frente de Fletcher, para que este pudesse mantê-la no lugar caso ela caísse inconsciente mais uma vez. Ela apoiou a cabeça em seu ombro.
— Tem certeza de que tem forças suficientes para isso, amigão? — perguntou o rapaz, afagando a lateral do corpo de Ignácio. — Você perdeu muito sangue.
O demônio rosnou, e com um salto vagaroso eles começaram a voar, espiralando para cima na direção do domo estilhaçado. Fletcher estremeceu quando eles atravessaram o buraco irregular e saíram voando pelos céus vazios, deslizando ao vento.
Segurou Sylva com força quando eles viram o resultado da batalha lá embaixo, obscurecida pela fumaça dos canhões e armas de fogo, pelo sangue e pela lama. Os gritos dos feridos eram trazidos pelo vento, e ele sentiu o corpo de Atena estremecer junto ao peito.
A morte e a destruição tinham transformado o campo de batalha em um caos de terra carbonizada e cadáveres. Homens andavam como sonâmbulos pelos campos de mortos, livrando os orcs que restaram de sua agonia.
À distância, alces e seus cavaleiros cavalgavam pelas planícies. E, logo além, uma horda de orcs batia em retirada em direção ao horizonte manchado de vermelho.
— Nós vencemos, Sylva — sussurrou Fletcher, abraçando a elfa junto ao peito. As mãos dela cobriram as dele, e eles fitaram os horrores abaixo. Não havia nenhum triunfo naquela vitória. Somente tristeza. Somente perda. — Nós vencemos.

2 comentários:

  1. Esse livro acaba de se tornar o meu livro preferido! Cada cap é melhor que o outro! Pura emoção! Adorei!

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  2. Que livro maravilhoso!!!

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Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!