2 de março de 2018

Capítulo 50

Desta vez, Fletcher foi confinado numa cela maior. Era igualmente escura e desagradável, mas ele ficou surpreso ao encontrar Otelo e Sylva nas outras celas com barras de ferro ao lado da sua. Ignácio chilreou com alegria ao vê-los.
— Você conseguiu! — exclamou Sylva, erguendo-se num salto e sorrindo para ele.
— Rory quase me venceu. Era como se o desafio tivesse sido projetado para Carunchos. — Fletcher encarou o chão. Ainda se sentia culpado, e sua mente se voltava sempre a Rory e Malaqui.
A imagem da areia manchada de sangue ressurgiu de repente, e ele sentiu uma onda de náusea.
— E foi projetado para Carunchos. Você não vê o que Rook fez? — resmungou Otelo, segurando as barras que os separavam. — Ele queria eliminar todos os plebeus poderosos logo no começo, e assim fez com que fosse mais fácil para os mais fracos nos vencer. Se o plano dele tivesse funcionado, os nobres estariam enfrentando Rory, Genevieve e alguns plebeus veteranos com Carunchos na próxima rodada. Rook não separou plebeus e nobres na primeira rodada para ser justo; ele fez isso para que ficasse completamente injusto para nós!
— Bom, ainda bem que ele nos subestimou — respondeu Sylva, com uma expressão de determinação severa no rosto. — Espero que Serafim se classifique também. Vi que ele estava para enfrentar Atlas e um veterano, quando eles passaram pela minha cela.
— Acho melhor torcermos para Tarquin e Isadora não se classificarem. Só que, com Rook decidindo com quem eles vão lutar, acho pouco provável — resmungou Otelo, sombrio.
— Então, o que vem agora? — indagou Fletcher, observando Ignácio lamber a ferida no flanco e se perguntando se deveria tentar o feitiço de cura. — Rook falou alguma coisa sobre luta com espadas. Athol fez o favor de afiar meu khopesh ontem à noite. Mas o que nós vamos fazer, cortar um ao outro até que alguém desista?
— Não, perguntei a Cipião como seria na semana passada — explicou Otelo. — O feitiço de barreira protege a pele dos cortes. É como um escudo muito flexível que envolve seu corpo. Os golpes ainda doem demais, mas o corte é contido, como se você estivesse apanhando com uma barra de metal. Uma vez que Rook julgar que você acertou um golpe mortal ou incapacitante, você será proclamado o vencedor.
— Rook de novo. Bem, pelo menos ele não pode ser injusto demais com todo mundo assistindo — resmungou Fletcher, coçando o queixo de Ignácio.
— Esperem aí, eu nunca ouvi falar nesse feitiço. Por que nós não aprendemos a usá-lo? Sei que os orcs costumam usar armas de impacto e não de corte, de qualquer jeito, mas isso certamente muda tudo! — exclamou Sylva.
— Porque você precisa de pelo menos quatro conjuradores poderosos para fornecer uma barreira forte o bastante — explicou Otelo. — Alguns dos nobres terão que fundir seu mana e fornecer uma torrente constante a você durante a batalha inteira. Fora de torneios, o feitiço quase nunca é usado. Exceto quando o rei está no campo de batalha, é claro.
— Entendi. Bem, vamos torcer para que funcione; não estou muito interessado em perder a cabeça esta noite — comentou Fletcher, chamando o diabrete para seu colo.
— Aqui, deixe-me curar Ignácio — murmurou Sylva, percebendo o humor de Fletcher.
— Não, você vai precisar de todo seu mana para derrotar os Forsyth na terceira e quarta rodadas. Ele vai ficar bem — respondeu o rapaz, desejando ser capaz de fazer um feitiço de cura por si só. Infelizmente, o glifo respectivo era geralmente muito instável, e Fletcher estava muito longe de dominá-lo. — Deixa eu dar uma olhada — disse Fletcher para o demônio, erguendo Ignácio para mais perto do rosto.
O arranhão era superficial, bem mais do que ele tinha esperado. De fato, parecia estar desaparecendo diante dos olhos dele. O rapaz ficou sentado, observando com espanto cada vez maior conforme o corte se selava gradualmente.
— Caramba — murmurou Fletcher. — Você é uma caixinha de surpresas.
Ignácio ronronou quando o menino traçou a pele nova com o dedo.
— Tem alguém chegando — anunciou Otelo, voltando para o fundo da cela.
Sir Caulder apareceu, conduzindo Serafim, que parecia bem feliz.
— Ainda não entendo por que os mantêm nessas celas como um bando de criminosos — resmungou Sir Caulder, destrancando a cela em frente à de Fletcher para Serafim. — O mínimo que eu posso fazer é lhes oferecer alguma companhia.
— Você sabe quem vai lutar em seguida? — perguntou Fletcher.
— Sei. Parece que nenhum dos veteranos passou para a próxima rodada. Os pares são Serafim e Tarquin, Sylva e Isadora, Otelo e Rufus, Fletcher e Malik. Todos vocês vão ter muita dificuldade para vencer. Especialmente no seu caso, Fletcher; a sua luta é a primeira, e Malik foi treinado pelo pai. Virei buscá-lo num instante, eles estão organizando voluntários para a barreira do seu oponente.
Ele saiu mancando, ainda resmungando, com o toque da perna de pau ecoando no corredor.
— Olha, se nós já odiamos estas celas, imaginem como aqueles nobres metidos devem estar se sentindo — comentou Serafim, animado.
— Presumo que você tenha vencido, então? — perguntou Fletcher.
— Claro que venci. Farpa nocauteou Bárbaro com alguns espinhos venenosos do dorso dele. Atlas não ficou nada feliz! O Caruncho do veterano só ficou escondido embaixo de uma pedra até tudo acabar. Quem quer que tenha participado da batalha anterior fez uma belo estrago naquele pilar! Metade da coluna estava em ruínas quando chegou a minha vez, sem falar no estado do Caruncho de Rory! Deixou aquele veterano completamente apavorado, sem dúvida alguma.
— Está tudo bem com Rory? — indagou Fletcher, sentindo outra pontada de culpa.
— Ele parecia bem infeliz. Malaqui ainda estava sendo tratado quando eu o vi pela última vez. Os perdedores se sentam com a plateia, então você logo verá por si próprio. Teremos uma bela audiência na próxima rodada, podem ter certeza — afirmou Serafim, ainda sorrindo.
— Você e Sylva precisam vencer Isadora e Tarquin. É por isso que estamos aqui. Foi por isso que eu quase matei Malaqui. Agora comece a levar isso a sério — ralhou Fletcher.
— Desculpa. Eu não quis dizer...
Ouviu-se de novo o eco dos passos de Sir Caulder, deixando a todos num silêncio nervoso.
— Venha, Fletcher, você é o primeiro — afirmou o instrutor numa voz ranzinza.
O instrutor destrancou a cela e, com um último olhar para os outros, Fletcher o seguiu.
— Lembre-se do que falei, Fletcher. Isto não é uma corrida, não é emocional. Sua carreira é a guerra, e tudo isto são apenas negócios. Malik sabe o quanto é impaciente, que suas emoções podem lhe atrapalhar. Ótimo, deixe que ele pense que vai se comportar assim. Use isso ao seu favor.
Com essas palavras de despedida, Sir Caulder o empurrou para a arena.
— Ah, Fletcher. Preciso dizer, ficamos muito impressionados com o seu desempenho na última batalha; surpreendeu a todos! — Colocando a mão em suas costas, Cipão o guiou para a arena cheia de rochas. — Entalhamento incrivelmente rápido, nem vi seu dedo se mexer. Quanto à sua Salamandra, mas que espetáculo! Tenho certeza de que uma primeira-tenência é uma possibilidade real, se um dos generais vir o mesmo potencial que eu vejo!
Fletcher mal ouviu o discurso, fitando o rosto marcado de lágrimas de Rory enquanto o menino abraçava Malaqui junto ao peito. O demônio batia as asas fracamente, mas parecia estar vivo. O alívio inundou Fletcher como uma droga.
— Rory, ele está bem? — gritou ao outro lado da arena.
— Não, e graças a você — gritou Rory de volta. A dor em sua voz era óbvia, mas não havia raiva verdadeira ali; apenas resquícios de medo.
— Me desculpe, Rory — implorou Fletcher, mas o outro lhe deu as costas, ocupando-se do demônio ferido.
Apesar disso, Fletcher se sentia muito melhor. Malaqui ia ficar bem, e isso era a única coisa que importava. Rory mudaria de ideia.
Foi só quando ele viu Malik, de cimitarra na mão, que desabou de volta à realidade.
— Preciso de voluntários para produzir o feitiço de barreira para o cadete Wulf — declarou Cipião à plateia.
— Será meu prazer — bradou Zacarias Forsyth. — E acredito que os Faversham também estão ansiosos para ajudar. Inquisidor Rook, você se juntaria a nós?
Fletcher empalideceu enquanto os Faversham e Zacarias desceram até a beira da arena. O casal não se deu ao trabalho de esconder o ódio em seus olhos. Cipião ia mesmo deixar que eles ficassem responsáveis pela vida dele?
O reitor pigarreou diante de um estardalhaço e os olhou, parecendo desconfiado.
— Por mais que eu respeite sua boa vontade em ignorar as… complexidades entre vocês e Fletcher, lorde e lady Faversham, preciso insistir para que Rook permaneça concentrado no julgamento do torneio. Não, eu assumirei essa responsabilidade.
— Mas, milorde — gaguejou Zacarias. — O senhor está… aposentado, não está?
— O rei foi generoso e me enviou um pergaminho de conjuração na noite passada. — Cipião criou um fogo-fátuo e depois o apagou com o punho. — Sua Majestade acredita que serei necessário na frente órquica em breve, e que fiquei em luto por tempo demais. Estou inclinado a concordar com ele. Preciso deixar para trás a morte do meu primeiro demônio, ocorrida há tantos anos, e seguir adiante. Meu novo filhote de Felídeo ainda está se desenvolvendo, mas tenho certeza de que, com a ajuda de um conjurador tão poderoso quanto você, ficaremos bem. Agora, não ligue para nós, Fletcher. Você sentirá um leve formigamento na sua pele, mas é só. Vamos cuidar de todo o resto.
Os quatro magos de batalha deram as mãos e Cipião começou a desenhar um glifo complexo no ar.
— Vá em frente, Fletcher — disse o reitor. — Malik está esperando.

5 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!