22 de março de 2018

Capítulo 55


As alabardas foram afiadas. Kobe sentou-se atrás de uma roda giratória de pedra áspera que ele manejava com um pedal, enquanto os soldados se ajoelhavam a seu lado para afiar as lâminas em uma chuva guinchante de faíscas. Até Fletcher teve sua vez com o khopesh, depois que terminou de recarregar Chama e Ventania.
As armas foram limpas, inspecionadas e limpas de novo, enquanto o muro era reparado e reforçado, com uma combinação de lama com lanças e escudos retirados dos mortos. Os gremlins haviam trazido mórbidos troféus de guerra do campo de batalha, e Meia-orelha desfilava orgulhoso com um colar feito de orelhas de goblin enfiadas em um fio sujo. Fletcher não os desencorajou; chegou até a pedir que os gremlins exibissem seus troféus ao lado dos corpos perto da Fenda — um aviso para quaisquer outros goblins que quisessem se aventurar por ali de novo.
Enquanto isso, orcs latiam e berravam ordens guturais, forçando goblins a entrar em formação nos limites do alcance dos rifles. As hienas foram soltas na floresta, presumivelmente para caçar os goblins fugitivos e trazê-los de volta à carnificina. O que Fletcher sabia com certeza é que um imenso ataque viria pela frente e que não havia muito tempo para se prepararem.
A carroça chegara com pás, que eles usaram para revirar a terra e fazer argamassa de lama para as barreiras. Fletcher, porém, criou mais um uso para elas: o chão logo à frente da Fenda fora aberto pelas explosões das bombas de bambu, e Fletcher enviou um contingente de homens para aumentar o buraco e criar uma trincheira que chegava à altura da cintura. Depois, soltaram e cravaram as pontas de pedra das lanças dos goblins no fundo, cobriram todas com a lona das tendas dos soldados de Forsyth e a camuflaram com uma fina camada de terra.
Era estreita demais para impedir que os goblins a saltassem, e além disso eles não tinham como esconder dos olhos dos inimigos o que faziam, mas Fletcher tinha certeza de que, no caos da batalha, pelo menos alguns goblins cairiam ali e se machucariam nas pontas de lança lá embaixo.
Quando à madeira da mancenilheira, Fletcher ordenou que fosse transferida para o espaço em frente à mureta e acrescentou à pilha as lonas de tenda, lanças e bambus que sobraram. Ainda era um monte bem menor do que ele desejava, mas teria de servir.
— Rory, alguma notícia? — perguntou, aproximando-se do jovem oficial.
Ele e Genevieve estavam sentados longe dos outros, com os olhos cerrados e as testas franzidas em concentração. Seguravam pequenos fragmentos de cristais de visualização, e Fletcher viu ali as imagens velozes de uma paisagem arrasada pela guerra.
— Só conseguimos ver e ouvir coisas de Malaqui e Azura — respondeu Genevieve, antes que Rory pudesse fazê-lo —, pois são os que conectamos a nossos cristais de visualização.
— Claro — disse Fletcher, mordendo o lábio.
Rory falou, ainda de olhos fechados:
— Os outros têm suas instruções, mas não poderemos ouvir quem eles contatarem. Saberemos apenas que a mensagem foi entregue, e sentiremos as emoções de nossos Carunchos. Se estiverem felizes, podemos supor que o resgate está a caminho.
— Resgate não, reforço — repreendeu suavemente Genevieve.
Foi somente então que Fletcher viu que os dois estavam de mãos dadas. Ele sorriu. Já era tempo.
— Uma mensagem foi entregue — disse Rory subitamente, um sorriso abrindo-se no rosto pálido. — Esperem... acho que...
— Milorde, movimentação! — berrou Kobe.
Os olhos de Rory se abriram de repente, e o casal voltou aos trambolhões aos respectivos esquadrões dos dois lados do muro, esquecendo-se do que diria.
Fletcher focou novamente seu cristal de visualização, e seu coração se encheu de horror gélido. Era o Fantauro. O enorme monstro avançava, com as grandes orelhas caídas a balançar, os braços estendidos à frente. A reboque, vinha seguindo uma coluna com o que parecia ser cerca de cem goblins, protegendo-se às costas do demônio gigantesco, os escudos de couro cru levantados.
O demônio tinha passado a primeira fila de estacas e estava quase ao alcance dos tiros de mosquete. A cada passada, o coro de apitos da morte e o chacoalhar aumentava aos poucos de volume, acompanhados pelos guinchos das muitas centenas de goblins atrás deles.
Sir Caulder respirou fundo e estava prestes a ordenar uma saraivada de balas, mas Fletcher o interrompeu:
— Não atirem! — berrou ele para os Raposas. — A pele é grossa demais.
— Então o que vamos fazer? — vociferou Dália, mirando com o mosquete independentemente daquela ordem. — Deixar que venham e acabem com a gente de uma vez? Assim que estivermos em combate corpo a corpo, o restante nos atacará.
— Não — disse Fletcher.
Sua mente tentava pensar rápido, e então ele se virou para os atiradores de elite no círculo de pedra da antiga torre de vigia.
— Vocês conseguem acertar os olhos? — perguntou.
— Temos pouca munição, mas vale a tentativa — gritou em resposta a voz de Rotherham.
— Então atirem — ordenou Fletcher.
O Fantauro já estava na linha de alcance dos mosquetes, e Fletcher viu os goblins atrás dele por entre as aberturas de suas grandes pernas em formato de tronco. Seria melhor ordenar que atirassem?
Mas mesmo os atiradores de elite estavam fracassando. O primeiro tiro passou de raspão no focinho do monstro, e, então, quando outros tiros o atingiram, a besta gigantesca apenas dobrou as orelhas por cima do rosto, protegendo-o, e desacelerou o passo, aproximando-se da Fenda. Ela estendeu os braços, andando às cegas.
Fletcher olhou para Sir Caulder, torcendo para que ele lhe desse uma solução, mas o velho simplesmente ficou olhando para o monstro cada vez mais próximo, os nós dos dedos embranquecendo, tamanha era a força com que segurava a espada.
Fletcher precisaria solucionar aquilo sozinho.
Sua mente voltou para as aulas na Vocans. Lá ele tinha lido diários empoeirados de magos de batalha mortos havia muito que falavam que a ponta da tromba dos Fantauros era como um polegar e um indicador, dotadas de sensibilidade e destreza semelhantes. Ele aprendera nesses livros que a pele dos Fantauros era tão grossa que somente uma lança em grande velocidade seria capaz de atravessá-la, e que aqueles demônios usavam os feixes de nervos da sola dos pés para pressentir tremores de possíveis parceiros para acasalamento a uma distância de até dois quilômetros.
Foi então que Fletcher soube o que fazer. Aquilo exigiria um pouco de sorte e seria extremamente arriscado, mas ele não pretendia se deixar vencer sem uma boa luta.
— Rory, preciso de seu esquadrão — disse Fletcher, saltando a mureta de novo. — Somente os de alabardas.
Rory abriu a boca. Por um momento, Fletcher pensou que ele iria lhe perguntar alguma coisa, mas então o rapaz assentiu melancolicamente e deu as ordens. Fletcher olhou para a plataforma lá em cima.
— Rotherham, quero disparos contínuos naquelas orelhas! Que ele continue sem enxergar!
— Sim, senhor! — respondeu o sargento, pontuando a resposta com um tiro de seu rifle.
Àquela altura, Rory e seus quinze soldados já tinham saltado a mureta. Houve um breve momento de confusão quando os três anões do grupo tentaram subi-la. Gallo e Dália eram parte do esquadrão e, para surpresa de Fletcher, Meia-orelha, Azul e um punhado de gremlins juntou-se a ele, saltando desajeitadamente a mureta.
— Nós ir também — disse Meia-orelha com desdém, lambendo malevolamente um punhal sinistro.
Fletcher sorriu e acenou para que os soldados seguissem logo. Se tudo corresse conforme o plano, a luta duraria pouco. Se não corresse... bem... não faria mal contar com mais alguns guerreiros.
— Tem cem goblins e um Fantauro vindo pra cá — avisou Mason, menos preocupado com as boas maneiras que os outros homens. — Espero que cê saiba o que está fazendo.
— Nos deem cobertura, só isso — retrucou Fletcher, falando alto para o esquadrão de Genevieve ouvir.
Então, sem olhar para trás, ele sacou a espada e saiu correndo na direção da Fenda.


6 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!