13 de março de 2018

Capítulo 4

Jakov crescera nos dois anos de ausência de Fletcher.
Agora sem os últimos vestígios de puberdade, o que restava era um gigante hercúleo. Os braços eram feitos de imensos músculos que se moviam como as pernas de um cavalo, e ele andava com o bambolear pesado de um gorila da selva. O guarda agora vestia o uniforme amarelo e negro de Didric, e as listras horizontais acentuavam o peito largo e avantajado.
— Por favor, sente-se, sargento Jakov — instruiu Didric, puxando a cadeira para ele. — Minha primeira pergunta é: você pode confirmar que a história de Calista é inteiramente verídica e precisa?
— Posso, milorde. Ouvi-la falar foi como reviver toda aquela noite outra vez.
— Ótimo. Sei que você é um homem ocupado, então não precisamos que a reconte com suas próprias palavras. Por favor, explique o que aconteceu depois da tentativa de assassinato de Fletcher.
— É claro, senhor — disse Jakov, ajeitando a franja. Ele respirou fundo. — Depois que entregamos Didric ao pai, fui acordar os demais guardas. Encontramos a porta da casa de Fletcher obstruída. Depois que a derrubamos, encontramos resistência do pai adotivo dele, Berdon. Aquele homem quase nos matou; é praticamente tão grande quanto eu, sabe; mas fui capaz de desarmá-lo. Alguns dos rapazes ficaram meio... empolgados a essa altura. Vamos dizer que Berdon não pôde mais colocar muitas ferraduras por um tempo depois daquela noite. Ossos demoram a curar.
— Seu animal! — rosnou Fletcher, com o ódio borbulhando dentro de si, cáustico e fervente. Ele sabia que aquela gente queria deixá-lo com raiva para que perdesse a cabeça diante do juiz. Mas as palavras tinham escapado antes que ele pudesse se conter.
— Só mais uma palavra sua, Sr. Fletcher! — exclamou o juiz, batendo o martelo na mesa para enfatizar. — Só mais uma palavra, e eu o despacho de volta às celas, onde poderá esperar para ouvir o veredicto.
Fletcher mordeu o lábio até sentir o gosto de sangue quente, tentando não gritar contra a injustiça daquilo tudo. Imagens deles espancando o corpo inconsciente de Berdon inundaram a mente de Fletcher, que não conseguiu afastá-las dos pensamentos.
— Depois disso confiscamos todas as posses na propriedade como provas. Na luta, o fogo da forja de Berdon de alguma forma se espalhou, e a cabana queimou até não sobrar nada.
Fletcher sentiu lágrimas quentes correndo pelo rosto. Ele caiu de joelhos. Numa só noite, o homem que ele mais amava no mundo perdeu tudo. E por causa dele.
— Meritíssimo, não entendo o que isso tem a ver com a acusação contra o réu. Podemos ir direto ao ponto, por favor? — A voz de Arcturo soava forçada, raivosa.
— De acordo. Obrigado, capitão Arcturo. — O juiz assentiu. — Lorde Cavell, a não ser que você tenha alguma prova real a oferecer, considero esta linha de questionamento inteiramente irrelevante. Há algo a acrescentar?
— Não, meritíssimo. Acho que Jakov já disse o que tinha a dizer — respondeu Didric.
— Muito bem. Você está dispensado, sargento Jakov.
— Obrigado, milorde.
O homenzarrão se levantou do pódio e passou pela porta lateral. Logo antes de sair de vista, lançou um aceno sarcástico para Fletcher. O rapaz olhou para o outro lado, mas seu estômago se revirou com fúria renovada. Fletcher a guardou para si, sabendo que toda a intenção do testemunho de Jakov era meramente fazê-lo agir de forma impensada.
— Isso é tudo, então, lorde Cavell? — indagou o juiz, arrumando as anotações.
— É sim, meritíssimo. A acusação encerra. Como disse mais cedo, creio que verá que este é um caso vencido. Recomendo uma sentença mínima de prisão perpétua.
— Obrigado, lorde Cavell. Levarei isso em consideração — assegurou o juiz, mas franzia as sobrancelhas com irritação.
Um burburinho suave de conversas permeou o tribunal enquanto Arcturo se levantava e organizava suas anotações.
— Acho que toda a minha preparação para o juizado valeu a pena, não é, Fletcher? — comentou Didric, enquanto voltava para seu lugar. — Se bem que, vendo essa antiguidade aí, fico feliz em ter acabado seguindo outro caminho.
— Como se eles jamais fossem deixar um monstro como você virar juiz — retrucou Fletcher, com ódio permeando cada palavra.
Os ombros de Didric se enrijeceram, e ele se virou de volta, apesar de uma tossida severa do juiz.
— Lembre-se, Fletcher, esta é a minha prisão — sibilou Didric, com um brilho desvairado no olhar. — Se você acha que lhe negar comida é o pior que posso fazer, sua imaginação é severamente limitada.
— Lorde Cavell, tenho que lhe pedir que volte ao seu assento — ordenou o juiz.
— Na verdade, meritíssimo, eu preferiria que Didric ficasse. — Arcturo se adiantou e ergueu Fletcher, pondo-o de pé. As mãos firmes em seus ombros acalmaram o bater errático do coração do rapaz, que respirou fundo e encarou o olhar do juiz.
— Muito bem. Lorde Cavell, por favor, suba ao púlpito — pediu o juiz, acenando para que Didric voltasse.
— Seria incomum se eu trouxesse o sargento Jakov e a soldado Calista de volta também? — propôs Arcturo.
— Sim, seria, mas ainda assim aceitável pela lei. Porém, deixe-me perguntar primeiro: pelo que entendo, você não é um advogado qualificado, capitão Arcturo. Por que está defendendo o rapaz? — indagou o juiz.
— Eu o defendo porque ninguém mais o faria, por medo de represálias do Triunvirato. Covardes, todos eles. — Arcturo balançou a cabeça, com voz amargurada.
— Lamento, não estou familiarizado com esse termo “triunvirato” — comentou o juiz, franzindo o cenho.
Fletcher estava curioso; também não o conhecia.
— Lorde Cavell, lady Faversham e lorde Forsyth nutrem laços estreitos na política e nos negócios. É por esse nome que as três famílias ficaram conhecidas — explicou Arcturo.
Então Didric estava em conluio com os Faversham e os Forsyth. Fletcher quase sorriu consigo mesmo. Que apropriado. Todas as pessoas que mais o odiavam no mundo, trabalhando juntas para derrubá-lo. Ele devia ter adivinhado.
— Talvez não defendessem Fletcher porque é muito óbvio que ele é culpado — comentou Didric em voz alta. — Nenhum advogado seria maluco de aceitar um caso desses.
— Calado! — exclamou Arcturo, virando-se para Didric. — Não falei durante a sua argumentação. Agradeceria se você me concedesse a mesma cortesia.
Didric revirou os olhos e ergueu as mãos, fingindo rendição.
— Tragam a soldado Calista e o sargento Jakov — ordenou o juiz. — E busquem cadeiras para eles também.
Levou apenas alguns segundos para os guardas voltarem com os dois. Fletcher suspeitou que ficaram ouvindo por trás da porta.
— Vamos logo com isso, então? — disse o juiz. Ele fungou irritado, quando o guarda arrastou duas cadeiras ao lado do pódio, provocando um ranger alto no chão. — Apresente seu argumento e irei declarar meu veredicto.
Fletcher observou os três no tablado, perguntando-se que jogo Arcturo estaria jogando. Ele nunca tinha contado ao capitão, nem a mais ninguém, toda a história do que acontecera naquela noite. Arrependendo-se amargamente por isso, Fletcher se sentiu mergulhar ainda mais no desespero enquanto Arcturo começava a falar.
— Eu gostaria inicialmente de apontar ao meritíssimo juiz que não há prova alguma que confirme as histórias da soldado Calista e do sargento Jakov além do próprio testemunho de cada um. Assim sendo, temos que concluir que, caso se comprove que tais histórias são inconsistentes, o juiz terá que absolver Fletcher de todas as acusações. Estou correto, meritíssimo?
— Bem, essa é uma interpretação muito simplista da lei — resmungou o juiz. — Caso lance dúvida suficiente sobre a história deles, sim, estarei mais inclinado a considerar a inocência de Fletcher. Entretanto, também terá que ser oferecida uma versão alternativa dos eventos, com prova que a sustente.
— Obriga... — começou Arcturo.
— Tenha em mente que o testemunho idêntico de três indivíduos é muito poderoso — interrompeu o juiz. — Há que se estabelecer uma dúvida significativa, capitão Arcturo. Significativa de fato.
— Muito bem, meritíssimo — respondeu Arcturo, baixando respeitosamente a cabeça. — Neste caso, começarei propondo uma sequência de eventos muito diferente para aquela noite.
Segurando as mãos detrás das costas, Arcturo se virou de volta às três testemunhas.
— Numa noite fria há dois anos, Fletcher fez amizade com um velho soldado. Pelo que sei, seu nome era Rotherham, também conhecido como Rotter pelos companheiros nas linhas de frente. Este era o homem que estava inicialmente de posse do livro do conjurador. Os dois estavam bebendo na taverna local quando foram abordados por Didric, acompanhado de Jakov, que exigiu o livro em troca de um valor mísero que em primeiro lugar não tinha nem sido acordado. Você nega esses eventos, Didric?
— Acredito que a forma de tratamento adequada seja lorde Cavell — retrucou Didric, cruzando os braços e desafiando Arcturo com um olhar raivoso e obstinado.
— Lorde Cavell — recomeçou Arcturo, forçando as palavras por entre os dentes cerrados. — Você nega as acusações? Encontrei várias testemunhas que as confirmariam sob juramento. Parece que nem todos na vila aceitariam seu dinheiro; inclusive aqueles que seu pai faliu.
Didric corou de raiva, mas manteve a fúria sob controle, respondendo numa voz neutra.
— Não nego as acusações. Nós nos encontramos na taverna naquela noite, mas eu debateria com você a questão de a venda ter sido acordada ou não.
— De qualquer forma — continuou Arcturo, virando-se para o público e falando mais alto —, houve uma altercação entre os quatro cavaleiros, resultando em Didric tentando matar Fletcher com uma lâmina oculta. Eu lhe pergunto de novo, lorde Cavell: você nega?
— Foi em legítima defesa. O louco estava me esganando — argumentou Didric, acenando com a mão como se o evento mal merecesse menção. — Na verdade, isso só prova que ele já tinha a intenção de matar, sem falar num motivo ainda maior para fazê-lo, considerando o que aconteceu naquela noite.
— Fico feliz que você tenha mencionado legítima defesa — disse Arcturo, andando até o outro lado do salão. — Pois isso será muito relevante mais tarde, neste caso. Agora, considerando que Rotherham e Fletcher eram amigos e inclusive lutaram lado a lado, por que você ficaria tão surpreso ao encontrar Fletcher de posse do livro mais tarde?
— Eu não disse isso, foi Calista. Ela não tinha se envolvido na luta, então não sabia. Acho que esse foi o motivo dela para segui-lo, não o nosso — respondeu Didric suavemente, o lado bom do rosto meio torcido por um sorriso confiante.
— Então por que você o seguiu? — indagou Arcturo.
— Curiosidade. Um garoto seguindo para um cemitério no meio da noite é suspeito, você não acha?
— Não tinha nada a ver com tentar se vingar da surra que você levou naquela luta na noite anterior? — pressionou Arcturo.
Fletcher tentou conter uma risada amarga, mas o fungar enrolado resultante lhe valeu um olhar severo do juiz.
— Não — respondeu Didric, reclinando-se e cruzando os braços de novo.
— Muito bem, então. Acho que teremos que confiar em você quanto a isso. Considero curioso que você e Jakov não tenham mencionado a luta a Calista, dadas as várias horas que vocês devem ter passado juntos, mas deixarei isso para a consideração do meritíssimo juiz — argumentou Arcturo.
O juiz bufou e, depois de dar de ombros, rabiscou alguma coisa nas anotações.
— Continuando, no cemitério — disse o capitão, tocando o queixo com a ponta dos dedos. — Apesar de quase o ter estripado na noite anterior e de vocês dois se detestarem mutuamente, Fletcher o convida para assistir enquanto ele tenta conjurar um demônio? Não houve discussão, desconfiança, nenhum atrito quando você o flagrou lá?
— Sou uma pessoa que acredita no perdão, Capitão. Eu não o ameacei, e ele certamente não me ameaçou, não com dois guardas armados às minhas costas. Obviamente ele planejava atiçar o demônio contra nós, então agiu todo simpático até estar com a criatura sob seu controle.
— Ah. Controle. Que bom que você tocou nesse assunto. Diga-me, qual é a primeira coisa que se aprende nas aulas de conjuração na escola, depois da infusão e da introdução ao éter? — indagou Arcturo.
— Controle demoníaco... — admitiu Didric, com um lampejo de dúvida surgindo em seu rosto pela primeira vez.
Fletcher não pôde deixar de sorrir. Essa linha de questionamento obviamente não era uma que o valentão tivesse esperado.
— Você realmente acredita que, meros minutos depois de evocar um demônio, um noviço como Fletcher poderia fazê-lo atacar? Sem provocação, ainda por cima? — inquiriu Arcturo, acenando para Fletcher como se ele fosse um incompetente.
Pela primeira vez, o rapaz ficou feliz com a própria aparência imunda. Certamente não o pintava como um habilidoso conjurador.
— Como o juiz certamente está ciente, controlar um demônio é quase impossível para alguém que acabou de evocar o seu primeiro, especialmente se essa pessoa não tiver conhecimento prévio da arte — continuou Arcturo, erguendo as sobrancelhas.
— Sim, isso é verdade — concordou o juiz, depois de um momento. — É de fato algo digno de atenção.
— Talvez houvesse alguma coisa no livro que o ensinasse como fazê-lo corretamente — sugeriu Didric, mas seu rosto empalideceu.
— Eu tenho aqui uma cópia do mesmo livro, como prova — afirmou Arcturo, voltando para a sua mesa e tirando uma grande resma de papéis de um alforje que trouxera consigo. Bateu com eles na mesa com um baque pesado, soltando uma nuvem de poeira. — Eu asseguro ao juiz que não há instruções sobre controle demoníaco dentro dessas páginas. O meritíssimo gostaria de declarar um recesso para poder lê-lo?
O juiz encarou o tomo com horror; levaria dias para ler aquilo tudo. Fletcher não conseguiu evitar um sorrido diante da expressão abatida de Didric. O rapaz arrogante tinha dado um tiro no pé ao não deixar que um advogado o representasse. Só um conjurador da experiência de Arcturo teria pensando naquela linha de argumentação.
— Aceito sua palavra, Capitão — decidiu o juiz, pigarreando. — Concordo que isso lança alguma dúvida sobre a versão dos eventos da acusação, mas também poderíamos argumentar que Fletcher é naturalmente talentoso. Entretanto, levarei isso em consideração. Por favor, prossiga com o argumento.
— Certamente, meritíssimo. Agora irei interrogar cada uma das testemunhas. Também peço que elas não falem a não ser que lhes seja dirigida a palavra — continuou Arcturo, segurando as mãos atrás das costas e parando diante do trio no tablado. — Vejam, quero que vocês descrevam o máximo de detalhes possível. Vamos começar com você, soldado Calista. Diga-me, o que aconteceu no cemitério? O que Fletcher usou para conjurar o demônio?
— Eu... não consigo lembrar— respondeu Calista, pega momentaneamente de surpresa. — Foi há dois anos, sabe.
— Sei, sim. Assim como você sabe exatamente o que ele disse e como ele o disse, naquela noite. Mas você não se lembra das ferramentas que ele usou? Testemunhou uma conjuração demoníaca, mas isso não lhe pareceu um evento memorável? — indagou Arcturo.
Calista olhou para Didric em busca de ajuda, mas ele olhava para a frente obstinado, o olhar fixo em Fletcher.
— Eu acho... que ele só fez ler do livro.
Fletcher manteve o rosto sério, mas estava comemorando por dentro. Didric obviamente nunca lhes contara como os noviços costumavam conjurar o primeiro demônio.
— Mais alguma coisa? — perguntou Arcturo.
— Eu não lembro... — repetiu Calista, com voz vacilante.
O rosto de Didric não revelava emoções, mas Fletcher viu os músculos da mandíbula dele enrijecendo.
— Que estranho. Você descreveu tudo mais em tantos detalhes. Isso não lhe parece incomum, meritíssimo? — indagou Arcturo, cujo rosto era a imagem da inocência.
— De fato, é mesmo — concordou o juiz com gravidade, registrando uma anotação no papel à sua frente.
— Talvez Jakov possa iluminar a questão — considerou Arcturo, levando o dedo aos lábios.
Jakov ficou boquiaberto, com os olhos dardejando pelo salão, como se procurasse pistas.
— Pelos céus! — exclamou Didric. — Ele usou um pergaminho e um quadrado de couro com um pentagrama, como todos os outros conjuradores antes dele. Por que continuamos com essa linha de questionamento absurda?
— Lorde Cavell! — ralhou o juiz, batendo o martelo na mesa. — Você vai se calar!
— Minhas desculpas, meritíssimo — respondeu Didric, erguendo as mãos em rendição. — Eu estava só impaciente para contar o meu lado da história.
— Nem. Mais. Uma. Palavra — ordenou o juiz, pontuando cada palavra com uma estocada do dedo.
Fletcher sentiu uma pontada de esperança, pois finalmente entendeu o que Arcturo tentava fazer. Didric já tinha caído na armadilha.
Arcturo continuou se dirigindo a Jakov.
— Foi isso mesmo? Ele leu de um pergaminho e usou um quadrado de couro para conjurar o demônio?
— Foi como Didric falou — respondeu Jakov lentamente, olhando com desespero para o amigo em busca de confirmação. — Eu me lembro agora.
— Ah, ótimo. Que bom que isso foi esclarecido — concluiu Arcturo, assentindo para si mesmo. Ele começou a voltar ao pódio, depois fez uma pausa, como se tivesse acabado de se lembrar de uma coisa. — Lorde Cavell. Onde você acha que ele arranjou os dois itens? Achei que ele só tivesse recebido um livro do velho soldado?
Didric olhou com raiva para Arcturo, e Fletcher via a mente do rapaz trabalhando enquanto ele considerava o que dizer. Didric não estava preparado para aquilo.
— Eu não faço ideia — respondeu o rapaz, olhando para o teto como se perdido em pensamentos. — Se eu fosse especular, diria que Fletcher recebeu esses itens também. O soldado roubou o alforje de um conjurador, que certamente conteria um couro de conjuração de algum tipo. O mesmo vale para o pergaminho.
— Você pode descrever o pergaminho? — perguntou Arcturo. — Talvez descrever qual era a cor da tinta usada para inscrevê-lo. Qual era o tamanho dele? Quão branco era o papel?
— Você não está testando a validade da minha história, Capitão. Está só testando minha memória — argumentou Didric, reclinando-se e sorrindo como se tivesse marcado um ponto.
— Mesmo assim, por favor, faça essa gentileza — insistiu Arcturo, abrindo um sorriso inocente.
— O pergaminho era obviamente órquico, escrito na língua deles. Disso me lembro claramente.
Fletcher se perguntou por um momento como Didric poderia saber sobre o dono original do pergaminho. Então ele lembrou que tinha contado ao inquisidor Rook que o pergaminho era de origem órquica, diante da turma inteira. Qualquer um poderia ter lhe contado isso. Ele só esperava que Didric não soubesse de mais nada.
— A tinta era escura, é tudo que lembro. O tamanho também era difícil de julgar, já que as duas pontas estavam enroladas. O cemitério estava escuro demais para ver quão branco o papel era. Isso responde às suas perguntas?
— Responde. Porém, dizer que a tinta era escura... certamente qualquer escrita teria que ser escura para poder ser lida. Você tem certeza absoluta de que não pode nos dar mais detalhes sobre a cor da tinta?
— Você realmente acha que pode provar a inocência de um assassino por eu não me lembrar da cor exata da tinta num pergaminho? O senhor deveria se ater à guerra, Capitão; é um mau advogado. O papel estava coberto com tinta escura, e isso é tudo que eu posso lhe dizer.
— Você tem certeza absoluta? — insistiu Arcturo.
— Sem dúvida — declarou Didric, cruzando os braços de forma desafiadora.
— E você, Jakov, corrobora a história dele? — indagou Arcturo, caminhando até ele.
— Sim, senhor — resmungou Jakov.
— Calista, essa descrição lhe fez lembrar alguma coisa?
— Acho que havia um pergaminho e um couro assim — murmurou Calista.
— Então, para resumir, Didric e Jakov viram Fletcher usando um rolo de papel enrolado de tamanho indeterminado, escrito em tinta escura para conjurar o demônio, assim como um couro com um pentagrama. Calista agora corrobora a história — anunciou Arcturo.
— Sim, capitão, está bem claro — admitiu o juiz, relendo as anotações. — Você poderia, por favor, me dizer aonde quer chegar com isso tudo?
— É claro — disse Arcturo. Ele foi até a mochila e retirou um item, brandindo-o no ar para que todos o vissem.
— Eu lhes apresento... o pergaminho.

10 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!