22 de março de 2018

Capítulo 52

Eles se agacharam atrás do muro baixo de pedra, observando as árvores oscilantes através da Fenda. A última hora tinha sido frenética, mas eles estavam tão preparados quanto possível. Os soldados mortos tinham sido removidos, levados até o desfiladeiro da montanha e cobertos com tendas em sinal de respeito.
A mureta era frágil, construída com as rochas soltas desmoronadas da torre de vigia e uma mistura de argamassa argilosa, que consistia da terra farelenta a seus pés misturada a água potável. Ela curvava-se em formato de U, de modo que o inimigo recebesse fogo de todos os lados quando entrasse na área após a Fenda. Os soldados de Fletcher tinham se espalhado ao redor em uma única fileira, e seus mosquetes carregados miravam a selva. Havia trinta mosquetes a mais, apanhados dos soldados de Forsyth: apesar de nem todos possuírem mosquetes, aquilo permitiu que os homens de Fletcher tivessem um mosquete extra para disparar antes de precisarem recarregar.
Azul e seus companheiros gremlins estavam por perto. Eram incapazes de ver o que havia além do topo do desfiladeiro, mas estavam preparados com varetas para carregar os mosquetes extras depois que estes tivessem sido disparados. O rosto de Meia-orelha era uma carranca: ele ainda estava com raiva por suas montarias terem sido enviadas com os refugiados, pois seriam de pouca utilidade nas áreas estreitas do desfiladeiro.
— Está vendo alguma coisa? — perguntou Sir Caulder, e seus joelhos rangeram quando ele espiou por cima do parapeito.
— Nada ainda — respondeu Fletcher.
Usava seu cristal de visualização, que prendera como um tapa-olho ao rosto. Nas alturas, Atena encontrara uma fresta onde se abrigar, e observava a selva com olhar atento, mas, apesar da clareza da imagem, a folhagem obscurecia o que havia dentro da floresta. O exército poderia estar aguardando a poucos centímetros da linha de árvores, sem que Fletcher soubesse.
Quanto a Ignácio, Fletcher aprendera a lição depois daquela batalha. O Drake não contava com uma armadura como uma Serpe, mas ainda assim era um alvo grande, vulnerável aos dardos e lanças em um combate prolongado. Por isso, Ignácio fora enviado para os céus, a fim de interceptar quaisquer demônios batedores que pudessem estar sobrevoando acima do exército de goblins, e depois servir de reforço caso o rumo da batalha virasse.
De vez em quando, sua sombra os cobria, quando o Drake dava meia-volta em um rasante, ansioso para lutar.
— Como estamos de munição? — gritou Fletcher por cima do ombro.
— Temos algumas centenas de projéteis a mais! — Foi a resposta de Gallo, levantando um cartucho amassado. — Só que não estão nada bonitos.
Gallo e três outros soldados tinham recebido a tarefa de derreter os lingotes de chumbo em uma pequena fogueira e fabricar balas de mosquete, enquanto outros dois as enrolavam em papel com o que ainda lhes restava de pólvora. Tendo em vista o número de goblins que iriam passar pela abertura, Fletcher sabia que precisava recebê-los com uma saraivada de balas, e que seu atual estoque de munição se esgotaria muito rapidamente.
A mureta também servia a um propósito diferente: além de protegê-los da chuva de dardos e lanças, também os abrigaria dos outros planos de Fletcher — se tudo desse errado, claro. Ele reservara uma surpresa para os primeiros goblins que atravessassem a Fenda.
— Acabou o chumbo — gritou Gallo, erguendo o último saco pesado de cartuchos recém-fabricados. — Isso é tudo. Raspamos o tacho da pólvora, também.
— Certo, bom trabalho. Entreguem os novos cartuchos aos soldados — ordenou Fletcher, apontando para os outros sacos aos pés de Gallo. — E mandem alguns para o alto da torre de vigia também. Depois que acabar a munição dos rifles, eles vão poder disparar estes aqui bem de perto.
Gallo empalideceu ao ver o caminho estreito até a plataforma elevada à direita, onde os canos dos rifles podiam ser vistos, equilibrados no círculo baixo de pedras que um dia formara a base da torre de vigia. Rotherham estava lá em cima com eles, orientando seu pequenino esquadrão de atiradores de elite.
— Deixe isso comigo — ofereceu Logan, ao ver a expressão de Gallo. Ele saiu correndo e apanhou o saco da mão do anão que, lívido, lhe deu um aceno de cabeça respeitoso.
Fletcher sorriu, apesar do nervosismo. Aquilo era uma vantagem em meio a tantas desvantagens: quaisquer rancores que os soldados tinham antes uns com os outros haviam ficado para trás. Se eles sobrevivessem àquela batalha, os Raposas seriam tão unidos quanto qualquer grupo de soldados no exército de Hominum.
Sentiu uma pontada de empolgação de Ignácio, justamente quando Sir Caulder soltava um resmungo baixinho.
— Onde diabo estão esses...
Um cadáver caiu com um baque surdo a seu lado em uma névoa de penas pretas e brancas, e Sir Caulder soltou uma sequência de palavrões ao ser salpicado de sangue. Era o corpo quebrado de um Picanço, com um corte enorme na cintura. Acima, Ignácio rugiu em desafio. Um segundo Picanço, menor que o primeiro, caiu sobre a mureta, e seu cadáver soltou uma das pedras, em meio a uma nuvem de poeira. O Drake era mestre naquele campo de batalha, e Fletcher o viu dando rasantes e mergulhando enquanto pontinhos pretos formavam uma fila em sua direção. Aquilo só podia significar uma coisa.
— Começou — disse Fletcher, sacando Chama do coldre e apoiando-a no parapeito da mureta.
Mas suas palavras foram abafadas, pois um barulho horrendo começara.
Era como centenas de vozes berrando em agonia, acompanhadas por um chacoalhar que não era desse mundo. Aquilo ecoou tenebrosamente pelo desfiladeiro, até chegar à ravina onde eles estavam, deixando Fletcher de cabelo em pé.
E então, da orla da floresta, eles avistaram os primeiros goblins, marchando para fora das árvores em uma onda cinzenta. Centenas.
— Não atirem ainda — gritou Fletcher, observando o homem a seu lado apertar a arma com mais força, tanta que os nós de seus dedos empalideceram.
Os olhos de Fletcher se focaram na cobertura rosada do cristal de visualização. Havia goblins demais para contar, marchando pela grama em uma grande massa desordenada, que saía aos borbotões da selva. Tal como seus companheiros que chegaram montados nos casuares, aqueles goblins não usavam nada mais que uma tanga para proteger sua duvidosa modéstia.
Porém, além da variedade costumeira de lanças, porretes cravejados de pedras e dardos, eles também levavam escudos de couro cru no braço esquerdo e ali batiam as armas enquanto marchavam para dentro do cânion, o que explicava em parte aquele barulho terrível; mas não os gritos.
— De onde vem esse barulho? — berrou Logan, ao retornar de sua visita precária ao topo da torre de vigia.
— São apitos da morte — respondeu Mason, que estava agachado à esquerda de Fletcher, ainda sem camisa, mas agora armado com a espada curva semelhante a uma faca de açougueiro. — Você vai ver alguns orcs usando isso. São umas coisas terríveis, malditas, feitas para meter medo nos inimigos. Ignorem-nas, rapazes.
E, de fato, orcs começavam a emergir da folhagem atrás da primeira leva, carregando grandes macanás, espadas-porretes, presas às costas. Levavam hienas, que latiam em correias de couro, e estalavam chicotes de couro cru nas costas dos goblins próximos, conduzindo-os como se fossem gado à frente. Quando o olhar de Atena se focou neles, Fletcher viu os apitos de argila em forma de crânio entre suas presas, a fonte daquele barulho aterrador.
— Bem, está funcionando! — estremeceu Logan, assumindo seu posto na mureta.
Mesmo do alto, atrás da mureta, Fletcher sabia que os goblins estavam fora do alcance dos tiros de rifle. Rotherham escondera duas filas de estacas ao longo das savanas, portanto os homens saberiam quando atirar: uma para os que portavam rifles, outra para os mosqueteiros. Agora o exército inimigo aguardava logo além da primeira paliçada, ordenados a parar pelos latidos guturais dos comandantes orcs.
— Venham só, deixe a gente acabar com vocês! — Fletcher ouviu Rotherham grunhir de seu posto acima.
Porém os goblins não caminharam mais, e o barulho começou a morrer. Em breve o silêncio reinava no cânion coberto de grama alta. Eles tinham visto o que Fletcher lhes preparara logo além.
Os cadáveres dos cavaleiros goblins tinham sido espalhados pela grama, organizados em um espetáculo macabro de pernas e braços esticados e feridas abertas. Os casuares jaziam a seu lado, em lamentáveis montes de penas negras. Fletcher sabia que o fedor da carne apodrecendo seria intenso em suas narinas, mas não, na verdade, por causa dos cadáveres de seus aliados — eles estavam frescos demais para isso.
Não: Fletcher tinha dado um uso para os barris de durião retirados da carroça de suprimentos. Abrira cada um e os escondera estrategicamente embaixo dos cadáveres, dando-lhes o fedor característico da morte. O inimigo tentara usar o medo a seu favor; ele lhe devolveria o mesmo truque, dez vezes mais intensamente.
Sua vanguarda estava morta, cada um daqueles goblins, e não havia nem sinal dos assassinos. Poderia muito bem haver mil homens do outro lado da Fenda; eles não tinham como saber.
— Rotherham, uma saraivada de tiros de rifle! — gritou Fletcher, a voz ecoando anormalmente alta na ravina. — Mire nos orcs. Mate os líderes.
— Certo — respondeu o sargento. — Beleza, rapazes, façam esses tiros valerem.
— Eles estão fora de alcance, senhor! — Foi a resposta nervosa.
— Bem, então é melhor mirar em seu peito — disse Rotherham, animadamente. — Com calma. Escolham os alvos. Apertem o gatilho devagar enquanto expiram. Quando eu disser... Fogo!
O barulho dos rifles atingiu os ouvidos de Fletcher, e meio segundo mais tarde a saraivada de balas chicoteou sobre as fileiras maciças. Um tiro perdido atirou um goblin ao chão, e outro soltou um pedaço de uma das estacas de Rotherham, mas todos os outros acertaram seus alvos. A cabeça de um dos orcs chacoalhou para trás, os corpos de outros sacudiram-se, como se tivessem sido alvejados; dois caíram de joelhos, outro agarrou o braço. Nem uma única bala atingiu o mesmo alvo, prova do bom treinamento de Rotherham.
Começaram os guinchos. Eles se espalharam pela massa de goblins, que recuou uns 3,50 metros, tropeçando desajeitadamente uns nos outros, tomados de medo repentino. Para eles, os tiros tinham vindo do próprio céu.
— Fechem essas bocas e recarreguem! — ecoou a voz de Rotherham, lá em cima. — Isso aqui é uma guerra, não uma prática de tiro!
O barulho das varetas seguiu-se logo depois, mas foi abafado pelo rugido súbito das dezenas de orcs remanescentes, um ruído primal de raiva profunda. Com um salto repentino, uma hiena, latindo, mordeu o pescoço de um goblin que batia em retirada, e o sacudiu de um lado para o outro, como se fosse uma boneca de trapo. Chicotes estalavam acima, e a sorte mudou mais depressa que no início. Os goblins foram caindo uns sobre os outros enquanto retornavam a suas posições, alguns inclusive tropeçando mais para a frente, nos corpos de seus companheiros cavaleiros.
— Como se pastoreassem um maldito rebanho de ovelhas — sussurrou Mason.
— Só que esses aí não são cães de pastoreio — retrucou Logan. — Parecem mais lobos.
— Silêncio nas fileiras! — bradou Sir Caulder, aquietando a dupla.
Porém a atenção de Fletcher estava em outro canto. Seus olhos se focaram em um movimento no cristal de visualização. Uma perturbação dentro da selva, tão grande que as árvores se balançaram em uma lenta fila móvel que seguia diretamente até eles. O barulho seco de passos, que pareciam sacudir o próprio chão, reverberou pelo cânion, sufocando os guinchos dos goblins em pânico.
Então um gigante de pele cinzenta emergiu da floresta, espalhando goblins para a esquerda e para a direita enquanto saía em disparada rumo à claridade. Suas grandes orelhas agitavam-se ao vento, e seu corpo gigantesco tornou-se claramente visível ao caminhar a passos largos pela clareira.
— O que é diabos é essa coisa? — murmurou Logan.
Era um Fantauro, o mais raro de todos os demônios orcs: um elefante bípede que assomava sobre os orcs, como uma mãe a um filho. Sua pele era coriácea e tão grossa que nenhuma bala conseguiria penetrá-la, e seus grandes punhos eram tão formidáveis quanto a tromba longa agitada e as presas serrilhadas que oscilavam de um lado ao outro acima do solo.
O demônio parou quando seu xamã emergiu da orla da selva. Em seu cristal, Fletcher viu que era um espécime decrépito e corcunda, com boca desdentada e um manto esfarrapado de trama fiada. Um cajado retorcido estava em suas mãos, e o velho orc inclinava-se sobre ele a cada passo vacilante. Por um instante, Fletcher sentiu pena.
Então, o orc levantou um dedo comprido e cinzento, e, mesmo sem precisar da imagem de Atena, Fletcher viu o cintilar alaranjado de uma bola de fogo na orla da floresta, maior que qualquer uma que ele já vira.
— Protejam-se! — berrou o rapaz.
Ele e os homens atiraram-se ao chão, rente à terra, para salvar a própria vida. Subitamente a mureta de pedra lhe parecia tão sólida quanto uma folha de papel.
Na pedra de visualização, Fletcher viu a bola de fogo aumentar de tamanho sem parar, tornando-se tão enorme que apagava a imagem do xamã atrás de si. Em seguida ela se soltou, saiu reluzindo pelos ares em um grande arco curvo, deixando para trás um rasto de fumaça e ar tremeluzente.
Nenhum escudo de Fletcher poderia ter esperanças de conter tal ataque — não com a quantidade mínima de mana que lhe restava. A bola continuou crescendo, tão reluzente e ofuscante que era como se Atena olhasse o sol.
Quando a bola começou sua descida vagarosa, o Fantauro soltou um guincho de trompete que fez Fletcher ranger os dentes. Dois momentos de silêncio espantado se passaram.
E, então, como uma onda imparável, os goblins arremeteram pela savana, soltando guinchos agudos sedentos de sangue.
A batalha por Raleighshire começara.

10 comentários:

  1. Não aguento mais ouvir sobre falta de mana...nunca tem o suficiente...fala sério

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  2. Meo, ele precisa pegar mais demonios ou ignacio podia ter uma fonte infinita né

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  3. Ele poderia ter mandado uma onde tele cinética e cortado a cabeça do xamã.
    Mas sempre estão cm pouco maná. Fala serio!

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  4. E eles que achavam que os orcs tinham demonios fracos

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  5. E eles que achavam que os orcs tinham demonios fracos

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Boa leitura, E SEM SPOILER!