22 de março de 2018

Capítulo 5

A luz do dia mudava depressa no éter, transformando-se do dourado da manhã para um céu cinzento no intervalo de uma hora. A região em torno continuava desolada; o único sinal de vida vinha de um Kappa solitário: um esquelético humanoide de pele verde, que se enfiou em uma poça de água escura assim que se aproximaram. Fletcher teve tempo apenas de identificá-lo e ver a estranha endentação, parecida com uma tigela, no alto de sua cabeça, onde ele armazenava água quando se deslocava em terra.
De certa forma, ficou feliz pela ausência geral de demônios, pois para eles isso tornava mais seguro o ato ocasional de se aliviarem. Cress tinha assumido o papel de cuidadora de Alice, levando-a para longe de Sheldon e guiando-a até os arbustos a intervalos regulares depois que Tosk fazia um reconhecimento da área em busca de possíveis perigos. Ela disse a Fletcher que fizera o mesmo pela própria avó, quando ela se tornara velha demais para cuidar de si mesma. Ele sentiu uma imensa gratidão; sabia que não conseguiria desempenhar essa função ainda.
Com o passar das horas, Fletcher foi se sentindo estranhamente sonolento, como se seu corpo não conseguisse reconhecer os ritmos daquele novo mundo. Desconfiou de que eles já haviam passado mais tempo no éter que qualquer ser humano, elfo ou anão.
Não era o único que sentia aqueles efeitos — Cress e Otelo cochilavam, apoiados um no outro no centro do casco. Sylva se sentava abaixo do pescoço do Zaratan, de costas para ele, a cabeça inclinada, como se observasse o próprio colo.
Curioso, Fletcher acomodou-se a seu lado.
— O que você está lendo? — perguntou ele, vendo um livro aberto apoiado em suas panturrilhas. Era mais ou menos parecido com o de James Baker, com esboços de pequeninos demônios, semelhantes a insetos, nas margens.
— O diário daquele traidor, Jeffrey — vociferou Sylva, e Fletcher quase pôde sentir a raiva irradiando da elfa, como uma fornalha.
— Desculpe — pediu ele, sem querer se intrometer.
Começou a levantar-se, mas Sylva percebeu a expressão em seu rosto e segurou seu pulso.
— Não, desculpe digo eu — sussurrou, suavizando o rosto. — Por culpar você... quando Sariel morreu. Se você não tivesse agido, nenhum de nós estaria vivo agora.
Ela abaixou a cabeça e o olhou nos olhos. Havia sinceridade ali, além de... algo mais.
Por um instante, a mente de Fletcher voltou para o momento que enterrou Sariel embaixo dos entulhos da pirâmide, junto aos demônios inimigos que avançavam sobre eles. Não tivera escolha... tivera?
— Não precisa pedir desculpas — disse Fletcher, sentindo uma pontada de culpa, apesar das palavras de Sylva. — Não sei o que eu teria feito se tivesse perdido Ignácio.
Ele parou, procurando algum assunto para lhe desviar a atenção de Sariel. Infelizmente, seu primeiro pensamento não foi muito mais animador.
— Apesar disso, não consigo parar de pensar que a única coisa que fiz foi adiar o inevitável — comentou. — Não estamos mais perto de encontrar aquelas flores do que estávamos ontem.
Fletcher meio que esperava ver a frustração de Sylva aumentar ainda mais, porém, para sua surpresa, ela sorriu.
— É aí que você se engana — disse ela, folheando algumas páginas e correndo o dedo sobre o papel amarelado. — Olhe.
Era o desenho de uma flor, com caule delicado e pétalas grandes que se curvavam umas sobre as outras no formato de uma concha. Abaixo, Fletcher pôde ler um trecho curto, escrito com a caligrafia surpreendentemente bonita de Jeffrey.

Experimento 786 — As Três Flores Irmãs
A busca do capitão Jacoby no éter rendeu frutos hoje — ou melhor, plantas. Um trio de plantas em flor, todas parecendo quase idênticas, exceto pela cor das pétalas — vermelhas, azuis e amarelas. Obviamente estão relacionadas umas às outras de alguma maneira. Pelo que Jacoby conta, as flores vermelhas (gênero: Medusa) tendem a crescer perto das areias também rubras das terras mortas — talvez seja alguma espécie de camuflagem.
As flores azuis (gênero: Stheno) crescem perto da água salgada, o que é uma pena, pois fora um ou outro mangue ocasional de água salobra, o lugar mais próximo de água salgada é o mar, que fica a certa distância da região de Hominum, no éter. Imagino que ele possa ter usado uma pedra de carregamento para manter o portal aberto por tempo suficiente para que seu Chamrosh viajasse para lá e depois voltasse. Impressionante.
Por fim, as flores amarelas (gênero: Euryale). Aparentemente só crescem perto da lava. O estoque foi encontrado na cratera de um vulcão próximo. É uma boa coisa que vulcões sejam comuns perto de nossa região do éter.
Embora nossa dissecação das plantas tenha gerado resultados insatisfatórios, a capitã Lovett se ofereceu para consumi-las a fim de determinar se possuem alguma propriedade medicinal. As chances de envenenamento são muito maiores que as de resultados positivos, mas voto para arriscarmos. Afinal, para que mais ela serviria?

Fletcher fechou os punhos ao ler a última frase. Como podia ter julgado Jeffrey tão mal? Ele sentira pena do jovem e adoentado servo, tinha inclusive visto nele um pouco de si mesmo. Mas as aparências podem enganar. Jeffrey fora tão cruel quanto os Forsyth.
— Não percebe? — perguntou Sylva, interrompendo seus pensamentos. — A flor que estamos procurando cresce perto de lava.
Ela estava com um sorriso que ia de orelha a orelha, porém Fletcher não sentia muita esperança.
— Bem, você viu algum vulcão por aqui? — perguntou ele, apontando para a baía pantanosa ao redor. — Sei que existem alguns perto da região de Hominum no éter, mas provavelmente estamos a quilômetros de distância de lá, e talvez nem estejamos seguindo na direção certa.
— Bem, mande Atena subir para dar uma olhada! — retrucou Sylva, exasperada. — Precisamos de um plano, Fletcher. Olhe ao redor. Você acha mesmo que ficar aqui sentado, torcendo pelo melhor, é a coisa certa a se fazer? Sei que você acabou de encontrar sua mãe, mas você continua sendo nosso líder. Então, lidere.
Fletcher sabia que o que ela falava fazia sentido, mas a ideia de enviar Atena como batedora o enchia de pavor. Tinha medo do que poderia ver. Um horizonte vazio, sem as colunas típicas de fumaça vulcânica? Um mar de verde, aparentemente sem fim? Ele não queria saber a resposta. Ainda não.
Olhou para Alice, para o gentil afagar de sua mão sobre as costas do demônio. Sua mãe parecia quase satisfeita. Por que não permanecer no casco, esperando, e deixar que o destino decidisse? Ele já estava cansado de tomar decisões, de jogar os dados para decidir a sorte. Ali estavam seguros.
Como se pudesse sentir suas dúvidas, Sylva pousou a mão sobre a dele, a palma fria e macia ao toque. Ele levantou a cabeça, e seus olhos se encontraram.
— Graças a você estamos aqui — suspirou ela. — Lisandro é grande demais... você é o único que pode fazer isso. — Seus olhos estavam cheios de esperança, e ele sentiu nojo de si mesmo, de seu medo, de suas dúvidas.
— Não quero arriscar — disse ele, odiando-se a cada palavra. — Ela pode acabar sendo vista. É melhor esperarmos, pelo menos até nos afastarmos mais... ainda há tempo. Não quero tomar nenhuma decisão apressada.
Sylva baixou os olhos e desvencilhou-se, enfiando o livro dentro do casaco.
— Ficar sem fazer nada também é uma escolha, tanto quanto fazer alguma coisa, Fletcher — avisou ela. — E pode ser a mais arriscada de todas.
Ela se levantou, oscilando de leve conforme o casco se inclinava a cada passo pesado de Sheldon.
— Pense no assunto — aconselhou, afastando-se dele.
Para surpresa de Fletcher, ela foi sentar-se ao lado de sua mãe. Enquanto ele olhava, retirou um objeto cor de marfim do coque de tranças, deixando-as cair em torno de seus ombros, em uma onda dourado-clara.
Era um pente feito de osso de veado esculpido. Sylva o levantou e gentilmente penteou os cabelos de Alice. O coração de Fletcher deu um salto quando um sorriso brincou nos lábios da mãe e ela fechou os olhos e inclinou a cabeça para trás, desfrutando da sensação.
Sylva não pareceu notar nada, continuando a pentear o cabelo de Alice com movimentos longos e cuidadosos até que ele lhe descesse pelas costas, sem a lama que o cobrira antes, com seu tom amarelo encardido logo tornando-se uma camada polida de cor de linho polvilhada de fios brancos nas raízes. Sylva guardou o pente no bolso, ergueu as mãos, e logo seus dedos ágeis dançavam de um lado para o outro, torcendo e trançando o cabelo.
— Pronto — disse ela, dando um último ajuste no cabelo de Alice, agora preso numa trança pesada que lhe caía pelas costas.
Fletcher sorriu. A mulher selvagem tinha desaparecido, deixando em seu lugar uma beldade frágil e elegante.
— Obrigado — disse ele baixinho, indo depressa até onde as duas estavam. — Ela precisava disso. E a trança ficou linda.
— Foi só uma coisinha que minha mãe me ensinou — disse Sylva, encolhendo os ombros com timidez.
Fletcher tornou a sorrir.
— Queria ter tido tempo de conhecê-la depois da reunião do conselho — disse ele.
Sylva olhou para as próprias mãos.
— Ela morreu quando eu era muito pequena.
Fletcher se arrependeu do que disse. Claro. Como nunca lhe perguntara sobre a mãe?
De repente ele se deu conta de que conhecia muito menos sobre Sylva do que sobre qualquer outro de seus amigos. Desde que se conheciam, ela jamais revelara de onde vinha, e raramente mencionava a própria família. Quando o fazia, sempre falava sobre o pai.
— Sinto muito — desculpou-se ele. — Eu devia ter me tocado.
— Não... eu nunca falo de minha mãe — respondeu Sylva, a voz tensa de dor.
Fletcher não disse nada. Não queria pressioná-la. O silêncio se alongou, até que Sylva voltou a falar:
— Talvez eu devesse falar — disse, a voz um fiapo. — Você teria gostado dela. Ela era corajosa, leal. Mas confiava demais nos outros. Foi envenenada e... não pudemos salvá-la.
Ela virou a cabeça para o outro lado e enxugou uma lágrima do olho.
— Eu... isso é horrível, Sylva — lamentou Fletcher.
Tudo começava a fazer sentido. A dificuldade que Sylva tinha de confiar, de importar-se com os outros. Sua desconfiança constante de seus motivos. Tudo se resumia àquilo.
— Por que alguém faria uma coisa dessas? — sussurrou Fletcher.
— Foi minha irmã — disse Sylva, e seu rosto endureceu mais uma vez. — Ela era mais velha. Queria ser a chefe do clã, e sabia que era a próxima na linha de sucessão. Quando encontraram cicuta em seu quarto, soubemos que tinha sido ela, mas não podíamos provar nada, por isso ela foi banida de nossas terras. Não a vejo há oito anos.
Fletcher balançou a cabeça, horrorizado. Imaginara, sem saber bem o porquê, que os elfos estivessem acima de maldades como aquela.
— Então... por que você não virou a chefe do clã? — indagou Fletcher, desejando mudar de assunto.
— Eu não tinha idade suficiente. Ainda não tenho. Meu pai assumiu a posição. Em nossa sociedade, a liderança é passada da mãe para a filha mais velha ou, se não houver nenhuma, para o filho mais velho. Então, por isso a maioria das chefes de clãs élficos eram mulheres. Um contraste gritante com a sociedade de Hominum. Mas, enfim, chega desse assunto — pediu Sylva, ajoelhando-se. — Fico feliz por você ter tido a chance de conhecer sua mãe. Ela é um amor.
A elfa se inclinou para a frente e beijou o topo da cabeça de Alice. E então algo impressionante aconteceu: Alice levantou a mão e a pressionou contra a bochecha de Sylva.
— Mãe? — disse Fletcher, com o pulso acelerado. — A senhora consegue me ouvir?
Ele se inclinou para a frente e a olhou nos olhos. Por um brevíssimo instante, sua mãe devolveu seu olhar. Em seguida, ela baixou a mão para o colo e encarou com olhar vazio os arvoredos.
A esperança inundou Fletcher.
Talvez a mãe pudesse ser salva. Ela precisava de normalidade, conforto e cuidados, e ele sabia que eles não conseguiriam encontrar nada daquilo ali, naquela terra desolada e soturna. Sylva tinha razão: ele precisava fazer alguma coisa.
— Atena — chamou, puxando a Griforuja do colo da mãe.
Ela soltou um bocejo descontente, mas abriu as asas relutantemente e olhou para ele, cheia de expectativa.
— E aí, o que acha de fazer um reconhecimento?

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!