22 de março de 2018

Capítulo 44

Os dias pareceram se passar em um borrão depois que o treinamento começou para valer. Fletcher, Rory e Genevieve levavam os soldados para as planícies todas as manhãs para treinar as manobras — marchar, virar e formar em variadas fileiras em rápida sucessão.
Depois vinham as formações mais complexas: um schiltron para se proteger de um ataque montado, nos quais os homens faziam um círculo, com os da frente empunhando alabardas para atacar as bestas enquanto os da retaguarda atiravam indiscriminadamente na cavalaria que se aproximava.
Outra tática era a recuada ordenada, quando as equipes de artilharia forneciam cobertura umas às outras enquanto se separavam em grupos de cinco. Os homens se espalhariam em uma formação solta para se transformar em alvos mais difíceis para dardos. Eles também praticavam as investidas disciplinadas, de modo que uma barreira de homens caísse em cima dos oponentes em uma única onda.
Fletcher, Rory e Genevieve receberam para treinamento uma equipe de quinze soldados cada, com igual divisão de anões, elfos e humanos. Os oito restantes foram selecionados por Rotherham a fim de tornarem-se atiradores de rifle, e ele os treinava separadamente em manhãs alternadas, até que fossem capazes de, com um tiro, derrubar um fruto de uma musolveira a cem metros de distância, e atingir o tronco de uma árvore três vezes em cinco disparos a 400 metros. Praticavam pontaria com alvos móveis, e todas as noites a colônia jantava os frutos de suas conquistas — bifes de ágeis gazelas, antílopes de chifres compridos e, certa noite, até mesmo um búfalo pesado que sozinho alimentou a população inteira de Raleighshire.
À tarde, Sir Caulder treinava os recrutas para o combate até que estes ficassem cobertos de suor, aperfeiçoando suas habilidades até que Fletcher mal conseguisse reconhecer os soldados bronzeados de sol que combatiam entre si no calor da tarde. Os homens logo aprenderam a temer Sir Caulder; aqueles que o desafiavam saíam mancando com vergões vermelhos nos braços e rostos. Mesmo assim, os soldados estavam se transformando em um exército formidável, e suas armas de treino criavam borrões com a velocidade e ferocidade com que eram usadas nos ataques. Ao fim de cada sessão, havia muito mais que uns poucos hematomas, e Fletcher surpreendia os soldados curando cada ferimento, como se estivesse apagando uma mancha.
À noite, os colonos começaram a distinguir os horários pela intensidade dos disparos de armas de fogo, e sabiam que o sol estava se pondo quando o silêncio voltava a cair sobre as planícies. Fletcher fez questão de fazer com que ele, Rory e Genevieve ficassem tão experientes no uso do mosquete quanto os próprios soldados, e, embora fossem se deitar todas as noites com ombros doloridos e nós dos dedos em carne viva, todos conseguiram aprender a dar quatro disparos em um minuto, metódicos como um relógio, ao final do primeiro mês.
Foi um alívio quando Rotherham declarou que os homens estavam prontos, mas então veio a parte das estratégias de tiro.
Eles deveriam atirar por fileira: a primeira disparava e se ajoelhava para recarregar as armas, e a segunda, de pé, atirava em seguida para fornecer uma explosão de balas de mosquete na linha inimiga a cada sete segundos. A saraivada de tiros dos pelotões, onde cinco homens disparavam ao mesmo tempo na linha da infantaria, fornecia uma saraivada constante de balas sobre os inimigos.
Ao final daquele primeiro mês, os soldados estavam bem familiarizados com as manobras militares, portanto Fletcher e seus dois tenentes passaram a levá-los em expedições pela savana, para caçar ou procurar ébano. Logo, eles passaram a ter tanta carne que não sabiam o que fazer com ela, mesmo depois de Ignácio se refestelar com o excedente.
Portanto, Fletcher enviou comboios de comércio para vender a carne de caça nos mercados de Corcillum, conservando-a em barris de sal. Quanto à lenha, Fletcher fazia os homens cortarem, apararem os galhos e transformarem a madeira em toras no meio da savana, depois trazer a madeira de volta em trenós improvisados. Ele os acompanhava em cada tarefa e fazia questão de dar sempre mais duro que qualquer um, ganhando seu respeito relutante. Antes do segundo mês, os soldados já tinham perdido toda a gordura de criança, e seus corpos eram esbeltos e tão rijos quanto os de cães de caça. Até mesmo Kobe e seus compatriotas magrelos ganharam camada após camada rija de músculos, e mesmo Fletcher nunca se sentira tão forte em toda a vida.
Agora que os soldados estavam ajudando, Raleightown passou a ter um suprimento constante de madeira a fim de executar todos os seus reparos e projetos de construção, e toras de ébano frescas, às vezes, eram levadas também nos comboios comerciais. Sob a orientação de Thaissa e Berdon, as casas foram completadas com rapidez, e os colonos puderam se mudar. Não demorou para que a igreja se tornasse seu salão de jantares e ponto de encontro, com vidros novos nas janelas e grandes mesas compridas de madeira escura preenchendo-a de parede a parede.
Fletcher começou a ansiar pela chegada de cada noite, quando o zumbido alegre das conversas inundava o lugar e ele podia se soltar ante a satisfação de todos. Ele e Berdon haviam convertido a velha ferraria em sua casa e passavam todas as noites relembrando os velhos tempos e fazendo planos para o futuro.
Cada retorno dos comboios trazia consigo ouro e suprimentos, e Fletcher dividia os lucros igualmente entre ele e os trabalhadores. Notando os lucros, logo novos produtos começaram a surgir do seio dos colonos. Frutas exóticas eram colhidas aos barris das árvores silvestres e vendidas ao lado das carnes. Os primeiros fardos de lã de seu pequeno rebanho de ovelhas logo se juntaram a essas mercadorias, embora os ataques de leões e chacais tivessem reduzido o grupo de recém-nascidos para apenas três.
Mas nem tudo eram boas notícias: Fletcher não podia visitar a mãe. Recebeu um aviso dos médicos do rei dizendo que ela fazia progressos, mas que receavam que ela regressasse a seu estado anterior e animalesco caso o visse, uma vez que estava em um ponto bastante frágil da recuperação. Ele ficava mortificado por não poder visitá-la, pois ela tinha sido levada sem que ele pudesse se despedir adequadamente na noite em que eles retornaram à própria dimensão.
Apesar dos pesares, o fato de poder voar novamente o animava, mesmo quando estava muito triste. Ao nascer de cada manhã, ele montava Ignácio e subia até os céus sem nuvens. A asa de Atena tinha finalmente se cicatrizado, e a alegria do demônio completava a sua quando eles deslizavam acima da paisagem selvagem, descobrindo cada dobra e canto da terra que passaram a chamar de lar. Voar era glorioso, e Fletcher não conseguia acreditar que algumas pessoas podiam passar a vida inteira sem experimentar aquilo. Mas, independentemente do quanto ele insistisse com Berdon, o ferreiro sem papas na língua se recusava sequer a montar Ignácio, quanto mais permitir que o Drake o levasse a poucos centímetros de altura do chão.
Embora ele e os colonos estivessem satisfeitos, havia algumas divisões no exército de Fletcher, e não tinha momento que ficassem mais aparentes que na hora do jantar. Os anões preferiam sentar-se à própria mesa, liderados por um anão de rosto austero chamado Gallo cuja barba era tão comprida que ele precisava enfiá-la por baixo do cinto. Fletcher sabia por Thaissa que ele e os outros recrutas anões conversavam na própria língua entre si, mesmo quando os humanos estavam por perto, o que lhes valera a ira de muitos dos companheiros de exército.
Kobe e seus ex-escravos tinham feito amizade com os condenados, que falavam alto e eram grosseiros, mas tinham boa índole. Infelizmente, o mais popular desse grupo era o rapaz de rosto marcado que atendia pelo nome de Logan, um encrenqueiro nato. Ele e seus aliados frequentemente eram vistos dando risinhos dissimulados, em geral de alguma piada dita por um anão ou elfo.
Havia ainda os elfos arredios, dos quais a líder era Dália. Ela se tornara mais simpática para com Fletcher nos últimos meses, e assumira um comportamento civilizado, ainda que um pouco tenso. Entretanto, Fletcher não tinha certeza se havia realmente conquistado seu respeito, ou se fora a chegada de uma mascote improvável no exército o que melhorara seu humor: uma raposa do deserto, tão pequena quanto um cãozinho, com pelo branco-dourado e as orelhas grandes, parecidas com as de um morcego, tão características da espécie.
A raposa do deserto tinha começado a segui-los em suas incursões pela savana, pedindo restos de comida e os carinhos na barriga que os soldados lhe davam. Dália imediatamente adotara a criaturinha, e a raposa se tornou sua companhia constante, trotando atrás de seus calcanhares durante o dia e dormindo a seu lado à noite. Embora a raposa fosse oficialmente de Dália, todo o grupo de soldados a considerava um bom presságio e lhe deu o nome de Coelhinho, por causa das orelhas. Ela era mimada por todo mundo e se saía muito bem em colocar um sorriso ocasional no rosto geralmente severo da elfa.
Eles estavam treinando havia dois meses quando os problemas começaram, em uma noite bem parecida com qualquer outra. Quase todos os colonos já haviam se retirado, pois o treinamento acabara tarde e a maioria já tinha jantado quando os soldados chegaram à igreja. A caça tinha sido escassa naquele dia — sua refeição consistira de um ensopado feito com as sobras do dia anterior, e o humor estava mais sombrio por conta disso.
Fletcher sentava à mesa principal com Rory, Genevieve, Sir Caulder e Rotherham quando percebeu. Logan tinha apanhado meio pão de forma e estava segurando-o contra o queixo como se fosse uma barba, mostrando a língua para os anões. Talvez fosse para ser uma brincadeira, mas os anões não estavam achando graça: muito pelo contrário, na verdade, e o modo como olhavam carrancudos para Logan fez Fletcher achar que não era a primeira vez que ele os provocara daquela maneira.
— Se eu me ajoelhasse, vocês não iam perceber nenhuma diferença — disse Logan, ganhando uma risadinha apreciadora dos rapazes sentados à volta. — Apesar de que os anões já andaram se ajoelhando um bocado ultimamente, né não, rapazes?
Aquele insulto fez com que um dos anões se levantasse na mesma hora, mas ele foi puxado para baixo por Gallo, que sussurrou algo furtivamente em seu ouvido.
Desapontado com a falta de reação, Logan voltou a atenção para os elfos. Partiu o pão em dois e colocou uma metade de cada lado do rosto, imitando suas orelhas.
— O que acham, senhoras? — perguntou para as elfas. — Estou parecido o suficiente para vocês? À noite todos os gatos são pardos, não é mesmo, rapazes?
Dália percorreu a distância entre eles em um único salto ágil e segurou Logan pela nuca. Uma lâmina de punhal surgiu em um instante, como se tivesse se materializado do nada, e ela sibilou de raiva:
— Quer ficar parecido com um elfo? Deixe que eu aponto suas orelhas para você.
De repente, as facas que estavam sendo usadas para fazer a refeição foram apanhadas e escondidas embaixo das mesas. Os condenados se levantaram de um pulo, e Logan gritou, em uma mistura de medo e ultraje.
— Parem, agora mesmo! — ordenou Fletcher.
Seu coração batia forte, chocado com a rapidez com que os soldados tinham passado de companheiros a inimigos. Mas, antes que ele pudesse dizer qualquer outra palavra, o punhal desapareceu e Dália recuou com um sorriso predatório.
— Qual o problema, hein, Logan? — perguntou ela, inclinando a cabeça de lado. — Não sabe encarar uma brincadeirinha?
Ele balbuciou uma resposta, e o salão inteiro prendeu o fôlego. Então, Logan virou a tigela com um rosnado e saiu pisando duro, depois meteu-se porta afora e desapareceu ao ar noturno. A tensão diminuiu um pouco. As facas foram recolocadas sobre as mesas, e o zumbido baixo de conversas retornou.
Fletcher afundou na cadeira e exalou em um suspiro alto. Por agora estava resolvido, mas, no mesmo instante que sentiu a primeira pontada de alívio, sua mente se preocupou com o restante da noite.
— Quero vocês quatro dormindo nos alojamentos esta noite — disse para Rory, Genevieve, Sir Caulder e Rotherham, pensando no espaço confinado onde os soldados estavam alojados. — Para terem certeza de que isso não vai acabar mal.
— Você tem razão, meu rapaz — suspirou Sir Caulder. — Mas isso não vai terminar de hoje para amanhã. Já anda fermentando há um tempo.
— Eu sei — disse Fletcher, observando os anões saírem do salão com os olhos fixos nos condenados, cheios de agressividade declarada. Então Gallo se virou e passou o dedo no pescoço, num gesto tão sutil quanto uma tijolada em uma vidraça.
Fletcher soltou uma respiração contida entre dentes, sentindo a frustração ferver dentro de si. Ele havia permitido que aquele problema aumentasse, ao escolher fazer vista grossa todo dia em que aquela divisão se mostrava. Agora, o estrago estava feito.
E cabia a ele consertá-lo.

4 comentários:

  1. Esse é pra ser o caopítulo 44 né?

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  2. Eu tô numa preocupação com o desmatamento dessas árvores

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    1. Eu também! E quando ele falou na caça que às vezes sobrava e eles tinham que vender eu pensei seriamente que aquilo ia acabar mal

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Boa leitura, E SEM SPOILER!