22 de março de 2018

Capítulo 50

Fletcher voltou seu feitiço de cura para a própria bochecha, depois cambaleou pelos cadáveres até chegar aos feridos, ignorando os gremlins que desmontavam ali perto. Ajoelhou-se ao lado de Dália, emitindo luz branca pulsante pelo dedo para curar sua ferida, apagando o corte em ziguezague, como se estivesse derramando água limpa em uma mancha de tinta vermelha.
Rotherham reorganizou os soldados sobreviventes em um círculo, alerta para mais inimigos. Somente Rory e Genevieve foram poupados, caídos no chão a seu lado, para que pudessem ajudar na cura.
— Quase não tenho mais mana — disse Genevieve, as mãos tremendo de fraqueza.
— Faça o que puder — rouquejou Fletcher, com a garganta subitamente áspera de sede.
Era uma tarefa árdua, e sua própria reserva de mana estava drenando-se com mais rapidez que ele gostaria. Os mais feridos foram curados primeiro, e o coração de Fletcher se apertou ao passar sobre um anão que morrera antes que pudessem chegar até ele, seu uniforme verde agora vermelho de sangue por conta das duas lanças que lhe atravessaram o peito.
Outros tinham braços quebrados e fraturas cranianas, que Fletcher não podia curar por medo de fundir o osso e causar uma desfiguração permanente. Quando Genevieve e Rory ficaram sem mana, todos fizeram o que podiam para colocar talas nos braços e pernas quebrados, usando tiras de tecido e pontas partidas de lança, mas os soldados feridos não voltariam a combater tão cedo.
— Qual a conta do estrago? — gritou Fletcher, enquanto curava o último homem de uma ferida profunda na coxa. Sir Caulder saiu a passos decididos do círculo de soldados que rodeava os três magos de batalha e se ajoelhou.
— Quatro mortos — respondeu ele. — Um anão, dois homens e um elfo. E tem um jovem rapaz com um afundamento na cabeça, e outros dois com pernas ou braços quebrados.
Fletcher fechou os olhos. Como aquilo tinha acontecido?
— Muita calma aí, rapaz — disse Sir Caulder, a voz baixa no ouvido de Fletcher. — Nós nos saímos bem. Eram quase duzentas daquelas pestes. Podia ter sido muito pior. Confie em mim: já vi acontecer.
Fletcher assentiu, mas não conseguiu conter uma lágrima, que lhe rolou pela bochecha e se misturou ao sangue seco ali. Eles tinham se saído bem, mas homens e mulheres bons haviam morrido. Teria sido culpa dele, por tê-los levado para tão perto da orla da selva? E quem sabia quantos mais poderiam ter sido perdidos se não fosse pela aparição repentina dos gremlins?
Ele correu uma mão pelas pálpebras, sem querer se levantar ainda. Uma exaustão súbita tomara conta de seu corpo.
— Quanto a nossos salvadores... parece que um deles quer falar com você. — Sir Caulder apontou com o polegar por cima do ombro.
Fletcher soltou um suspiro e lutou para se pôr de pé, então abriu caminho pelo círculo de soldados. Ao fazer isso, abaixou os mosquetes que os homens apontavam para os gremlins e deu um sorriso forçado de encorajamento.
Depois de tantos anos encarando os gremlins como inimigos, ele mal podia culpar os soldados por sentirem apreensão, ainda mais tendo em vista a aparência semelhante entre aquela raça e a dos goblins. Ele mesmo sentira a mesma coisa, não fazia muito tempo.
Havia uns quarenta gremlins caminhando pelo campo, esfaqueando as centenas de cadáveres dos inimigos para ter certeza de que estavam mortos. Era algo brutal de se ver, mas os guinchos ocasionais revelaram que alguns goblins estiveram fingindo, mais por instinto animal que por alguma artimanha calculada — Fletcher sabia por experiência própria que a inteligência dos goblins era um pouco maior que a de um chimpanzé selvagem; eram incapazes de linguagem complexa ou raciocínio refinado.
Um dos gremlins estava parado à frente dos demais, com as mãos nos quadris e as pernas bem afastadas. Fletcher o reconheceu instantaneamente pelo toco de orelha na lateral de sua cabeça. Era Meia-orelha, um dos líderes gremlins que ele tinha conhecido no Viveiro em sua missão.
— O que está fazendo aqui? — perguntou Fletcher, abaixando o corpo para ficar mais próximo do nível do gremlin de baixa estatura.
Meia-orelha cruzou os braços e cuspiu de forma zombeteira. Estava evidente que a escolha de ajudá-los não tinha sido sua. O gremlin apontou por cima do ombro na direção da orla da selva. Fletcher ficou boquiaberto com o que viu ali.
Havia centenas de gremlins piscando à luz do sol enquanto saíam da vegetação alta: mulheres, velhos, crianças, a maioria carregando fardos de comida, armas e ferramentas nas costas. A seu lado vinha caminhando uma multidão de animais — não apenas maras, mas jiboinhas pequeninas, sendo conduzidas em correias de trepadeiras, parecendo ratos por causa das orelhas muito grandes, com pernas traseiras magrelas que lhes permitiam saltar como cangurus. Perameles arrastavam trenós de crianças pequenas e farejavam o chão à frente com seus focinhos parecidos com os de musaranhos. Ainda em maior número havia vombates, usados como animais de carga, transportando cestos de frutas e peixe seco nos lombos e parecendo ursinhos em miniatura.
Mas, apesar da procissão de animais e gremlins, os olhos de Fletcher estavam fixos no vulto à frente, que ele reconheceu mesmo daquela distância, do outro lado do campo. Azul.
O gremlin vinha montado em uma fossa, uma criatura que podia ser resultado da cruza de um gato e um furão, que vinha caminhando sinuosamente pela grama, com graça felina.
Ao ver Fletcher, Azul enterrou os calcanhares no animal e o fez vir em disparada em sua direção. Parou bem na frente do rapaz, com um sorriso largo no rosto de sapo, os olhos grandes e bulbosos cheios de alegria.
— Nós se encontra de novo, Fletcher — disse Azul, saltando da montaria para postar-se ao lado de Meia-orelha. — Você sortudo, acha eu.
— Sortudo é pouco — respondeu Fletcher, forçando um sorriso, apesar de os corpos de seus homens mortos estarem ali tão perto.
— Eu espera que você bem? — perguntou Azul, arrastando os pés nervosamente.
A seu lado, as massas de gremlins diminuíram o passo, mas havia ainda mais saindo da selva: agora eles contavam pelo menos mil indivíduos, e os mosquetes atrás de Fletcher foram aos poucos levantando-se mais uma vez.
Não era hora de papo furado.
— Azul, vamos deixar de lado as gentilezas, tudo bem? — pediu, abaixando a voz para que os homens não pudessem ouvir o que ele dizia. — O que você está fazendo aqui? Cadê Mãe?
Ao ouvir o nome da velha matriarca, Azul achatou as orelhas e seus olhos grandes se encheram de lágrimas.
— Morreu. Orcs matando ela — respondeu Azul, a voz sussurrante agora trêmula, como se ele estivesse prestes a soltar um soluço. Até mesmo Meia-orelha olhou para o outro lado, e seu rosto, em geral cheio de ódio, virou um retrato de tristeza.
— Eles tá avançando — disse Azul, apontando para a selva. — Eles atacando todos os nossos Viveiros de uma vez só, enche de fumaça, manda hienas lá embaixo. Eles tá caçando nós até extinção.
— Até mesmo os escravos? — perguntou Fletcher, horrorizado.
— Eles tá matando escravos. Uns foge — disse Azul, com voz ondulante, retorcendo os dedos com membranas enquanto falava. — Não muitos não.
— Por quê? — Ele mal conseguia acreditar na loucura daquilo. — Orcs escravizam gremlins há milhares de anos.
— Porque Khan falar que logo logo eles têm escravos humanos. Não vai precisar mais de gremlin.
Azul agora estava falando mais depressa, estimulado pela proximidade do grupo de refugiados que vinha se aproximando a suas costas.
— Tem invasão acontecendo agora — disse Azul, com a voz baixa e urgente. — Milhares e milhares de orcs ataca as linhas de frente. Todas as tribo deles luta junto. É a batalha que vai terminar todas outra.
Ele apontou para o leste, para além das montanhas, onde ficava a fronteira sulina de Hominum. Seria aquele barulho a explosão distante de canhões? Ou apenas o eco do vento?
— Minha nossa — murmurou Fletcher. — Preciso avisar...
— Tá sendo tarde — interrompeu Azul, balançando a cabeça com tristeza. — Já começou.
Fletcher mordeu o lábio, refletindo sobre aquela notícia. Ele poderia estar no combate dali a uma hora, caso saísse voando.
No momento que o pensamento lhe atravessou a cabeça, ele olhou para Ignácio, que tinha se arrastado um pouco para longe do campo de batalha e se enrodilhado sobre um trecho de grama espessa. O Drake estava semiadormecido, mas o horror de terem escapado por um fio ainda fervilhava na cabeça do demônio. Poderia Fletcher conduzir Ignácio pelos ares e enfrentar perigo mais uma vez, depois de terem escapado com vida por tão pouco?
— Quer dizer que os cavaleiros de casuares... estavam caçando vocês? — perguntou Fletcher, enquanto os primeiros refugiados tímidos passavam esgueirando-se por ele, dividindo-se em duas filas, como um rio que se abre em dois, em torno do pequeno grupo de Raposas.
— Não — respondeu Azul, olhando mais uma vez por cima do ombro. Pela primeira vez, Fletcher percebeu que ele não olhava para os outros gremlins, mas para a selva atrás deles. — Os orcs atacando em dois exércitos. Orcs a leste. Goblins a oeste... aqui. — Azul abriu os braços, depois os dobrou de frente um para o outro. — Um movimento de... como diz vocês? Pinça.
— Então foi isso, não é? — perguntou Fletcher, sentindo um nó gelado de apreensão atingir a boca do estômago. — Nós acabamos de matá-los.
Azul fez que não, achatando as orelhas mais uma vez.
— Aqueles foi vanguarda, batedor. Mais vindo a pé. Talvez uma hora distância daqui.
— Quantos? — perguntou Fletcher, olhando para trás, para seus soldados exaustos e manchados de sangue.
Azul não respondeu nada. Em vez disso, montou novamente a fossa e afagou o pelo sedoso da cabeça do animal.
— Eu perguntei quantos — repetiu Fletcher irritado, e sua apreensão começou a se transformar em medo abjeto.
Azul fechou os olhos e respondeu com uma única e brutal palavra:
— Milhares.

3 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!