22 de março de 2018

Capítulo 57

O mundo se encheu com o barulho dos mortos e dos moribundos. Fletcher não olhou para baixo enquanto cambaleava de volta à segurança do muro, tentando ignorar os gritos agudos dos feridos enquanto os gremlins terminavam o serviço, liquidando os sobreviventes. Seus homens seguiram atrás, tontos com a vitória. Alguns mancavam, outros gemiam por conta dos ferimentos, mas nenhum parecia mortalmente ferido.
Em seu cristal de visualização, Fletcher viu que os goblins batiam em retirada. Passavam correndo pelos orcs, apesar das chicotadas cruéis que levavam. Não mais que um punhado restou no campo de batalha, olhando para a vala apinhada de cadáveres entre as paredes de pedra da montanha.
Então Fletcher o viu, e seus olhos tornaram a focar para além do cristal. Um vulto imóvel, sentado com as costas encostadas na parede. Rory. O garoto fitava o vazio, com um pequeno sorriso no rosto. Suas mãos apertavam a barriga, onde o sangue tinha se espalhado pelo tecido verde do uniforme.
— Rory... — balbuciou Genevieve, deixando cair a espada e correndo para seu lado. Ela o sacudiu, com lágrimas correndo pelo rosto. — Não, não, não, não.
Ela não parava de repetir aquela palavra, batendo no rosto do rapaz, de início suavemente, depois com mais força enquanto tentava trazê-lo de volta à vida. Fletcher ajoelhou-se ao lado dela e a puxou para longe, segurando suas mãos entre as próprias.
— Ele se foi — disse Fletcher, abraçando-a. Ele mesmo quase não conseguia acreditar em suas palavras.
Não tinha visto Rory naquela última batalha. Sua mente voltou ao jovem oficial, vendo-o cambalear à frente depois da batalha com o Fantauro. Rory devia ter sido ferido na luta corporal. Se Fletcher tivesse percebido, poderia ter salvado o amigo. Mas, agora, era tarde demais.
Seria culpa sua?
— Ele... não me disse que tinha sido ferido — sussurrou Fletcher, incapaz de tirar os olhos do rosto de Rory.
Sir Caulder se agachou ao lado dele e fechou os olhos do garoto com suavidade.
— Venham agora — chamou ele, levantando os dois. — Vamos deixá-lo em paz.
Mas Genevieve se recusou. Ela deslizou na parede ao lado de Rory e segurou a mão dele entre as suas uma vez mais.
— Ele ainda está quente — disse, afagando seus dedos.
Sir Caulder fungou, e Fletcher viu o brilho de uma lágrima em seu olho.
Os Raposas se reuniram em torno, de cabeça abaixada.
— Ele morreu lutando por seu país — disse Fletcher, as palavras saindo com dificuldade por causa do nó na garganta. — E era um homem mais corajoso que eu. Vamos garantir que ele não tenha morrido em vão.
Quando Genevieve começou a soluçar, Fletcher virou as costas. Somente minutos depois, quando as tropas tinham ido embora, foi que se permitiu chorar.


Duas horas se passaram. Metade dos orcs permaneceu, com uma centena de goblins, espalhados pelo cânion. Eles usavam seus escudos para se proteger do sol alto, esperando as ordens seguintes.
Os Raposas usaram aquele tempo para afiar de novo as lâminas, mas fora isso a única coisa que podiam fazer era descansar e revezar-se para vigiar os goblins, a meio caminho, pela torre de vigia acima.
Ignácio foi infundido, pois não havia mana para ele se curar, e as feridas causadas pelos dardos eram profundas nos flancos e no lombo do Drake. Fletcher lhe agradeceu com um beijo no bico. Sentiu a dor de Ignácio quando este desapareceu dentro de si.
Quanto a Genevieve, ela continuou ao lado de Rory, os olhos ardendo de raiva enquanto seus Carunchos continuavam a busca em meio a uma batalha frenética nas linhas de frente, segundo disse a Fletcher, repleta de tiros e de gritos de moribundos.
Assim, Fletcher aguardou junto ao muro, observando os desdobramentos com seu cristal de visualização. Não havia mais nada que pudesse fazer, além de torcer pelo melhor.
— Talvez os orcs tenham fugido — sugeriu Logan, cuspindo sobre o muro. — Talvez a gente os tenha assustado.
— Sem chance — disse Fletcher, tomando um gole imenso de água do cantil que levava consigo. — O Fantauro viu nossos poucos números antes de morrer, o que significa que um xamã também sabe disso. Eles não irão desistir. Vamos apenas torcer para que Genevieve receba uma mensagem de volta. O Corpo Celeste pode chegar a qualquer momento, se tivermos sorte.
Enquanto ele falava, um barulho ecoou pelo cânion — um chifre, sendo soprado com força e por muito tempo, servindo de trombeta. Era grave e alto, reverberando nas paredes que os rodeavam. Fletcher sentiu uma rajada de medo pulsar por Atena em um aviso frenético. Olhou para a tela rosada de seu cristal de visualização.
Centenas e centenas de goblins estavam emergindo da orla da floresta. Hienas rondavam as fileiras, acompanhadas de seus mestres orcs. A primeira onda de goblins tinha sido pastoreada de volta, e, pior, Fletcher viu espécimes de olhos irritados espalhados pelo meio das massas. Os inimigos que eles tinham acabado de enxotar estavam voltando, juntando-se à horda que tinha retornado ao campo de batalha.
— O que foi? — gritou Mason. A Fenda estava tão repleta de corpos que eles não tinham como ver a tempestade prestes a cair sobre eles.
Fletcher não iria mentir. Eles não tinham munição. Estavam sem pólvora, e os truques tinham acabado. Não sobreviveriam ao próximo assalto. Mal conseguiriam conter sua ferocidade antes que os goblins inundassem Raleighshire.
Olhou para seus corajosos soldados, que tinham combatido um exército que o superava em cem para um. Que tinha enfrentado um exército projetado para fazer toda Hominum cair de joelhos — e eles o tinham derrotado duas vezes.
E viu o rosto imóvel de Rory, além da fila de corpos cobertos pelas tendas mais adiante. Ele não poderia pedir aos homens que morressem, não em uma batalha que não tinham chance de vencer. Eles já lhe tinham dado tanto.
— Eles estão vindo, e nós estamos partindo — disse Fletcher. — Logan, Kobe: tragam a carroça para cá. Joguem fora a comida e coloquem os corpos de nossos Raposas ali. Deixem os dos Fúrias de Forsyth, não há lugar para eles agora.
Os dois soldados se colocaram em ação, correndo a toda velocidade pelo cânion. Fletcher foi até Rory e gentilmente o colocou nos ombros. Chamou os Raposas, que estavam transpondo as paredes de pedra.
— Quero os feridos e os gremlins na carroça também; vamos para a Ponte Watford.
No cristal, Fletcher viu os goblins se reunindo para o ataque. Os orcs não tinham pressa; esperavam enquanto cada vez mais goblins vinham pela floresta, hienas com dentes arreganhados logo atrás. Ele contou os segundos, sabendo que cada instante significava mais alguns passos à frente daquela horda. Será que eles iriam conseguir escapar? A carroça era ao mesmo tempo uma bênção e uma maldição, capaz de transportar os que não podiam andar, mas provavelmente mais lenta que os que podiam correr. Seria uma corrida a toda velocidade, de duas horas de duração, até a Ponte Watford, se eles seguissem apenas pelas estradas.
Enquanto ele refletia sobre a situação, o transporte chegou. Logan agitava as rédeas dos dois javalis que a arrastavam. Fletcher permitiu que Genevieve levasse o corpo de Rory até a carroça, incapaz de resistir a seu olhar cheio de tristeza quando ela esticou os braços para apanhá-lo de seus ombros.
— Você fez mais que qualquer pessoa poderia pedir — disse Sir Caulder, abraçando os ombros de Fletcher com seu braço bom. — Seus pais sentiriam orgulho do homem que se tornou.
Fletcher observou o último homem de Rotherham descer da plataforma. Estava na hora.
— Não vai fazer a menor diferença — disse Fletcher, chutando terra. — Teremos sorte se eles não nos alcançarem. Melhor você ir na carroça. Com sua perna...
— Bem, aí é que está — começou Sir Caulder, dando um sorriso triste a Fletcher. — Eu não vou.
— Como assim? — perguntou Fletcher, escutando um tanto distraído enquanto observava os feridos e os gremlins subindo na parte de trás da carroça.
— Tenho contas a acertar — revelou Sir Caulder, levantando a espada.
— Sir Caul...
— Não — disse o soldado idoso, interrompendo-o. — Aqui é meu lugar. Falhei com Raleighshire uma vez, não falharei nunca mais. Eu vou segurá-los e dar a meus rapazes uma chance de escapar.
— Você nunca vai conseguir atrasá-los sozinho, seu saco de ossos tolo! — disse a voz de Rotherham atrás dele. — Eles teriam dois caminhos para passar, e um só cadáver para impedir.
Sir Caulder grunhiu.
— Escute, Rotter, agora não é hora de...
— Então acho melhor eu ficar aqui com você — interrompeu o sargento grisalho, sacando a espada. Olhou para ela e sorriu com carinho. — Você me vendeu esta espada, Fletcher. Engraçado isso, né? Como as coisas mudam.
— Escutem aqui, não temos tempo para essas maluquices! — exclamou Fletcher, exasperado.
— Então é melhor vocês irem andando logo — aconselhou Rotherham. — Porque não vamos mudar de ideia. Vão, senão vai ter sido tudo por nada.
Fletcher abriu a boca para gritar com eles, mas então viu o olhar decidido nos olhos dos dois veteranos. Era inútil discutir.
— Eu... não sei o que dizer — balbuciou.
Sir Caulder deu um passo à frente e o abraçou. Seu corpo parecia muito frágil sob o tecido do uniforme.
— Cuide desse lugar depois que eu me for, certo, rapaz? — pediu ele, esfregando os nós dos dedos no rosto de Fletcher. — Você é verdadeiramente filho de seu pai. Foi uma honra.
Então ele se afastou a passos pesados, agitando a espada no ar.
— Vejo você do outro lado, garoto — disse Rotherham. — Uma última batalha para mim e este camarada rabugento. Vamos fazer com que seja digna de registro nos livros de História.
— Não vou deixar que ninguém se esqueça — assegurou Fletcher, sorrindo por entre as lágrimas.
— Não deixe mesmo! — grunhiu Rotherham, dando-lhe uma piscadela encorajadora.
Então ele também se foi, assobiando uma canção animada.
Fletcher observou os dois por um instante, seguindo resolutos para seu combate final, e depois virou as costas.
— Certo, Raposas! — chamou Fletcher, enxugando o rosto. — Vamos dar o fora daqui!

11 comentários:

  1. Mano! Eu vou chorar.

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  2. A Mano pera que caiu um cisco no meu olho...

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  3. 😭😭😭

    Rory T_____T Rotherham T_____T Sir Caulder T_____T

    Minha nossa... Chorando muito aqui :/

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  4. Que saco em , cade esse reforço gente

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  5. Tô chorando.
    Que triste :'(

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  6. Assim eu não aguento...

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  7. e o capeta do Didric continua vivo

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  8. Malditos ninjas cortadores de cebola

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  9. Sacrifícios, me lembrei do demonio da Sylva 😭

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Boa leitura, E SEM SPOILER!