31 de março de 2018

Capítulo 4

MORRIGHAN

— Aqui — Pata disse. — Aqui é um bom lugar.
Uma trilha sinuosa havia nos levado até lá, uma que não era facilmente seguida, um caminho que eu havia ajudado a encontrar, o saber criando raízes em mim e se fortalecendo.
Ama examinou as densas árvores. Examinou a mistura de possíveis abrigos. Examinou as colinas e ribanceiras pedregosas que nos escondiam da vista. Mas principalmente eu a via observando a tribo. Eles estavam cansados. Famintos. Eles pranteavam. Rhiann havia morrido pelas mãos de um abutre quando se recusou a abrir mão de um cabrito que estava em seus braços.
Ama olhou de volta para o pequeno vale e assentiu. Eu podia ouvir a batida do coração da tribo tão bem quanto ela. O ritmo estava fraco. Eles sofriam.
— Aqui — Ama concordou e a tribo descarregou suas bagagens.
Inspecionei nosso novo lar, se é que podia ser chamado assim. As estruturas eram perigosas, a maior parte feita de madeira e em ruínas por negligência, pela passagem das décadas e, é claro, pela grande tempestade. Elas ruiriam a qualquer momento — a maioria já havia ruído — mas nós poderíamos fazer nossos próprios alpendres com as ruínas. Poderíamos construir um lugar para ficar que duraria mais do que alguns dias. Seguir em frente era tudo o que sempre conheci, mas eu sabia que houve uma época em que as pessoas permaneciam, uma época em que você poderia pertencer a um lugar para sempre. Ama havia me contado, e às vezes eu sonhava que estava lá. Sonhava com lugares que nunca tinha visto, com torres de vidro coroadas por nuvens, com pomares espalhados carregados de frutas vermelhas, com camas quentes e macias, cercadas de janelas com cortinas.
Estes eram lugares que Ama descrevia em suas histórias, lugares onde todas as crianças da tribo eram príncipes e princesas e seus estômagos estavam sempre cheios. Era um mundo de conto de fadas que costumava existir.
No último mês desde a morte de Rhiann, nós nunca permanecemos em um lugar por mais que um dia ou dois. Bandos de abutres haviam nos despejado depois de roubar nossa comida. O incidente com Rhiann fora o pior. Desde então nós estávamos caminhando há semanas, coletando pouco ao longo do caminho. O sul não se provara mais seguro que o norte, e ao leste Harik comandava, seu reino e alcance crescendo mais a cada dia. No oeste sobre as montanhas, a enfermidade da tempestade ainda persistia, e mais além criaturas selvagens vagavam livremente. Assim como nós, elas estavam famintas e atacavam qualquer um que fosse tolo o bastante para ir até lá. Pelo menos, isso era o que me foi falado — ninguém que eu conhecia havia cruzado as montanhas áridas. Nós estávamos encurralados de todos os lados, sempre procurando por um canto escondido para ficar. Pelo menos tínhamos uns aos outros. Nós nos aproximamos mais para preencher o vazio que Rhiann deixara.
E o vazio que Venda deixara também. Eu tinha seis anos quando ela nos deixou. Pata disse que ela estava doente com a poeira da tempestade. Oni falou que ela estava curiosa, fazendo com que a palavra soasse como uma doença. Ama disse que ela foi capturada, e as outras mulheres concordaram.
Nós concordamos em montar acampamento. As esperanças estavam altas. Este pequeno vale parecia certo. Ninguém se aventuraria aqui, e havia água em abundância por perto. Oni reportou que havia uma campina com grama logo acima do monte, e ela avistou um bosque de carvalhos um pouco a frente.
Ao todo eram dezenove pessoas. Onze mulheres, três homens e cinco crianças. Eu era a mais velha das crianças por três anos. Eu me lembro daquela primavera em que me senti afastada do restante delas. Suas brincadeiras me irritavam. Eu sabia que estava à beira de algo diferente, mas com a rotina de nossa vida diária, não conseguia imaginar o que era. Cada dia era igual ao anterior. Nós sobrevivíamos. Nós temíamos. E, às vezes, nós ríamos. Qual era aquele novo sentimento que espreitava em mim? Eu não tinha certeza se gostava disso. Era um ressoar como de fome ou desejo.
Todos nós ajudamos a recolher os pedaços de madeira, alguns deles com letras grandes que uma vez haviam sido parte de algo, uma mensagem parcial que não importava mais agora. Outros encontraram chapas de metal enferrujadas para colocar contra as pedras empilhadas. Eu peguei uma tábua larga manchada de azul. Ama disse que o mundo já foi pintado com cores de todos os tipos. Agora azul era uma raridade, geralmente somente encontrado no céu ou em uma lagoa limpa que o refletia, como na lagoa onde eu vira Jafir. Quatro invernos já haviam passado desde que eu o vira pela última vez. Eu me perguntava se ele ainda estaria vivo. Apesar de nossa tribo estar sempre à beira de um estado de inanição, os abutres estavam à beira de algo pior. Eles não se importavam uns com os outros da mesma maneira.

Um comentário:

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Boa leitura! E SEM SPOILER!