22 de março de 2018

Capítulo 48

Eles tiveram a sensação de que tinham chegado ao sopé das montanhas num segundo — mas, por outro lado, o desfiladeiro para o qual marchavam ficava a apenas quarenta minutos de caminhada em linha reta. Agora que Fletcher pensava no assunto, parecia estranho saber que os homens de Forsyth estavam tão perto, porém eles não os tivessem visto em mais de dois meses.
Enquanto subiam a serra, que se estendia para a esquerda e a direita até onde os olhos podiam ver, Fletcher percebeu que aquelas não eram em nada como as montanhas do Dente de Urso. As ravinas eram tão íngremes quanto as paredes de Vocans, e a coloração tinha o mesmo tom marrom-claro de argila seca pelo sol, embora ele soubesse, pelas histórias de Sir Caulder, que na verdade eram feitas de arenito farelento. Entretanto, independentemente da composição, elas ficaram conhecidas como Ribanceiras da Pedra de Cobre, um nome ignóbil e inadequado para aquela maravilha natural que separava as florestas tropicais das planícies temperadas de Raleighshire; sem falar no mundo civilizado das hordas bárbaras dos orcs.
— Não venho aqui desde... você sabe — comentou Sir Caulder por sobre o guincho das rodas da carroça. Ele estava sentado no eixo de trás: caminhar por longos períodos fazia o toco de sua perna ficar assado contra a alça de couro que segurava a perna de pau. — Não era lá muito bonita naquela época, e continua não sendo.
Eles subiam uma inclinação agora, onde as paredes íngremes das montanhas se afunilavam dos dois lados. Acima, o céu era de um azul brilhante e vazio, e Fletcher sentiu a tentação de convocar Ignácio e sair voando adiante do grupo. Mas, então...
— Parem! — gritou Rotherham lá da frente, Fletcher apressou-se a caminhar pelas carroças, abrindo caminho através das fileiras ordenadas de suas tropas. Em seguida parou, confuso. Eles estavam no lugar certo, mas não havia ninguém ali.
— Cadê os homens de Forsyth? — grunhiu Rotherham. — Os malditos deviam estar aqui.
Olhando em torno, Fletcher viu que estavam em um cânion, não muito diferente daquele que tinham atravessado no éter. Não havia grama ali, apenas lama seca e ressecada sob seus pés, sombreada pelos baluartes naturais ao redor, que subiam em direção ao céu. As paredes das montanhas se inclinavam para dentro e terminavam em uma abertura por onde mal daria para passar uma rocha. Através dela, Fletcher avistou o verde da grama e, mais além, as folhas ondeantes e moitas da orla da selva.
Na parede da direita, uma laje natural parecia ter sido desgastada na lateral, o suficiente para um homem caminhar por ela. Em seu ponto mais alto, talvez a dois andares de altura e 40 metros da entrada do cânion, a laje estendia-se para fora em uma espécie de plataforma. Ali, dava para ver os remanescentes de alguma espécie de construção, que agora não passava de um anel de pedras de fundação, com o entulho restante espalhado pelo chão abaixo.
— Esta é a velha torre de vigia — explicou Sir Caulder, caminhando a passos pesados atrás de Fletcher. — Desmoronou há muito tempo, antes de seu pai sequer ter nascido. Costumávamos colocar sentinelas nesta laje; dá para dispor uma dúzia de homens e uma fogueira ali em cima, e a base os protege da maior parte do vento. Também é possível ter uma boa visão de quem se aproxima do cânion.
— Legal — disse Fletcher, evitando a tentação de subir na laje para dar uma olhada.
Em vez disso, caminhou um pouco mais adiante, na direção da boca do cânion. Ficou impressionado com a estreiteza da abertura — se Ignácio sentasse no centro, suas asas roçariam as laterais. Se queriam fazer um exército passar por ali, teriam de marchar por aquele gargalo em uma coluna de não mais que dez homens de largura.
— Nós a chamamos de Fenda — disse Rotherham, seguindo atrás de Fletcher. — Vista de cima, parece uma ampulheta, sendo que essa abertura é a cintura.
— E esta é a única entrada para Raleighshire? — perguntou Fletcher.
— Isso mesmo. As montanhas se estendem até o mar Vesaniano a oeste, e as linhas da frente protegem as fronteiras a leste, para além do rio Watford. E é isso.
Fletcher deu um passo para chegar mais perto e então tropeçou; o pé atingira algo oco e metálico.
— O que é isso? — perguntou, meio que para si mesmo. Ajoelhou-se e raspou a lama daquele objeto arredondado, tão enferrujado que se camuflava com a terra. — Outra relíquia do passado?
— Na verdade é um pouquinho mais recente — respondeu Sir Caulder, ajoelhando-se sobre um dos joelhos e apoiando a mão no artefato. — Acredite se quiser, mas esse é o primeiro canhão que já foi feito, poucas semanas antes de você nascer. A primeira arma de fogo, na verdade, para todos os efeitos.
Ele deu uma risadinha e balançou a cabeça.
— Estou surpreso por esta velha menina ainda estar aí.
— Espere... não foi o pai de Otelo que inventou o canhão? — perguntou Fletcher.
— E se inventou, rapaz! — disse Sir Caulder, limpando parte da terra para revelar uma palavra cunhada na lateral do objeto.
Thorsager
— E o que ele está fazendo aqui? — perguntou Fletcher, correndo os dedos pelas letras antigas que compunham o nome da família de Otelo.
— Seu pai, Edmund, o encomendou. Desafiou todos os ferreiros de Corcillum a criarem algo que teria um efeito arrasador em uma pequena área, tendo essa abertura aqui em mente. Então, Uhtred lhe mostrou isso. Claro, não passava de um tubo de ferro cheio de pólvora rudimentar e pregos velhos, mas fazia o serviço. Os primeiros protótipos usavam segmentos de bambu, acredite se quiser!
Fletcher sorriu, imaginando Uhtred como um mero rapaz trabalhando em sua forja com pedaços de bambu. Sir Caulder suspirou e deu um tapinha na estrutura enferrujada.
— Nunca disparamos esse treco maldito, a não ser quando Uhtred fez uma demonstração, claro. Deve estar aí desde a noite em que seus pais morreram. Os homens de Forsyth provavelmente acharam que era lixo.
— Tem valor histórico — disse Fletcher. — Tanto para Uhtred quanto para minha família. Vou mandar levá-lo para Raleightown e ser restaurado.
Agradava a ele saber que seu pai e a família de Otelo tinham alguma conexão. Na verdade, a invenção do canhão era o que tinha dado início aos pleitos dos anões por igualdade. Talvez, se seu pai não tivesse lançado aquele desafio, o mundo fosse bem diferente.
— Ah, é aí que os rapazes de Forsyth estão se escondendo. Tem uma fogueira aqui — gritou Rotherham. — E barracas também.
Fletcher se virou e correu os olhos pelo cânion vazio atrás de si, como se de alguma maneira não tivesse visto aquilo ao entrar. Mas, não, a mão de Rotherham apontava para a saída do cânion, para dentro da savana que ia até o joelho. Quando Fletcher olhou mais de perto, distinguiu as silhuetas de barracas em meio ao mato.
— Esses idiotas — rosnou Sir Caulder, atravessando a passos duros a Fenda até pisar na savana. — Estão acampando na porcaria do lado errado!
Fletcher o seguiu e estremeceu ao sair da sombra do cânion, quando a luz do sol o atingiu. À esquerda e à direita, a montanha se curvava para fora e para longe, por alguns metros de savana emaranhada e arbustos baixos antes de uma parede de selva começar. Umas poucas árvores mirradas pontilhavam a área, que, de outra maneira, não tinha sinal de vida.
— Tem alguém aí? — chamou Fletcher, começando a sentir-se inquieto.
Havia dezenas de barracas atulhando o chão, mas, se havia ocupantes, eles não queriam que sua presença fosse notada. Muitas das estruturas lamentáveis tinham caído sobre si mesmas, e vários barris e engradados haviam sido largados de lado.
Uma brisa vazia passou por eles e foi afunilada pelo cânion.
— Esses tolos preguiçosos abandonaram o posto — concluiu Sir Caulder, chutando um anel de pedras no chão com a perna de madeira e atirando uma pedra na pilha de bambus meio queimados que havia no centro. — Provavelmente voltaram para Corcillum assim que nós chegamos a Raleighshire. Ficamos sem defesa esse tempo todo!
Porém Fletcher não tinha tanta certeza assim. Agachou-se e enterrou o dedo nas cinzas da fogueira.
— Não — disse ele, sentindo um levíssimo calor. — Este fogo se apagou sozinho faz apenas uma hora, mais ou menos; além disso, as cinzas teriam sido sopradas para longe a essa altura se estivessem aqui há mais tempo. Talvez Didric tenha enviado uma mensagem para eles ontem à noite, dizendo que deviam ir para a Ponte Watford esta manhã. Talvez tenhamos nos desencontrado por pouco.
— Mas isso não explica por que eles deixaram tudo aqui — disse Sir Caulder, cofiando a barba grisalha.
As Raposas estavam passando pela Fenda agora, espiando curiosamente para os restos do acampamento Forsyth. Logo os soldados vagavam a esmo pelas barracas abandonadas, cutucando-as com a espada e levantando a tampa dos barris.
Foi só então que Fletcher o notou. Um homem sem camisa, na frente de uma árvore, a meio caminho entre a Fenda e a selva. Era difícil dizer; ele o estava vendo apenas através de uma névoa tremulante. Mas não... não estava de pé; estava amarrado à árvore.
— Raposas, formação de combate! — berrou Fletcher. No mesmo instante, os soldados entraram em ação, correndo em fila solta, espalhada pela bacia cheia de vegetação.
O coração do rapaz batia com força. O homem podia ser qualquer pessoa. Um desertor, quem sabe, deixado pelos Fúrias de Forsyth para morrer. Mas o instinto lhe dizia algo diferente.
— Para a frente, devagar agora — ordenou Fletcher, caminhando na direção do homem.
Andou vinte passos adiante dos soldados, correndo os olhos pela orla da selva. As frondes da vegetação se agitaram com a brisa, apresentando a Fletcher uma parede verde em contínuo movimento.
No início, ele pensou que eram rochas espalhadas diante da orla da selva, mas então ele viu as manchas vermelhas na grama em torno, os mosquetes e espadas, espalhados como galhos descartados.
Eram homens mortos, de preto, o uniforme dos Forsyth. Os olhos abertos e arregalados, as bocas semiescancaradas em terror petrificado. Havia tanto sangue, muito mais do que Fletcher jamais pensara ser possível.
— Parem! — gritou ele.
Os homens podiam agora ver os cadáveres, e suas exclamações de horror soaram altas aos ouvidos de Fletcher. Seus olhos pousaram no homem seminu. Ele estava... se mexendo.
Fletcher correu adiante, os olhos passando da árvore para os cadáveres além, o coração batendo com força no peito. Agora ele viu os frutos da mancenilheira apodrecendo no chão embaixo da folhagem. Era uma árvore tão venenosa que, se alguém se abrigasse embaixo dela, as gotinhas de água que caíssem pelas folhas queimariam sua pele como ácido. E o pobre coitado estava preso com a pele nua à casca.
Um tufo de cabelo castanho-escuro cobria o rosto do homem. Embora, para falar a verdade, ele estivesse mais para um garoto, se seu corpo magricela e peito afundado pudessem fornecer alguma indicação.
Fletcher sacou a khopesh e cortou as vinhas que amarravam o garoto ao tronco, estremecendo de horror ao ver a pele cheia de bolhas das costas do rapaz, vermelha e repleta de feridas. Aquilo era obra dos orcs.
Então o garoto se virou e Fletcher deu um pulo ao reconhecê-lo. Era Mason — o escravo fugido que tinha guiado o grupo de Malik em sua missão. Enquanto Fletcher arregalava os olhos de surpresa, o garoto sussurrou alguma coisa que mal passava de um rouquejo forçado pelos lábios rachados.
Fletcher se abaixou e apanhou o garoto, com cuidado para evitar tocar a pele em carne viva de suas costas. O corpo parecia pesar quase nada, de tão pouca carne que lhe restava.
— O que aconteceu? — perguntou Fletcher, inclinando-se para a frente.
Foi pouco mais que um sussurro, mas a palavra vibrou como uma badalada mortal nos ouvidos de Fletcher.
— Fujam.

6 comentários:

  1. E vai dar tudo errado, de novvvvvvvvvooooooo.

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  2. Eu disse que estava calmo demais, não aguento esse mistério

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  3. Tinha que dar errado ne, como só para retirar uma tropa, ele leva todaaaa a defesa da cidade, absurdo, era só mandar Atena com um recado, sei la, qualquer coisa, e a parte de reconhecer o terreno, como vc fica la, dois meses, e nem em um dia pensou em ir ver as tropas... ridiculo ta igual as novelas de tão obvio

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  4. Lascou!!
    Devia ter deixado Didric ir e morrer kk se bem que do jeito que ele é ruim, ia se junta aos orc e atacar a vila.

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  5. mancenilheira ouvi fala, conhecida como arvore da morte, se ficar embaixo dela numa chuva o liquido que desce è como acido

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Boa leitura, E SEM SPOILER!