22 de março de 2018

Capítulo 46

Eram muitos — pelo menos sessenta, pelas estimativas de Fletcher — que vinham marchando apressadamente pela rua, apesar da chuva. Na liderança, Fletcher avistou o vulto familiar de gorila de Jakov, caminhando pesadamente, e, a seu lado, Didric. Para surpresa de Fletcher, o jovem nobre ainda usava a máscara do baile. Obviamente tinha gostado de sua aparência com ela.
Berdon saiu pelas portas duplas da forja e caminhou até Fletcher, piscando sob o aguaceiro para ver melhor os homens que se aproximavam.
— O que acha que vieram fazer aqui? — perguntou. — São carcereiros de Didric se não me engano.
— Não sei — respondeu Fletcher. — A única coisa que sei é que coisa boa não deve ser.
Viu um sorriso zombeteiro no rosto de Didric, que aumentou quando seus olhos se encontraram.
— Será melhor pedirmos que os homens preparem os mosquetes? — perguntou Berdon.
— Não — respondeu Fletcher. — Se eles tivessem vindo nos massacrar, teriam conservado o elemento surpresa. E os mosquetes não disparariam nessa chuva, de todo modo.
Ele analisou a situação. Seus homens tinham as alabardas e mosquetes, mas os rifles estavam lá dentro ainda.
— Sargentos, um instante! — berrou.
Sir Caulder e Rotherham se apressaram até ele.
— Sargento Rotherham, leve os rifles para a janela do segundo andar e carregue-os. Esteja pronto para atirar em caso de problemas.
— Sim, senhor.
— Sir Caulder, deixe os homens em formação de meia-lua na entrada. Quero que eles estejam rodeados quando entrarem.
Sir Caulder assentiu e começou a vociferar ordens aos soldados.
— Genevieve, Rory: assumam o comando de suas tropas. Não deixem que comecem nada que não possamos terminar. Isso vai ficar feio.
Os dois saíram correndo a fim de cumprir as ordens, e, como se tivesse recebido uma deixa, a chuva diminuiu para um chuvisco.
— Berdon, entre — disse Fletcher.
— Não dessa vez, filho — rebateu o ferreiro, colocando-se com firmeza ao lado do conjurador. Puxou um martelo de forja do cinto e deixou que pendesse dos dedos.
Mentalmente, Fletcher ordenou que Ignácio e Atena retornassem. Os dois, entretanto, estavam a quilômetros de distância, uma vez que tinham voado para o noroeste, até os confins de Raleighshire. Levariam meia hora para voltar.
Então os soldados de Didric chegaram e pararam bem na frente da linha estreita das tropas de Fletcher. Atrás deles, o rapaz viu que o povo de sua cidade viera também, outros vinte homens e mulheres; ou seja, agora eles estavam quase em igualdade numérica.
— Então foi para cá que vocês todos fugiram — declarou Didric, abrindo bem os braços. Às costas, persianas se abriram timidamente quando outros citadinos, mais tímidos, começaram a observar.
— Por que veio para cá, Didric? — exigiu Fletcher.
— Não tem muito para se ver, não é mesmo? — continuou Didric. — Imagino que você estivesse melhor nas choupanas lá de Pelego.
Seus homens deram risinhos maliciosos.
— Vá logo ao que interessa — disse Fletcher, irritado. — Senão o que vai lhe interessar é minha espada.
Ele deixou preparado o khopesh na bainha da lateral do corpo.
— Vejo que se juntou a alguns dos indesejáveis — disse Didric, ignorando a ameaça de Fletcher e olhando com firmeza para os recrutas anões, depois para os elfos. — Não posso dizer que é uma surpresa.
Dália cuspiu com sarcasmo ao ouvir aquelas palavras. Quando ela fez isso, Didric notou Coelhinho sentado a seus pés. A raposinha deu um rosnado agudo quando ele a olhou, e Didric chutou-a com força, atirando a raposa para longe com um ganido de dor.
— Não toque nele! — sibilou Dália, apontando a alabarda para o rapaz.
— Ratinho nojento — sorriu Didric, observando a raposa sumir na vegetação com o rabo entre as pernas.
— Não vou perguntar de novo. O que veio fazer aqui, Didric? — indagou Fletcher irritado, de braços cruzados.
— Ora, viemos buscar os homens de lorde Forsyth — respondeu Didric, apontando para as montanhas mais além das ruínas atrás de Fletcher. — Infelizmente, este buraco estava no meio do caminho.
— Veio fazer o trabalho sujo de Forsyth no lugar dele?
— Um favor para um amigo — disse Didric. — Ele está um tanto indisposto no momento, graças a sua brincadeirinha.
— Você o chama de amigo? — retrucou Fletcher, apontando para as ruínas da antiga casa dos pais. — Está vendo isso? É o que essa cobra traiçoeira faz com os próprios amigos.
— Você chama isso de traição; eu, do preço dos negócios. — Didric deu de ombros. — Você precisa admitir que foi um passo ousado. O tolo de seu pai nem desconfiava do que estava para acontecer.
Cada palavra parecia um tapa em sua cara. Fletcher sentiu o sangue subir ao rosto.
— Repita isso — disse Fletcher, raivoso, sacando a espada.
Didric sorriu e recuou um passo, permitindo que Jakov falasse em seu lugar.
— Para o lado — disse Jakov, a mão segurando firmemente o punho de sua espada. — Temos negócios a resolver.
— Não em minhas terras — respondeu Fletcher. — Isso é uma invasão. Voltem por onde vieram e aguardem os homens de Forsyth na Ponte de Watford. Nós os mandaremos até lá.
Jakov desembainhou a espada com um rascante ruído metálico. Atrás de si, os soldados de Didric fizeram o mesmo.
— Eu disse para o lado! — berrou Jakov, levantando a espada.
Então houve um tiro. A espada caiu no chão em uma chuva de faíscas e rolou das mãos de Jakov para a grama.
— Se quer brigar, deixe as lâminas no chão — cantarolou a voz de Rotherham dos alojamentos. — O próximo homem que se mover vai levar uma bala na cabeça. Ou talvez eu comece por Didric. Ainda não decidi.
Jakov girou o corpo, e seus olhos inspecionaram as janelas das casas. Agachou-se e apanhou a espada, ainda com os olhos fixos acima. Outro tiro foi disparado, atirando a espada para longe.
— Posso continuar fazendo isso o dia inteiro — gritou Rotherham.
— Certo! — gritou Didric. Olhou em torno, analisando a situação. Armados, seus homens levariam vantagem, mas, se os cidadãos da cidade se juntassem à luta... não tanto.
— Por favor, abaixem as armas — trovejou Berdon ao lado de Fletcher. — Tenho contas a acertar com aquele camarada ali.
Ele virou o pescoço e levantou os punhos fechados. Jakov empalideceu quando o grandalhão deu um passo à frente. Era apenas 2 centímetros mais baixo que ele, mas tinha os mesmos ombros largos. Jakov e seus guardas tinham dado uma surra em Berdon e o largaram inconsciente, então queimaram sua casa na noite em que Fletcher fugiu. Contas a acertar, de fato.
— Sim, podem vir! — berrou Gallo por trás de Fletcher. — Vocês vão ver o quanto somos indesejáveis depois de levarem um chute de bota de anão na bunda!
Mais soldados se juntaram à gritaria: elfos, humanos e anões.
— Recuar! — ordenou Didric, puxando Jakov.
Os homens de uniforme preto e amarelo recuaram, as costas umas contra as outras, as espadas erguidas em um porco-espinho de lâminas.
— Formação de falange! — ordenou Fletcher. Seus homens saltaram para obedecer e se organizaram em três fileiras que se eriçaram com as alabardas. — Avancem!
Eles acompanharam os soldados em retirada pela rua, em tempo de formarem uma barreira impenetrável para o inimigo. Enquanto isso, Didric e Jakov olharam com medo para as casas em torno, aterrorizados de algum tiro que pudesse derrubá-los.
Passo a passo, eles foram até o limite da cidade. Agora a chuva tinha parado, e as manchas cinzentas de nuvens estavam começando a recuar. Os homens de Didric se moveram para as gramas altas, erguendo os pés bem alto para não tropeçar.
— Carregar! — ordenou Fletcher. Imediatamente, as alabardas foram colocadas sobre os ombros e começou o barulho das varetas.
Ao verem os mosquetes, os homens de Didric saíram em debandada completa, tropeçando uns sobre os outros no desespero de partir. Os mosquetes dificilmente disparariam na chuva, mas não fazia nenhum mal dar-lhes um pouquinho mais de incentivo.
— Que falta de disciplina — murmurou Sir Caulder.
Os homens comemoraram ao ver os soldados inimigos correndo. Então, de repente, caíram em silêncio.
Didric e Jakov estavam longe de alcance, mas seus vultos ainda eram claramente visíveis na savana. Eles estavam parados ao lado de uma árvore mirrada.
Jakov levantou alguma coisa. Alguma coisa de pelo dourado, que se retorcia sob sua mão. Ele a bateu contra o tronco, uma, duas vezes. Depois os dois se viraram e saíram correndo savana adentro.
— Não! — gritou Dália, caindo de joelhos.
Eles tinham matado Coelhinho.

5 comentários:

  1. Santa mértila voadora! O Coelhinho não!
    Cara, sério, o Didric é um traste de outro nível. Ate que eu entendo ele querer matar Fletcher, mas se virar contra o próprio povo... Além de ter matado um animal inocente apenas para saciar o próprio ego. É impressionante como o autor desenvolve tantos vilões, se duvidar, a nobreza é ainda pior que Khan e seus orcs.
    Por outro lado, Fletcher se tornou um verdadeiro lorde, um líder nato. O modo como ele lidou com a "revolta" e a insinuação de ataque de Didric foi épico!

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  2. Eu vou entrar nesse livro e matar eles, quem eles pensam que são?? Eu não acredito que eles mataram a coelhinha, o Fletcher tem que fazer alguma coisa!!!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!