2 de março de 2018

Capítulo 47

O suor pingava da testa de Fletcher enquanto ele entalhava o símbolo do escudo no ar diante de si. Ele o fixou, remexendo o dedo e observando o sinal seguir todos os seus movimentos.
— Ótimo. Agora a parte difícil — instruiu Sylva, cuja voz ecoava no espaço vazio da arena.
Serafim os observava das laterais, pois já terminara seu treinamento naquele dia. Parecia a Fletcher que sua mente se racharia em duas enquanto ele tentava regular um fluxo de mana, até o símbolo e através dele ao mesmo tempo. O rapaz foi recompensado por um fino fluxo de luz branca que pairava no ar à sua frente.
— Já basta por ora, Fletcher. Agora, molde.
Era fácil puxar o fluido num disco opaco, as incontáveis horas de prática de fogo-fátuo finalmente se fazendo valer. Espalhava-se bem fino e se estilhaçaria após alguns golpes de espada, mas aquilo bastava por enquanto.
Fletcher sugou o escudo de volta pelo dedo e sentiu o próprio corpo se encher de mana outra vez.
Com o torneio a apenas horas daquele momento, não era uma boa ideia desperdiçar suas reservas de energia mística.
— Muito bem, Fletcher! Você está tendo sucesso em quase todas as tentativas. Já deve estar melhor que alguns dos veteranos, imagino — encorajou Sylva.
— Eu não dou a mínima para a minha classificação no torneio — resmungou Fletcher. — Só quero derrotar Isadora e Tarquin. E eles são capazes de erguer um escudo em poucos segundos, duas vezes mais espessos que o meu. É a mesma coisa com os feitiços de ataque. Consistência, velocidade e poder, são os fatores que realmente importam segundo Arcturo. Eles me superam em todos os três.
Sylva deu um sorriso solidário e apertou seu ombro.
— Se você tiver que enfrentá-los, eles terão que usar mais mana para derrotar você, o que melhora as nossas chances. Serafim, Otelo e eu já nos equiparamos a eles depois de tanto treinamento. Não teríamos conseguido isso sem a sua ajuda, especialmente com a prática de esgrima. Até Malik diz que você é um bom espadachim, e os Saladin têm fama de ser os melhores esgrimistas do país!
Fletcher deu um sorriso desanimado e foi se sentar ao lado de Serafim. Era quase meia-noite, mas Otelo tinha pedido que eles o aguardassem na arena. Ele desaparecera algumas horas antes, com negócios misteriosos a resolver em Corcillum.
Os últimos meses tinham sido exaustivos, preenchidos com sessões constantes de treino e estudo. A prova de demonologia tinha vindo e se ido, e todos eles passaram com notas altas. Fletcher não sabia bem o que tinha feito seu pulso doer mais, os incessantes treinos de espada ou as intermináveis horas escrevendo redações durante provas que duravam um dia inteiro.
Ele poderia ter suportado esses meses recentes com relativa tranquilidade, se não fosse pela frieza com a qual ele, Sylva, Serafim e Otelo eram tratados pelos antigos amigos. Apesar das tentativas de fazer as pazes, Rory, Genevieve e Atlas ainda estavam chateados, comendo separadamente no café da manhã e os evitando sempre que possível.
— Ah, eles ainda estão aqui — disse Otelo de trás deles. — Temos companhia, pessoal. Animem-se e venham receber uns velhos amigos.
Fletcher se virou e viu Otelo, Athol e Átila parados atrás deles. Levantou-se num salto e foi imediatamente embrulhado num abraço de urso, erguido pelos braços fortes de Athol como se ele não pesasse mais que uma criança.
— Achei que Otelo tinha falado que ia buscar minha encomenda amanhã! —Fletcher riu.
Átila sorriu desajeitado e lhe deu um aceno respeitoso de cabeça.
— Os verdadeiros amigos dos anões recebem entregas pessoalmente — retumbou Athol, soltando o rapaz. — Átila trabalhou dia e noite no seu pedido. Agora, com a perna curada, ele decidiu vir junto também.
— Bah, foi um trabalho delicado, mas um prazer de executar — comentou Átila, erguendo o produto de seu trabalho à luz.
Fletcher tinha pensado inicialmente naquilo depois de sua conversa com Arcturo. A pedra de visão que ele recebera só era útil quando Fletcher a segurava junto ao olho. O tapa-olho de Arcturo tinha lhe dado a ideia de prender a pedra ali, deixando suas mãos livres.
— Percebi que o seu conceito de monóculo clássico não daria certo assim que comecei, Fletcher. Ele se soltaria se você lutasse enquanto o usasse. Mas você disse que sua ideia veio do tapa-olho do seu professor. Então poli o cristal até ele ficar transparente, fiz uma moldura de prata e prendi uma tira nela. Experimente só.
A tira de couro do monóculo serviu perfeitamente na cabeça de Fletcher, com a pedra de visão posicionada logo diante de seu olho esquerdo. Ele via através dela quase perfeitamente, apesar do lado esquerdo de sua visão agora estar com uma coloração levemente arroxeada.
— Ficou perfeito! Muitíssimo obrigado! — exclamou Fletcher, maravilhado com a clareza. Se ele iniciasse uma visualização, seria literalmente capaz de ver as coisas do ponto de vista de Ignácio, ficando ao mesmo tempo livre para agir como quisesse.
— Você pode fazer um desses para mim? — indagou Serafim com um toque de inveja. — Eu jamais teria pensado nisso.
— Tarde demais agora — respondeu Átila, puxando a barba diante do elogio. — Mas, se você estiver com o dinheiro e o cristal, ficarei feliz em começar imediatamente.
— Hum, preciso da minha pedra para amanhã. Mas aceitarei sua oferta muito em breve. — Serafim pegou o próprio fragmento de cristal e o fitou com desapontamento.
— Muito impressionante — comentou Sylva, bocejando ao subir as escadas. — Só que o torneio é amanhã cedo, e preciso de uma boa noite de sono. Você vem, Serafim?
— Sim, preciso do meu sono de beleza se eu quiser conquistar o coração de Isadora amanhã — brincou Serafim, mandando uma piscadela de despedida a Fletcher enquanto seguia a elfa. — Boa noite a todos!
Após os passos de ambos desaparecerem no corredor, Athol pigarreou e lançou um olhar apreensivo a Otelo.
— Certo, temos mais um assunto a conversar, Otelo. Átila fez uma nova tatuagem, para cobrir a cicatriz na perna. Sei que você odeia isso, mas trouxe o kit de tatuagem para o caso de você querer fazer uma igual. Depois do ataque fracassado, os Pinkertons estão mais agressivos do que nunca.
Otelo grunhiu enquanto Athol pegava várias agulhas grossas e um pote de tinta negra na mochila.
— Não! Não desta vez. Cheguei à conclusão de que levar a culpa no lugar de Átila só serviu para deixar que ele vivesse uma vida sem consequências. Afinal, essa experiência de ter quase morrido provavelmente lhe ensinou mais lições de vida numa só noite do que ele aprendeu em todos os seus quinze anos de existência. Não é, Átila? — observou Otelo, indicando Fletcher com um aceno de cabeça.
— Eu estava errado quanto aos humanos — resmungou Átila, olhando para os pés. — Mas isso não apaga as muitas atrocidades que sofremos nas mãos deles. Percebi que não é a raça humana que eu odeio, mas o sistema em que vivemos.
— Mas, se nós quisermos mudar esse sistema, precisamos fazê-lo de dentro dele. — Otelo segurou o ombro de Átila. — Você vai se alistar em Vocans no ano que vem? Eu não posso fazer isso sozinho, irmão.
Átila ergueu o rosto, seus olhos brilhando com determinação.
— Eu vou.
Otelo riu com alegria e deu um tapa nas costas do irmão.
— Excelente! Deixe-me mostrar-lhe meu quarto. Você consegue subir as escadas com essa perna?
Os gêmeos saíram de braços dados, Otelo ajudando Átila a mancar pelos degraus e deixar a arena. Suas vozes animadas ecoaram pelo corredor, deixando Fletcher a sós com Athol.
— Como as coisas mudam — comentou o rapaz.
— E como mudam. Meu coração se alegra ao vê-los amigos de novo — concordou Athol, enxugando uma lágrima do olho. — Eles eram inseparáveis quando novos, sempre se metendo em encrencas.
— Átila tem o coração no lugar certo — afirmou Fletcher, pensando no ódio que ele mesmo sentia pelos Forsyth. — Eu não sei se estaria tão disposto a perdoar.
— O perdão não é da natureza dos anões — suspirou Athol, sentando-se e levando uma das agulhas de tatuagem à luz. — Podemos ser teimosos como mulas, incluindo eu. Menos Otelo, porém. Lembro-me bem quando ele se ofereceu para ser testado pela Inquisição, e eu lhe disse que estava se juntando aos nossos inimigos. Você sabe o que ele me respondeu?
— Não, o quê? — indagou Fletcher.
— Ele disse que o maior inimigo de um guerreiro pode ser também seu maior professor. Aquele guri anão tem uma sabedoria que vai muito além de sua idade.
Fletcher contemplou essas palavras, mais uma vez sentindo profunda admiração por Otelo. A dama Fairhaven tinha dito algo similar: Conhece teu inimigo. Mas o que ele poderia aprender com os Forsyth, ou com Didric? Talvez, se tivesse acesso ao diário de James Baker, ele pudesse aprender alguma coisa com os orcs. Porém, o livro ainda não tinha voltado da gráfica, onde eles tinham dificuldades em preparar as xilogravuras dos intrincados diagramas que adornavam cada página.
Mesmo que a maioria tratasse da anatomia dos demônios que viviam do lado órquico do éter, era impossível saber que outras observações úteis Baker poderia ter anotado naquelas páginas.
— Você não quer uma tatuagem também? Eu fiz as de Otelo e Átila, então sei o que estou fazendo — perguntou Athol, meio de brincadeira.
— Não, não é bem meu estilo — respondeu Fletcher, rindo. — Sem querer ofender, acho que elas são meio brutas. Eu vi até um orc...
O menino paralisou. Em suas memórias, ele viu o orc branco erguendo a mão, com o pentagrama fulgurando violeta na sua palma. Será que poderia ser assim tão simples?
— Você viu um orc com tatuagens? — repetiu Athol lentamente, confuso pelo silêncio abrupto de Fletcher.
— Foi um sonho... — murmurou ele, traçando com o dedo a palma da mão esquerda.
Fletcher sacou o khopesh e começou a desenhar o contorno de uma mão na areia da arena. Seu coração batia loucamente no peito enquanto ele pensava no que estava prestes a fazer.
— Espero que você seja tão bom quanto diz que é, Athol — declarou. — Preciso que esta tatuagem fique perfeita.

4 comentários:

  1. O Fletcher mal sabe o básico, vai se meter a bancar um orc??!! Será realmente tão fácil ?
    Tou sentindo cheiro de treta.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!