22 de março de 2018

Capítulo 61

Eles estavam em toda parte. Milhares de orcs, mais do que Fletcher jamais pensara que pudessem existir, espalhados em uma grande horda sobre a paisagem fumegante. As vilas e árvores atrás deles ardiam como piras fúnebres.
E, algumas dezenas de metros à frente, espalhados em uma estreita linha vermelha na frente dos portões de Vocans, estavam o que restava do exército de Hominum. Talvez tivessem sobrado mil homens vestidos em uniformes vermelhos, e mais algumas poucas centenas de outros em uma variedade de fardas de outras cores, sobreviventes dos regimentos nobres que tinham sido dizimados na luta. Além disso, havia um único batalhão de anões, espalhados no centro em filas de dois ou três.
— Tão poucos — disse Fletcher, com voz sufocada, através da fumaça.
O fedor de enxofre pesava no ar; uma mistura entontecedora de pólvora e fumaça dos edifícios das cidadezinhas que tinham sido incendiados a 2 quilômetros de distância. O mundo inteiro estava tingido de laranja pelas chamas distantes, mesclando-se ao brilho vermelho do sol poente. Em breve cairia a noite.
Enquanto o mundo abaixo ardia em brasas, Fletcher reparava em cada movimento de Sylva a seu lado, e torcia para que de alguma maneira fosse possível eles continuarem ali, juntos, distantes da batalha. O cabelo de Sylva esvoaçava atrás da elfa enquanto Lisandro arremetia pelos ares. As pontas de suas asas roçavam as de Ignácio. Ela parecia gloriosa ao sol poente, o rosto cheio de determinação, a falx empunhada para o combate.
— Vamos conseguir — disse a elfa, olhando nos olhos dele.
Fletcher sustentou aquele olhar e arriscou-se a compartilhar daquela esperança. Com determinação renovada, ele virou-se para encarar a cena lá embaixo.
Agora se viam clarões, raios de luz e fogo na terra de ninguém que separava os dois exércitos. Uma batalha estava sendo travada ali. Animais se atacavam mutuamente em colisões poderosas de garras, escamas e pelos.
Centenas de demônios estavam guerreando lá embaixo, em um preâmbulo do confronto final entre as civilizações.
Ele viu uma fileira de magos de batalha espalhados na frente dos homens, atirando bolas de fogo e raios em seus equivalentes xamânicos através das ruínas em brasas de sua terra. Harold e seu pai estavam na frente, rodeados por um escudo semelhante a um domo de vidro, ordenando que um bando novo de Licantropos e Anubídeos entrasse em combate.
À frente deles, os Dracons combatiam no centro do campo de batalha em si. Suas montarias atacavam Onis humanoides e Nanauês, parecidos com tubarões, em meio à relva arrasada. O cabelo escuro de Arcturo esvoaçava às costas enquanto ele recuava com seu Hipalectrion e conduzia um contra-ataque na direção do fronte oeste. O orgulho inchou o peito de Fletcher quando seu mentor atacou as linhas do inimigo e sustentou sua posição contra todas as expectativas. Mesmo daquela distância, Fletcher percebeu que os demônios de Hominum estavam em desvantagem numérica.
Um rugido, lá de cima.
Ignácio moveu-se antes mesmo que Fletcher pudesse pensar, arremetendo para o alto na direção da neblina de fumaça e névoa. Estava escuro, e o manto tingido de fumaça vaporosa bloqueava os raios vermelhos do sol poente. Agora, tudo estava em silêncio.
Não. Asas. Como o pulsar vagaroso de um coração, em algum ponto ao sul. Em seu cristal de visualização, ele viu Atena pairando embaixo do banco de nuvens, procurando pistas do paradeiro do Dragão. Nada.
Então, de repente, ali estava ele. Dando um rasante para fora das nuvens, uma massa negra de asas coriáceas. Estendeu as garras e sulcou a terra, arrasando uma matilha de Canídeos de Hominum e carregando um deles no bico. Deslizou ao longo do campo de batalha e engoliu sua presa em um único movimento, depois curvou para uma segunda investida.
Quando ele virou, Fletcher viu que era igual a um Drake em tudo, menos no tamanho e na pele — seu corpo era coberto de escamas que formavam uma armadura. Devia ser tão grande quanto três Fantauros juntos, e a envergadura de suas asas eclipsava o sol conforme ele se manobrava ao longo do horizonte.
— Fletcher! — gritou Sylva.
Lisandro emergiu do banco de nuvens com um guincho frustrado, girando as asas no ar.
— Estão todos mortos ou escondidos no Corpo Celeste — vociferou Sylva, com desprezo. — Eles mataram todas as Serpes, mas apenas a capitã Lovett e Ofélia Faversham continuam lutando, tentando cegar Khan no meio das nuvens... mas o Dragão atira fogo sobre elas sempre que se aproximam.
Atrás de Sylva, Fletcher viu as sombras da dupla flutuando logo atrás das nuvens. Entretanto, antes que ele pudesse cumprimentá-las, um clarão lampejou, e Fletcher virou-se para ver o que era.
O demônio gigantesco estava dando um novo rasante, lançando um vasto tsunami de fogo para devastar a terra ao longo da frente de batalha de Hominum. Dracons se espalharam para saírem do caminho, e, se não fosse um salto voador de sua montaria, Arcturo não teria escapado da trilha ardente de destruição. Atrás, os menos afortunados gritavam, até restarem apenas esqueletos carbonizados.
Das mandíbulas do Dragão emergiu um rugido de triunfo. Em seu lombo, Fletcher avistou o vulto pálido de Khan, montado no pescoço da criatura. O orc agitou sua grande macaná. Uma. Duas vezes.
Era um sinal. Em uma gigantesca onda, as fileiras dos orcs arremeteram para a frente, correndo pela terra arrasada pelas chamas, com um coro ululante de gritos de guerra que fez Fletcher sentir um calafrio até os ossos.
Vindo pelas beiradas, cavaleiros montados em rinocerontes avançaram, os animais com o chifre em riste prontos para o impacto. Era uma onda imparável de bárbaros.
Tiros vieram da fileira de homens. Os orcs rodopiaram, atingidos, e caíram, mas outros apareceram, sem cessar, sem dar trégua. Quinze metros. Doze. Relâmpagos e fogo eram lançados pelos magos de batalha e demônios, fazendo com que inimigos tombassem ao chão, abrindo buracos nas hordas, mas não era suficiente. Nem de perto.
Entretanto, havia algo mais. Um tremor. Um estrondo de cascos e... um canto. Vozes, cantando em harmonia, enviando palavras élficas rodopiando pelo terreno.
E então, galopando graciosamente em torno da fileira estreita de homens desesperados, vieram os alces, com a cabeça abaixada como os chifres de um bode, mirando nos flancos da investida dos orcs.
Chifres atiraram orcs para o lado enquanto arcos disparavam flechas nas fileiras atacantes, zumbindo ao atingirem crânios e pescoços com precisão letal. Foices eram brandidas ali e acolá, arrancando dos ombros as cabeças com presas. Rinocerontes e alces colidiram em choques estilhaçantes, e, de ambos os lados, cavaleiros saíram voando das montarias no meio da confusão. No centro do campo, os mosqueteiros de Hominum miravam para o interior do ataque, a fim de concentrar os disparos nos pontos onde o ataque em pinça dos elfos não tinha alcançado. Seis metros.
Orcs foram atirados para trás pela ferocidade dos tiros, e os que estavam mais próximos foram arremessados, como marionetes, sacudindo-se em seus cordões. Cambalearam e caíram, arrasados por uma dúzia de ferimentos. A investida órquica fraquejava.
A leste de Fletcher, o Dragão soltou um rugido e circulou em um longo arco, preparando-se para atacar. Ele viu o que estava prestes a acontecer. As chamas cairiam sobre a fileira estreita de homens. A massa de elfos seria afogada em um mar de fogo. Era isso o que Khan estivera esperando. Antes tudo não passara de um joguinho para ele, só aguardando os exércitos aliados se encontrarem.
Contudo, ao ver a guinada vagarosa do monstro, Fletcher descobriu o que deveria fazer.
Um último lance de dados.
— Encontre Lovett e Ofélia e escondam-se nas nuvens acima — berrou Fletcher para Sylva, enfiando os calcanhares nas laterais do corpo de Ignácio. — Esperem meu sinal.
Ignácio mergulhou, e Fletcher ouviu a resposta da elfa antes que o vento a levasse embora:
— O que você vai fazer?
Mas ele estava decidido. Não havia tempo para responder.
— Obrigado, meu amigo — disse Fletcher, baixinho, abraçando o pescoço do demônio.
Sentiu uma pulsação amorosa do Drake valente quando eles investiram na direção do Dragão. O vento lhe açoitava o cabelo e ardia em seus olhos. Ou eles venceriam, ou morreriam juntos. Não havia outra alternativa.
Continuaram voando, sobre os gritos da batalha e os disparos das armas de fogo. Ele viu o Dragão completar sua volta mais à frente e começar a travessia rumo aos aliados reunidos. Um grito de Atena o advertiu do perigo.
Era agora ou nunca. Ele desenhou o feitiço de amplificação em seu pescoço, espremendo o restinho de mana que ainda lhe restava.
— Khan! — berrou, a voz ribombando sobre as planícies.
Mesmo no meio do turbilhão da batalha, o orc albino escutou suas palavras. O Dragão olhou para cima enquanto Fletcher descia direto até eles, o khopesh a postos.
Khan balançou a cabeça, ignorando-o. O alvo lá embaixo era tentador demais. Milhares de inimigos, todos reunidos em uma longa fileira no campo de batalha.
— Venha me enfrentar, seu covarde! — provocou Fletcher, atacando o orgulho do líder órquico.
Agora Khan olhou para ele, os lábios arreganhados sobre as presas em um sorriso desdenhoso. Levantou uma das mãos, e Ignácio desviou-se para o lado bem a tempo. Um raio passou estalando ao largo, mas eles continuaram descendo velozmente até seu inimigo.
— Cadê suas Serpes, hein, Grande Khan? — berrou Fletcher. — Perdeu as que tinham sobrado depois de sua derrota no éter?
Agora o Dragão estava angulado para cima, as asas gigantescas atirando poeira pelo campo de batalha. Estava funcionando. Khan falou, e suas palavras foram levadas para cima:
— Eu sou o Redentor. — Sua voz estava tingida de fervor religioso. — Sou o Escolhido.
— Então prove! — berrou Fletcher em resposta. — Venha lutar comigo! Ou será que “o Escolhido” tem medo de um mero garoto?
Houve um rugido, tão alto que Fletcher sentiu em seu peito, e então o Dragão saiu voando em sua direção, com a bocarra escancarada. Em seu interior, Fletcher viu um princípio de chamas.
— Vá — sussurrou Fletcher.
Ignácio interrompeu o mergulho e soltou um uivo. Sua velocidade criou uma ventania tão veloz quanto um vendaval, que quase arrancou Fletcher de onde estava sentado. Então eles começaram a subir na direção das nuvens ao alto. Ignácio batia as asas com todas as forças, mas não era rápido o suficiente.
Khan gargalhava agora, agitando a macaná com ansiedade. Os segundos se passaram em um átimo enquanto o Dragão reduzia a distância entre eles, com o vento causado pelo bater de suas asas os empurrando para baixo.
Quase lá. Fletcher sentiu a umidade das nuvens, viu o tom branco-acinzentado de uma aglomeração delas a uma pedrada de distância.
Lá embaixo, a boca do demônio se abriu ainda mais, como a de uma cobra. Havia fogo acumulado dentro dela, banhando Ignácio em um brilho alaranjado.
— Agora, Sylva! — berrou Fletcher.
Três vultos irromperam do alto e dispararam a toda velocidade em sua direção. Fletcher viu de relance o Alicórnio de Lovett, a galhada de um Periton. E Lisandro, que soltava um grito de águia.
Um clarão relampejou sobre eles quando as chamas foram lançadas pelo ar.
— Agora — disse Fletcher, baixinho.
Ignácio desdobrou suas asas e as manteve completamente imóveis no céu.
O fogo os atingiu em cheio. Chamas bateram no corpo de Fletcher, esmagando-o de encontro ao lombo de Ignácio. Ele inspirou aquele inferno, sentiu o calor seco no peito. Sua camisa e sua jaqueta viraram cinzas.
Ele abriu os olhos, viu o fogo abrir-se em torno deles e retorcer-se no céu, bloqueado pelas asas abertas de Ignácio. Era um vórtex de chamas — e três demônios desciam pelo túnel vazio criado em seu centro.
O fogo cessou com a diminuição da intensidade do ataque do Dragão. Ele ouviu o calor chiando na pele, e um grito de ódio quando Lovett, Sylva e Ofélia passaram a toda velocidade por eles. Então, ele e Ignácio também começaram a mergulhar, com as asas do Drake completamente voltadas para trás, coladas ao corpo, conforme se juntavam ao ataque.
E em um instante Ofélia já se fora: o Periton jazia flácido no bico do Dragão, enquanto o corpo da maga de batalha se retorcia em sua descida vertiginosa até o chão abaixo.
A lança de Lovett atingiu a bochecha do demônio de Khan, e ela quase foi atirada para fora da sela, e a arma, lançada em cambalhotas em um caos de asas e cascos. Depois Sylva saltou, com a falx em punho. O Grifo rosnou junto à asa do monstro e mordeu sua membrana delicada. Ouviu-se um rugido de dor quando a lâmina da elfa se enterrou no olho do Dragão, e ela ficou ali pendurada para não cair.
O tempo pareceu correr mais devagar.
Ignácio colidiu com a cabeça do Dragão, e, para ganhar vantagem, suas garras cravaram nas escamas protetoras. Fletcher foi atirado para fora do lombo do Drake com o impacto e girou pelo ar, chocando-se com Khan em uma confusão de pernas e braços.
Eles estavam despencando pelos ares. Rodopiando. Ele viu Vocans vindo a toda velocidade em sua direção. O domo de vidro em seu centro.
Estilhaçando-se.
Escuridão.

4 comentários:

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!