22 de março de 2018

Capítulo 51

Fletcher convocou um conselho de guerra urgente com os oficiais e sargentos, distante dos soldados. A massa de refugiados em êxodo já tinha transposto a Fenda e seguia rumo à segurança incerta dos campos de Hominum. Fletcher enviara com eles os feridos, assim como uma mensagem a Berdon, avisando-o do exército que se aproximava e instruindo-o a evacuar para Corcillum.
— Não podemos defender o desfiladeiro sozinhos — disse Sir Caulder, o primeiro a falar depois que Fletcher lhes deu a tenebrosa notícia.
— Não estamos sozinhos — disse Fletcher. — Azul prometeu nos dar 42 guerreiros gremlins como reforço.
— Tão poucos assim? — perguntou Genevieve.
— Segundo disseram, a maioria dos guerreiros gremlins morreu na fuga — respondeu Fletcher. — Tiveram de enfrentar uma batalha contínua de lá até aqui, e usando a maioria de seus dardos, devo acrescentar. Temos sorte de ele sequer estar cedendo estes. É a maioria dos machos adultos que restou de toda a espécie.
— Grande ajuda serão para a gente — resmungou Rotherham. — Eles pegaram os gremlins de surpresa e por trás, em campo aberto. Não sobreviveriam à batalha que estamos prestes a enfrentar.
— Vamos pensar mais tarde em como os usaremos — decidiu Fletcher. — Agora o que é importante é que não precisamos vencer, só precisamos segurar os goblins até os reforços chegarem.
— Que reforços? — perguntou Rory. — Você acha que o povo da cidade vai nos ajudar? Eles não sabem nem carregar um mosquete.
Ele estava de olhos arregalados de medo enquanto Malaqui flutuava nervosamente em torno de sua cabeça.
— Não — respondeu Fletcher. — Eles são colonos, não soldados. Eu nunca lhes pediria isso.
— Então quem? — indagou Genevieve.
Fletcher respirou fundo.
— Didric — disse ele.
— O quê? — soltou Rory. — Perdeu a cabeça de vez?
— Existem sessenta soldados treinados a não mais que poucas horas de marcha daqui — retrucou Fletcher. — Se isso significar a salvação de Raleighshire, vou aceitar sua ajuda.
— E se eles não forem o bastante? — retrucou Rory, com um tom de raiva na voz. — Seu amigo gremlin disse que são milhares de goblins. Quantos? Dois mil? Dez mil? Há uma grande diferença!
— Digamos que ele não tinha como parar e contar — respondeu Fletcher, irritado. — O negócio é o seguinte: se não defendermos o desfiladeiro, os goblins irão marchar direto para Raleighshire e atacar as linhas de frente por trás antes do cair da noite. Não podemos permitir que isso aconteça.
— Menos de cem soldados... que se odeiam, devo acrescentar... e uns poucos gremlins esqueléticos contra todos os goblins que existem no mundo. Meio que te faz parar e pensar quantos nasceram antes de você destruir o resto — resmungou Sir Caulder para si mesmo.
— Nós não vamos fugir — disse Fletcher. — Mas você tem razão: mesmo com os homens de Didric, pode não ser o suficiente. Vamos mandar um recado ao rei e aos homens da frente a oeste. Reforços montados poderiam chegar daqui a meio dia, com sorte.
Ele se virou para Rory e Genevieve.
— Preciso que vocês dois voltem depressa para a carroça e escrevam cartas em meu nome, explicando a ameaça a Hominum. Genevieve, escreva para Didric implorando que ele retorne. Rory, preciso de mensagens para o rei Harold, Arcturo, Otelo, Lovett... qualquer um que possa estar nas linhas de frente. Depois mandem todos os seus Carunchos até lá com recados presos às costas.
— Não temos mais mana — disse Rory. — Sem nossos demônios, seremos...
— Iguais a qualquer um desses soldados, sim — cortou Fletcher, olhando cada um deles nos olhos. — Mas vou precisar de sua liderança e de sua coragem. Vocês são mais que magos de batalha: são oficiais, e muito bons, se querem saber.
Eles assentiram, soturnos.
— Agora vão, não temos muito tempo — ordenou Fletcher, fazendo-os saírem às pressas.
Sua mente disparou, tentando encontrar uma maneira de virar aquela batalha a seu favor. Ele correu os olhos pela paisagem adiante, os olhos indo para a frente e para trás. As primeiras ideias começaram a surgir, mas pela metade, e ele não tinha meios de saber se dariam certo. Porém precisava tentar.
Ele se virou e caminhou até seus soldados, com as mãos às costas.
— Certo, rapazes — declarou Fletcher, tão repentinamente que viu Kobe dar um pulo de susto. — Escutem aqui. Temos outra batalha à frente.
Ele viu o medo em seus olhos; alguns chegaram mesmo a olhar para a Fenda atrás de si, como se buscando uma escapatória.
— Vocês me deixaram orgulhoso hoje. Fomos emboscados por duzentos cavaleiros e vencemos, e nada mais nada menos que em campo aberto, além disso. Agora estamos preparados para enfrentá-los. Vamos mostrar a eles aquilo de que realmente somos capazes.
Alguns assentiram, concordando ferozmente, mas houve uns poucos que começaram a cochichar: Logan e alguns de seus companheiros.
— Estou pedindo a vocês que confiem em mim — prosseguiu Fletcher, caminhando até a frente de Logan e obrigando o rapaz a olhar em seus olhos. — Vocês sabem quem eu sou. Combati hordas de goblins no próprio coração da terra dos orcs e sobrevivi. Enfrentei os xamãs e suas Serpes sozinho num Abismo desconhecido e, contudo, aqui estou. Vencer é possível.
Ele correu os olhos por suas tropas, deixando que vissem sua convicção.
— Sou amigo tanto dos anões quanto dos elfos. Sou um conjurador e mago de batalha treinado. Um homem de sangue nobre com criação de plebeu e ficha de criminoso.
Suas palavras ecoaram pelo desfiladeiro, acompanhadas pelo farfalhar suave da grama ao vento.
— Sou todas essas coisas, porém nenhuma se comparara ao que nós nos tornaremos esta noite. É aqui que faremos nosso nome. É aqui que combateremos o inimigo.
Fletcher fez uma pausa, permitindo que suas palavras assentassem.
— Quero que saibam que, do outro lado das montanhas, está acontecendo uma batalha nunca antes vista. Milhares estão morrendo neste exato momento, e o resultado ainda será determinado. Entretanto, se não interrompermos o inimigo bem aqui, eles marcharão até Raleighshire e destruirão tudo o que consideramos precioso. Não existe mais ninguém além de nós. Nós vamos segurar a frente de batalha até os reforços chegarem.
Os soldados olhavam para Fletcher agora, e ele viu sua determinação se acender, as mandíbulas se enrijecerem, os olhos endurecerem. Era o bastante. Tinha de ser.
— Rotherham, leve dez homens e os faça resgatar o que for possível de munição, espadas e mosquetes dos cadáveres — ordenou ele, apontando para as formas caídas dos soldados mortos de Forsyth. — Kobe, Gallo, cortem a mancenilheira em pedaços e a tragam para mim. Cuidado com a seiva, e não toquem na árvore com as mãos nuas.
— Aquela árvore, senhor? — perguntou Kobe, cheio de hesitação.
— Temos menos de uma hora até a chegada do inimigo. Vamos! — A voz de Fletcher estalou como um chicote.
Os homens saíram apressados para cumprir as ordens.
— Quero os atiradores de rifle no alto da torre de vigia, preparados e com as armas carregadas. O resto de vocês vai até a selva para cortar uma braçada de bambu; depois me encontrem na Fenda. Depressa!
Não havia tempo a perder, e logo Fletcher estava a sós com os corpos mortos dos próprios soldados. Olhou para eles com vergonha, marcando aquela imagem a fogo na memória. Não havia tempo para enterrá-los, tampouco os corpos dos soldados de Forsyth. Um destino indigno para aqueles homens e mulheres corajosos.
Então alguém pigarreou atrás dele.
Mason. Fletcher tinha se esquecido do jovem, pois ele mesmo quase parecera um cadáver, esparramado entre os corpos. O garoto estava tomando água de um cantil que pegara emprestado.
— Obrigado por curar minhas feridas, milorde — agradeceu Mason, tocando a testa. — Eu tava quase morto.
— Me conte o que aconteceu — pediu Fletcher, indo direto ao que interessava.
— Os Forsyth me promoveram por eu ter ajudado tanto na missão, e tudo o mais. Me mandaram pra cá e disseram que ia ser um serviço facinho.
— Suponho que eles erraram — disse Fletcher.
— O problema é que nosso capitão era um bestalhão se o senhor perdoa meus modos — disse Mason, balançando a cabeça com desgosto. — Acampamos do lado errado, porque ele queria se bronzear, o tosco maldito. Nos apanharam com as calças arriadas, como o povo diz.
— E a árvore? Por que você?
— Bom, cê sabe, eu matei alguns deles, por isso foi vingança, tô achando. Eles queriam que eu morresse bem devagarzinho. Por isso me deixaram de isca pra quem chegasse depois. Só que em uma hora eu mesmo já teria batido as botas também.
— Eu não diria tão cedo assim — disse Fletcher, levantando um mosquete do chão e colocando-o entre as mãos de Mason. — Vamos precisar de todos os homens que pudermos para defender a linha de frente. Isso significa você também.
— Vou lutar por ocês — decidiu Mason, olhando-o cara a cara. — Vou lá pegar uma espada então, e depois bambu, num é? Pra que precisa dessas coisas?
— Não se preocupe com essa parte — avisou Fletcher, com jeito misterioso. — Agora vá depressa. Não temos um instante a perder.

9 comentários:

  1. Sim, ele amadureceu muito, desde o primeiro livro, mas agora sinto aínda mais respeito por ele.

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  2. Eu acho que ele vai queimar a madeira daquela arvore, a fumaça tinha um efeito que eu esqueci, mas eu acho que era deixar a visão nublada

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  3. Bota pra quebrer Fletcher, faz teu nome cara

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Boa leitura, E SEM SPOILER!