2 de março de 2018

Capítulo 52

— Não vou conseguir, Fletcher. Terá que ser você — implorou Otelo pelas barras da cela vizinha.
O anão estava determinado. Sir Caulder tinha acabado de lhes contar que eles enfrentariam um ao outro na semifinal, e Otelo estava se recusando a lutar.
— Não, Otelo. Usei mana demais na primeira rodada. Não serei capaz de vencer — respondeu o rapaz.
— Bom, muito menos eu; Rufus quebrou a minha maldita perna! Tive sorte em vencê-lo, no final das contas — retrucou o anão, apontando a canela, que tinha sido enfaixada e posta em talas. — Na próxima rodada, vou me render e deixar que você vá à final. Se tivéssemos que lutar um contra o outro, você provavelmente me derrotaria a esta altura, de qualquer maneira. Se eu me desclassificar, não vai ter que usar mana nenhum na terceira rodada.
— Por que não pede à dama Fairhaven que cure a sua perna? — indagou Fletcher.
— O feitiço de cura só funciona em ferimentos na carne, lembra? Se você começar a se meter a curar ossos, eles se soldam tortos. Pode acreditar, eu perguntei. Quero uma chance de dar uma surra em Tarquin tanto quanto você, talvez ainda mais, mas sei que eu não teria a menor chance.
— Olha, talvez não faça a menor diferença no fim — argumentou Fletcher, mostrando uma cela mais adiante. — Tarquin pode ter derrotado Serafim, mas Sylva venceu Isadora. Sylva e Tarquin estão lutando agora mesmo para ver quem vai à final. Se ela vencer, eu me rendo. Os anões precisam que um representante do seu povo seja um dos finalistas; vai impressionar mais os generais. Posso dizer que tenho uma concussão, e seria quase verdade, de qualquer maneira.
Ele esfregou o corte na cabeça, onde a pedra acertara. O ferimento tinha quase sido uma bênção, de certa forma. Quando Cipião viu a pele lacerada, ele percebeu imediatamente que houve trapaça. O reitor sugeriu que Zacarias e os Faversham descansassem e os substituiu com nobres mais imparciais, que protegeriam Fletcher de maneira adequada na próxima luta.
Algo retumbou na cela de Otelo. Salomão estava grunhindo de aflição. Ele perambulou pela cela, em seguida parou para tocar a tala na perna de Otelo. Ignácio trilou em solidariedade, lambendo o rosto do dono com a língua molhada.
— Vou ficar bem, Ignácio. Tarquin não sabe das tatuagens. Ele vai nos subestimar — sussurrou Fletcher.
Sir Caulder bateu com o cajado nas barras da cela, fazendo Fletcher pular.
— Venham, vocês dois. A batalha acabou.
— Sylva venceu? — indagou Fletcher enquanto Sir Caulder destrancava as celas.
— Veja por conta própria — respondeu o velho soldado num tom sombrio.
Dama Fairhaven e Cipião transportavam Sylva numa maca. Seus braços, pernas e rosto estavam cobertos de hematomas negros e azulados, e ela tinha um galo terrível na lateral da cabeça. Sariel cambaleava atrás dela, com o rabo entre as pernas. O pelo dela estava manchado de sangue, e havia um arranhão feio no seu flanco, que corria do focinho à cauda.
— Ele acertou Sylva com um impacto cinético — explicou Cipião ao ver os rostos preocupados dos rapazes. — Ela caiu de mau jeito. Ainda não sabemos a gravidade do estrago.
— Pobre menina, teve que enfrentar os dois gêmeos, um depois do outro — comentou a dama Fairhaven, balançando a cabeça. — Ela usou quase todo seu mana na primeira rodada, e depois precisou de toda a sua força física para derrotar Isadora, então estava exausta quando enfrentou Tarquin. Ela resistiu bravamente, porém. Ninguém vai sair daqui achando que os elfos são fracos — concluiu a enfermeira, com a voz carregada de solidariedade. — Com um ferimento desses na cabeça, não é seguro usar o feitiço de cura, especialmente se ela tiver sofrido um traumatismo craniano. Vamos deixá-la descansar ao lado da capitã Lovett. Se ela acordar, avisaremos a vocês.
Fletcher cerrou os punhos, fitando o corpo ferido na maca.
— Vamos lá.
Ele ajudou o anão a mancar até a arena. Ele se lembrou de quando apoiou Átila da mesma maneira; lembrou-se do sangue que escorria por suas costas enquanto o carregava. As lágrimas no rosto de Otelo ao ver que estavam vivos. Os Forsyth estavam no centro de tudo aquilo, como uma aranha gorda no meio de uma teia de mentiras. Fletcher ia fazê-los pagar pelo que tinham feito.
Otelo mal conseguia ficar de pé quando chegaram à arena. Seu rosto estava esverdeado, com gotas de suor salpicando-lhe a testa. O anão tinha razão; ele não duraria dois segundos numa luta com Tarquin. Fletcher era a única esperança deles agora.
— As regras são simples — declarou Rook, caminhando entre os dois cadetes. — Demônios não podem atacar conjuradores, já que o feitiço de barreira é ineficaz contra ataques demoníacos. Meu Minotauro ajudará a manter suas criaturas longe de seus oponentes, caso elas se empolguem.
Foi aí que Fletcher notou o monstro com cabeça de touro espreitando detrás do pilar caído. Tinha 2,10 metros de altura, com chifres curvos afiados e pelagem crespa tão negra quanto os cabelos do menino. Seus cascos fendidos deixavam sulcos redondos na areia conforme a criatura andava de um lado ao outro, como se mal conseguisse conter sua raiva. As mãos seriam idênticas às de um homem, não fossem as garras negras e grossas que se estendiam dos dedos. Um par de olhos avermelhados encararam o menino com ódio, então o Minotauro se virou, borrifando o ar com uma fungada de desprezo.
— Sim, é belo espécime, não é? — Rook notou o olhar de Fletcher. — Caliban tem um nível de realização de onze, então deve ser capaz de conter qualquer demônio teimoso sem dificuldades. Vocês foram avisados.
O Inquisidor continuou falando, dando a volta na arena, com as mãos unidas às costas.
— Se um de vocês sair da arena, perde. Se o seu demônio for nocauteado ou sair da arena, você perde. Se você matar o demônio do seu oponente, será desclassificado e também expulso. Não lutamos até a morte aqui, e os demônios são um recurso precioso. Então, avisem para que sejam cuidadosos. Eles podem ferir, mas não aleijar. Eles podem machucar, mas não matar.
— E quanto a nós, podemos matar? — zombou Tarquin, da lateral. Ele estava sentado numa das plataformas desmanteladas, acariciando uma das cabeças de Trébio.
— Não, continuam valendo as mesmas regras da sua última batalha, mestre Tarquin — respondeu Rook, sorrindo para o jovem nobre. — Se você acertar um feitiço ou golpe poderoso o suficiente para ser considerado um golpe mortal, vencerá. O feitiço de barreira impedirá que vocês sejam eletrocutados, queimados ou cortados, entretanto ainda sentirão muita dor se forem atingidos; como eu sei que você está ciente, Tarquin, depois de ter acabado com a elfa.
— Sim, ela de fato pareceu estar agonizando de tanta dor — comentou o jovem nobre, com um sorriso zombeteiro. — Porém eu logo acabei com o sofrimento dela. Sou tão generoso.
— Está bem, vamos acabar logo com isso — resmungou Fletcher, entre dentes. Otelo já estava mancando para a lateral da arena.
— Comecem! — bradou Rook.
Fletcher sorriu para Rook e observou enquanto Otelo saía da arena e caía para o chão.
— Ah, não — gritou Tarquin de forma exageradamente dramática. — Eu estava torcendo tanto para poder lutar contra o meio-homem. Derrotar dois sub-humanos num só dia, isso sim teria sido um privilégio.
— Cale sua boca imunda e venha me enfrentar, Tarquin. Vamos começar com a final, agora mesmo.
Tarquin revirou os olhos e desceu para a arena.
— Ah, muito bem, vamos logo com isso.
— As barreiras estão erguidas? — indagou Cipião, erguendo uma das mãos.
— Estão, reitor — respondeu um nobre da plateia.
— Neste ca...
— Comecem! — berrou Rook.
Tarquin já estava lançando bolas de fogo antes que Fletcher tivesse sequer ouvido a voz de Rook. O menino se abaixou atrás de uma rocha bem a tempo, sentindo o calor quando um dos projéteis chamuscou-lhe o cabelo.
— Ignácio, esconda-se! — sussurrou Fletcher, mandando a Salamandra em disparada para o meio da montoeira de pedras. Trébio era um demônio poderoso, mas uma bola de fogo bem posicionada de Ignácio poderia acabar com a batalha imediatamente. O diabrete só teria que evitar as cabeças serpentinas.
Uma bola cinética se chocou contra a rocha, esfarelando o lado oposto a Fletcher.
— Venha, Fletcher, quero brincar — bradou Tarquin.
— Eu estava só me aquecendo — bradou o garoto de volta, ativando um escudo oval com um impulso de mana. Sentia suas reservas sendo drenadas, e sabia, graças aos estudos, que Hidras tinham níveis muito altos de mana. Se ele e Tarquin se enfrentassem golpe a golpe, a luta não acabaria bem.
Fletcher rolou de trás da rocha, disparando para a cobertura do pilar caído. Seu escudo rachou ao ser atingido por uma bola de fogo, mas felizmente foi uma das pequenas, sem a menor chance de derrubá-lo no chão.
— E que tal esta aqui? — provocou Tarquin, lançando uma segunda bola de fogo às costas de Fletcher.
Esta se chocou contra o escudo como um aríete, jogando o rapaz para longe. Enquanto ele lutava para se levantar, Tarquin acertou mais uma, derrubando-o novamente no solo.
— Qual é; achei que você fosse deixar essa batalha interessante — riu o nobre enquanto Fletcher se encolhia atrás de uma pedra. — Pelo menos faça durar um pouco mais. Trébio, encontre a Salamandra. Eu quero ferir!
Fletcher aproveitou a oportunidade para colocar o monóculo. Ignácio estava do outro lado da arena, tentando se esgueirar por trás de Trébio. A tarefa era quase impossível, com três cabeças cobrindo todos os ângulos.
— Parte para cima, Ignácio — sussurrou Fletcher. — Você consegue acabar com ele.
A Salamandra disparou, correndo em direção à Hidra. Saltou de pedra em pedra, evitando as cabeças que tentavam mordê-lo com intenções malignas. Com uma última investida, Ignácio deslizou para debaixo de Trébio, liberando um tornado de chamas contra o ventre desprotegido da Hidra.
Trébio rugiu quando as chamas lhe queimaram a carne. Ele girou e pisoteou, mas Ignácio era tenaz, dardejando por entre as garras dançantes e chicoteando o demônio com línguas de fogo.
— Já chega! — rugiu Tarquin, apontando o dedo para os demônios que lutavam. Uma bola cinética voou sob Trébio, jogando Ignácio de cabeça para baixo no centro da arena. O diabrete ficou ali caído, como um brinquedo partido no chão de um quarto de criança.
— Acredito que esta partida esteja encerrada. — Rook riu enquanto o Minotauro perambulava até Ignácio e o cutucava com o casco.
— Isso mesmo! — gritou Zacarias da arquibancada.
Trébio sibilou, pisando firme até o demônio caído. Parou a um metro dele, baixando as três cabeças e lançando suas línguas bífidas sobre o vulto deitado.
Mas Fletcher não sentia tristeza nem desapontamento. Ele captava a mente da Salamandra, suas intenções.
— Isso mesmo, Ignácio — murmurou Fletcher. — Lute sujo. Combate de cavalheiros é para cavalheiros.
Fletcher absorveu o escudo de volta para seu corpo. Com a manobra que estava prestes a fazer, teria apenas uma chance de acertar. O plano ia contra tudo que Arcturo lhes ensinara sobre duelos, mas era um risco que valeria muito a pena.
— Muito bem, Tarquin. Vamos ver o que você acha de ser atingido pelos três feitiços de uma vez — sussurrou Fletcher, energizando os três dedos com feitiços de ataque. — Espero que você esteja pronto, Ignácio.
O garoto se levantou num salto e saiu correndo a toda a velocidade pela arena. Ignácio ganhou vida com um berro, saltando para o alto com uma onda de fogo trovejante.
A Hidra urrou e se empinou sobre as patas traseiras, em seguida desabou sobre Ignácio com força letal. Uma fração de segundo antes que fosse esmagado, o diabrete se dissipou em luz branca, infundido pelo pentagrama na palma de Fletcher.
Percebendo o que o outro tinha feito, Tarquin ergueu um escudo apressado. E bem a tempo, pois o rapaz lançou uma espiral de relâmpago, fogo e energia cinética que fez o nobre deslizar até o limite da arena, deixando sulcos profundos na terra com os pés.
O escudo rachou e se deformou, mas Tarquin estava conseguindo resistir, alimentando grossas tiras de luz branca para reparar o dano. Fletcher dobrou a força do ataque, inundando seu corpo de mana e o empurrando à espiral de energia que continha o oponente. Seus dedos ardiam de dor e o ar ao redor do raio se distorcia, zumbindo com intensidade enquanto forquilhas de relâmpago estilhaçavam rochas em fragmentos cintilantes. A areia abaixo se tornou um canal de vidro derretido, borbulhando como lava.
Ignácio estava com ele agora, mandando cada última gota de energia e encorajamento. Fletcher rugiu, colocando tudo de si numa erupção final de mana, drenando tudo que lhes restava nas reservas. Uma onda de choque virou o mundo de cabeça para baixo quando o escudo explodiu.
Fletcher girou e rolou no ar, empurrado por um borrifo de poeira e pedras. Em seguida, viu-se deitado de costas, fitando o teto. As trevas o engoliram.

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