31 de março de 2018

Capítulo 5

MORRIGHAN

O vale nos dava as boas-vindas. As sementes que plantávamos no solo pedregoso cresciam com somente um pouco de adulação. Os campos distantes, ravinas e encostas ofereciam alguma diversão, gafanhotos e paz. Em todas as minhas lembranças, estes foram os meses mais calmos que já tivemos, e ainda assim, estranhamente, apesar de eu sempre ter desejado um lugar para ficar, minha impaciência crescia. Eu acalmava a dissonância dentro de mim me aventurando cada dia mais longe para colher grãos.
Um dia, enquanto eu me abaixava para colher pequenas sementes pretas de beldroega, ouvi uma voz tão clara quanto a minha dizer Por ali. Eu olhei para cima, mas não havia “por ali”. Somente uma parede de pedra e videira estava adiante, mas as palavras dançaram em mim, por ali, excitadas e flutuantes — certas e precisas. Ouvi a instrução de Ama, confie na força dentro de você. Caminhei para mais perto, examinando as pedras, e encontrei uma passagem escondida. Pedregulhos se misturavam para esconder a entrada. O caminho levava até um pequeno cânion — e, à distância, um tesouro escondido que eu observava com admiração. Fui depressa apoiada sobre meus joelhos na altura da grama para olhar mais de perto. Apesar de a maior parte do teto ter desmoronado, ainda havia alas daquele edifício uma vez grandioso, e, dentro dessas alas, encontrei livros. Não muitos. A maioria havia sido saqueada ou queimada há muito tempo. Até mesmo nossa tribo já havia queimado as páginas secas dos livros nas noites úmidas de inverno, quando nada mais adiantava. Estes poucos livros estavam espalhados no chão em meio aos entulhos e camadas de poeira. Livros que continham figuras — do tipo colorido.
Todos os dias desde então, esta estrutura abandonada se tornou meu destino. Eu juntava comida ao longo do caminho, então descansava e lia nos extensos degraus da ruína abandonada. Sozinha. Eu imaginava outra época, muito antes de sete estrelas terem sido lançadas na terra, uma época em que uma garota assim como eu havia sentado nesses degraus e olhado para o infinito céu azul. A possibilidade se tornou uma criatura alada que poderia me levar a qualquer lugar que eu quisesse. Eu estava despreocupada e imprudente com minhas divagações.
Dia após dia, era a mesma coisa. Até um dia.
Eu o avistei com o canto do olho. Primeiramente fiquei preocupada, depois brava, pensando que Micah ou Brynna haviam me seguido, mas então percebi quem era. Seu cabelo loiro selvagem ainda era o mesmo, exceto que estava mais comprido agora, e ele brilhava entre os arbustos grossos como uma rara espiga de milho dourada. Tolo, pensei, e então beijei meus dedos e os ergui para os deuses como penitência. Ama não tinha certeza exatamente de quantos deuses existiam. Às vezes ela dizia que era um, outras vezes três ou quatro — os pais dela não tinham tido tempo de ensiná-la a respeito dessas coisas — mas seja lá quantos fossem, eu sabia que era melhor não testá-los. Eles controlavam as estrelas do céu, guiavam os ventos da terra, e numeravam nossos dias aqui na região selvagem e, em algum lugar das memórias de Ama, ela sabia que chamar alguém de tolo era algo que os deuses não gostavam. Desejar a morte de alguém era outra questão.
Os deuses são sábios? Eu me recordo de ter perguntado. Por que eles salvaram os abutres também? Foi há muito tempo, ela respondeu. Eles ainda não haviam se tornado abutres.
Ele rastejou para mais perto, ainda se escondendo atrás dos arbustos. Mantive minha atenção no livro, mas percebi relances dele por baixo de meus cílios. Mesmo de sua posição abaixada, eu podia perceber que ele estava mais alto que da última vez que o vi, e seus ombros estavam mais largos. Os retalhos de sua camisa mal cobriam seu peito.
Eu ouvi o alerta da Ama. Corra o mais rápido que puder se for pega desprevenida. Mas eu não estava exatamente desprevenida. O observava já há algum tempo e imaginava porque ele estava se escondendo. Escondendo-se muito mal.
E sabia que ele estava se aproximando, então quando ele saltou dos arbustos, gritando e brandindo sua faca, eu não pisquei ou me sobressaltei, simplesmente virei lentamente a página do meu livro, continuando minha leitura.
— Qual o problema com você? — ele gritou. — Não está assustada?
Eu ergui meu olhar para ele.
— Assustada com o quê? Acho que é você quem está assustado, se escondendo nos arbustos há quase uma hora.
— Talvez estivesse planejando como a mataria.
— Se fosse me matar, teria feito isso na primeira vez que me viu. Ou na segunda. Ou...
— O que você está fazendo? — ele perguntou, observando meu livro, parado nos degraus como se fosse o dono do local. Ele era como todos os outros abutres, exigente, bruto... e fedido.
— Você toma banho em algum momento? — perguntei, franzindo o nariz.
Ele olhou para mim, confuso, e então curioso, sua carranca se suavizando. Fechei meu livro.
— Você não precisa ser tão hostil comigo, sabe. Eu não vou te machucar.
— Você? Me machucar? — ele jogou a cabeça para trás e gargalhou.
Seu sorriso fez algo quente se comprimir dentro de mim e, antes que eu pudesse pensar, ergui meu pé e chutei a parte de trás de seu joelho. Ele caiu no chão, seu cotovelo fazendo um som alto e doloroso quando bateu nos degraus. A carranca retornou, e ele ergueu a faca na frente do meu rosto.
— Estou lendo um livro — falei rapidamente. — Gostaria de ver? — prendi minha respiração.
Ele esfregou o braço.
— Eu já ia me sentar mesmo.
Mostrei o livro a ele, virando as páginas e apontando as palavras. Havia apenas algumas em cada página. Lua. Noite. Estrelas. Ele estava fascinado, repetindo as palavras quando eu as dizia, e baixou a faca ao seu lado. Ele tocou as páginas coloridas desbotadas pelo tempo, a ponta de seus dedos roçando-as de leve.
— Este é um livro dos Antigos — ele falou.
— Antigos? É assim que vocês os chamam?
Ele olhou para mim em dúvida, então levantou.
— Por que você questiona tudo o que digo? — ele desceu os degraus depressa e, estranhamente, fiquei triste por vê-lo partir.
— Volte amanhã — falei. — Eu lerei mais para você.
— Eu não vou voltar! — ele gritou por cima de seu ombro.
Eu o observei entrar nervosamente nos arbustos, somente seu cabelo loiro selvagem reluzindo acima das ervas até que ele e suas ameaças resmungadas desapareceram.
Sim, Jafir, eu pensei, você vai voltar, apesar de eu não saber porquê.

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Boa leitura! E SEM SPOILER!