22 de março de 2018

Capítulo 58

Eles correram. Correram até o peito arder pela secura do ar da savana, tropeçando pelo chão irregular em direção a Raleighshire, com o chacoalhar das rodas da carroça em seus ouvidos.
Fletcher deixara Atena sobre as rochas acima da Fenda, para que eles pudessem saber o quanto estavam na dianteira dos goblins. Fez o melhor que pôde para não olhar as duas silhuetas desamparadas que aguardavam com as espadas em punho lá embaixo. Contudo, os orcs continuavam esperando, para que suas fileiras inchassem com os reforços que não paravam de emergir da floresta. Logo eram tantos que tinham ultrapassado a primeira fila de estacas e quase alcançavam a segunda. Devia haver uns três mil goblins ali; um exército que poderia arrasar Corcillum, caso tivesse a chance.
Meia hora se passou, e Fletcher e seus soldados tropeçaram nas ruas de calçamento de pedra vazias de Raleightown e, em seguida, até a estrada de terra que começava do outro lado. Entretanto, justamente quando Fletcher sentiu uma onda de alívio ao ver a colônia abandonada, o ataque dos goblins começou.
Eles tinham aprendido a lição. Os orcs enviaram primeiro uma tropa de batedores, vinte e tantos goblins que entraram com passos assustados na Fendas coberta de cadáveres.
— Venham, seus feiosos tampinhas raquíticos! — Atena ouviu Rotherham gritar com voz fraca, e Fletcher deu um sorriso amargo.
Ele não podia assistir àquilo, mas ouviu os goblins guincharem quando descobriram os dois espadachins solitários à espera.
— Matei o canalha! — vociferou Sir Caulder, quando uma luta ferrenha começou nos confins estreitos da Fenda.
Fletcher desviou os olhos do cristal. O sol terminava sua longa jornada em direção ao horizonte. Teria mesmo tanto tempo se passado? Talvez a batalha tivesse sido perdida e milhares de orcs estivessem invadindo Hominum. E onde estariam Berdon e os outros colonos? Teriam conseguido voltar sãos e salvos até Corcillum, ou teriam saído tarde demais e estariam a poucas milhas de distância à frente?
Enquanto os gritos dos goblins reverberavam em sua cabeça, o coração de Fletcher afundou no peito. Logo atrás de um pequeno arvoredo, era possível avistar um grande comboio de carroças. Que não se movia.
— Que diabos ainda estão fazendo aqui?! — berrou Fletcher, com voz rouca, enquanto saía correndo na frente de seus soldados.
Viu Berdon, o cabelo ruivo flamejando à luz do crepúsculo. O homenzarrão estava agachado atrás dos fundos da última carroça, rodeado por uma dúzia de colonos.
Os olhos do pai de Fletcher se arregalaram quando ele viu as roupas sujas de sangue e fuligem. Então o rapaz foi envolvido em um abraço de urso, tão apertado que quase sentiu as costelas se quebrarem. Ele deu tapinhas nas costas de Berdon, sem parar, até que aquele homem afetuoso, que mais parecia um urso, deixasse os pés do filho pousarem no chão novamente.
— Você está vivo — constatou Berdon, enxugando uma lágrima do olho.
— Não por muito tempo se não formos embora depressa — disse Fletcher, resistindo à vontade de chorar também. — Vocês já deviam estar em Corcillum a esta altura.
Os colonos ao redor murmuraram sombriamente.
— São as carroças — explicou Berdon, chutando a carroça mais próxima com um grunhido frustrado. — Alguém veio na noite passada e serrou os eixos quase que totalmente. Tivemos sorte de conseguir chegar até aqui antes de começarem a partir. A sua é a única intacta, porque na hora que fizeram isso nós a estávamos carregando.
— Didric — disse Fletcher, baixinho. — Ele nos sabotou para prejudicar nosso comércio.
— Sim — concordou Berdon, inclinando-se mais para perto de Fletcher. — Aquele canalhinha desprezível. E agora esses tolos não querem partir, não sem suas coisas.
Fletcher virou-se para os colonos. Mais gente tinha se reunido ao redor, ao verem os soldados exaustos. Fletcher notou crianças e velhos entre eles. Gente demais para colocar na carroça.
— Escutem aqui — disse Fletcher, os olhos fixos nos deles, olhando para os homens e mulheres ali reunidos. — Daqui a menos de uma hora, milhares de goblins se espalharão por estas terras. Sir Caulder e Rotherham ficaram para trás a fim de atrasá-los. Seu sacrifício nos dará alguns poucos minutos de vantagem. Não vou permitir que eles morram enquanto discutimos os pertences de vocês e desperdiçamos a dádiva que eles nos deram. Nós vamos partir. Quem quiser ficar que fique. Estará nos fazendo um favor: matá-los irá atrasar os goblins.
Ele sabia que suas palavras eram duras, mas a verdade gritava em cada uma das sílabas.
— Quem não puder acompanhar o ritmo, pode se juntar aos feridos na carroça... as crianças, os idosos. O restante, deixem tudo menos as roupas do corpo. Agora vamos!
Os soldados os tinham alcançado àquela altura, e a carroça praticamente nem parou para permitir que os idosos e as crianças menores entrassem, pelos fundos. Com o peso extra, os javalis redobraram os esforços, e o veículo ia se movendo lentamente, bem mais devagar do que Fletcher desejaria.
Os gremlins começaram a saltar da carroça para aliviar o peso e se puseram a caminhar ao lado do grupo com facilidade, apesar das pernas curtas.
— Troquem nossos javalis por uma dupla de javalis descansada — ordenou Fletcher para Gallo, quando a carroça começou a arrastar-se pela grama. A estrada de terra estava bloqueada pelo comboio danificado. — E tragam tantos quantos puderem para deixar as pessoas mais lentas os montar. Vamos precisar trocar os da carroça com frequência se quisermos chegar até Corcillum.
O barulho da batalha era intenso em sua mente, e então Atena deu um rasante entontecedor sobre os rochedos acima. Dez goblins saíam mancando do canal enquanto Sir Caulder, ensanguentado, mas triunfante, levantava a espada para saudar a Griforuja. Rotherham estava apoiado pesadamente na lateral do corpo do Fantauro, as mãos agarrando um ferimento na perna, mas sorrindo ao gritar por cima do cadáver do demônio.
O chifre soou mais uma vez, tão alto que Fletcher estremeceu quando o ruído reverberou em seu crânio. Então as hordas avançaram pelo cânion, pisoteando o grupo de batedores que tinha sido enviado na frente e que agora batia em retirada.
— Não — disse Fletcher baixinho, enquanto Atena rodeava lá no alto.
Ele se concentrou em colocar um pé na frente do outro, mas não conseguia tirar os olhos da cena que se desenrolava no cristal colocado na frente de seu olho.
Um número duas vezes maior de goblins atacou, e mais uma vez os inimigos foram mantidos a distância pela habilidade e coragem dos veteranos. Um exército invasor, impedido de entrar no gargalo de um império apenas por dois velhos corajosos. O coração de Fletcher inchou-se de orgulho, embora os tentáculos do desespero começassem a se apoderar. Aquilo não tinha como durar.
Os goblins começaram a escalar o corpo do Fantauro e a atirar dardos e lanças, obrigando os combatentes a recuar. Os dois lutavam de costas um para o outro, juntos, as espadas relampejando em estocadas, enviando goblin atrás de goblin para a morte enquanto a massas guinchante fazia pressão sobre eles. Um orc abriu caminho e estalou um chicote aos pés dos dois, puxando Rotherham para que ele caísse de joelhos.
Sir Caulder brandiu sua espada e com ela atravessou a garganta do orc. Então ele enrijeceu o corpo, pois uma lança o empalara pelas costas.
— Hora de partir, Atena — sussurrou Fletcher, ordenando que a Griforuja se afastasse.
Ele olhou uma última vez para os dois homens, rodeados pelas hordas barulhentas: Sir Caulder de joelhos, Rotherham a seu lado, erguendo a espada desafiadoramente. Os goblins reunidos ali soltaram um uivo de vitória.
Então Fletcher já não pôde mais vê-los.
Ele sentiu lágrimas amargas rolarem pelo rosto enquanto Berdon silenciosamente abraçava seus ombros.
— Eles se foram — disse Fletcher.
Seus dois amigos tinham morrido em combate... e Raleighshire havia caído.

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