2 de março de 2018

Capítulo 49

Fletcher estava sentado na escuridão de sua cela de prisão, com o coração saltando como um passarinho engaiolado. Ele acreditara poder assistir às outras lutas, mas as regras determinavam que todos os combatentes deveriam ser mantidos isolados. Parecia que horas já tinham se passado, e a espera, com a antecipação, era uma tortura.
O rapaz fitou a própria mão, traçando as linhas negras profundas desenhadas por Athol. No centro da palma havia um pentagrama, a estrela de cinco pontas inscrita num círculo. Se aquilo funcionasse conforme planejado, Fletcher poderia evocar e infundir Ignácio simplesmente usando a mão, em vez de ser obrigado a posicionar o demônio sobre um couro de conjuração. Só não sabia ainda muito bem como isso poderia ser útil numa batalha.
Tinha deixado o dedo indicador esquerdo em branco, para poder entalhar com ele normalmente, caso precisasse usar outro feitiço. As pontas dos outros dedos foram tatuadas com os quatro símbolos de batalha para telecinese, fogo, relâmpago e escudo. Com alguma sorte, ele seria capaz de disparar mana por cada dedo sem precisar entalhar o glifo no ar.
Um zumbido súbito lhe assustou quando Valens apareceu pairando, passando por entre as barras da cela e pousando no colo do menino.
— Veio assistir, capitã Lovett? — perguntou Fletcher, acariciando a carapaça lisa do besouro.
Valens balançou as antenas e zumbiu animado. De alguma forma, aquilo fez Fletcher se sentir melhor.
— Espero que possa assistir. Será ótimo ter alguém torcendo por mim. Ou zumbindo.
Passos soaram no corredor, e o besouro disparou, escondendo-se num canto escuro da cela.
— Fletcher.
Era Sir Caulder, fitando-o por entre as barras.
— Chegou a hora.
Fletcher estava sobre uma plataforma de madeira no limite da arena, de costas para os espectadores. Um grande couro de conjuração jazia aberto diante dele. Rory e uma plebeia veterana chamada Amber estavam sobre suas próprias plataformas, um de cada lado e equidistantes de Fletcher. O rapaz sentia sobre si os olhares dos Faversham, deixando-o com a nuca toda arrepiada. O olhar de Rory também estava carregado de malícia, como se o retorno à arena o fizesse lembrar da suposta traição de Fletcher. Com um balançar de cabeça, o rapaz se forçou a ignorar tudo aquilo, concentrando-se na tarefa imediata.
O campo de batalha tinha sido coberto de rochas grandes e pontiagudas, como se um enorme rochedo vermelho tivesse sido estilhaçado e espalhado pela areia. No centro exato, havia um pilar gigante de barro, de uns 9 metros de altura. Uma trilha em espiral contornava da base ao topo da coluna como uma serpente, larga o bastante para acomodar um cavalo.
Fletcher ouviu um zunir quase imperceptível acima e olhou para o alto. Valens tinha acabado de sobrevoá-lo, circulando a arena até pousar no teto côncavo, misturando-se às sombras. Fletcher sorriu. Lovett tinha a melhor vista.
— As regras deste desafio são simples — declarou Rook, da lateral. — O primeiro demônio que alcançar o topo do pilar e manter-se ali por dez segundos, vencerá. Vocês podem usar apenas o feitiço de telecinese. Não podem atacar seus colegas cadetes nem sair de suas plataformas. Se o fizerem, serão sumariamente eliminados. Comecem!
Fletcher caiu de joelhos e pousou a mão no couro, evocando Ignácio com uma explosão de mana. Ele passou a pedra de visão nas costas do demônio.
O diabrete soltou um trinado de empolgação e saltou à arena sem hesitar.
Ao seu lado, Amber evocara um Picanço, e Malaqui já estava disparando em direção ao Pilar.
Rook tinha escolhido bem os oponentes de Fletcher; demônios voadores, um pequeno e difícil de acertar, o outro grande mas duro de derrubar. Aquilo não seria fácil.
Fletcher ergueu a mão e apontou para Malaqui com um dedo tatuado.
— Espero que isso funcione — sussurrou ele consigo mesmo, inundando o corpo com mana. O ar tremulou num espaço longo e estreito, e Malaqui foi derrubado, caindo nas rochas abaixo. Tinha dado certo!
— Vai Ignácio, agora!
A Salamandra galopou por entre as pedras, dardejando para um lado e o outro, enquanto Rory e Amber disparavam contra ele freneticamente. A areia entrou em erupção em volta de Ignácio. Rochas eram destroçadas, lançando fragmentos afiadíssimos como estilhaços de bombas. Quando o demônio saltou para a espiral, um impacto cinético de Rory o acertou com força e o atirou para detrás de um afloramento rochoso próximo à base do pilar. Fletcher sentiu um latejar abafado de dor, mas sabia que Ignácio não estava seriamente ferido.
O Picanço já tinha saltado para o chão, preferindo se esconder atrás das pedras a ser derrubado do alto. Fletcher aproveitou para colocar o monóculo, antes que Malaqui fizesse outra tentativa.
Ele viu que Ignácio estava escondido atrás de uma rocha côncava, e que a espiral não estava longe. Porém, se o demônio Salamandra começasse a correr pela trilha, ficaria exposto demais para avançar o bastante. Mesmo que alcançasse o topo, dificilmente ficaria lá em cima por tempo suficiente.
— Temos que caçar os outros demônios, derrotá-los antes que eles tenham uma chance de voar para o alto — murmurou Fletcher, mandando suas intenções para Ignácio. A Salamandra rosnou em concordância, então disparou para a pedra seguinte, procurando os inimigos de baixo enquanto Fletcher observava do alto.
Rory e Amber também espiavam suas pedras de visão, com o olhar saltando entre o cristal e a arena como o rabo de um gato furioso. Fletcher sorriu, impressionado com a imensa eficácia do monóculo. Ele ainda podia ver com os dois olhos, apesar de ter uma imagem fantasmagórica e arroxeada sobreposta ao lado esquerdo da visão.
Ignácio ficou completamente imóvel. O Picanço estava à frente dele, silenciosamente agachado sob a beira de uma grande rocha. Era um Picanço pequeno, mais ou menos do tamanho de uma águia crescida além da conta, mas tinha um físico poderoso, com plumagem brilhante e garras ferozes. Ignácio era capaz de derrotá-lo.
— Fogo — sussurrou Flethcer, sentindo o mana se agitando em suas veias.
O Picanço foi pego num redemoinho de fogo, sendo lançando contra a face de uma rocha. Ele crocitou e agitou as asas, mas Fletcher o golpeou com um impacto cinético, jogando-o ao chão antes que se erguesse no ar.
— Hoje vai ter peru assado! — gritou Cipião, enquanto a plateia ao mesmo tempo comemorava e vaiava.
Ignácio saltou sobre o Picanço fumegante, atacando-o freneticamente com as garras e ferroando-o com a cauda, como um escorpião. O Picanço retribuiu com uma gadanhada, rasgando o flanco do diabrete. A Salamandra guinchou de dor e então empinou-se, pronto para disparar mais chamas contra a ave.
— Não! — gritou Amber, saltando da plataforma. Ignácio se deteve, espantado com o barulho. — Não o machuque! Não o machuque! — exclamou ela, jogando-se sobre a cabeça do Picanço.
— Já chega, Ignácio. Eles estão fora do torneio! — gritou Fletcher.
Mas o rapaz não era o único que estava gritando. A multidão atrás dele urrava, e Fletcher viu que Malaqui estava no topo do pilar, espiando sobre a borda oposta.
Ignácio já corria em direção à coluna, mas não chegaria a tempo. Fletcher disparou um impacto, mas só conseguiu soprar a poeira sobre o pilar. O ângulo não era favorável. Seria um milagre se ele conseguisse até mesmo pegar Malaqui de raspão.
— Dez, nove, oito... — gritou Rook.
Fletcher precisava fazer algo drástico. Deixou a próxima bola de energia cinética crescer até o tamanho de uma toranja, cerrando os dentes enquanto a bombeava com mana.
— Sete, seis, cinco... — continuou Rook, mal escondendo sua alegria.
Fletcher uivou, erguendo sobre a cabeça a esfera que se expandia. Sentia o ar acima de si se distorcer e vibrar. Ele hesitou, com o olhar fixo na figura frágil do Caruncho.
— Quatro, três, dois... — O ritmo se acelerou; Rook percebia o que o menino estava prestes a fazer.
Fletcher lançou a bola através da arena com toda a sua força. O topo do pilar se destroçou como porcelana, arremessando Malaqui para longe num turbilhão estrondoso de poeira e fragmentos de pedra.
— Nãããããoooo! — gritou Rory, saltando da plataforma e se ajoelhando na areia. Escavou o corpo ferido do Caruncho de onde ele jazia. O besouro se debatia e estremecia, as seis pernas em convulsão. Rory soluçava, desesperadamente tentando entalhar um feitiço de cura no ar.
— A dama Fairhaven vai cuidar dele — anunciou Cipião, enquanto a plateia começava a murmurar em solidariedade. Fairhaven correu e se ajoelhou ao lado do menino. Ela entalhou o símbolo do coração no ar e começou a fluir luz branca sobre o demônio ferido.
— Seu monstro! — berrou Rory. — Ele está morrendo!
Fletcher sentiu o estômago revirar quando viu uma mancha de sangue escuro na areia onde o Caruncho tinha caído.
— Vamos lá — chamou Sir Caulder, segurando-o pelo braço. — Não há nada que você possa fazer por ele agora.
— Me solte! — gritou Fletcher enquanto era arrastado por Sir Caulder. — Malaqui!

6 comentários:

  1. Rory é muito exagerado. Flecher só estava fazendo o que era preciso fazer!

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  2. Só eu sinto que isso ainda vai dar merda no futuro?

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  3. Rory é um fresquinho. Se ele não tivesse mudado de lado.

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    1. Fletecher estava errado, ele deu mais atenção ao anão e a elfa do que para eles. Se Fletcher tivesse sido amigo de todos e não excluído nenhum deles, eles ainda seriam grandes amigos. Vale lembrar que eles são jovens e não lidam com emoções direito, como se sentiria se seu melhor amigo convidasse todos para uma festa e não convidasse voce? Traido? Pois bem, eles sentiram isso muito mais intensamente. Quanto ao usar tamanha quantidade de poder contra um frágil caruncho, sem medir as consequências, é muita imprudencia, está mais que claro que Fletecher ágil por impulso. Se alguém tá errado é Fletecher!!

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  4. O Fletcher podia ter feito diferente tipo usar o poder de telicinese pra levar malaqui pra longe

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    1. O ataque de telecinesia é como um empurrão. Se Fletcher tivesse atacado Malaqui diretamente, ele teria caído daquela altura do mesmo jeito. Foi a queda que feriu Malaqui.

      ~Pri

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Boa leitura, E SEM SPOILER!