22 de março de 2018

Capítulo 49

Eles irromperam do meio das árvores em um caos de galhos quebrados.
Tantos casuares, que era impossível contar, os corpos de plumagem negra rasgando o chão, as barbelas vermelhas penduradas sob pescoços azuis e ferozes olhos alaranjados. Sobre eles havia goblins de pele cinzenta, berrando gritos de guerra, brandindo porretes de madeira e lanças.
— Fechem as fileiras! — urrou Sir Caulder de trás de Fletcher. — Formação Schiltron!
Não havia tempo para voltar aos homens. Fletcher conjurou Ignácio em uma explosão de luz branca e empurrou o corpo de Mason para o lombo do Drake. Atirou-se em cima do garoto quando um dardo passou sibilando por sua cabeça, tão perto que ele sentiu o zumbido do ar na bochecha. Outro dardo passou de raspão na lateral do corpo de Ignácio, deixando um sulco de sangue entre a carne rosada exposta. Mais dardos então, que fizeram baques secos ao atingirem o tronco da árvore. Lanças se enterraram no chão sombreado ao redor. Ignácio bateu as asas, arremetendo pelos ares com os dois garotos na garupa. Cada vez mais inimigos irrompiam da selva.
Fletcher rodeou para fora do alcance dos dardos, observando os vultos abaixo. Tiros eram disparados enquanto soldados desesperados esvaziavam os mosquetes na vanguarda de ataque. Já havia casuares tombando na savana, porém mais vinham saindo da selva. Cerca de cinquenta estavam no campo de batalha agora, e muitos mais emergiam da folhagem... e depois mais ainda, agora uns cem, numa enxurrada aparentemente interminável de cavaleiros gritando.
Um soldado caiu, atingido por um dardo na coxa antes de conseguir alcançar o pequeno círculo de homens, semiformado nos primeiros segundos do combate. Rotherham o apanhou e o atirou por cima do ombro, alcançando os reforços sem perda de tempo.
Então a primeira onda de casuares caiu em cima do pequeno grupo de soldados, separando-se em torno deles, como uma onda, atirando lanças e brandindo seus porretes. Mais Raposas caíram, enquanto os goblins eram atirados para longe das montarias e os casuares eram empalados nas alabardas, caindo em um caos de garras dardejantes e plumagem esvoaçante.
Os cavaleiros rodearam o grupo e se separaram, depois entraram de novo em formação, indo de encontro às alabardas e recebendo as balas nos corpos com abandono suicida. Era uma luta enlouquecida e brutal, em que a força absoluta da vantagem numérica ameaçava engolfar o círculo de soldados atacados.
Um raio lançado por Genevieve atirou casuares para trás, dando tempo aos homens para arrastar os feridos até o centro, onde o toque curativo de Rory os esperava. Ao lado dele, os mosquetes dos soldados mais altos estalavam e jorravam fumaça, lançando morte pela vegetação com precisão treinada, derrubando os retardatários que tentavam atacá-los. Enquanto os causares arremetiam, os anões brandiam baixo as alabardas, decepando suas longas pernas e, depois, terminando o serviço com golpes rápidos e precisos.
As Raposas sustentaram a formação, mas com dificuldade; o peso dos casuares que caíam sobre suas fileiras cerradas deixava buracos vulneráveis enquanto cada vez mais cavaleiros emergiam da orla da floresta.
— Para baixo! — berrou Fletcher, brandindo Chama na direção da segunda leva de cavaleiros. Ele puxou Ventania do coldre enquanto eles saltavam no ar, o latido de Ignácio em igual volume ao rugido do vento nos ouvidos de Fletcher. Ele esvaziou os dois tambores das armas, e viu explosões gêmeas de penas negras e sangue dos cavaleiros da vanguarda, fazendo os casuares e seus goblins tombar.
Então Ignácio arremeteu contra as fileiras inimigas, as garras estendidas, o bico abrindo e fechando sem parar. Os goblins foram empurrados, caindo das selas, os casuares rolando pelo chão. Fletcher disparou Chama no peito de um deles — a lança que ele estava prestes a arremessar caiu de seus dedos sem força.
O mana se turvava na consciência de Fletcher quando Ignácio aterrissou, rodopiou e derramou uma onda de chamas sobre os corpos caídos dos goblins e casuares. Metade dos cavaleiros estava fora de combate, e o resto saiu rodopiando caoticamente.
Porém a terceira leva de inimigos estava atacando agora, e eles foram obrigados a levantar voo mais uma vez, a dor queimando a consciência dos dois quando uma lança atravessou a membrana delicada da asa de Ignácio e outra lhe atingiu o flanco.
Eles subiram, bamboleantes, e o mana foi drenando-se à medida que Fletcher curava as feridas de Ignácio — bem mais lentamente que desejaria. Ele puxou a lança da lateral do Drake e fez uma careta ao ver a torrente de sangue que saiu, depois jogou ineficientemente a lança retirada na direção dos inimigos que os atacavam lá de baixo. Ignácio estava enfraquecido agora, e Fletcher não queria arriscar-se a convocar Atena com aquela quantidade de dardos voando, principalmente com a tendência da Griforuja à desobediência.
Lá embaixo, a onda final de atacantes investiu para a formação em Schiltron, que dessa vez se dissolveu em blocos de soldados em combate, interrompidos pelo impulso dos casuares empalados. O ritmo das armas de fogo diminuiu, a batalha tornando-se caos sangrento de alabardas e uma ou outra bola de fogo lançada por Rory e Genevieve. No centro, Sir Caulder e Rotherham defendiam uma pilha de soldados machucados e matavam qualquer inimigo que se aproximasse com eficiência letal. Os soldados eram poucos, no entanto, e os cavaleiros eram muitos. Eles precisavam de ajuda.
Fletcher guardou as pistolas no coldre e sacou o khopesh, apontando-o para o inimigo.
— Mais uma vez! — berrou, e Ignácio desceu rapidamente para uma última investida.
Eles atacaram com violência a retaguarda dos goblins, fazendo meia dúzia sair voando pelos ares. A visão de Fletcher se encheu de soldados lutando com dificuldade, aparando golpes e atacando em seguida; de braços cinzentos, terminados em porretes, acima de rostos com narizes aduncos; de casuares chutando com abandono selvagem.
Então ele se viu inclinando o corpo para fora e atacando por cima do ombro de Ignácio; empalou um goblin pela boca. A criatura caiu para trás, e Fletcher perdeu a espada na confusão do combate, incapaz de arrancá-la do crânio. Uma explosão de pólvora quase o deixou surdo, e a fumaça ardeu em seus olhos ao subir até seu rosto em uma nuvem.
Eles estavam perdendo. Os poucos Raposas que ainda continuavam de pé cambaleavam de exaustão, enquanto cada vez mais feridos tombavam atrás do círculo frágil de defensores. Agora havia menos disparos — não havia tempo de recarregar, com a pressão daquela horda de criaturas rugindo sobre eles.
Uma elfa berrou na frente de Fletcher, com uma lança enfiada em sua cintura por um goblin rosnante. Era Dália, o rosto lívido de choque.
Desarmado, Fletcher só pôde xingar e atirar um raio nas costas do atacante, matando-o com um guincho carbonizado enquanto Dália agarrava o próprio corpo sobre a grama escorregadia de sangue em meio à segurança oferecida pelas espadas de Rotherham e Sir Caulder.
Dor. Tanta que Fletcher mal podia acreditar. Ignácio caiu sob eles, fazendo Mason se esparramar sobre Fletcher enquanto ambos despencavam na grama ensanguentada. Uma lança estava enterrada fundo no pescoço de Ignácio, segurada por um goblin triunfante. A cauda do Drake chicoteou para trás e quase o decapitou com sua ponta afiada, mas o estrago estava feito. Caiu no chão; a dor era demais para suportar.
— Fletcher! — berrou Genevieve, e ele rolou de lado em um átimo de segundo antes de um porrete tentar atingi-lo na cabeça, fazendo-a golpear o chão. Mason agarrou a perna do goblin com o que restava de suas forças, dando tempo a Fletcher para apanhar a alabarda caída de Dália e perfurar a criatura na barriga.
O goblin caiu por cima de Fletcher, deixando-o preso no lugar, e uma lança investiu contra ele, como se vinda do nada. A ponta cortou a bochecha do rapaz, não atingindo seu olho por um fio. Ele sentiu o fluxo quente de sangue no rosto, viu um goblin levantar a lança mais uma vez. Suas mãos presas sob o corpo. Não havia tempo.
Então um borrão castanho e peludo passou veloz, e o goblin agarrou a própria garganta, tentando fechar a ferida que de repente aparecera ali. Um grito ondulante cortou os sons da batalha; de repente, havia gremlins em toda parte.
Eles cavalgavam suas maras semelhantes a coelhos, ululando enquanto cortavam os tornozelos expostos dos goblins com suas adagas de dente de tubarão, partindo tendões e abrindo artérias com eficiência mortífera. Dardos envenenados eram lançados pelos cavaleiros que estavam nos limites do bando, fazendo com que os casuares e os goblins saíssem rolando pelo chão, retorcendo-se horrivelmente conforme as toxinas tomavam conta de seus corpos.
— Não machuquem os gremlins! — berrou Fletcher, com o que restava de seu fôlego, esmagado sob o peso de Mason e do goblin morto.
Ele conseguiu levantar os corpos dos dois e colocá-los de lado; então, cambaleando, ele se pôs de pé. A dor atravessou seu crânio, ofuscando a batalha fervorosa que acontecia ao redor. Suas mãos sentiram o cabo da lança no pescoço de Ignácio, e ele a arrancou dali. Por um instante ondas negras de náusea tomaram conta dele; a agonia do Drake era como um grito em sua mente enquanto ele desenhava o feitiço de cura. Então começou a emitir uma pulsação de luz branca e curadora na ferida.
O mundo clareou, a dor diminuiu. Armas passaram a ser disparadas novamente, enquanto, ao redor, maras passavam correndo, saltando alto para permitir que seus cavaleiros gremlins cortassem o pescoço dos goblins. A batalha tinha sofrido uma dramática reviravolta. Havia goblins mortos espalhados por toda parte, como peixes encalhados, com os olhos vidrados da morte. Um casuar manquitolou de volta para a selva, arrastando consigo um cavaleiro morto preso em suas garras. Não restava mais que meia dúzia de goblins agora, e, enquanto Fletcher curava o restante das feridas de Ignácio, estes foram mortos com tiros dos Raposas que ainda estavam de pé.
Então tudo acabou, e a única coisa que se ouvia eram os gemidos dos moribundos.

2 comentários:

  1. Minha Morgana! Ainda bem que o Fletcher salvou o Azul, é sempre bom ter amizades.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!