22 de março de 2018

Capítulo 60

Fletcher segurou as mãos do anão entre as suas, sem conseguir acreditar naquilo. Sentiu-se enjoado, o mundo rodopiando ao redor.
— Vai ficar tudo bem — sussurrou. — Ele não está morto. Não está.
À distância, Fletcher viu o vulto sulcado de Salomão perseguindo os goblins, alheio a tudo aquilo.
Não. Não podia ser. O Golem saberia.
Então um pássaro gritou no céu. Um Caládrio, voando alto e chorando seu pesar. Foi então que Fletcher percebeu — aquela constatação foi como uma pedra gelada na boca de seu estômago. Não era Otelo. Era Átila.
Seu irmão gêmeo.
Tinha terminado. Humanos, anões e elfos vagavam pelo campo de batalha, sem acreditar na própria vitória. Havia tantos cadáveres. Mais ainda que na Fenda.
— Você nos salvaram — disse Fletcher para Cress, enxugando os olhos. — Pensamos que não viriam.
Eles se sentaram ao lado do corpo de Átila, sem conseguirem deixá-lo sozinho entre os cadáveres. Não havia mais lágrimas para derramar.
— Foi Átila quem salvou todos nós — fungou Cress. — Ele correu até o meio deles com nossa última ampola de mana e detonou aquele feitiço bem ali. Esses ferimentos... ele sabia que não sobreviveria.
Fletcher olhou para o amigo, que dera tanto apenas para que os outros pudessem viver. O anão parecia quase sereno, o rosto voltado para os céus ainda cálidos.
— Como vocês nos encontraram? — perguntou Fletcher, tentando controlar o tremor de emoção em sua voz.
— Foi Malaqui — respondeu Cress, olhando para a paisagem, abraçando os joelhos junto ao peito. — Ele nos encontrou, mas os generais não queriam nos deixar vir.
Ela apertou as mãos ao relembrar.
— Os céus sabem o quanto queríamos vir, mas as linhas de frente estavam desfalcadas. Milhares de orcs nos atacavam das selvas. Sem aviso, sem preparativos; a primeira hora da batalha foi um massacre.
Cress olhou para ele, os olhos cheios de tristeza.
— E os demônios! Centenas e centenas. Os orcs os enviavam a todos para a morte, depois conjuravam outros com papiros que tinham guardado. Eles estiveram planejando isso por anos.
— O que aconteceu? — perguntou Fletcher, olhando para leste, como se, de alguma maneira, conseguisse ver o campo de batalha a quilômetros de distância.
— Nós recuamos, de novo e de novo. Tantos morreram. Dezenas de milhares. Estamos perdendo terreno, mas a guerra ainda não acabou. Pelo menos, não quando saí para vir até aqui.
Silêncio. Fletcher mal conseguia acreditar naquilo. Eles estavam perdendo.
— O rei está torcendo para que os elfos cheguem logo para nos ajudar — murmurou Cress. — Disse que o exército saiu de suas terras alguns dias atrás. Eles são nossa última esperança.
— Então, por que vocês vieram? — perguntou Fletcher, horrorizado. — Hominum poderia cair de vez, isso se ainda não caiu. Vocês são necessários.
— O rei nos deu ordens para vir — respondeu ela, encontrando seu olhar. — Malaqui conseguiu chegar até ele também. Mas confesso que estou surpresa; como esse Carunchinho conseguiu fazer isso? Ele estava agindo de modo estranho quando nos deixou. Como se todo o espírito de luta o tivesse abandonado.
O coração de Fletcher se retorceu ao ouvir essas palavras. O Caruncho valente continuara sua missão, apesar da morte do mestre. Fletcher não teve forças para contar a Cress o que tinha acontecido com Rory.
— Mas não foi para impedir o avanço dos goblins que viemos — continuou Cress, sem perceber a dor nos olhos de Fletcher. — Nem para salvar Raleighshire. Foi para salvar você, Fletcher.
— Eu? — perguntou ele, sem entender.
— Existe um motivo para estarmos perdendo a guerra — disse Cress, falando depressa agora, como se tivesse acabado de se lembrar do motivo pelo qual estava ali. — É Khan. O demônio dele... é... é como uma versão gigantesca de Ignácio. Só que tem uma carapaça, como uma Serpe.
— Um Dragão — sussurrou Fletcher, lembrando-se do encontro no vulcão, meses antes.
— Nosso Corpo Celeste tentou matá-lo, mas... o fogo. Está matando tudo. Sempre que pensamos que conseguimos uma vantagem, ele surge e transforma tudo em cinzas. Ninguém é capaz de chegar perto. A não ser...
Ela deixou a frase no ar.
— A não ser eu — disse Fletcher, e aquela constatação deixou-o inerte.
Ele era imune ao fogo, assim como Ignácio.
A batalha de Fletcher ainda não tinha terminado... estava apenas começando.
Fletcher queria esperar até que Otelo retornasse da perseguição aos goblins; queria estar ali quando ele visse seu irmão falecido. Mas não havia tempo. Despediu-se de seus amigos e soldados, a maioria incapaz de levantar — por conta dos ferimentos ou da exaustão.
— Volte inteiro, está me ouvindo? — disse Berdon, com voz sufocada, quando Fletcher lhe deu um abraço de despedida.
— Pode deixar — sussurrou Fletcher.
Um último abraço de Cress, muito breve, pois ela estava comandando os anões dispersos.
Então, subiu em Ignácio e saiu em um voo trôpego pelo céu.


O pobre Drake ainda estava padecendo com as feridas que tinha sofrido na batalha com o Fantauro, portanto o trajeto foi errático e lento. Fletcher viu os buracos irregulares nas asas de Ignácio, o sangue que coagulara em torno de seus flancos depois que uma lança o penetrara fundo. Eles estavam em péssimas condições, mas não havia escolha — nada mais seria páreo para o Dragão.
Cress mal conseguira cuidar dos ferimentos de Ignácio; com o restinho de mana que lhe sobrara, cicatrizara um arranhão na pata dianteira do Drake.
Agora eles estavam rodeando o campo de batalha, para se orientar. A distância, Fletcher viu Otelo e seus anões perseguindo o exército de goblins e deixando um rastro de retardatários mortos. Ele lhes enviou um agradecimento silencioso e manobrou Ignácio na direção certa.
Quando viraram, com Atena deslizando pelos ares a seu lado, Fletcher ouviu um grito agudo lá no alto. O Caládrio vinha descendo em espiral pelas nuvens, parecendo um pombo caído do paraíso. Ele aterrissou suavemente nas costas de Ignácio, e Fletcher viu uma estranha aura em torno do demônio, com uma névoa borrada ao longo das bordas.
O Caládrio estava sumindo de volta para o éter, pois seu mestre se fora e o chamado da selva o convocava. Fletcher fitou, pensativo, o demônio cujos olhos azuis o encaravam enquanto abria suas asas compridas e delicadas sobre as de Ignácio. Ele viu dor naqueles olhos.
Uma luz resplandecente branca envolveu o corpo de Ignácio. Fletcher sentiu a dor do Drake diminuir, e, diante de seus olhos, as feridas começarem a sumir, encolher-se e cicatrizar, como se o tempo estivesse rebobinando. Então a ferida de seu próprio braço também desapareceu.
Durante todo aquele tempo, o demônio o observava. A luz branca diminuiu de intensidade, e o Caládrio afagou sua bochecha com a ponta do bico. Em seguida, ele se foi, deslizando para longe para lamentar sua perda no meio das nuvens lá em cima.
Fletcher certa vez ouvira falar que parte da alma de um conjurador continuava viva em seus demônios — que suas consciências se mesclavam após a morte. Era uma história da carochinha, da qual o major Goodwin zombara quando Serafim lhe perguntara a respeito em uma aula. Ele respondera que o caráter dos mestres poderia ao longo dos anos acabar sendo absorvido por seus demônios, mas isso era tudo.
Entretanto agora, voando para o leste, Fletcher já não tinha tanta certeza. Seu olhar voltou-se para Atena, que o amara incondicionalmente desde o momento que se conheceram. Será que seu pai continuava vivendo, através dela? Teria a cura do Caládrio sido um presente de despedida de Átila?
Ele encontrou conforto nesse sentimento enquanto Atena mostrava o caminho, usando sua audição para guiá-los na direção dos tiros de canhão que ecoavam pelas terras devastadas abaixo. A cada minuto que passava, o sol continuava sua descida vagarosa para o horizonte, seus raios tingindo o mundo de sépia.
Foi só então que a enormidade de sua tarefa começou a pesar sobre seus ombros — e o destino de um império se revelava um peso imenso. Será que conseguiriam? Teriam uma chance? Dúvidas assolavam sua mente.
Em pouco tempo Fletcher pôde ouvir os ecos distantes da batalha, carregados pela brisa morna da tarde. Com medo de estar atrás das linhas inimigas, o jovem mago de batalha manobrou Ignácio para o norte.
Eles continuaram voando, agora às cegas, esperando avistar Corcillum em algum lugar na distância para que pudessem se orientar. Em vez disso, contudo, ele avistou outra coisa.
Um grande rebanho de alces, espalhados pelos campos verdejantes abaixo. Montados neles, armados com arcos e espadas compridas, estavam elfos.
Eles tinham se dividido em dois clãs, cada qual indicado pela cor de sua armadura. Na dianteira, Fletcher avistou o tom vermelho da família de Sylva.
Um elfo montado em um alce seguia na frente, um vulto alto de costas eretas que só podia ser o pai da amiga. Atrás dele, um poderoso alce sacudia suas galhadas, ansioso pela batalha.
Diante dos olhos de Fletcher, a cavalaria abriu um galope, disparando pelo terreno. Fletcher avistou o alvo — uma nuvem de fumaça ali perto, embaixo da qual havia clarões de luz e o som de tiros de armas de fogo.
Então ele arregalou os olhos. No centro de tudo isso, avistou a silhueta de um castelo antigo, delineada contra o horizonte. Era Vocans. De alguma maneira, os orcs tinham forçado o exército de Hominum a recuar até o interior das terras do império. Corcillum, com todos os seus habitantes inocentes, estava a não mais que poucas horas de marcha dali. O próprio futuro de seu mundo agora estava por um fio.
Um clarão de advertência de Atena pulsou na mente de Fletcher. Lá embaixo, uma criatura vinha voando em sua direção. Um Grifo.
Seu coração deu um pulo.
Sylva.
Em questão de instantes, ela estava a seu lado, segurando a lâmina longa e curva de sua falx. Usava a armadura lamelar vermelha de seu clã, e seu cabelo estava trançado em um coque na nuca.
— Fletcher — gritou ela, guiando Lisandro para perto. — Você está vivo. Pensei que... estou feliz por você estar bem.
Ele viu o alívio no rosto da amiga, os lábios entreabertos, os olhos arregalados de emoção.
Apesar do medo que tomava conta de si, Fletcher não pôde conter um sorriso ao vê-la. Com ela a seu lado, talvez ele tivesse alguma chance.
Sylva parecia feroz como nunca, com pintura de guerra vermelha nas bochechas. Ele sentiu vontade de estender o braço e segurá-la, revelar a ela seus sentimentos, e que se danasse a política.
Mas não havia tempo.
— Pensamos que você fosse Khan em seu Dragão — disse Sylva, levantando a voz para que ele pudesse ouvi-la apesar do vento que separava os dois. — Nossos batedores relataram que não há esperanças, que ele está dizimando o campo de batalha.
— Ele está lá — retrucou Fletcher, apontando para a nuvem de fumaça que se aproximava cada vez mais. — E eu vou enfrentá-lo.
— Bem, vamos lá, então — disse Sylva, incitando Lisandro a sair voando em uma explosão de velocidade.
— Sylva, volte para seu clã. Somente eu sou capaz de fazer isso — berrou Fletcher. — Eu sou imune às chamas.
Sylva se virou e gritou por cima do ombro:
— Tente só me impedir!
Com isso, ela desapareceu no meio da fumaça.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!