2 de março de 2018

Capítulo 53

— Fletcher, acorde. — A voz de Otelo parecia estar distante. Alguém lhe tocou o rosto. — Você conseguiu, Fletcher — sussurrou o anão. — Você o derrotou.
— Eu venci? — indagou o rapaz, confuso. Ele abriu os olhos.
O rosto de Otelo o encarava de cima para baixo, com olhos verdes faiscando de alegria.
— Você nos deixou no chinelo. Tarquin bateu no teto quando o escudo dele cedeu, literalmente. Se Zacarias não tivesse aparado a queda com um colchão cinético, o maldito provavelmente estaria aqui conosco agora.
Fletcher se sentou e notou que estavam na enfermaria. Lovett e Sylva jaziam nas camas ao seu lado, ambas imóveis e silenciosas. Sariel estava enrodilhada debaixo do leito da mestra, roncando suavemente. Valens tinha se aninhado no pelo macio do Canídeo, igualmente isolado do mundo.
— Como ela está? — perguntou Fletcher, estendendo o braço até a outra cama e afastando uma mecha de cabelo do rosto da elfa.
— Dama Fairhaven disse que ela vai ficar bem. Mas terá que sarar por conta própria, assim como eu. Ficou com o braço partido em dois lugares.
Otelo contemplou a elfa com emoções complexas no rosto, em seguida agarrou sua mão.
— Não teríamos conseguido sem ela, sabe. Sylva derrotou Isadora e enfraqueceu Tarquin, correndo um grande risco. Ela poderia ter se rendido, que nem eu. Em vez disso, decidiu lutar, mesmo sabendo que não venceria — murmurou o anão.
— Ela é duas vezes o guerreiro que eu sou — respondeu Fletcher, observando a respiração da garota.
— Foram vocês dois que conseguiram, no fim — continuou Otelo, em um tom decepcionado. — Queria poder dizer ao meu pai que fui eu. Queria que os Forsyth soubessem que foram os anões que lhes custaram a vitória.
— Otelo, os anões me deram as ferramentas necessárias para vencer e, se não fosse por você, eu teria gastado todo o meu mana enfrentando Rufus na semifinal — afirmou Fletcher, encarando o amigo nos olhos. — Fomos nós três que conseguimos. Até Serafim desempenhou seu papel. Aposto que ele não foi um adversário fácil na luta contra Tarquin. Só queria que Sylva estivesse acordada para comemorar nossa vitória.
— Ela logo estará — assegurou Otelo, esfregando o cansaço dos olhos. — É a primeira coisa que vou lhe dizer. Raios, ela provavelmente receberá ofertas de comissões assim que acordar.
— Tenho certeza de que você também, Otelo. Os recrutas anões vão precisar de líderes. Ao chegar à semifinal, você provou seu valor. Não se esqueça do motivo pelo qual você veio até aqui: provar ao mundo que os anões são aliados valorosos — disse Fletcher.
— É verdade — concordou Otelo, com um sorriso. — Não tinha pensado nisso. Cipião certamente deixará Átila se alistar em Vocans agora; ele é meu gêmeo, afinal. A primeira coisa que vou fazer depois disto é aprender como a Inquisição testa os candidatos a adeptos. Vamos precisar de magos de batalha nos exércitos enânicos.
— Pode contar com isso. Vou mencionar o assunto na reunião do conselho imediatamente, se puder — respondeu Fletcher.
Ele sentiu uma pontada de ansiedade ao imaginar uma longa mesa num salão escuro, cercada pelos homens mais poderosos do reino. Zacarias estaria lá, tentando desacreditá-lo a cada oportunidade.
Mesmo com os gêmeos Forsyth derrotados, Fletcher ainda teria que lidar com o pai deles.
Passos ecoaram na escadaria, até que o rosto animado de Serafim surgiu à porta.
— Pessoal, a dama Fairhaven disse que eu já poderia vir aqui buscar vocês, se conseguirem descer. Eles vão começar a distribuir as comissões em breve. Vamos lá! — O rapaz desapareceu logo em seguida, e os dois ouviram sua correria escada abaixo.
— Alguém acha que vai se dar muito bem. — Otelo riu. — Ei, me ajude a descer? Não posso botar nenhum peso nessa droga de perna.
— Eu juro que parece que passei metade da minha vida servindo de muleta para anões feridos — brincou Fletcher.
Ele passou as pernas para fora da cama e se levantou. Houve um momento de tontura, que logo passou depois de algumas profundas respirações.
— Nós devemos parecer um belo par — comentou Fletcher, passando o braço em volta dos ombros de Otelo. — Acho que vou precisar da sua ajuda tanto quanto você da minha.
Ele estremeceu ao suportar o peso de Otelo, o próprio corpo dolorido protestando contra o esforço.
Eles mancaram pelas escadas e corredores, parando para descansar a cada poucos passos.
— Vamos, você não pode perder a sua promoção a capitão — disse Otelo.
À lembrança da sua capitania, os troféus de guerra e armas que decoravam os corredores da academia subitamente adquiriram um novo sentido para Fletcher. Mais cedo ou mais tarde, um orc poderia estar brandindo uma daquelas armas assustadoras na direção de sua cabeça.
O átrio estava repleto de nobres e generais quando eles chegaram, todos fitando o par conforme eles mancavam salão adentro. Alguns chegavam a ter medo em seus olhos.
— Genialidade pura e autêntica! — bradou Cipião, caminhando a passos largos em sua direção. — Se tatuar para pular o entalhe; usar uma pedra de visualização como monóculo. Grandes saltos na tecnologia dos magos de batalha; como jamais havíamos pensado nisso?
Atrás dele, Fletcher pôde ver Tarquin ser repreendido pelo pai, com a cabeça baixa e envergonhado. Os demais aprendizes sentavam-se em bancos trazidos do refeitório, esperando em silêncio pela cerimônia.
— Fique tranquilo, perguntarei sobre essa história de tatuagens mais tarde. Agora, general Kavanagh, se puder trazer a papelada para Fletcher assinar... Quando é o conselho do rei, no próximo mês? Precisaremos de um professor para ensiná-lo sobre as políticas de Hominum nesse meio-tempo; como um plebeu, ele não deve saber muita coisa. — Cipião zumbia ao redor de Fletcher como uma mãe superprotetora, limpando a poeira de seus ombros.
O rapaz corrigiu a postura e vasculhou a sala, encontrando o olhar de generais e nobres com uma expressão firme. Orgulhoso, admirou a proeza que ele e seus amigos haviam alcançado. Sylva e Otelo tinham provado aos escalões mais elevados de Hominum que seus povos eram forças a serem reconhecidas. A elevação de Serafim à nobreza seria uma transição suave, agora que ele tinha demonstrado sua tenacidade na arena. Quanto a Fletcher, ele estava basicamente feliz por ter evitado que os Forsyth conquistassem mais um lugar no conselho, e por ter garantido a si mesmo um futuro promissor. Só desejava que Berdon estivesse ali para ver.
O rapaz apertou o ombro de Otelo e apontou para os generais e nobres.
— Um desses homens vai lhe dar uma comissão hoje. Você tem alguma preferência?
— Desde que não seja Zacarias ou os Faversham — riu Otelo em resposta. — Você deveria ter visto a cara deles quando derrotei Rufus.
As portas principais se abriram de rompante, lançando uma rajada de vento pelo átrio. Três vultos se postavam na entrada, contornados pela luz do exterior, até que as portas de carvalho se fecharam de novo.
Quando os olhos de Fletcher se ajustaram à escuridão, ele ficou alarmado ao notar que os três homens eram Rook, Turner e Murphy. O Inquisidor sorria com ironia enquanto caminhava até os dois.
O coração de Fletcher saltou quando ele viu que Turner segurava um par de grilhões nas mãos.
— Otelo — exclamou ele. — Os Pinkertons!
— Qual é o significado disto? — bradou Cipião enquanto os Pinkertons abriam caminho entre os nobres. — Este é um evento particular.
— Estamos aqui para buscá-lo — afirmou Murphy, indicando Fletcher e Otelo. — Temos um mandado urgente para a prisão dele.
Fletcher entrou na frente do anão, cambaleante.
— Se você o quiser, terá que passar por mim primeiro.
Murphy deu um passo à frente, sorrindo maliciosamente.
— Fletcher Wulf — anunciou ele, atando os grilhões aos pulsos de Fletcher. — Você está preso pela tentativa de assassinato de Didric Cavell.
O rapaz ficou paralisado conforme o significado das palavras ficava claro para ele.
— Tire as mãos dele — bradou Otelo, tentando se pôr entre os dois. — Isto é um engano!
Turner bateu na mão aberta no anão, derrubando-o no chão.
— Controle-se, anão, ou será preso por desacato à autoridade — cuspiu, cutucando-o com o pé.
Rook passou por cima do cadete caído e agarrou o colarinho de Fletcher, puxando-o para perto.
— Este seu passeiozinho acabou, Fletcher — rosnou Rook, com o hálito quente na orelha do rapaz. — Você vai voltar a Pelego.

21 comentários:

  1. ééééééééé...
    então...
    aa...
    ferrou.

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    1. kkkkk
      realmente tipo: Samba na cara da sociedade e depois se deu mal

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  2. O livro é interessante, mas, muitos vilões...fica fácil imaginar que tudo vai dar errado no final...tava na cara que o Rook ía verificar a história do Flether...acaba sendo previsível e o previsível se torna chato...

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    1. Todo livro é previsível. Porém, só os verdadeiros leitores sentem a emoção por trás da previsibilidade!

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    2. Palmas. 👏🏾👏🏾

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    3. Leia overlord, uma obra prima

      http://uniaooverlord.blogspot.com/p/blog-page.html?m=1

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  3. Meu Deus, e quando penso que ta tudo certo da tudo errado :s

    Odeio esse Rook

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  4. Odeio este Rook, conseguiu estragar tudo!

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  5. Pqp, sabia que tudo estava indo bem demais para serem verdade
    Que odeio que eu tenho desse Rook

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  6. Pelos Deuses ....
    Que livro, to sem ar até agora,
    Nossa que óóóódio desse Rook faz de tudo
    pra ferrar com eles! Tomara que tenha uma morte lenta e dolorosa >.<
    Correndo para o próximo livro <3

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  7. final top.
    partiu ler o próximo

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  8. Que final parece que quer matar a gente de curiosidade

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  9. Eu não gosto de coisas que dão errado exatamente no último momento. Pra mim, os livros tem que acabar com uma sensação boa, mas a ideia de que não está acabado. Inserir uma problemática no final é bem pedante

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  10. Indignada! Tinha que acabar assim?
    Omg! Pq? Pq? 😲
    O que ele vai fazer pra sair dessa?
    #curiosa #partiuproximocapitulo
    📚📚📚

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  11. Tava óbvio q ia da errado no final mds agora ferrou...


    Ass:filho de Adão

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Boa leitura, E SEM SPOILER!