22 de março de 2018

Capítulo 53

— Ignácio, depressa! — berrou Fletcher.
Lá em cima, o Drake já caía na direção da bola de fogo, as asas para trás, coladas junto ao corpo, em um mergulho de raptor. Ele atravessou os ares como uma flecha atravessa uma maçã, e a explosão de luz cegou a visão de Atena.
Fletcher não sentiu nenhuma dor da parte de Ignácio. A pele do demônio passou pela chama ilesa, enquanto a bola de fogo se dividia em montes de feitiços menores que se espalharam pela encosta da montanha em uma chuva de raios luzidios.
Meia dúzia destes conseguiu atravessar a Fenda e iluminou o chão e a mureta à frente com poças de luz. Rochas explodiram da barricada improvisada, lançando soldados pelo chão. Um anão berrou freneticamente quando a manga de sua camisa pegou fogo, e se pôs a lhe bater com a jaqueta. A bola de fogo se apagou com uma rajada de vento quando Ignácio passou em um rasante pelo desfiladeiro e retornou aos céus para combater os demônios dos orcs mais uma vez, lá em cima.
— Preparem-se! — berrou Sir Caulder, esvaziando o cantil sobre o tecido fumegante do braço do anão.
Ouviu-se o barulho dos pés de centenas de goblins enquanto os Raposas se levantaram desajeitadamente, apoiando os mosquetes na barricada. Poças de rocha derretida borbulhavam na frente das paredes, já se fundindo em cristais ao esfriar. Fletcher ergueu Chama e agradeceu aos céus pelo fogo não ter atingido a surpresa que seus homens haviam preparado.
Pela abertura, ele vislumbrou um turbilhão móvel de corpos cinzentos arremetendo contra eles. Os rifles já cuspiam balas, os orcs sendo atingidos e tropeçando pela munição que descia em espiral, mas, apesar disso, uma ira frenética impulsionava os corpos feridos para a frente. Os primeiros goblins passaram correndo pela segunda linha de estacas.
— Fogo! — bradou Sir Caulder.
Um ruído único e fumaça espiralada atingiram os sentidos de Fletcher, e então ele puxou o gatilho. Goblins foram atirados para trás quando uma saraivada de balas de mosquete atingiu as primeiras fileiras, fazendo com que os que vinham atrás tropeçassem sobre os corpos caídos. Os mosquetes dos homens de Forsyth foram apanhados e segurados com mãos trêmulas.
— Fogo! — berrou Fletcher.
Uma segunda leva de balas atingiu as massas, de modo mais irregular que a primeira, mas não menos letal. Uma névoa de sangue tomou o ar quando mais goblins caíram, mas a multidão raivosa continuou investindo para a frente, incitada pelos chicotes de seus mestres orcs. Rifles disparavam lá em cima, e outra cabeça de orc foi sacudida para trás. Não era suficiente, porém.
Somente uma coisa poderia parar aquilo agora.
— Carreguem — ordenou Sir Caulder, com a voz alta, mas calma, enquanto caminhava por trás dos homens. — Firme agora, rapazes, com calma.
Uma Vespe caiu no chão com um baque surdo, quase cortada ao meio pelo bico de Ignácio, lá em cima. Varetas foram chacoalhadas dentro do cano das armas, e um homem soltou um palavrão ao deixar a sua cair no chão.
Cinquenta passos. Quarenta.
— Disparem à vontade, rapazes! — grunhiu Sir Caulder. — Botem pra quebrar.
Balas de mosquete foram atiradas esporadicamente por cima do muro, e os disparos mais de perto derrubavam os goblins no chão com força. Seus corpos desapareciam no meio da multidão conforme eram pisoteados.
— Acabem com os que estão na vanguarda — berrou Fletcher, tirando Ventania do coldre e apontando-a para o punhado de goblins que tinham se destacado da horda.
Ele disparou e sentiu o coice da arma quando a bala atingiu o pescoço do goblin mais próximo, atirando-o a mais de 10 metros de distância da abertura. O segundo disparo errou o alvo e sumiu no meio do grupo em uma explosão de fumaça e sangue, mas uma bala maior de Mason deixou o alvo caído em cima do corpo do primeiro goblin.
O espaço em frente à mureta estava cheio de fumaça — uma névoa de enxofre misturada ao tom cinzento dos goblins quando os primeiros deles saíram em disparada pela Fenda, empunhando alto seus escudos. Disparos mataram esses corredores. Na cabeça de Fletcher, ele sentiu o medo de Atena e alguns fragmentos de dor de Ignácio, que combatia dezenas de demônios menos poderosos no céu.
O corpo principal de invasores estava a vinte passos da Fenda. Só um pouquinho mais perto...
Dez passos. Agora.
Fletcher saltou a mureta.
— Não atirem — berrou Sir Caulder. — Carreguem as extras!
— Rifles, cubram-no — berrou Rotherham.
Então Fletcher desatou a correr. Uma chama retorcida irrompia da ponta de seu dedo. Apesar disso os goblins continuaram vindo, uma dúzia diminuindo a distância em uma corrida enlouquecida na direção de Fletcher.
Ele pôde sentir o fedor de seus corpos não lavados conforme se aproximava, o sangue pulsando nos ouvidos, os pés batendo no chão com força. Tiros de rifle atingiram os goblins mais próximos, e um dardo passou por ele, abrindo um buraco no muro atrás de si.
Uma centena de inimigos tinha passado pela Fenda a essa altura, diminuindo o passo ao verem o homem solitário correndo em sua direção, mas logo avançando inexoravelmente, incentivados pelas massas berrantes às costas.
Fletcher deslizava em zigue-zague, a uma pedrada de distância dos goblins. O fogo se lançou de seu dedo em uma fita cor de laranja, direcionando-se ao alvo de Fletcher. À surpresa.
Uma fila de cem segmentos semienterrados de bambu, cada qual com um pavio rudimentar de cordão coberto de pólvora preso na ponta. E, no centro, estava o vulto maciço e enferrujado do canhão Thorsager, apoiado sobre um montinho de terra. Tudo aquilo, dos bambus ao canhão, estava cheio até a boca de pólvora e uma carga de pedregulhos.
Uma lança enterrou-se a seu lado e arrancou um pedaço do casaco. Os pavios faiscaram quando o feitiço de Fletcher espalhou-se pela fileira. E foram queimando até alcançarem as cargas explosivas com velocidade impressionante. Rápido demais.
— Corre! — berrou Rory, quando viu o que estava prestes a acontecer.
Fletcher correu.
Foi uma corrida enlouquecida, e o rapaz criou um escudo por cima de seu ombro no último segundo, sentindo o impacto dos dardos e lanças zumbindo acima. O barulho de tiros de rifle ecoou no alto, e então Genevieve gritou:
— Se abaixe!
Fletcher o fez, e o mundo tombou de lado.
Pó e fumaça uivaram sobre ele quando a explosão rugiu pela ravina. Em seu cristal, Fletcher viu sangue enevoar o ar assim que mil projéteis atravessaram a massa de goblins, atirando-os para trás, como se um punho invisível gigantesco tivesse socado suas fileiras. O centro recebeu o grosso do estrago, uma vez que o canhão concentrou a explosão em um cone estreito de dispersão da morte que se estendia para além da Fenda até os grupos que ainda tentavam passar, lá atrás. Por um instante, a única coisa que se podia ouvir era o assobio do vento e os gemidos dos moribundos.
— Fogo! — berrou Fletcher.
Uma pausa, e então uma saraivada de balas de mosquete atravessou a abertura, caindo sobre os sobreviventes atônitos.
— De novo! — gritou Sir Caulder, agarrando um mosquete que Azul lhe oferecia.
A segunda leva de balas caiu com força sobre as fileiras, atingindo goblins à esquerda e à direita. Os rifles dispararam um instante depois, e, dessa vez, os mais próximos das poucas dúzias de orcs que ainda restavam foram aniquilados; era impossível errar os disparos tão perto assim.
Lá no alto, Ignácio soltou um rugido de triunfo, e um Ahool caiu dos céus; seu coriáceo corpo alado tombou no chão com um baque surdo no meio dos cadáveres de goblins.
Então, como se fossem um só, os goblins se viraram e saíram correndo.

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