22 de março de 2018

Capítulo 54

A maré tinha virado. Os vultos cinzentos dos goblins fugiram para a orla da floresta, deixando centenas de mortos para trás. Os orcs remanescentes gritaram ordens, mas como até eles tinham se transferido a uma distância segura, não puderam impedir que os goblins saíssem em disparada de volta à segurança da floresta tropical. No alto, Ignácio rugiu de novo quando os demônios inimigos começaram a bater depressa em retirada. Evidentemente, o Ahool devia ter sido o mais poderoso do grupo.
Apesar de tudo, o que mais horrorizou Fletcher era que mais goblins pareciam surgir, passando pelos companheiros em fuga, saindo de entre as árvores e rodeando o vulto imóvel do Fantauro. Quem saberia quantos mais estariam escondidos pela folhagem, fora de vista?
Ao sentar-se, Fletcher percebeu que seu escudo conseguira protegê-lo do impulso e do vento escaldante gerado pela explosão, apesar de a maioria dos tubos de bambus felizmente ter aguentado o tranco, direcionando seu conteúdo para fora pelas aberturas. No entanto, alguns dos tubos de madeira se estilhaçaram com o impacto e atiraram projéteis para todos os lados, inclusive para o seu. Tal estrago, combinado ao dos dardos e das lanças, significava que mal valia a pena reabsorver o escudo despedaçado quando ele se ergueu do chão. Mas ele o reabsorveu de toda forma, pois suas reservas de mana estavam quase vazias.
Quando chegou de volta onde estavam os Raposas, Azul e seus gremlins tinham pulado as barreiras e agora caçavam sobreviventes entre os goblins, repetidamente erguendo e baixando os punhais de dente de tubarão sobre os corpos. Fletcher tentou ignorar os mórbidos ruídos gorgolejantes e pulou a barricada, derrubando um pedaço na pressa de retornar à segurança.
Estava tremendo, mas, se era da adrenalina ou de medo, ele não sabia dizer.
— Covardes malditos! — berrou Logan, o rosto marcado exibindo um largo sorriso.
Pelo cristal, Fletcher viu orcs chicoteando sem piedade os goblins em fuga; suas hienas, soltas das correias, vagavam pela orla da floresta e mordiam quem quer que passasse correndo. Não demoraria para que recuperassem o controle mais uma vez, ou que conduzissem um novo ataque usando as tropas recém-saídas das selvas.
Mesmo assim, agora eles seriam mais cautelosos. Um bom terço dos orcs tinha morrido, e era pouco provável que seus líderes se aventurassem a chegar muito perto novamente. Entretanto, em algum momento, os goblins voltariam a fazer uma nova investida para atravessar a Fenda, e não havia mais pólvora para outra explosão. Fletcher tinha apenas mais um truque na manga agora.
— Fletcher, uma palavrinha — gritou Rory.
Ele chamava o líder para longe da fileira de homens em comemoração.
Fletcher viu que a bochecha de Rory estava manchada de fuligem dos disparos de seu mosquete, e que o cabelo loiro parecia vermelho devido a um corte no couro cabeludo.
— Temos um problema — murmurou Rory, tão logo ele e Fletcher estavam longe o bastante dos Raposas para não ser ouvidos. — Não contei a ninguém, e de qualquer maneira não houve tempo quando os goblins apareceram, mas... é Didric. Ele não virá.
Se Fletcher sentira mesmo que um pequenino alívio antes, agora ele sumira de vez em meio a uma onda fria de terror.
— Ele precisa vir! — sibilou Fletcher, irritado, lutando para não gritar. — Todo o futuro do império depende disso! Tem certeza de que explicou tudo no bilhete?
Rory balançou a cabeça, em desgosto.
— Sim, expliquei tudo. Ele está indo para o norte neste exato momento, de volta ao próprio castelo. As palavras exatas foram: “Para que mandar bons homens para salvar ruins?” Se é que dá para acreditar. Ele acha que a guerra já está perdida.
— Covarde — vociferou Fletcher.
— E tem mais uma coisa — prosseguiu Rory, evitando os olhos do amigo. — É o povo da cidade. Quando Malaqui deixou o recado, eles começaram a discordar sobre se deviam ir embora ou não. Berdon está fazendo o que pode, mas Malaqui não viu nem sinal deles enquanto esperava pela decisão de Didric na ponte. Acho que eles ainda não partiram.
— Tolos — disse Fletcher, com raiva, olhando de volta para o cânion e para a savana.
À distância, viu o vulto das construções da cidade. Tão próximas. Será que eles não tinham escutado os tiros, as explosões?
— Não podemos nos preocupar com isso agora. E o resto de suas mensagens? — indagou Fletcher, tentando conter o pânico na voz.
— Ainda estão a caminho. E enviei Malaqui para ajudar na busca pelo rei, por um general ou por qualquer um que possa nos ajudar. A maioria das mensagens deverá chegar daqui a uma hora nas frentes de batalha, incluindo as de Genevieve, mas... meus Carunchos ouvem o som de bombas, veem fumaça e clarões no horizonte. Seja lá que batalha estejamos travando, não é nada comparado ao que está acontecendo ali. Encontrar alguém importante para transmitir uma mensagem poderá ser difícil.
Fletcher segurou com força os ombros de Rory.
— Se não conseguirmos ajuda logo, vamos todos morrer, e milhares de goblins vão atacar o exército de Hominum pela retaguarda. Se não saquearem Corcillum no caminho antes disso.
Rory arregalou os olhos, assustado, e Fletcher o soltou com um suspiro.
— Conte a Genevieve, mas não fale disso a mais ninguém. Vocês precisam fazer a mensagem chegar. Eu mandaria Ignácio, mas ele está patrulhando lá em cima. Vocês são nossa única esperança agora.
O jovem oficial saiu apressado, e Fletcher viu o rosto de Genevieve empalidecer quando ele lhe deu a notícia. Seu olhar cruzou com o de Fletcher, e ela acenou a cabeça com determinação.
— Certo, rapazes, chega de comemorar. — A voz de Sir Caulder interrompeu os gritos de júbilo dos Raposas. — Dália, Gallo, tragam os barris de água da carroça; lutar dá sede. O resto de vocês vai limpar a pólvora dos canos obstruídos. Usem a água... ou mijem se for preciso.
Atiçada pelas ordens de Sir Caulder, a mente de Fletcher voltou-se para a batalha que viria. Uma vez que não haveria nenhum reforço a caminho tão cedo, era provável que a munição acabaria em breve. As alabardas seriam essenciais, de uma maneira ou de outra.
— Logan, Kobe, acompanhem-nos — ordenou Fletcher, voltando à mureta e olhando para os grupos que se reuniam. — Quero que a pedra de amolar seja trazida para cá, e que todas as alabardas sejam afiadas ao máximo.
Os dois rapazes resmungaram, mas foram cumprir o ordenado, deixando-o a sós com Mason. O garoto não tinha se juntado às comemorações, o que não era surpreendente, pois conhecia muito poucos deles.
— Você foi corajoso em ficar aqui — elogiou Fletcher.
— Luto com eles a vida toda — disse Mason. — E também minha mãe e irmãs moram em Corcillum. Num seria certo ir embora.
— Tem algum conselho para mim? — perguntou Fletcher, apontando com o queixo para os goblins que começavam a se reunir.
— Eles são covardes no fundo, esses goblins — disse Mason. — Se tu machucar bastante, eles vão virar as costas e dar no pé. O problema é que foram pisoteados pelos orcs a vida toda, então têm mais medo deles do que de qualquer outra coisa.
Os olhos de Fletcher se voltaram para a pilha de madeira de mancenilheira, que vertia uma seiva branca no lugar onde as alabardas a tinham cortado.
— Isso é o que veremos — disse.

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