22 de março de 2018

Capítulo 56

O clamor dos goblins era quase ensurdecedor conforme eles se aproximaram da entrada da Fenda, onde Fletcher e seus soldados aguardavam agachados ao lado da pilha de madeira e bambu, a fim de se proteger de algum projétil que os goblins pudessem atirar por trás do Fantauro. Por sorte, o demônio era uma barreira tão grande aos dardos dos goblins quanto era aos tiros de mosquete dos Raposas, e a maioria errou o alvo.
— É melhor a gente atacá-los na Fenda, onde a abertura é estreita — sussurrou Rory, abaixando-se ao lado de Fletcher. — Saltar a trincheira e partir para as pernas do Fantauro. Aí o número de soldados não importará tanto.
— Não, melhor esperar — instruiu Fletcher, observando a grande besta continuar sua jornada lenta. Ela estava quase na Fenda agora, e seu corpo enorme estava escondido pela sombra da montanha.
— Fletcher, se não fizermos algo agora, será tarde demais! — exclamou Rory, aos sibilos.
— Eu disse não, Rory — insistiu Fletcher, torcendo para o Fantauro andar mais depressa.
O monstro levantou uma orelha por um breve segundo, depois abaixou-a quando um tiro passou de raspão em uma de suas presas serrilhadas. Fletcher viu as marcas dos lugares onde ele tinha sido atingido pelas balas, com a pele inchada, e algumas até vertendo sangue, mas nenhuma fora fundo o bastante para causar qualquer estrago verdadeiro.
— Vai logo... — sussurrou Fletcher.
O Fantauro agora tinha atravessado a Fenda, e o chão tremia a cada passada de suas patas redondas. Os goblins estavam aglomerados atrás dele, reunindo coragem para atacar.
Uma pata se levantou e, em seguida, caiu no chão com um baque surdo, do outro lado da trincheira. Droga. Então a outra começou a se balançar... longe demais.
Fletcher sacou Ventania e a disparou em um único movimento fluido, esvaziando os dois canos. Um tiro passou de raspão na barriga do Fantauro com uma nuvem de poeira, mas o outro atingiu a ponta sensível da tromba.
O monstro soltou um guincho de dor e recuou um passo: direto na trincheira.
— Agora, Raposas! — berrou Fletcher, avançando na direção do inimigo.
O ar encheu-se de gritos de guerra, que foram, contudo, instantaneamente abafados pelo berro de agonia do Fantauro quando a sola sensível de seus pés foi empalada pelas pontas de lança. Ele rodou os braços e caiu, amassando uma dúzia de goblins sob o corpo em um estalar de ossos quebrados e gritos de terror.
Ignácio soltou um urro ao dar um rasante lá de cima, convocado pela consciência de Fletcher. Então, em um instante, eles já estavam entre os goblins, brandindo as alabardas. Um espécime com uma cicatriz no rosto tentou enfiar uma espada na barriga de Fletcher, mas ele desviou o golpe com a parte cega de sua lâmina e deu uma coronhada no goblin com um barulho satisfatório. Então foi hora de enfrentar o inimigo por trás enquanto Rory empalava o goblin com seu espadim e Fletcher cortava o ombro de outro até o osso. Depois puxou a lâmina da espada que estava enterrada no corpo do goblin e ele caiu no chão, onde Meia-orelha o aguardava com o punhal.
— Faça eles recuarem! — berrou Fletcher, abaixando-se quando a tromba do Fantauro tentou atingir os inimigos. — Protejam Ignácio!
Os rifles estavam disparando a todo vapor agora, e as balas ricocheteavam perigosamente da cara desprotegida do demônio gigantesco, atingindo os goblins reunidos atrás. O monstro moveu as orelhas, cobrindo os olhos novamente, e então os rifles voltaram a mira para os próprios goblins. Os tiros passavam desconfortavelmente perto das orelhas de Fletcher. Até uns mosquetes estavam atirando agora, mirando os inimigos que davam a volta pelo pequeno grupo de Raposas.
— O restante vem vindo aí! — Fletcher ouviu Rotherham berrar, então olhou para seu cristal: as multidões reunidas do exército inimigo corriam na direção da Fenda, centenas e centenas de selvagens berrando, enlouquecidos. Ele tinha menos de um minuto.
Com uma rajada de vento, Ignácio aterrissou no peito do Fantauro e enterrou as garras fundo na pele do demônio. A besta balançou as presas para um lado e para o outro, mas o Drake astuto tinha enfiado a cabeça entre elas, dando nesse momento uma bicada na tromba do demônio.
— Depressa! — gritou Fletcher, esfaqueando um goblin enlouquecidamente.
Ele transmitiu um sentimento de urgência pela consciência enquanto o rugido do exército atacante já começava a tomar conta dos ares. Rory saltou por cima dele, atacando como um louco a fim de manter os goblins para trás, cortando seus rostos em fatias. Do outro lado do Fantauro, Dália cantava uma canção élfica de batalha, e sua voz pura e suave era carregada acima do clangor da batalha.
Fletcher virou-se para ajudar Ignácio, mas o Drake já tinha cravado as garras dos dois lados da boca elefantina do Fantauro, abrindo-a com uma força brutal. Fletcher sentiu o mana enovelar-se da consciência do demônio, e então o bico de Ignácio soltou a tromba e enfiou-se na abertura cavernosa.
Chamas detonaram com força explosiva. O calor era palpável na Fenda estreita enquanto o Drake despejava bolas de fogo goela abaixo do Fantauro. A besta conseguiu dar um último guincho: a fumaça irrompeu da ponta de sua tromba oscilante. Então ela ficou em silêncio, carbonizada por dentro.
Morta.
— Recuar! — berrou Fletcher, puxando Rory para longe dos goblins.
O rapaz estava cambaleando, mas o seguiu para fora da Fenda, o chão tão repleto de cadáveres de goblins que eles tropeçaram por cima dos braços e pernas espalhados e os rostos congelados em um fitar eterno. Nenhum dos sobreviventes do regimento do Fantauro foi atrás dos dois, atônitos com a ferocidade do contra-ataque.
O restante dos homens não precisou ouvir a ordem duas vezes: saltaram para fora da trincheira e desataram a correr de volta à mureta. Fletcher parou diante da pilha de madeira enquanto Rory passava em disparada à frente.
Ignácio usara quase todo o mana dos dois naquele ataque, mas ainda restava um pouquinho. O suficiente para um último feitiço.
Fletcher fechou os olhos e puxou o que restava de suas reservas, permitindo que o que havia de suas energias atravessasse as veias. Ouviu-se um baque quando Ignácio aterrissou diante de si, e um lampejo de dor quando um dardo atingiu os flancos do Drake. O demônio usava o próprio corpo como escudo para Fletcher.
Com um grito primal de fúria, o jovem mago lançou uma onda de fogo sobre a madeira, transformando-a em uma fogueira que estalou com intenso calor.
— Eles estão quase na Fenda! — berrou Genevieve de trás das barreiras.
A cauda de Ignácio envolveu a cintura de Fletcher e o puxou para trás, e naquele mesmo instante mais dardos enterraram-se no chão próximo.
Fletcher vislumbrou uma coluna de fumaça subindo ao céu.
Então Ignácio abriu as asas e começou a batê-las em um ritmo longo e lento que atirava a neblina negra para o gargalo entre as montanhas. Foi aí que os gritos começaram.
Fletcher cambaleou para se pôr de pé e segurou o khopesh.
— Atacar! — gritou sem fôlego, correndo na direção da Fenda mais uma vez.
Os Raposas urraram e seguiram seu líder para o combate, umas poucas dúzias de almas corajosas contra uma interminável legião de selvagens.
Eles assumiram as posições dos dois lados da trincheira, os mosquetes mirando a nuvem profunda de fumaça, o cabelo flutuando a cada batida das asas de Ignácio. Fletcher identificou a forma vaga do Fantauro bloqueando a abertura com o corpo imenso. A fogueira continuou crepitando, e Fletcher viu a fumaça manchando as paredes da Fenda com uma substância semelhante a piche, tão espessa eram as suas cinzas.
Então a primeira leva de goblins entrou cambaleando para dentro da neblina, segurando os olhos e tossindo, esquecidos das lanças e escudos. A fumaça tóxica da mancenilheira os cegara e sufocara, como Fletcher sabia que aconteceria.
— Fogo! — vociferou Sir Caulder, e os tiros ondularam pela linha de batalha, fazendo os goblins tombarem.
Os gremlins entregaram seus mosquetes extras, e a ordem foi vociferada uma vez mais:
— Fogo!
A morte espalhou-se pelo terreno, diminuindo as fileiras de goblins, que guinchavam e agarravam a garganta. Dois deles caíram na trincheira, e seus gritos roucos de dor foram abafados quando eles foram empalados pelas pontas de lança no fundo. Então os gremlins rodearam a trincheira e se enfiaram no meio dos goblins restantes, cortando o tendão de seus tornozelos e joelhos com um abandono enojante, fazendo com que mais inimigos caíssem aos tropeços no buraco atrás deles. Os homens carregavam as armas freneticamente enquanto, lá em cima, Fletcher ouviu Rotherham gritar:
— Foi a última leva; usem munição de mosquete, rapazes!
Pouco importava: àquela distância, os atiradores de Rotherham não tinham como errar. Sete outros disparos zumbiram no meio das fileiras atordoadas.
Agora a fumaça começava a diminuir, e Fletcher viu montes de goblins segurando o rosto, atolando a entrada da Fenda em sua desordem. Alguns tentaram subir em cima do cadáver do Fantauro, mas foram derrubados pelos atiradores de elite de Rotherham, fazendo com que restassem dois canais estreitos de ambos os lados por onde goblins poderiam passar. Era ali que os Raposas de Fletcher concentraram os disparos.
Saraivada após saraivada atingia o inimigo. Quando os Raposas pararam para carregar e uns poucos goblins escaparam pela Fenda, os gremlins os ceifaram: sua baixa estatura os protegia dos disparos que choviam acima. Foi um massacre tenebroso. Longe de se sentir triunfante, Fletcher sentiu-se enojado com a visão do chão encharcado de sangue e as pilhas de mortos de olhos vidrados.
— Senhor, estamos quase sem munição! — gritou Gallo.
O bigode do anão estava preto de tanto abrir cartuchos com a boca. Enquanto ele falava aquilo, Fletcher percebeu que alguns Raposas estavam colocando os mosquetes às costas, enquanto outros vasculhavam desesperadamente os alforjes de cartuchos. Uma última saraivada irregular foi disparada pelos canos sujos; depois, silêncio.
A fumaça branca dos últimos tiros misturou-se com a fumaça negra da mancenilheira, que estava se transformando em uma pilha de brasas brilhantes. Em seu cristal de visualização, Fletcher viu os restos de fumaça sendo carregados pelo cânion até a orla da floresta. Lá, os goblins tossiam catarro e cobriam os olhos, escondendo-se atrás dos escudos de couro cru, como se isso, de alguma maneira, pudesse protegê-los da fumaça opressora.
Os efeitos não eram tão intensos quanto ali, mas ainda assim foram o bastante para provocar coceiras e borrar a visão, além de deixar a garganta dos goblins ardendo por causa das toxinas.
Muitos deles já estavam se virando para sair correndo, porém, uma dúzia de orcs havia se espalhado pela orla da selva, os chicotes prontos para atingir qualquer um que se aproximasse. Tudo se tornou uma massa cinzenta espraiada quando os goblins hesitaram, sem saber se batiam em completa retirada. Os mosquetes, porém, estavam vazios, e já não havia mais fumaça na Fenda.
— Mais uma investida! — berrou Fletcher. — Por Raleighshire. Por Hominum!
Eles atacaram em sincronia.
A batalha se transformou em um massacre. Os goblins não conseguiam enxergá-los, nem mesmo escutá-los por cima dos gritos rachados de agonia de seus compatriotas. As alabardas desciam sobre eles, sem parar, martelando e cortando com os dois lados da lâmina. O inimigo caía como trigo ceifado.
Alguns goblins foram tentando subir uns sobre os outros para escapar, os da frente recuavam, os de trás empurravam adiante com medo dos mestres orcs. Então os primeiros goblins começaram um contra-ataque; eram das novas tropas vindas do vale. Seus olhos vermelhos e lacrimejantes piscavam sem parar, e eles estavam sufocados, mas ainda assim os primeiros homens de Fletcher começaram a gritar: uma lança atravessou o ombro de um elfo, o cotovelo de um garoto foi esmagado por um porrete.
Eles, no entanto, continuaram lutando. A batalha transformou-se em um esmagamento amargo de corpos nos confins estreitos entre os ombros do Fantauro e as paredes escarpadas do gargalo da Fenda.
Então, Ignácio aterrissou sobre o Fantauro, chicoteando com a cauda para empalar goblins lá do alto. Ele abriu a boca e rugiu, e o barulho estrondoso explodiu pela Fenda e pelo cânion.
Com aquilo, os goblins viraram e saíram correndo.


6 comentários:

  1. Nossa *-*

    Que bom que aquele mérlim do Didrik não foi ajudar. Espero que responda por isso 😒

    ResponderExcluir
  2. O Fletcher é um gênio, esse garoto me enche de orgulho!!

    ResponderExcluir
  3. Não sei pq, mas eu acredito que ele seria um Arqueiro e tanto.

    ResponderExcluir
  4. Agora vai ficar mais dificil sem os mosquetes

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!