13 de março de 2018

Capítulo 5

Depois de um ano inteiro, Fletcher tinha quase esquecido como o pergaminho de conjuração era horripilante.
Tratava-se de uma única folha de material amarelado e coriáceo. As letras órquicas eram formadas por linhas grosseiras em alto-relevo, de modo que até um cego poderia lê-las usando apenas o toque. Traços levíssimos da tradução de Baker estavam marcados abaixo, mal visíveis ao olho nu.
— Este pergaminho, se é que podemos chamá-lo assim, não é nada como o objeto que Didric descreveu. Não tem nenhuma tinta que se possa mencionar, nenhuma borda enrolada em nenhum lado, nem é feito de papel ou nada parecido — anunciou Arcturo, um dedo acusador apontado para Didric. — Na verdade, é feito com a pele de alguém. A vítima teria as letras marcadas nas costas, e, uma vez que os ferimentos tivessem se curado e formado cicatrizes, a pele seria esfolada e curtida para formar este objeto repugnante.
Houve exclamações de horror do público. Um homem saiu correndo do tribunal, com as mãos sobre a boca. Enquanto os sons de vômito permeavam o aposento, outros seguiram, atropelando-se em busca de ar fresco. Nem todos saíram a tempo.
— Guardas, arranjem alguém para limpar aquilo — comandou o juiz cujo próprio rosto estava ficando esverdeado. — Vamos fazer um breve recesso. — Ele desceu apressado do pódio e desapareceu por uma porta lateral.
Didric tinha ficado pálido, mas se manteve completamente calado. Ao encarar Fletcher, a cor voltou ao rosto e o choque tornou-se raiva.
— Fletcher — disse Arcturo, agachando-se ao lado dele. — Você está ferido? Eles machucaram você?
— Estou bem. É... é bom ver você.
De repente, Fletcher se sentiu desajeitado, as palavras tropeçando na língua. Não estava acostumado à gentileza... não mais. Seu corpo estremeceu, e ele sentiu lágrimas salgadas descendo pelo rosto. Não tinha percebido como estivera solitário até aquele exato momento.
Arcturo apertou o ombro de Fletcher.
— Vamos tirar você daqui. Sentimos muito a sua falta.
— Como estão os outros?
— Não vemos Sylva desde o Torneio. Ela foi levada voando de volta para casa assim que o rei Harold soube dos ferimentos. Ele ficou furioso, assim como os elfos, obviamente. — Arcturo fez uma pausa, depois respirou fundo. — Berdon foi jogado na cadeia com acusações falsas. Eles só podem segurá-lo por umas poucas noites, então não se preocupe. Didric só não queria que você o visse. Negou a você até esse mísero conforto.
— Aquela víbora — rosnou Fletcher, moendo os nós dos dedos nas tábuas do chão. — Vou me vingar dele, nem que seja a última coisa que eu faça.
— Cuidado — avisou Arcturo, olhando em volta para o caso de alguém ter ouvido. — Lembre-se que estamos num julgamento de homicídio.
— E quanto a Otelo? — indagou Fletcher.
— Otelo está em Vocans. Átila e uma jovem anã, Cress, entraram para a academia este ano. De fato, estão se preparando para seu primeiro Torneio enquanto conversamos. Otelo ficou para garantir que a transição será tranquila; rejeitou uma comissão para tanto. Isso quer dizer que ele poderá liderar os recrutas anões, o que nos é ideal.
Arcturo olhou para trás ao perceber o juiz voltando ao seu lugar, com o rosto livre do tom esverdeado.
— Otelo sente muito a sua falta. É graças à família dele que este julgamento está acontecendo. Eles peticionaram ao rei para garantir que você teria uma audiência, e conseguiram assegurar um juiz que não estava de conluio com o Triunvirato. Pode acreditar em mim quando lhe digo que não restam muitos.
— Espere... sobre o Triunvirato... — Fletcher começou a perguntar.
O juiz martelou a mesa, silenciando novamente o aposento.
Arcturo lhe lançou um olhar que dizia mais tarde.
— Capitão, está claro que há algumas discrepâncias na história apresentada pelas testemunhas e a acusação. Você tem mais alguma prova a apresentar?
— Tenho sim, meritíssimo — respondeu Arcturo, caminhando de volta ao púlpito das testemunhas. — Porém, antes eu gostaria de fazer mais algumas perguntas às testemunhas. Por favor, respondam em ordem; primeiro Jakov, depois Calista e por fim lorde Cavell. Há alguma coisa que vocês gostariam de mudar em seu testemunho?
Os olhos de Jakov dispararam para Didric, que balançou a cabeça quase imperceptivelmente.
— Não — disse Jakov.
— Não me lembro. Não — murmurou Calista, contemplando as mãos.
Didric se levantou e declarou à audiência, em voz alta e confiante:
— Eu gostaria de dizer que este pergaminho órquico não prova nada. A memória é uma coisa fugaz; sua linha de questionamento apenas me levou a descrevê-lo assim.
— Sim, porque você nunca viu o pergaminho antes. Não era sua memória que eu estava testando, era a sua mentira — retrucou Arcturo, erguendo a voz para que todos pudessem ouvir. — Agora responda à minha pergunta.
— Obviamente eu não vi o pergaminho tão bem quanto eu pensava — admitiu Didric com voz entediada. — Mas a minha história ainda se sustenta. Não se pode conjurar um demônio sem um pentagrama feito de, ou inscrito em, material orgânico. Ele tinha um couro de conjuração. Eu vi.
Arcturo sorriu, juntando as mãos deliberadamente.
— Você está parcialmente correto, Lorde Cavell. Realmente é necessário um pentagrama formado de material orgânico para conjurar um demônio. Você pode pensar no que Fletcher poderia ter em mãos que se encaixaria nessa descrição?
— Espere... — gaguejou Didric, e seus olhos se iluminaram com reconhecimento. Só que era tarde demais.
— Era, na verdade, o próprio livro! — anunciou Arcturo, abrindo a mochila e retirando a capa do livro com um floreio.
Era a mesma que fora removida do diário que Fletcher tinha deixado na cela. O couro estava empoeirado e envolvendo aquilo que deveria ser uma cópia do original, mas ele reconheceu o pentagrama na frente.
— Outra mentira — prosseguiu Arcturo, meneando a cabeça. — Posso solicitar que testemunhas sejam trazidas por via aérea, a dama Fairhaven e o próprio lorde Cipião, para corroborar que Fletcher lhes contou que usou estes dois itens para conjurar o demônio. Será necessário, meritíssimo?
— Não, Capitão, acredito em você. Por favor, nos dê a versão dos eventos conforme seu ponto de vista.
Arcturo deu as costas à audiência, dessa vez dirigindo sua linha de argumentação ao juiz.
— Uma noite, anterior à noite em questão, Didric atacou Fletcher e sofreu uma derrota embaraçosa nas mãos deste, perdendo muito do respeito de seus pares. Na noite seguinte, ele ou um de seus companheiros viu Fletcher a caminho do cemitério. Didric reuniu seus cúmplices e o seguiu, chegando depois de Fletcher ter conjurado seu demônio. Em busca de vingança, eles atacaram o garoto cujo demônio reagiu instintivamente para defender o mestre. Como vítima, em vez de agressor, Fletcher fugiu. Se ele realmente quisesse assassinar Didric e seus amigos, teria ficado para terminar o serviço, já que tinha a vantagem. — Arcturo fez uma pausa, como se algo tivesse acabado de lhe ocorrer. — Isso foi nada mais que uma repetição dos eventos da noite anterior. Didric ataca Fletcher e é derrotado quando Fletcher age em legítima defesa. Há um padrão, aqui. Considere isso, meritíssimo, quando decidir seu veredicto.
O juiz piscou devagar para Arcturo, como se estivesse profundamente imerso em pensamentos. Reclinou-se na cadeira e esfregou a cabeça com o martelo. O salão ficou completamente silencioso, todos fitando o velho que fechava os olhos. Os minutos se passaram, o silêncio pesando sobre o cômodo. Por um momento, Fletcher chegou a pensar que o juiz havia caído no sono, então pulou de susto quando o magistrado subitamente falou, de olhos ainda cerrados.
— Cheguei a uma decisão. Fletcher Wulf, você é acusado da tentativa de homicídio do lorde Didric Cavell. Por favor, levante-se para receber seu veredicto.
Fletcher se levantou com dificuldade, obrigado a ficar desajeitadamente curvado, pois a corrente presa aos seus grilhões era curta demais para que ele ficasse ereto.
Aquilo tudo acontecia rápido demais; ele mal tinha começado a processar tudo. Seu futuro estava no fio da navalha, um abismo de desespero de um lado, um destino desconhecido do outro. O rapaz sentia a pulsação palpitando nos ouvidos enquanto seu coração martelava, os sons eram tão altos que mal ouviu as palavras vindas do juiz.
— Considero o réu... inocente de todas as acusações.
Fletcher desabou de joelhos. Sentiu Arcturo dando tapinhas animados em suas costas, ouviu o rugido da multidão atrás de si. Era tão surreal. Não tinha percebido antes, mas jamais acreditara de verdade que seria considerado inocente. Porém, de alguma forma, pelos esforços da família de Otelo e dos professores em Vocans, ele acabava de ser resgatado de uma vida inteira de cárcere e de coisas muito piores.
Fletcher encarou Didric por entre as lágrimas, piscando para clarear a visão. Era estranho, mas sua nêmese não parecia furioso. Na verdade, parecia apenas franzir o cenho, como se estivesse levemente aborrecido com o veredito.
— Ordem, ordem! — berrou o juiz, enquanto os espectadores continuavam a gritar no fundo. O silêncio voltou conforme o ruído morria a cada martelada do juiz.
Só que um som permanecia. Um bater de palmas lento, vindo do fundo do aposento. O barulho continuou, mais alto conforme se aproximava. O juiz não fez nada para interromper as palmas, franzindo as sobrancelhas e observando com interesse.
— Muito bem feito; mas que interessante — disse uma voz sardônica.
O inquisidor Rook surgiu com um sorriso torto no rosto. Vestia o uniforme da Inquisição, um longo casaco negro, similar a uma batina, com decoração militar. Fletcher sentiu o estômago se revirar de repulsa ao ver o homem. Rook era racista e preconceituoso, e nutria um ódio profundo por ele.
— Tenho que admitir, você se superou desta vez, Arcturo. Uma performance magistral. Por um momento ali eu achei que você tinha perdido, mas, ah, minha nossa, você virou o jogo no fim. — Rook continuou batendo palmas devagar enquanto sorria e acenava com a cabeça para o público.
— Ahm, inquisidor Rook. Por favor, sente-se para que eu possa soltar o rapaz. Você não tem jurisdição sobre um julgamento civil. Este não é um tribunal militar. — O juiz falava com voz firme, mas que tinha um tom de medo de que Fletcher não gostou.
Rook assentiu, pensativo, enquanto passava pelos pódios e arrastava os dedos neles.
— Eu entendo, meritíssimo. Perdoe minha intrusão, mas eu não removeria os grilhões ainda. Tenho outra acusação a fazer contra o senhor Wulf aqui.
Os olhos de Rook faiscaram ameaçadoramente às palavras, por mais que seu rosto continuasse a imagem da inocência.
— Isto é ridículo — rosnou Arcturo, parando diante de Rook. — Que acusação você poderia trazer contra o rapaz?
Rook voltou enquanto um grupo de soldados marchava tribunal adentro, carregando um conjunto de correntes pesadas.
— O pior crime de todos — rosnou ele, agarrando Fletcher pela nuca. — Alta traição.

5 comentários:

  1. aaaaaaaaaaaaaaaaaffffff qual é o PROBLEMA DESSE POVO!! AAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHH

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    1. Calma meu jovem todos sentimos isso a incrivel vontade de matar rook

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    2. Aaaaaaa a que esse Rook quer fazer agora??

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  2. VSF
    PQP
    O garoto mal acaba de sair de um problema é já vêm outro
    Pra que tanto personagem desagradável em um só livro?!?!? ASSIM N DÁ

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  3. ''— Sim, porque você nunca viu o pergaminho antes. Não era sua memória que eu estava testando, era a sua mentira[...]''. Sem palavras...🤐

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Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!