22 de março de 2018

Capítulo 59

Atena não pôde mais se demorar, porque os demônios que haviam lutado com Ignácio no céu por fim retornaram. Fletcher a abraçou junto ao peito quando ela aterrissou a seu lado, absorvendo o amor e o conforto que ela lhe dava. Sentia saudades dos amigos.
A viagem era lenta, pois a carroça estava sobrecarregada de feridos e idosos. Mesmo quando as crianças saíram para ir de cavalinho nas costas dos pais, a Fletcher o ritmo mais parecia o de uma procissão fúnebre. Aqui e ali, ele via sinais de por onde os gremlins haviam passado antes deles: um pouco de casca de fruta espalhada aqui, as fezes de um pequeno mamífero ali. Azul e Meia-Orelha papeavam alegremente ao ver aquilo, chegando até a farejar e amassar o esterco para determinar a quanto tempo de distância os gremlins estariam dali.
À medida que os minutos passavam, Fletcher distraía-se com suas responsabilidades: observava se os javalis estavam sendo trocados a cada meia hora enquanto eles arrastavam sua carga pesada pela precária estrada de terra; enviava Atena para ficar de olho no terreno que deixavam para trás.
Ela não levou mais que uma hora até avistar a nuvem de poeira causada pela perseguição dos goblins, que manchava o horizonte, como um hematoma. Eles estavam se movimentando em um ritmo furioso, disso Fletcher tinha certeza.
E, durante todo aquele tempo, seu coração estava desesperançado, retorcendo-se no peito. Porque, à medida que o inimigo se aproximava, ele percebeu que eles não iriam conseguir chegar. Não até Corcillum. Teriam sorte se conseguissem sequer chegar até a ponte a tempo.
Entretanto, apesar disso, ele os incitava adiante. A Ponte Watford era um bom lugar para guerrear, pois seus soldados poderiam enfrentar os goblins em grupos de dez, lado a lado, até o último homem. Talvez o resto das pessoas tivesse uma chance de escapar então, escondendo-se no meio da paisagem áspera e irregular enquanto os goblins voltavam os olhos para Corcillum.
— Genevieve, alguma novidade? — gritou Fletcher. A jovem oficial estava cambaleando, como uma sonâmbula, os olhos fixos no cristal de visualização que levava entre as mãos. Ela balançou a cabeça, em choque.
Assim, eles seguiram em frente pela savana, observados por antílopes curiosos e um bando preguiçoso de leões. Fletcher ia atrás, apressando os retardatários e observando a névoa de poeira crescente que se espalhava pelas planícies. A vanguarda dos inimigos agora não estava a mais que alguns minutos de distância.
Fletcher ouviu gritos lá na frente. Havia uma ladeira ali, parte de um morro amplo, sobre o qual a estrada de terra continuava na frente da ponte. Os javalis estavam tendo dificuldades para puxar sua carga pesada pela estrada, exaustos depois daquela viagem a toda velocidade pela savana. Pior, a estrada tinha ficado sulcada por causa de todos os comboios que haviam passado por ela nos últimos meses, e agora as rodas da carroça giravam em falso naqueles canais profundos.
Berdon e os outros acrescentaram seu peso aos fundos da carroça, esperando que assim ela se inclinasse para cima, mas não adiantou: os javalis se recusavam a puxar. Um deles tombou sobre os joelhos dianteiros, completamente exaurido.
— Lorde Raleigh! — berrou Mason.
Fletcher virou-se e viu os primeiros goblins avançando pela savana alta em sua direção. Eles tinham menos de um minuto até que os goblins os alcançassem. Atrás, os vultos imensos dos orcs podiam ser vistos no calor tremeluzente, as pinturas de guerra contrastando com a pele cinzenta.
— Raposas, comigo! — chamou Fletcher. — Berdon, tire todo mundo da carroça e atravessem a ponte. Vamos lutar aqui para vocês fugirem.
Porém, enquanto os soldados de Fletcher se reuniam exaustos a seu redor, Berdon juntou-se a eles, acompanhado de uma dúzia dos colonos mais fortes. Alguns carregavam machados consigo, enquanto outros levavam picaretas e facas de cozinha.
— Thaissa e Milo estão cuidando disso — resmungou Berdon, brandindo um martelo de sua forja. — A gente não vai deixar vocês lutarem sozinhos.
— Berdon... — Fletcher começou a dizer.
— Não! — interrompeu o ferreiro, segurando-o pelos ombros. — Eu não vou perder você de novo. Vamos ficar juntos, não importa o que aconteça!
Fletcher olhou para o rosto do pai e viu o ar de desafio ali. Não havia como impedi-lo.
— Vão para trás, então — disse Fletcher, dando um sorriso triste para Berdon.
Os homens entraram em formação atrás da carroça, e Fletcher livrou os javalis das amarras. Os animais caíram exaustos no chão, cansados demais para se mexer. Atrás deles, os colonos estavam carregando os feridos morro acima; alguns já tinham desaparecido no alto. Fletcher esperava apenas que conseguisse conter os goblins por tempo suficiente para que eles se escondessem.
Fletcher procurou Rotherham para dar a ordem, ou Sir Caulder, ou mesmo Rory. Seu coração se apertou ao perceber que eles não estavam ali. Os olhos de Genevieve estavam foscos e sem vida enquanto ela voltava trôpega para a carroça. Ainda estava em estado de choque.
Aquilo dependeria apenas dele.
— Enfrentem o inimigo e recuem em formação de meia-lua! — ordenou Fletcher. — Fiquem de olho nos flancos!
Eles formaram um meio círculo irregular, as alabardas pendendo de seus braços cansados. Era tudo inútil. Ali, lutando em campo aberto, eles não durariam mais que alguns minutos.
Os goblins estavam a uns cem passos de distância agora, reunindo coragem para atacar o pequeno grupo de sobreviventes. Porém, quando Fletcher começava a ter esperanças de que conseguiriam subir o morro e alcançar a ponte estreita localizada além dele, um chifre soou. Com um grito de ódio, a onda cinzenta arremeteu para a frente.
— Ponto final, Raposas! — Fletcher ouviu Kobe gritar. — Vamos levar alguns deles conosco.
Os soldados soltaram um grito de encorajamento, as vozes fracas mal se ouviram no meio do estrondo dos clarins. Agora Fletcher sentiu um tremor sob os pés conforme centenas de goblins desataram a correr, os escudos erguidos, gritando selvagemente por sangue.
Mas o barulho que ecoara pelas planícies não vinha do inimigo. Não.
Vinha de trás deles. Fletcher virou-se para olhar para o alto do morro, piscando ante a luz do sol que se erguia acima de seu zênite.
O chão agora estava tremendo, e o coração de Fletcher congelou quando uma fileira de sombras surgiu no cume. Os goblins os tinham encurralados.
— Formem um Schiltron! — gritou Fletcher, desesperado. — Berdon, Azul: ponham seus homens no centro!
Mas não havia tempo: os vultos do alto do morro estavam em movimento, e Fletcher ouviu o barulho ritmado de cascos, viu o luzir do metal.
Porém aqueles não eram goblins.
Eram anões, as barbas ao vento enquanto cavalgavam javalis ensandecidos em uma investida trovejante. Eles se separaram como um rio se divide em dois ao redor do pequeno grupo de combatentes de Fletcher e caíram em cima dos poucos corredores goblins, brandindo os machados de batalha, os elmos cintilando à luz da aurora. E Otelo vinha à frente, empunhando um enorme machado com amplos movimentos dos braços poderosos.
— Corra, Fletcher! — berrou Otelo.
— Eles vieram — disse Fletcher, baixinho, a esperança acendendo-se em seu peito. Entretanto, enquanto seus salvadores digladiavam com o inimigo, ele soube que aquela luta não seria fácil.
Havia apenas uma centena de cavaleiros, e atrás dos batedores dispersos, as hordas aguardavam com uma parede maciça de lanças. Meia dúzia de anões já tinha sido abatida; seus javalis foram mortos ou estavam prestes a morrer, atravessados por lanças. Os remanescentes recusaram-se a passar pela fileira: davam as costas e iam pelos cantos. Fletcher sabia o que precisava fazer. Os anões precisavam de uma abertura na muralha de lanças. Ele não abandonaria Otelo, não agora.
— Ataquem! — gritou ele. — Por Hominum!
Eles se lançaram ao inimigo, correndo caoticamente pela ladeira, as alabardas estendidas à frente. Aos gritos, caíram em cima das linhas semiformadas de goblins, dando machadadas ao lado das lanças e atingindo as criaturas espantadas com abandono frenético. Otelo berrou uma ordem.
— Fogo!
Bacamartes soltaram nuvens de chumbo nas hordas reunidas, abrindo buracos na formação cerrada. Fletcher rosnou ao enfiar a espada na garganta de um goblin enquanto o martelo de Berdon lhe dava cobertura na lateral.
Os gremlins guincharam abaixo, atacando com seus punhais para incapacitar o inimigo, antes que as alabardas os despachassem com golpes rápidos e brutais das lâminas de machado.
Então os javalis começaram a pisotear os goblins ao lado, arrasando suas fileiras falhas, como ceifadores nos campos. O ar tremeu com um trovejar baixo quando o vulto áspero de Salomão caiu sobre os sobreviventes que estavam atrás em um ataque indomável, fazendo os goblins saírem voando alto pelos ares, com grandes golpes em arco de seus punhos.
Uma dor lancinou Fletcher quando uma lança atingiu seu antebraço, e Berdon rugiu para esmagar o culpado pelo golpe até a morte. Um relâmpago estalou à direita, fazendo um punhado de goblins morrer em convulsão. Fletcher viu Cress correndo por cima deles, berrando seu grito de batalha enquanto conduzia os anões que tinham perdido seus javalis em um ataque, Tosk saltando a seus pés. Os reforços aumentaram os flancos do exército de Fletcher enquanto, unidos, seus combatentes pressionavam as massas de selvagens, abrindo caminhos que os cavaleiros de javalis pudessem explorar. Ele ouviu os roncos das feras porcinas às costas, viu goblins rodopiando pelos ares depois de serem perfurados pelas presas compridas e amarelas.
Agora eles tinham avançado fundo no meio da horda, num círculo de homens e anões combatentes, enquanto os inimigos os fechavam por trás. Os goblins, porém, estavam virando de costas, tremendo de medo, conforme tentavam escapar do massacre insano e suicida dos corajosos aliados.
Fletcher subitamente percebeu que sua lâmina atravessava o ar vazio, pois os goblins agora começavam a fugir aos trambolhões de seu pequeno grupo de soldados. Ele viu a luminosidade azul de um feitiço, mas, antes que pudesse virar-se para ver o que era, uma parede de barulho o engolfou a toda velocidade. A onda de choque atirou-o para longe — o mundo girava e rodopiava enquanto ele cambaleava pelos ares. Ele aterrissou na grama, ainda segurando com firmeza a espada.
Sentiu sangue em seus lábios quando esforçou-se para se pôr de pé.
Então sua mente começou a rodar quando ele viu a devastação adiante.
Uma explosão cinética atirara uma centena de goblins para as cucuias no centro do exército inimigo. Alguém tinha usado todo o seu mana em um ataque único e brutal.
Nos limites da detonação, goblins cambaleavam, tontos e sem as armas, que tinham sido perdidas. Havia pelo menos mil ainda de pé, e uns quinhentos que se levantavam novamente. Seus guinchos tinham sido subitamente silenciados pela explosão.
Agora eles encaravam os anões, que continuavam massacrando os goblins que tinham escapado da explosão perto das linhas de frente da batalha, e os corpos de seus irmãos, que cobriam o terreno.
Então, como se fossem um só, viraram as costas e saíram correndo.
Foi um grande êxodo cinzento, em que os orcs iam à frente do bando em uma tentativa desesperada de escapar de quaisquer perseguidores. As armas foram deixadas para trás, e os mais lentos acabavam sendo pisoteados pelos que vinham atrás, à medida que a onda de inimigos se deslocava.
Em breve restavam apenas os feridos, que mancavam o mais depressa que podiam, enquanto os anões liquidavam os que restavam em suas linhas de frente.
Eles tinham vencido. Fletcher caiu de joelhos, as mãos trêmulas enquanto soltava o khopesh. Sentiu os braços de Berdon o enlaçarem, e enterrou o rosto no peito do pai, ofegando de alívio.
— Avante! — berrou um anão. — Sigam-nos até a floresta!
A terra tremeu ali perto quando os javalis passaram a galope na perseguição.
— Infantaria, comigo! — Fletcher ouviu Cress ordenar. — Matem os sobreviventes.
Fletcher afastou-se do pai, e Berdon o pôs de pé. Eles ficaram ali, parados, exaustos demais para juntar-se ao massacre dos goblins, muitos dos quais estavam caídos, feridos e moribundos, em meio à confusão de carcaças que se estendia ao longo da linha de batalha. Fletcher viu a trilha de cadáveres que deixaram atrás de si, uma via de corpos cinzentos e grama manchada de sangue. Mas havia uniformes verdes entre eles. Ele desviou os olhos; não queria ver seus rostos. Não conseguiria suportar. Ainda não.
Os gremlins e anões não compartilhavam do mesmo mal-estar, e Fletcher teve de desviar o olhar enquanto eles levavam a cabo sua tarefa sangrenta.
Ele estava farto de tanta morte, de tanto sangue. Os urubus já começavam a circular no alto, esperando pelo banquete. Não havia nenhuma glória ali.
Então ele ouviu um grito de agonia de Cress. Alguma coisa não estava certa. Ela estava ajoelhada entre os cadáveres, com a cabeça baixa, segurando um corpo flácido e barbado em seus braços.
Um rosto que ele reconhecia.
— Otelo — soluçou Fletcher, cambaleando pelos corpos quebrados. — Não. Não, não, não.
Ele repetia aquela palavra sem parar enquanto se aproximava de Cress e caía de joelhos ao lado da anã.
— Ele se foi — chorou Cress, afastando um cacho ruivo da testa manchada de sangue do jovem anão. — Não consegui curá-lo.

14 comentários:

  1. Taran MatharuO OTELO NAO porfavor otelo nao! acho que acabou de cair un caminhao de areia nos meus olhos.
    Taran Mathatu seu assasino! Como posso te amar e odiar ao mesmo tempo.

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  2. Pqp...é muita tragédia...que história sofrível...ainda bem que estou lendo de graça...se tivesse comprado esses livros estaria muito p da vida...só desgraça...

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  3. Cara porque fazer isso?! Tipo eu me lembrei depois que o rory morreu que ele e o otelo tem um livro extra ai eu pensei "pera se o rory tem livro extra e morreu então pela logica o otelo tambem morreria... Não, provavelmente eu to enganada!" ai aparece esse capitulo

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  4. Não acredito 😭😭😭😭😭

    Pqp se o Didrik não for penalizado, vou ficar extremamente put*

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  5. Eu não acredito que Otelo morreu! É o melhor amigo dele!! Não posso acreditar! Meu coração tá partido.

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  6. affs todo mundo morrendo so falta os orcs venserem

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  7. Poorraaaaaa manoo, com essa merda aí eu fui obrigada a comentar! Mais que merda é essa? A pessoa que escreveu esses livros tem sérios problemas, pq mano nunca vi ninguém matar tantos personagens bons e deixar os ruins vivos e impunes.

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  8. Não tem lógica matar o melhor amigo do carinha carambaa

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  9. Torcendo para não ser Otelo e sim o gêmeo

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  10. MANO, QUANDO ELES APARECEREM É ISSO? MEU DEUS, CHORRANDO AQUIII

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Boa leitura, E SEM SPOILER!