2 de março de 2018

Capítulo 6

O dia passou com uma lentidão excruciante. Berdon estava bem ocupado, mas o fedor acre de cascos ardentes estava começando a ficar insuportável. Não se passavam mais do que alguns minutos antes que uma nova pilha macia de esterco de cavalo caísse no chão atrás do menino, piorando o odor existente. Fletcher fez apenas uma venda naquele dia: uma pequena adaga a um mercador que decidiu encurtar a pechincha para fugir do fedor, gerando um faturamento feliz de doze xelins de prata.
O soldado do outro lado da estrada tornou-se mais calado, mas mesmo assim foi muito bem, vendendo quase todos os itens que espalhara no pano diante de si. Só restavam algumas poucas bugigangas, além do chifre de rinoceronte com ponteira de ferro e, é claro, o livro. Fletcher acreditava na maior parte da história do soldado, porém suspeitava que o livro não contivesse nenhum segredo de valor. O rapaz não conseguia entender por que o homem mentiria; independentemente do que guardasse em suas páginas, o livro certamente ofereceria um vislumbre fascinante da vida secreta dos magos de batalha. Só isso já seria um prêmio valioso, e Fletcher já estaria negociando um preço pelo tomo se não quisesse tanto aquela jaqueta de couro.
Enquanto o rapaz encarava o livro, o soldado notou seu olhar e lhe lançou um sorriso astucioso. Percebendo que não havia mais compradores em potencial por perto, ele atravessou a estrada casualmente e apontou uma das melhores espadas na barraca de Fletcher.
— Quanto custa? — indagou ele, erguendo-a do suporte e girando-a de forma profissional. Ela zumbia no ar como uma libélula. A destreza e a velocidade do homem eram espantosas, considerando os cabelos grisalhos e o rosto enrugado.
— Trinta xelins, mas a bainha que vem junto custa mais sete — respondeu Fletcher, ignorando o reluzir da lâmina que girava e prestando atenção na outra mão do soldado. O menino conhecia todos os truques, e o comportamento do soldado o lembrava um dos clássicos. Redirecione o olhar fazendo um alvoroço com um produto mais caro, então surrupie um item menor, como uma adaga, para um bolso profundo enquanto o vendedor está distraído. O soldado bateu os nós dos dedos na mesa para trazer a atenção de Fletcher de volta ao item em questão.
— Vou ficar com ela. Tem um bom equilíbrio e um belo fio de corte. Nada dessas bobagens de esgrima que os oficiais gostam tanto. Você acha que estocar um orc vai detê-lo antes que ele lhe arranque a cabeça? É que nem espetar um lobo com um palito. Eu aprendi rápido: você desfere um golpe nas pernas de um orc e ele cai como qualquer homem. Não que eu precise de uma espada decente para a frente do norte, mas é difícil se livrar dos velhos hábitos.
Ele pontuou a última frase cravando a espada na terra, em seguida puxando a bolsa de dinheiro e começando a contar. Fletcher pegou a bainha atrás da barraca, uma peça simples mas de qualidade, feita com uma moldura de carvalho embrulhada em couro cru.
— Eles não pechincham lá de onde você vem? — indagou o menino, depois de receber o dinheiro.
— Claro que sim. Eu só não gostei do jeito que aquele bastardinho falou da sua barraca. O inimigo do meu inimigo é meu amigo, não é esse o ditado? Queria que os elfos pensassem assim. Com eles seria algo do tipo: o inimigo do meu inimigo está vulnerável, então vamos esfaqueá-lo pelas costas enquanto ele não estiver olhando — resmungou o soldado.
Fletcher continuou calado, sem querer se meter numa conversa sobre política. Havia muita gente solidária à causa élfica, e uma discussão acalorada sobre o assunto poderia afastar alguns dos mercadores que tinham vindo ferrar os cavalos.
— Eu estava curtindo sua história antes de ele chegar. Espero que não se ofenda com a pergunta, mas tinha alguma parte que era verdade? — Fletcher olhou nos olhos do homem, desafiando-o a mentir. O soldado o fitou por um momento, em seguida relaxou visivelmente e abriu um sorriso.
— Eu posso ter... enfeitado um pouco. Li algumas partes do livro, mas não sou muito bom de leitura, então só folheei. Pelo que consegui entender, ele estava estudando os orcs, tentando aprender com eles. Tinha símbolos órquicos por todos os lados, e divagações semitraduzidas sobre os clãs e ancestrais deles. Também havia uns rascunhos de demônios, e muito bons, por sinal. O cara era um bom desenhista, mesmo que não fosse o melhor dos conjuradores.
O soldado deu de ombros e pegou uma adaga da barraca, usando-a para limpar a terra sob as unhas.
— Uma pena, de qualquer jeito. Achei que seria bom desovar o livro aqui. Vou ter que vender barato na fronteira élfica. Tem uns soldados que são loucos pelos magos de batalha, mas nenhum deles tem um tostão. Talvez eu o venda para vários deles, página por página. — Ele pareceu gostar da ideia e assentiu para si mesmo, como se o problema estivesse resolvido.
— E quanto a Didric? O pai dele é poderoso, e os Pinkertons estão ficando na casa deles! Se for a sua palavra contra a de Didric, não sei para que lado a corda vai arrebentar — acautelou Fletcher.
— Bah! Já encarei coisa muito pior que um pirralho nascido em berço de bronze. Não, esses dois policiais já me viram tentando vender o livro antes, e nunca falaram bulhufas. Eles gostam de soldados, esses rapazes Pinkertons, acham que a gente é farinha do mesmo saco, mesmo que os policiais só façam bater nos anões que olham feio para eles. Bote um Pinkerton diante de um orc e você terá o que esses cavalos andaram largando aí no chão atrás de você nestas últimas horas — afirmou o soldado, franzindo o nariz.
— Bem, só não me deixe perder o que vai acontecer quando Didric voltar para buscar o livro. Quero muito ver a cara dele quando você mandá-lo pastar. — Fletcher esfregou as mãos com alegria. Aquilo seria divertido.


8 comentários:

  1. Curtindo o livro. Obrigada por postar! Abraço :)

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  2. Eu amo o livro, só não entendo o significado desses desenhos. Se alguém souber me responde por favor?

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  3. Acredito que seja símbolos pra os conjuradores evocar demônios.

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  4. Por hora ta Bom, renderia uma boa animação.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!