2 de março de 2018

Capítulo 5

Se o soldado tinha esperado impressionar a plateia, decepcionou-se. A maioria deu uma olhada ambivalente e houve até alguns resmungos. Numa pequena vila de caçadores como Pelego, a habilidade de ler ficava bem no fim da lista de prioridades. Muitos dos aldeões teriam dificuldades em passar da primeira página, quanto mais desbravar o livrão inteiro. Fletcher, por outro lado, fora encarregado das finanças de Berdon, o que exigia que soubesse ler e dominasse a aritmética. As muitas longas horas que o rapaz passara suando com todos os números e letras lhe custaram um precioso tempo de brincadeiras com as outras crianças, mas ele tinha orgulho da própria educação e estava certo de que era pelo menos tão culto quanto Didric, se não mais.
O soldado sorria enquanto brandia o livro, erguendo-o sob a luz acinzentada do inverno e folheando as páginas, oferecendo a Fletcher uma espiada sedutora da letra manuscrita e dos esboços intrincados.
— O que mais você tem? — indagou Jakov, com a decepção bem clara na voz.
— Muita coisa! Só que mais nada supera isso aqui, se vocês me permitirem explicar. Deixem-me demonstrar, antes que a gente passe ao próximo item — implorou o soldado.
A plateia, mesmo que desprovida de interesse pelo livro, não desperdiçaria entretenimento gratuito. Houve acenos de concordância e comentários de incentivo, e o soldado abriu um sorriso desdentado. Saltou para cima de um caixote vazio da barraca vizinha e chamou a multidão mais para perto, erguendo o tomo sobre a cabeça, onde todos pudessem ver.
— Esse mago de batalha era da patente mais baixa que um conjurador pode ter, um segundo-tenente de um regimento que nem tinha terminado o treinamento. Mesmo assim, ele se ofereceu para aquela missão fatídica, e quando dei uma olhada neste livro, entendi o porquê. O sujeito estava procurando uma arma secreta, uma forma de conjurar criaturas novas.
O soldado conquistara a atenção de todos, e sabia disso. Fletcher fitava do outro lado da rua, boquiaberto, o que lhe rendeu um pigarrear de aviso da parte de Berdon. O rapaz se endireitou e se ocupou da própria barraca, mesmo que já estivesse impecavelmente arrumada.
— Os xamãs orcs invocam todo tipo de demônios, mas são quase todos criaturas baixas e fracas, que não são páreo para aquilo que os nossos próprios conjuradores são capazes de trazer. Porém, nossos conjuradores só conseguem capturar algumas poucas espécies diferentes do outro mundo, com algumas exceções ocasionais. Assim, ainda que os nossos magos sejam muito mais poderosos que qualquer xamã orc, isso nos deixa com menos cordas em nosso arco, digamos assim. E o que esse mago de batalha tentava fazer era encontrar um jeito, usando técnicas órquicas, de conjurar os demônios realmente poderosos.
Durante sua noite nos alojamentos da frente élfica, Fletcher tinha ouvido relatos de criaturas horrendas que se esgueiravam pela noite, cortando gargantas adormecidas e escapando ilesos. Feras que saltavam da mata cheias de garras, como gatos selvagens, e lutavam até que seus corpos estivessem retalhados com balas de mosquete. Se essas eram as criaturas fracas de que o soldado falava, Fletcher não queria encontrar o demônio de um mago de batalha veterano.
— Então é para acreditarmos que esse livro contém um segredo que vai mudar o destino da guerra? Ou que ele traga instruções sobre como conjurar nossos próprios demônios? Talvez ele valha seu preço em ouro — zombou uma voz familiar, carregada de sarcasmo.
Era Didric, recém-chegado dos estábulos. O guarda tinha ficado parado atrás da barraca seguinte, fora da vista de Fletcher.
— Palavras suas, e não minhas, meu bom senhor — respondeu o soldado, tocando o nariz com uma piscadela esperta.
— Seria mais válido investir fundos nas armas lamentáveis do outro lado da rua do que no seu livro! — Didric sorriu enquanto Fletcher corava com a alfinetada.
Em seguida, o garoto mimado contornou o caixote até a frente da plateia, descuidadamente chutando o chifre de rinoceronte ao passar.
— Por que um conjurador se ofereceria para tal missão, se já tivesse descoberto tamanho segredo? E por que você o estaria vendendo aqui, se o livro fosse tão valioso? Quanto à possibilidade de ele conter instruções de conjuro, todos nós sabemos que apenas aqueles de sangue nobre e alguns outros sortudos são abençoados com as habilidades necessárias para conjurar. — Didric fez uma careta de desprezo enquanto o soldado ficava boquiaberto de surpresa, mas este se recuperou com agilidade surpreendente.
— Bem, meu senhor, ele provavelmente estava ansioso para ver um demônio orc bem de perto. Não sou letrado, portanto não sei qual é o valor do livro, e ele me seria confiscado se eu tentasse vendê-lo a qualquer mago de batalha, já que foi roubado de um deles. — Ele abriu os braços, e seu rosto era a imagem da inocência. Obviamente — continuou —, eu provavelmente vou entregá-lo quando chegar à frente élfica. Mas, se puder faturar alguns xelins adicionais, sabendo que o livro alcançará as mãos de um mago de batalha de qualquer maneira, bem, quem poderia me condenar, depois de eu ter carregado aquele homem por metade da selva? — O soldado baixou a cabeça em falsa modéstia, espiando por entre os cabelos gordurosos.
A plateia estava inquieta, sem saber com quem concordar. Didric certamente era popular, especialmente quando estava sendo perdulário com o dinheiro de Caspar na taverna. Porém, o soldado era empolgante, e Fletcher notou que a multidão queria que a história dele fosse verdadeira, mesmo que no fundo soubessem que não poderia ser.
No momento que o povo começou a zombar e Fletcher abriu um sorriso para o valentão que perdia a batalha de conhecimento contra um soldado comum, Didric reagiu:
— Espere. Você não mencionou mais cedo que tinha deduzido o foco dos estudos dele ao folhear o livro? Certamente teria de ler para entender tais coisas. Você é um mentiroso. Uma fraude, e eu deveria mesmo era mandar chamar os Pinkertons. Eles poderiam até incluir uma acusação de deserção contra você também. — Ele riu enquanto o soldado gaguejava.
— Você pegou ele de jeito agora — comentou Jakov, com a mão no cabo da espada.
— Tem figuras no livro... — balbuciou o soldado, que foi imediatamente calado pelos gritos da plateia, que começava a zombar dele.
Didric ergueu a voz e elevou a mão, pedindo silêncio.
— Vamos fazer o seguinte. Gostei do jeito desse livro. São a curiosidade e a vontade de aprender que me motivam, não o desejo de riquezas — declarou o rapaz, com nobreza, conforme o bordado dourado de suas roupas reluzia ao sol. — Voltarei mais tarde para buscá-lo. Que tal, digamos... quatro xelins? Eu por acaso vendi uma bela galhada pelo mesmo preço ontem à noite — afirmou Didric, lançando um olhar triunfante a Fletcher. O filho de Caspar não esperou uma resposta; em vez disso, foi embora cheio de si, seguido por Jakov e a maioria dos clientes do soldado.
O homem fuzilou o jovem guarda com o olhar, mas logo uma expressão de abatimento tomou conta do seu rosto. Sentou-se no caixote com um suspiro audível, largando o livro no chão, derrotado. Aborrecido com a vitória de Didric, Fletcher observou as páginas que eram viradas pela brisa.
O menino não sabia como, mas Didric iria pagar caro naquela noite. De um jeito ou de outro.


5 comentários:

  1. To lendo mais pq quero que esse Didric quebre a cara logo 😂😂😂

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  2. Filha de Apolo....4 de maio de 2018 09:25

    Vontade de meter a mão na cara desse tal de Didric....... Encher ele de porrada.
    Procede?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!