2 de março de 2018

Capítulo 48

Fazia um calor intenso na arena, piorado pelas dúzias de tochas que Sir Caulder instalara nos suportes nas paredes. A areia onde os calouros se perfilavam parecia se mover e deslocar sob a luz tremeluzente.
— Só tem mesmo 24 de nós? Achei que seria mais gente — sussurrou Serafim no ouvido de Fletcher.
— Não, é só isso. São 12 calouros e 12 veteranos, com um número igual de plebeus e nobres — respondeu o outro, com voz forçada.
Ele não se sentia bem. Cada bater do seu coração fazia a mão esquerda latejar de dor. Não fora uma experiência agradável com Athol na noite passada, e o rapaz não tivera a chance de testar a teoria ainda. O anão tinha lhe dito para deixar a mão se curar o máximo possível antes de tentar qualquer coisa.
— Olhos adiante! — bradou Sir Caulder atrás deles, fazendo os alunos pularem. — Demonstrem respeito aos generais de Hominum.
Fletcher endireitou a postura à penumbra do corredor de acesso à arena. Primeiro vieram os generais, resplandecentes em seus elegantes uniformes de veludo azul, bordados com fios dourados que subiam pelas mangas até as dragonas. Os peitos eram adornados com uma abundância de medalhas e borlas, e todos os generais seguravam seus bicornes com força junto ao flanco enquanto desciam rigidamente pelos degraus. Eram homens severos, com rostos que evidenciavam penosas experiências. Nenhum deles falou, apenas passaram os olhos pelos cadetes como se avaliassem cavalos num leilão.
— Se eles ficarem impressionados, vão nos oferecer comissões diretamente após o torneio para lutarmos no Exército Real — murmurou Serafim com o canto da boca. — O soldo não é tão bom, mas as promoções chegam mais rápido que nos batalhões nobres, por conta do alto coeficiente de atrito. Assumir o lugar de homens mortos e tudo o mais.
— Silêncio nas fileiras! — ralhou Sir Caulder, mancando até a frente e os desafiando a romper o silêncio. — Posição de sentido! Se eu vir um de vocês se mover um centímetro, vou fazer com que se arrependam!
Mas Fletcher não estava prestando atenção. Um homem tinha entrado na arena e o encarava. A semelhança familiar era inconfundível. Zacarias Forsyth.
Zacarias não era como Fletcher tinha imaginado. O rapaz visualizara um homem com feições frias e tortuosas. Entretanto, o nobre era alto e corpulento, com metade da orelha faltando e um sorriso confiante. Ele descolou o olhar de Fletcher para os filhos, que estavam lado a lado.
— Ora ora, Sir Caulder, deixe que os cadetes relaxem. Haverá tempo mais que suficiente para toda essa cerimônia mais tarde — comentou Zacarias numa voz grave e animada. Ele desceu até a areia e abraçou os dois filhos, bagunçando o cabelo de Tarquin e dando um beijo no rosto de Isadora.
Por algum motivo, Fletcher ficou confuso ao presenciar tal cena. Parecia estranho pensar que alguém poderia adorar Tarquin e Isadora, mesmo que fosse o próprio pai.
— E quem é este rapaz robusto? — trovejou Zacarias, parando diante de Fletcher e o olhando de cima a baixo, notando os cheios cabelos negros e o khopesh em seu cinto.
— É o bastardo, pai; aquele com o demônio Salamandra — afirmou Tarquin, observando o outro menino com desdém.
— É mesmo? — comentou Zacarias, fitando as profundezas dos olhos de Fletcher. O sorriso permaneceu sem vacilar no rosto do nobre, mas o rapaz viu algo mudar no fundo do seu olhar. Algo sombrio e feio que lhe deu vontade de estremecer. — Vai ser interessante ver do que o seu demônio é capaz. Ora, aposto que ele poderia calcinar o ombro de um homem até o osso, se assim quisesse. — A máscara sorridente continuava lá, mas Fletcher não se permitiu intimidar por aquele brutamontes.
— Ele pode, e já o fez — retrucou Fletcher, com dentes trincados. — Talvez eu possa lhe oferecer uma demonstração algum dia.
O sorriso de Zacarias vacilou, e ele pousou a mão no ombro do menino e apontou para a arquibancada. O lugar estava se enchendo com mais nobres, todos vestindo cores e uniformes que representavam seus batalhões pessoais. Alguns tinham se juntado a Zacarias na areia, abraçando os filhos e falando alto, para a irritação de Sir Caulder.
— Será legal para você ter sua família aqui para lhe dar apoio. Por que você não dá um tchauzinho ao seu pai?
Fletcher ficou paralisado. Berdon estava ali? Não poderia ser! E não era mesmo; Zacarias estava apontando para um casal grisalho, que contemplava o menino com um olhar de puro ódio.
— Tomei a liberdade de informar os Faversham das suas alegações — contou Zacarias, com olhos cheios de malícia. — Até o rei demonstrou interesse especial no seu caso. Afinal, você acusou o lorde Faversham de ter sido infiel à prima do rei mais uma vez, tantos anos depois de todos aqueles problemas com Arcturo e os outros bastardos.
— Eu não aleguei nada disso! — enfureceu-se Fletcher. — Eu jamais...
— Convidei os dois a me acompanhar e assistir pessoalmente. Espero que você não se importe. Arcturo foi mandado para longe, de modo a não se encontrar com o pai e a madrasta, o que faz parte do acordo dele com o velho rei. Isso deixa Rook encarregado do torneio. Um velho amigo da minha família, sabe? Tenho certeza de que ele fará um esforço doloroso para garantir que tudo seja o mais justo possível.
Zacarias piscou para Fletcher e deixou a areia para se sentar com os outros nobres, mas não antes de exibir um sorriso de tubarão a Sylva e Otelo. Fletcher tremia de fúria, cerrando as mãos em punhos apesar da dor que pulsava na palma esquerda.
— Não deixe que ele afete você, Fletcher — sussurrou Serafim. — Vamos arrasar com os Forsyth.
— Sentem-se, sentem-se todos! — trovejou Cipião, chegando pelo corredor e descendo os degraus da arena, seguido por um Rook sorridente. O reitor acenava e saudava generais e nobres igualmente. Conforme os espectadores se assentavam, o silêncio recaiu sobre a arena. — Enfim, mais um ano, mais uma safra de cadetes prontos para testar suas habilidades na arena — continuou Cipião, abrindo os braços e sorrindo para os alunos. — Este ano é uma ocasião bem incomum. Tradicionalmente, só teríamos mais ou menos uma dúzia de candidatos que se enfrentariam em duelos eliminatórios e assim determinariam um vencedor. Porém, neste ano estendemos a oportunidade tanto aos calouros quanto aos veteranos, o que nos deixa com 24 candidatos a serem avaliados. Vou deixá-los nas mãos capazes do Inquisidor Rook, que lhes explicará as novas regras do torneio.
Cipião se afastou e sentou-se na primeira fila da arena, tendo cumprido seu dever.
— Muito obrigado, reitor. Eu gostaria de aproveitar esta oportunidade para agradecer a todos por terem vindo; sei que seu tempo é precioso. Cada minuto longe das linhas de frente é um minuto em que seus soldados estão privados de sua excelente liderança. Para acelerar as coisas, decidi que haverá uma batalha tripla na primeira rodada, onde apenas um candidato seguirá adiante para a próxima. Não será um duelo tradicional, mas detalhes adicionais serão revelados posteriormente.
Houve murmúrios de curiosidade da plateia, porém nenhuma discordância. Rook esperou que o barulho terminasse antes de continuar.
— A próxima rodada será a eliminação tradicional entre dois cadetes, mas sem feitiços ou demônios. Historicamente, os combatentes do torneio raramente se enfrentam corpo a corpo, preferindo lançar feitiços ou deixar que seus demônios lutem por eles. Parece uma pena desperdiçar todos os anos de aprendizado de esgrima que seus filhos receberam, mesmo antes de vir à academia. Esta segunda rodada evidenciará esta importante perícia.
Desta vez houve acenos de concordância dos nobres nas arquibancadas, mas os generais pareceram menos felizes com o arranjo, franzindo os lábios e assentindo.
— Tenho uma objeção. Tal procedimento dá uma vantagem injusta aos jovens nobres, que receberam aulas particulares de esgrima — afirmou um dos generais, falando diretamente com Cipião. — Nós preferimos uma avaliação justa das habilidades dos cadetes.
— Talvez o senhor prefira que prejudiquemos os nobres, simplesmente porque eles são mais bem preparados? — indagou Rook com um tom de sarcasmo. — Eles também não receberam treinamento em feitiçaria antes de chegar à Cidadela? Talvez seja melhor limitar os testes à prova de demonologia?
Cipião se levantou e se voltou ao general que tinha falado.
— Temo que eu tenha que concordar com o Inquisidor Rook. Também me opus a essa mudança inicialmente, mas logo me lembrei de algo importante. A guerra é injusta; os fracos fracassam e os fortes sobrevivem. Se o torneio for desequilibrado, isso não permitirá uma representação mais precisa de uma batalha real?
— Também determinei uma medida que permitirá que um número igual de nobres e plebeus sigam para a segunda fase — anunciou Rook. — As duas classes não competirão uma com a outra na batalha de três, pois os grupos não se misturarão. Isso satisfaz ao senhor?
— De fato, Inquisidor. Obrigado. — O general se sentou novamente, apesar de continuar com o cenho franzido.
— Ótimo. A terceira e a quarta rodada serão duelos tradicionais, então presumo que não há discordância nenhuma aqui. Agora, a arena deve ser preparada para a primeira fase — afirmou Rook, esfregando as mãos. — Sir Caulder! Leve os cadetes às suas celas!

3 comentários:

  1. Somente eu, ou alguém mais já desconfia qual será o trio de Fletcher?
    -John

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    Respostas
    1. Eu aposto que é a elfa e o anão.
      Mas se ele tiver azar aqueles dois gêmeos!! Kkk

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  2. Acredito que seja elfa e anão. Mas pode ser Fletcher contra os dois ex amigos.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!