22 de março de 2018

Capítulo 4

Fletcher acordou. Ouviu o barulho abafado de algo caindo no chão e virou-se de lado. Outro barulho se seguiu ao primeiro, e ele rolou o corpo, encostando-se à barriga de Lisandro.
— O que qu... — conseguiu dizer, abrindo os olhos.
Havia árvores ao redor. Árvores de verdade, com galhos que pendiam como os de salgueiros, obscurecendo os céus pálidos. O rosto de Cress entrou em seu campo de visão, com um largo sorriso estampado ali.
— Sheldon está andando — disse ela, puxando o casaco de Fletcher. — Estamos saindo do pântano.
Fletcher se sentou, estremecendo de dor ao sentir uma pontada nas costas. Não tinha sido um sono reparador, e ele dormira bem menos do que desejaria.
Seu primeiro pensamento foi sobre Alice. Ela estava acordada, mastigando uma pétala, sentada perto da cauda do Zaratan e mirando com um olhar vazio as árvores acima. Havia um floco amarelo em seu lábio superior. Fletcher o limpou com gentileza e lhe arrumou o casaco para que envolvesse mais seus ombros, cuidando para não incomodar Ignácio, que ainda dormia. Atena estava alerta, mas não tinha saído do colo de Alice. Ele sentiu uma grande melancolia da parte da Griforuja e se deu conta de que ela amava Alice tanto quanto seu pai a havia amado. Afagou a cabeça de Atena e deixou as duas sozinhas.
— Sheldon? — perguntou ele, quando se tocou das palavras de Cress.
— Nosso Zaratan; a gente decidiu dar um nome a ele — explicou Sylva, entregando uma pétala para Fletcher comer. — Coma. Já faz cinco horas, ou pelo menos é o que diz o relógio de bolso de Cress.
Enquanto mastigava o ornamento azedo, ele percebeu que Sylva estava ocupada contando as pétalas do saco e empilhando-as cuidadosamente no espaço entre suas coxas.
— Como sabe que é ele, e não ela? — perguntou Otelo, ainda esparramado ao longo da metade de cima do casco, os olhos fechados.
— Eu chequei — respondeu Cress, corando.
Fletcher deu risada e engatinhou até a frente do Zaratan. Sheldon virou-se para encará-lo, piscando seus olhos dourados pensativamente. Era uma bela criatura, com bico macio e amarelo, e pescoço comprido e ágil. Seu ritmo, apesar de ponderado, era mais veloz do que parecia, as longas passadas percorrendo uma boa distância sob suas patas espalmadas com garras.
Por um instante Fletcher ficou na dúvida se valeria a pena conjurar o demônio. Um Zaratan, entretanto, era um demônio de nível quinze — muito elevado para Sylva.
— Noventa pétalas — declarou Sylva, interrompendo seus pensamentos. — Exatamente como pensei. Restam noventa horas.
Os olhos de Fletcher voltaram-se para o solo, buscando pelo menor sinal de algo amarelo, mas só viu uma mistura de verdes e castanhos: nenhum demônio ou botão de flor à vista.
— Devíamos ficar com Sheldon — sugeriu Fletcher.
Ele olhava para a frente, onde o chão ainda era pantanoso, mas já começava a tornar-se um pouco mais seco, com um ou outro trecho de grama áspera à vista. Mais além, as árvores tornavam-se mais altas, apesar de aquela região se ver obscurecida pelas sombras profundas das copas.
— Concordo; ele é mais rápido que nós a pé — argumentou Sylva. — Além disso, não é completamente indefeso: suas patas e bico parecem bastante afiados.
— E também podemos continuar seguindo caminho enquanto dormimos, se um de nós montar guarda — concordou Cress, se aproximando desajeitada de Fletcher.
Ela estendeu o braço para acariciar Sheldon, e Fletcher sorriu ao ver o Zaratan grunhir de prazer ao ser acariciado na base do pescoço. Nos dias que se seguiriam, aquele gigante gentil seria um poderoso aliado.
Um guincho atravessou os ares, seguido por um grito de Sylva. Fletcher virou-se e viu que Lisandro finalmente havia se recuperado... mas avançava sobre Tosk com os pelos da nuca eriçados, perseguindo-o como um leão a uma gazela. Os olhos estavam de certa maneira diferentes, as pupilas dilatadas e despidas da inteligência que antes brilhava ali.
— Lisandro! O que está fazendo? — gritou Fletcher. Sabia que Lisandro não comia nada desde que fora paralisado, mas aquilo era mais que simplesmente fome.
— Sua ligação com Lovett se rompeu quando o portal fechou — explicou Sylva, horrorizada. — Ele está ficando selvagem novamente.
Lisandro deu mais um passo na direção do Raiju aterrorizado, cuja pelagem azul parecia todo arrepiada. A cauda de esquilo de Tosk se arqueou, soltando estalos elétricos. Em resposta, o Grifo abriu bem o bico e soltou um rugido; o timbre aumentou até terminar em um guincho.
— Precisamos fazer alguma coisa — gritou Otelo, o som abafado pelo Grifo prestes a investir. — Ele vai matá-lo!
A mente de Fletcher disparou em busca de uma solução. O pergaminho de conjuração de Lisandro estava guardado na lateral de seu alforje. O único problema era que o alforje estava embaixo da barriga do Grifo.
— Não vou deixá-lo machucar Tosk! — disse Cress, e em um instante a besta estava armada, com a ponta mirando a cabeça de Lisandro.
— Fletcher! Alguma ideia? — berrou Sylva.
Sylva. Sem Sariel, ela talvez conseguisse conjurar um demônio de nível dez como Lisandro. Dois anos antes, tivera nível sete de conjuração.
— Prepare-se — disse ele, agachando-se bem baixo.
— Como assim? O que você quer dizer com isso? — respondeu a elfa, com irritação, mas não havia tempo para explicar.
— Atena, agora! — gritou Fletcher, subindo em disparada a inclinação do casco do Zaratan.
Deslizou para baixo da barriga de Lisandro e enfiou a mão no bolso lateral do alforje. O mundo acima se iluminou quando Lisandro saltou para cima de Tosk... mas ele logo viu sua presa ser arrancada para longe pelo veloz Griforuja.
— Leia! — berrou Fletcher, atirando o pergaminho para as mãos espantadas de Sylva.
— O que...? — disse Sylva, confusa, mas em seguida começou: — Lo ro di mai si lo.
Lisandro soltou um guincho e rodopiou, as garras arranhando a superfície do casco do Zaratan. Seus olhos perfuraram Fletcher com uma fome profunda e animalesca. Fletcher teve de se esforçar para não se afastar. Ignácio estava rodeando os dois, tendo sido acordado de onde dormia, no pescoço de Alice, pelo grito de Sylva. Ele aguardava uma chance para atacar, mas Fletcher ordenou que ficasse no lugar. Precisavam de tempo; um ataque de Ignácio apenas forçaria uma confrontação cedo demais.
O casco de Sheldon estremeceu sob seus pés, como se ele pudesse sentir a comoção. Os tremores fizeram o grifo parar, e ele mudou de posição, esparramando-se, como um urso que atravessa um lago congelado. Fios brancos já começavam a aparecer entre ele e Sylva, retorcendo-se para formar um brilhante cordão de luz.
— Depressa... — sussurrou Fletcher baixinho, apressando mentalmente a entoação de Sylva enquanto as palavras rodopiavam a seu redor.
Lisandro deu um passo hesitante. O feroz bico aberto revelava uma boca rosada. Ele se debatia, e sua ligação com Sylva crescia a cada palavra pronunciada por ela. Fletcher permanecia imóvel, sabendo que qualquer movimento repentino poderia atrapalhar o processo.
Mais um passo, e agora Fletcher podia sentir a respiração quente e ofegante do grifo, úmida graças à goela do demônio. Ele fechou os olhos.
O frio bico duro roçou sua face, e então ele sentiu o ruflo suave das penas do demônio quando este o afagou, enterrando sua cabeçorra no peito de Fletcher. A entoação de Sylva chegara ao fim... Lisandro voltara.
Fletcher envolveu o pescoço do grifo com os braços, mas, segundos depois, não havia nada mais ali. Abriu os olhos e viu o grifo se dissolver em uma névoa de luz branca enquanto Sylva segurava um couro de conjuração sob ele.
Depois que o último clarão de luminescência flutuou para dentro da elfa, ela recostou-se para trás, punhos cerrados, estremecendo de euforia por ter infundido um novo demônio pela primeira vez. Por fim ela se deitou, com um sorriso delicado nos lábios.
Fletcher caiu sobre o casco a seu lado, então Ignácio o derrubou de costas, chilreando de alívio. Era estranho, mas o demônio parecia de alguma maneira mais pesado. Deu uma mordidinha de reprovação na orelha de Fletcher por ele tê-lo assustado e prontamente abraçou seu pescoço.
— Certo, alguém precisa me dizer que diabos acabou de acontecer aqui — grunhiu Cress.
Fletcher virou-se e a viu pisando duro pelo casco em sua direção, os olhos redondos e negros de Tosk espiando por baixo de sua jaqueta, onde ele se escondera.
— Isso acontece quando os demônios perdem seus mestres — explicou Otelo, esfregando a nuca. — Eu devia ter me lembrado, a gente aprendeu no segundo ano. Os demônios só se tornam verdadeiramente conscientes quando são capturados e conjurados por um conjurador; antes disso, não são mais inteligentes que qualquer outro animal. Sem essa conexão, retornam ao estado inicial, até se religarem a um novo mestre e lembrarem-se de quem são. Tivemos sorte por Lisandro ter ficado paralisado tanto tempo: em geral, tudo isso acontece muito depressa.
— É verdade — concordou Fletcher, recordando-se da lembrança de Atena da noite em que ele foi deixado diante dos portões de Pelego. Como ela sentira o chamado selvagem do éter atraindo a essência de seu ser.
— Você bem que podia ter avisado — resmungou Cress.
Fletcher se levantou e tentou desvencilhar-se do abraço de Ignácio, mas o demônio recusava-se a soltá-lo. Suspirou e desceu apressado a inclinação do casco em direção a Alice, que estava sentada, como um índio, as pernas cruzadas, olhando para a frente com um olhar inexpressivo. Ela não tinha se movido, nem mesmo quando Lisandro soltara seu rugido. Apenas o afagar ocasional da mão da mãe nas costas de Atena dava a Fletcher alguma esperança de que um dia ela poderia se recuperar.
Ele havia perdido o pai biológico, Edmund, mas não perderia a mãe de novo. Não agora, quando tinham passado tão pouco tempo juntos. Devia haver uma maneira.
Olhou para a terra desolada, em busca de algum sinal que lhe desse esperança, mas não havia comida nem flores, apenas lama e plantas sem graça.
— Não se preocupe, Ali... mãe — murmurou Fletcher, a palavra parecendo estranha em sua boca. — Vamos levá-la para casa. Prometo.

3 comentários:

  1. Sheldon...que legal!

    Essa coisa toda de capturar e conjurar demônios me lembra do jogo Pokemon Go.

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    1. O Autor afirmou que se inspirou no Pokémon e em Harry Potter para escrever os livros

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  2. A alice poderia conjurar Sheldon, ela deve ter a realização pelo menos nível 15

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Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!