22 de março de 2018

Capítulo 47

Eles enterraram Coelhinho no campo de treinamento, dispondo o corpo quebrado a seis palmos sob a terra, junto à espada de Jakov. Nenhuma palavra foi dita, mas lágrimas foram derramadas, até mesmo pelos mais durões dos anões.
A morte da raposinha fora um ato de crueldade sem sentido, e Fletcher precisou de toda argumentação possível para impedir que os soldados saíssem atrás dos homens de Didric. O inimigo, porém, tinha vantagem numérica e estaria à espera. Além disso, Fletcher não poderia justificar uma batalha custosa por causa da vida de um único animal, uma amada mascote ou não.
Ainda assim, a morte da raposa os unira em sofrimento. Anões, humanos e elfos lamentaram juntos, com pena, contando histórias sobre seu amiguinho perdido. Ignácio retornou com uma impala nas garras, que eles assaram na fogueira e comeram tomando cerveja de musolveira. Naquela noite, bêbados e de barriga cheia, os soldados cantaram músicas tristes das respectivas terras. Enquanto isso, Fletcher os observava do alojamento com seus oficiais e sargentos. Eles não podiam participar: não seria certo.
— Deixe que criem laços — dissera Rotherham. — Eles não precisam que um oficial vá destruir a noite.
Portanto, em vez disso, Fletcher começou os preparativos para o dia seguinte.
O treinamento acabara. Os homens de Didric estariam esperando as tropas de Forsyth; Atena os seguira até seu acampamento, ao lado da Ponte Watford, onde eles esperavam atrás de uma barricada construída às pressas.
Para que os comboios de comércio de Fletcher pudessem chegar a Corcillum, os homens de Didric teriam de sair dali, e isso significava buscar logo os soldados de Forsyth. Seria necessário atravessar o desfiladeiro, e depressa. Mas precisavam de suprimentos. Portanto, Fletcher e seus oficiais selecionaram uma carroça de sua pequena frota. Berdon foi incumbido de reforçar as rodas para suportarem o terreno encalombado, e naquele meio-tempo eles organizaram tudo de que poderiam precisar.
Barris de carne salgada de antílope e água foram retirados do estoque, bem como tendas de lona, utensílios para cozinha, oleados a fim de impedir que as armas enferrujassem, e pedras de amolação para mantê-las afiadas. Eles apanharam um barril de pólvora que Serafim lhes enviara, com papel de cartucho, moldes de bala de mosquete e barras de chumbo de Berdon, tudo para a produção da própria munição.
Levaram duas cabras leiteiras, e quatro galinhas foram colocadas em gaiolas de madeira improvisadas para lhes fornecer um suprimento constante de ovos. Montes de frutas foram acrescentados, e não apenas de musolveiras como também outras frutas que o povo da cidade começara a cultivar: pepinos-africanos, que eram espinhosos e amarelos por fora, mas por dentro tinham uma polpa adocicada verde-escura com um gosto que era uma mistura de limão, mamão e banana; fruta-pão gigante que crescia como melões peludos e podia chegar a ser tão grande quanto a cabeça de um orc. Havia até mesmo alguns cestos de duriões, que fediam como o diabo, mas tinham um gosto surpreendentemente doce — como não tinham vendido bem em Corcillum, nada surpreendentemente, Fletcher levou o carregamento inteiro.
E havia mais uma tarefa, esta secreta, que Fletcher deu a Thaissa, e que ela necessitaria realizar à noite para completar a tempo. Mas valeria a pena.


Na manhã seguinte, as tropas marcharam até o campo de treinamento sob os olhares dos cidadãos, que tinham se reunido para se despedir. Todos estavam prontos para partir, os alforjes de couro e as armas, presas às costas, os uniformes, limpos e escovados. Todos pareciam magros e ansiosos, como cães de caça lutando para se soltar da correia.
Rory e Genevieve estavam postados orgulhosamente na frente de seus batalhões, enquanto Rotherham e seu pequeno grupo de atiradores ficavam nos fundos, Sir Caulder, na vanguarda, pronto para atuar como treinador. Um sentimento de imensa gratidão inchou o peito de Fletcher: de ter a honra de liderar homens como aqueles.
Ele respirou fundo, pois as palavras que tinha preparado tão cuidadosamente durante a noite longa pareciam vacilar em sua cabeça. Na noite passada, ele os repreendera; agora, precisava uni-los.
— Estou orgulhoso do que conquistamos aqui — disse, postando-se na frente deles com as mãos às costas. — Vocês agora são a elite, soldados que eu sentiria orgulho de liderar até o próprio coração do reino dos orcs. Por isso, eu lhes agradeço.
As tropas ficaram em silêncio, os peitos estufados, os olhos mirando fixamente à frente. Um leve aplauso começou a surgir do meio dos cidadãos, mas Fletcher ainda não tinha acabado.
— Hoje, seguiremos a nosso novo acampamento, na fronteira entre as selvas dos orcs e o local que passamos a chamar de lar. Lá, devemos nos preparar para nossa longa vigília, a fim de defender não apenas Raleighshire, mas toda Hominum. Pois defendemos os portões de acesso de um império.
Fletcher virou-se e apontou para a distância.
— Lá, além do horizonte, a não mais que um dia de cavalgada, está Corcillum. Milhares de inocentes que estão levando suas vidas cotidianas. Vocês são a linha tênue que os protege das hordas selvagens na fronteira sul. Não consigo pensar em ninguém melhor para combater nesta empreitada.
Sorrisos agora, até mesmo uma sugestão de um vindo de Dália. Ele sabia que estava sendo melodramático, mas cada palavra era sincera.
— Mas como iremos nos chamar? — perguntou Fletcher, apontando para seu uniforme. — Vamos coletar um contingente de Fúrias dos Forsyth. Ontem fomos acossados por homens que Didric chama de carcereiros. E nós, quem somos?
Enquanto ele falava, Thaissa veio apressada em sua direção, do meio da rua. Ele viu os homens franzindo a testa, até mesmo o retorcer hesitante de seus lábios ao morderem uma resposta àquela pergunta.
Thaissa lhe entregou um rolo de tecido, preso a uma vara. Fez uma reverência e recuou, sussurrando:
— Fiz o melhor que pude com o que eu tinha, mas não sobrava mais nenhum verde.
— Tenho certeza de que ficou ótimo, Thaissa, obrigado — sussurrou Fletcher em resposta.
Com um floreio, ele desdobrou o tecido girando a vara, permitindo que uma bandeira começasse a flutuar à brisa.
— Povo de Raleightown, eu apresento a vocês... as Raposas! — declarou Fletcher, e ficou aliviado ao ouvir um urro de aprovação tanto da parte dos soldados quanto do povo ao verem o trabalho de Thaissa.
Era a primeira vez que ele via a bandeira, e o resultado o surpreendeu. Bordado em um tecido rubro estava o tracejado dourado de uma raposa do deserto, com uma única pata erguida, o focinho apontando para a frente, como uma flecha. A bandeira ondulou ao vento, gloriosa em seus detalhes e cores.
— Raposas, estão prontas para lutar? — gritou Fletcher, interrompendo as comemorações.
— Sim, senhor! — Foi a resposta, gritada em um uníssono perfeito.
— Sir Caulder, dê a ordem — disse Fletcher, reprimindo um sorriso.
— Meia-volta! — gritou Sir Caulder.
Quarenta e dois pares de pés giraram nos calcanhares. E mais 42 os bateram no chão.
— Avante... marchem!
E o coração de Fletcher cantou de animação.
Porque as Raposas de Fletcher estavam a caminho.

9 comentários:

  1. Nossa, cara que top!

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  2. Aaaah, minhas raposas, tô encantada!!

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  3. So eu achei estranho o Fletcher mandar todos os seus soldados para a fronteira e nenhum ficar para proteger a cidade?
    Sério, a cidade não ficaria indefesa denovo?

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  4. Estou pensando na cidade indefesa, ele precisa de soldados para proteger a cidade

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Boa leitura, E SEM SPOILER!