2 de março de 2018

Capítulo 51

khopesh estava escorregadio na mão de Fletcher. Ele tentou não pensar no que poderia acontecer se Zacarias ou os Faversham decidissem cortar o mana no momento errado. Um acidente trágico, era o que eles alegariam.
— Vamos lá, Fletcher, não temos o dia inteiro — zombou Rook, indo até o centro da arena. — Temos mais três batalhas só nesta rodada.
Fletcher o ignorou e instruiu Ignácio a se sentar na arquibancada, longe da batalha. Se o demônio interferisse, eles seriam desclassificados.
— Comecem! — declarou Rook, fazendo uma mesura exagerada aos competidores.
Fletcher deu alguns passos à frente, tentando se aclimatar à nova paisagem. Tinham sido treinados na areia plana, mas agora a arena estava coberta de rochas pontiagudas e destroços da primeira rodada.
Enquanto Fletcher circulava, Malik permanecia parado como uma estátua, observando-o. O jovem nobre tinha escolhido bem sua posição, uma área cercada por pedras soltas, nas quais um atacante poderia tropeçar. Fletcher decidiu que não permitiria ao adversário escolher o local do combate. Em vez disso, ele olhou para a torre, com sua trilha espiral até o topo. Lembrou-se do que Otelo tinha dito, sobre como os anões construíam suas escadarias numa espiral no sentido anti-horário, para que o braço da espada dos atacantes ficasse atrapalhado pelo pilar quando lutavam descendo.
Pela mesma lógica, um atacante ficaria igualmente atrapalhado numa trilha no sentido horário quando estivessem subindo!
Fletcher disparou até o pilar e subiu parte do caminho. Ainda de olho em Malik, ele manobrou até ficar logo abaixo do toco partido que ele tinha destroçado alguns minutos antes.
— Venha até mim, se ousar! — desafiou Fletcher com um grito, para deleito dos espectadores.
— Não vou enfrentar você no pilar, Fletcher. — A voz de Malik soava calma e considerada. — Por que você não desce e me encara no meio? Em campo neutro?
Mesmo que a falta de paciência supostamente fosse a fraqueza de Fletcher, ele esperaria até que Malik se aborrecesse. O rapaz não se importava nem um pouco com o que os generais e nobres pensariam dele. Mas Malik ligava. Se os dois ficassem naquele impasse por tempo demais, as reputações de ambos ficariam arruinadas aos olhos da audiência. E, se reputação era o que preocupava Malik, Fletcher usaria isso ao seu favor.
— Então o filho do grande Baybars se recusa a lutar! Talvez os filhos não puxem aos pais na família Saladin.
Malik se ofendeu com as palavras do plebeu, dando um passo raivoso à frente.
— Um Saladin luta em qualquer momento, em qualquer lugar. Já lutamos do deserto às trincheiras, nas selvas mais profundas das terras órquicas. Duvido que você possa dizer o mesmo da sua família.
— Então prove! Venha me mostrar o que um Saladin pode fazer — provocou Fletcher, girando o khopesh com falsa confiança.
Malik não precisou de mais provocações. Ergueu a cimitarra curva e subiu a trilha em passadas longas e calculadas. Mesmo furioso, o rapaz era um espadachim nato. Fletcher esperava que o pilar lhe desse vantagem suficiente.
O primeiro golpe veio assoviando pelo canto, tentando lhe cortar as pernas. Fletcher o aparou na curva do khopesh e o virou para o lado, antes de investir contra a cabeça de Malik. O nobre se abaixou, deixando a arma se chocar contra o pilar.
Malik se afastou um pouco e avançou contra ele diretamente, fintando um corte torto em volta do pilar contra a cabeça do oponente e em seguida atacando novamente as pernas. Fletcher saltou, deixando a cimitarra sibilar sob seus pés. Aterrissando agachado, ele socou e acertou Malik na bochecha, fazendo o nobre recuar alguns passos.
Os dois se encararam com raiva, ofegando. Fletcher tinha sentido a lisura sedosa da barreira no soco. Passou a palma na própria mão e sentiu o mesmo, só que com muito menos intensidade.
Provavelmente apenas Cipião canalizava mana corretamente para o feitiço. Ele relegou aquilo para o fundo da mente. Não havia nada que pudesse fazer.
A cimitarra era brandida de um lado ao outro, segurada com leveza pela mão de Malik. Não era muito diferente de um khopesh, com a lâmina curva e a ponta afiada. Com um gesto do pulso, Malik a lançou da mão direita à esquerda.
— Meu pai me ensinou a lutar com a mão esquerda. Será que Sir Caulder já lhe ensinou isso? — rosnou o nobre.
Fletcher o ignorou, mas suor frio lhe escorreu pelas costas. Com a cimitarra na mão esquerda de Malik, o pilar não era mais uma barreira entre eles. Ainda assim, pelo menos ele tinha a vantagem da posição mais elevada.
Malik estocou contra o estômago de Fletcher, que aparou o golpe com a curva do khopesh e forçou a cimitarra ao chão. Eles lutaram, peito contra peito, com a trilha de madeira rangendo sob seus pés.
Fletcher sentia o hálito quente de Malik em seu rosto enquanto o nobre usava sua altura e força para alavancar a lâmina na direção da virilha de Fletcher. Ele fez um esforço para empurrar, mas a espada do inimigo mal estremeceu enquanto lentamente continuava subindo.
O menino sentiu a ponta da cimitarra raspando o lado interno da sua coxa. Era sangue o que escorria pela perna? A lâmina estava a poucos centímetros agora. Em poucos segundos, seria cravada na sua carne.
Fletcher viu a própria vida passando diante dos olhos; imagens de Berdon, Didric, Rotherham. Sua primeira briga. Rotherham dando uma cabeçada em Jakov, um sujeito duas vezes maior que ele.
A ficha caiu. Fletcher olhou para o teto, depois lançou a cabeça para a frente, acertando Malik no nariz com a testa. O nobre cambaleou e caiu, agitando os braços, para o lado.
Malik quicou numa rocha pontiaguda, que o acertou diretamente na barriga. Ficou caído na areia, ofegando como um peixe fora d’água.
— Um golpe mortal! A rocha o teria empalado — gritou Fletcher.
— Não na minha opinião — retrucou Rook com uma careta de desprezo. — Não parece tão afiada assim. Viu, ele já está se levantando!
De fato, Malik estava quase de pé. Ele encarou Fletcher com raiva, respirando fundo, mas com dificuldade.
— Desista! Você está ferido, e eu tenho o terreno elevado! — implorou Fletcher.
Malik não o faria, porém. Fletcher o tinha provocado demais, ferido seu orgulho além da conta. O jovem nobre ergueu a cimitarra com um rugido e golpeou o pilar. O estardalhaço do metal foi alto, mas Fletcher viu fragmentos de barro espirrando.
Malik golpeou de novo, desta vez com mais sucesso. Grandes pedaços de argila vermelha cederam, e a plataforma balançou sob os pés de Fletcher.
— Desista você! — gritou Malik.
Mas não houve tempo sequer para uma resposta de Fletcher. Com um estalo, o pilar começou a desabar, finas rachaduras se espalhando pela coluna como relâmpagos bifurcados. Com apenas segundos de sobra, Fletcher saltou do topo, rezando por uma aterrissagem suave. Enquanto ele rolava e ficava de cócoras na areia, o pilar desmoronou ao seu lado, lançando um turbilhão de pó no ar.
Ele não conseguia ver nada; o pó vermelho recobria seus lábios e língua. Era difícil respirar. Uma sombra passou pela sua esquerda, depois pela direita. Seria Rook? Ou Malik?
Subitamente, seu oponente irrompeu da névoa rubra, gritando de fúria. Ele golpeou forte para baixo, mas Fletcher se esquivou para o lado, sentindo a lâmina pegar seu antebraço de raspão. Malik desapareceu de novo, misturando-se à penumbra ferruginosa.
Fletcher olhou para o braço. Sangrava, mas era só um arranhão. Agora sabia: aquilo era para valer, a barreira era inútil. Bastaria um lapso de concentração, e ele estaria morto.
O menino girou, procurando a sombra mais uma vez. Um vulto se moveu, fora do alcance da sua vista. Fletcher estreitou os olhos, observando a figura embaçada erguer o braço. Uma pedra veio voando do nevoeiro, acertando-o bem na testa. Ele viu estrelas e caiu estatelado no chão, encarando a poeira flutuante.
Fletcher sentiu dificuldade em se manter consciente, apagando e acordando enquanto as bordas da sua visão escureciam. Seria tão fácil se permitir desmaiar.
Uma dor excruciante explodiu na palma da mão dele, trazendo-o de volta do abismo da inconsciência. Deixou a cabeça cair para o lado e viu Valens, mordendo sua mão. Fletcher tossiu e chacoalhou a mão, tentando se soltar das mandíbulas dele. O besouro deu mais uma mordiscada e enfim disparou poeira adentro, tendo cumprido seu papel.
Fletcher começou a se levantar, mas o khopesh lhe foi chutado da mão e um pé pressionou sua garganta.
— Vou nocautear você, Fletcher. Ninguém desrespeita os Saladin. — A voz de Malik soou baixa, como se Fletcher a escutasse de uma grande distância. Ele precisava de ajuda. Ignácio? Não, ele também estava muito longe.
Sua mão buscou uma pedra, qualquer coisa, mas só sentiu areia. Malik ergueu a espada, seus dentes incrivelmente brancos contrastando com a poeira vermelha que recobria a pele. Conforme o pó começava a assentar, Fletcher pôde ver a plateia. Os gritos de empolgação beiravam a histeria.
— Boa noite, Fletcher.
Fletcher lançou um punhado de areia contra o rosto de Malik. O nobre gritou e girou para longe, temporariamente cego. Fletcher se levantou, instável, e com sua última reserva de força, investiu contra Malik, jogando-o no chão. Houve um baque quando a cabeça do nobre se chocou contra a pedra, seguido de silêncio.
Os dois ficaram ali caídos por um tempo, a poeira baixando ao redor como um cobertor morno. Era sereno ficar deitado na terra. Ele mal sentiu as mãos que o ergueram para que ficasse de pé, ou o copo de água que levaram aos seus lábios. Porém, ouviu muito bem as palavras que Cipião gritava.
— Fletcher venceu!

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