13 de março de 2018

Capítulo 46

Eles alcançaram a caverna principal e ouviram uma discussão. Para o espanto de Fletcher, Didric estava de pé sobre o escravo de cabelos emaranhados, a ponta da lâmina tirando sangue ao ser pressionada contra o peito arquejante do menino, que ainda trazia o gremlin ferido nos braços. As outras equipes pararam de destruir os ovos para olhar. Só metade da câmara tinha sido limpa.
— Não tem lugar para você — rosnou Didric.
A Araq aranhenta dele pateando por entre as pernas do mestre, voltando os muitos olhos para Fletcher conforme este chegava correndo. A criatura tinha atado os tornozelos do rapaz com seda iridescente, os filamentos brancos se desenrolando a partir de um orifício debaixo do ferrão temível. Fletcher não perdeu tempo em cortar a teia com o khopesh.
— O que você está fazendo? — perguntou a Didric,  enquanto colocava o escravo de pé. — Eles estão do nosso lado!
O gremlin nos braços do escravo chilreou com nervosismo, e o menino o balançou como se silenciasse um bebê.
— Você estragou tudo agora, Fletcher, seu completo idiota! — exclamou Didric, balançando a cabeça em descrença. — Tem uma dúzia de escravos aqui. Como você espera que o Corpo Celeste leve todos nós embora agora?
Fletcher sentiu um frio na barriga ao entender o problema. Talvez Didric estivesse certo. O grupo de resgate já estava quase chegando; não haveria tempo para reforços.
Didric empurrou o escravo para o túnel oposto, onde Rufus ainda aninhava a mãe. Os outros seguiram, encolhendo-se quando Didric mirou um chute contra eles.
— Vamos ter demônios suficientes para carregá-los — afirmou Fletcher, com mais esperança que certeza.
— Serão três para cada demônio se você estiver errado — rosnou Didric. — Como é que vão deixar as Serpes para trás com esse peso todo no lombo? Já vou dizendo: não vou carregar um deles na minha carona.
— Cuidamos disso mais tarde, Didric — ordenou Malik do outro lado da câmara. — Eles vão pousar em cinco minutos. Volte ao trabalho.
— Vou voltar ao trabalho quando eu bem... — começou a responder Didric, parando ao captar um vislumbre de alguma coisa perto da entrada.
Fletcher se virou e viu um torso cinzento saindo trêmulo de um ovo, rasgando com as garras o saco translúcido que o envolvia. Ao lado, outro ovo caiu de lado, e um punho cinzento socou a camada exterior e se agarrou ao chão.
Os olhos do goblin recém-nascido se viraram para eles, globos pálidos que giravam de um lado para o outro. A criatura abriu a boca e soltou um berro de rachar os ouvidos; um grito que ecoou pela caverna e pelo túnel. Cress lhe meteu uma seta no crânio.
Mais ovos começaram a tremer e se abrir, centenas deles, espalhados pelo chão em volta das equipes. Um grito de resposta veio pelo túnel; um tumulto de guinchos que fez Fletcher trincar os dentes. Os goblins adormecidos tinham acordado.
— Queime-os. Queimem todos eles! — urrou Otelo. Ele libertou um redemoinho de chamas que soprou pela pilha mais próxima de ovos. O fogo os destroçou, como se fossem papel de arroz, e os ovos encolheram e queimaram até que não passavam de sacos enegrecidos e murchos. O resto da tropa seguiu o exemplo. Relâmpagos estalaram pela caverna, com ovos explodindo por todos os lados, espirrando o conteúdo mutilado pelo ar.
— Sylva, seu frasco; estou sem mana! — gritou Fletcher, quando o primeiro goblin veio correndo do túnel, brandindo uma clava de guerra.
Sylva jogou a poção do outro lado da câmara, e Fletcher a apanhou com as pontas dos dedos. No mesmo instante, aparou o golpe de clava do goblin.
Atena deu um rasante e cravou as garras na cabeça da criatura. Este girou para longe, guinchando, dando a Fletcher uma chance de engolir o elixir. Tinha um sabor extremamente doce, como água de lavanda com mel.
O mana se espalhou pelo corpo, como uma maré de luz branca, correndo pelas veias e pela conexão com Atena e Ignácio. Bem carregado, Fletcher disparou uma bola de fogo através do peito do goblin.
Quase imediatamente, os pulsos de mana começaram a se drenar a partir de Ignácio, mas Fletcher estava farto da Salamandra desobediente.
— Agora chega! Você vai sair daí. — Fletcher lançou um laço cinético ao lago e puxou o demônio para fora, fazendo-o voar em cambalhotas pelo ar até aterrissar aos pés dele.
Ignácio sacudiu a cabeça, como se quisesse desalojar um pensamento indesejável. Parecia maior, de alguma forma, mas não havia tempo para um exame completo. Mais goblins irromperam do túnel, e o rugido grave de orcs ecoou atrás deles.
— De volta à pirâmide — ordenou Fletcher,  enquanto lançava um relâmpago contra a vanguarda.
Conforme ele se virava, um goblin recém-nascido agarrou-lhe o tornozelo, derrubando-o ao chão. Ignácio cortou a cara da criatura até o osso com um golpe de garras, e o goblin girou para longe, guinchando.
Então eles estavam de pé, correndo. Ao se aproximarem da entrada, Fletcher viu que os outros estavam bem mais adiante, com Otelo e Sylva servindo de retaguarda.
Uma bola cinética passou borrando o ar sobre o ombro de Fletcher e derrubou um goblin que ganiu perigosamente perto. Otelo arqueou outra bola por sobre a cabeça de Fletcher, e a força explosiva lançou uma chuva de terra e gritos contra ele. O rapaz deu uma olhada para trás e viu a primeira onda de goblins imersa em caos, muitos deles berrando de agonia enquanto queimavam na lava em que foram atirados.
— Vamos lá — gritou Sylva, enquanto Fletcher passava correndo.
Os três seguiram em disparada pelo túnel, com Ignácio e Atena logo atrás. Adiante, Sariel e Salomão aguardavam na base do pilar. Os outros já estavam quase chegando ao topo da coluna, Jeffrey incluso.
— Subam, subam! — gritou Fletcher, e eles saltaram pelos degraus acima. Não demoraria muito para que os goblins se reorganizassem.
Salomão foi na frente, pois era o mais lento, e as perninhas atarracadas tinham dificuldade em vencer os degraus. Fletcher e Sylva protegiam a traseira enquanto Otelo tirava o bacamarte do coldre e o apontava para a entrada do túnel.
— O que você está vendo, Fletcher? — indagou Sylva, sem fôlego, conforme eles recuavam escada acima. — Vamos encontrar um comitê de recepção no alto?
Fletcher permitiu que a visão se focalizasse no cristal sobre o olho, que ainda mostrava o que Ébano via.
— Os orcs não estão entrando na pirâmide, e os xamãs estão longe demais — respondeu ele, aliviado. — Parece que Mason tinha razão.
— Bem, os goblins não terão esses escrúpulos — comentou Sylva, conforme os uivos de ódio ecoavam pelo túnel. — Cuidado, estão vindo.
Uma manada veio em disparada pelo túnel, brandindo dardos, lanças e clavas. O primeiro projétil assoviou por entre as pernas de Fletcher, e ele ergueu um feitiço de escudo depressa. Foi bem a tempo, pois uma dúzia de outros dardos acertaram a proteção no instante seguinte.
O primeiro punhado de goblins escalou os degraus, tropeçando uns sobre os outros em sua sede de sangue. Havia um veterano vociferante liderando a investida, o ombro marcado pela cicatriz de um ferimento a bala. Ignácio o derrubou com uma bola de fogo bem posicionada, atirando-o para trás contra os seguidores, fazendo-os se confundirem num emaranhado de pernas e braços.
Forçado a manter o escudo com o pulso esquerdo, Fletcher brandia o khopesh com uma só mão. Sylva lhe dava cobertura com golpes largos da falx, decepando os goblins e lançando-os para o poço abaixo.
— Atirando — berrou Otelo, e Fletcher se abaixou por reflexo.
Um trovão soou, seguido de uma baforada de fumaça sulfúrica. A nuvem de chumbo se espalhou contra a horda abaixo, uma manada de mortos lançados ao chão, como se um punho gigante os tivesse esmagado.
— Carregando — gritou Otelo, conforme as fileiras se cerravam e mais goblins se lançavam do túnel para tomar posição.
Uma seta azul de besta mergulhou contra os goblins ainda na escadaria, trespassando um deles no ombro.
O monstrinho desabou, gritando edebatendo-se até atingir as massas frenéticas abaixo com um baque repugnante. Um segundo virote seguiu no rastro do primeiro, derrubando outro goblin do poleiro.
— Vocês estão quase lá — berrou Cress do alto. — Estou na cobertura.
Fletcher aproveitou o breve momento livre para avaliar o progresso deles. Otelo recarregava a arma freneticamente, as mãos tremendo enquanto despejavam pólvora cano adentro. Cress estava ajoelhada na ponte logo acima deles, disparando as setas com precisão mortal. Lisandro continuava ao lado da anã, incapaz de se juntar à luta. Era grande demais para escapar dos dardos que ainda eram arremessados de baixo.
— Cuidado — gritou Sylva.
Fletcher se virou bem a tempo, encolhendo a barriga para evitar uma lança que o teria estripado. Empurrou-a para baixo com o lado chato da lâmina e atacou com o pomo da espada. Acertou o inimigo bem na cara, e o goblin girou, tentando se equilibrar à beira do abismo. Atena deu um rasante com um guincho de fúria, puxando-o para o enorme vazio.
— Atirando — urrou Otelo de novo. Dessa vez, ele disparou em direção à escadaria, e a fumaça acre soprou por entre os rostos de Sylva e Fletcher. A devastação foi concentrada num cone crescente de fragmentos mortais, deixando uma carnificina em seu rastro. Os restos ensanguentados, que deixaram até Fletcher enojado, mandaram os sobreviventes gritando de volta para a base da escada, brigando para passar pelos goblins mais empolgados que vinham atrás.
Na pausa que se seguiu, a equipe subiu cambaleando os últimos degraus e alcançou a plataforma enquanto Cress mantinha o topo da escada limpo com a besta.
— Dane-se isso! — exclamou ela de repente, pendurando a arma pela alça. Tirou a rolha do frasco de mana e o bebeu. Estremecendo ao sentir o mana se espalhar pelo corpo, a anã apontou a manopla de batalha para a escadaria. Uma onda de chamas irrompeu, espiralando pela escada e varrendo-a dos goblins enfileirados. Era brutal de assistir, como uma onda arrastando os ratos de um destroço de navio. O inferno da manopla se acumulou no fundo do fosso, fervendo e revirando, como fogo líquido. Aqueles que não se atiraram de volta ao túnel foram incinerados, os guinchos de dor soando ásperos nos ouvidos de Fletcher.
Fez-se silêncio, rompido apenas pelo chiado dos cadáveres sendo fritos abaixo.
— Acabou meu mana — avisou Cress, espiando para baixo e estremecendo com a vista. — Mas eles não sabem disso.
— O meu também — disse Sylva, raspando o sangue da falx contra a beira da plataforma. — Usei tudo na queima daqueles ovos.
As reservas de Fletcher estavam baixas, mas ele reabsorveu o escudo pelos dedos para recuperá-las. Só o bastante para mais alguns feitiços.
— Eu guardei a minha poção — avisou Otelo, recarregando o bacamarte freneticamente. — E ainda tenho um restinho de mana. Os níveis de mana de Salomão aumentam com o tamanho dele.
O Golem ribombou ao ouvir o próprio nome, o rosto se abrindo num sorriso rochoso. Então, quando os primeiros goblins começaram a se aventurar no poço novamente, um uivo ecoou na câmara. Vinha do corredor do outro lado da plataforma. Focalizando o cristal de visualização, Fletcher percebeu que Ébano pairava sobre a pirâmide. Abaixo dela, dezenas de criaturas passavam correndo pelos orcs e entravam pela porta da frente.
— Demônios — sussurrou Fletcher, arregalando os olhos de horror.


Um comentário:

  1. Meu deus, eles se enrolam cada vez mais na confusão e eu fico todo ansioso para saber como vão escapar...

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Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!