2 de março de 2018

Capítulo 46

O golpe veio sibilando no ar, evitando a guarda de Fletcher e acertando a clavícula do menino com um esmigalhar doloroso.
— De novo! — grunhiu Sir Caulder, chutando a canela de Fletcher com a perna de pau antes de vibrar-lhe outro golpe na cabeça. Desta vez, o aprendiz aparou o ataque com a espada de madeira, desviando-o para o lado e dando uma joelhada na barriga de Sir Caulder.
O velho desabou, ofegando na areia da arena.
— Fletcher! — gritou Sylva do lado de fora. — Cuidado!
Sir Caulder ergueu a mão e se levantou lentamente.
— Está tudo bem, Sylva — sibilou ele, esfregando o estômago. — Um guerreiro jamais pode hesitar diante de uma abertura. Deus sabe que o inimigo não o fará.
— Você mesma não golpeou o rosto de Sir Caulder não faz nem dez minutos? — provocou Fletcher.
— Aquilo foi diferente... — respondeu ela com um sorriso arrependido.
Um grito veio de trás deles. Fletcher se virou e viu Otelo montado em Serafim, com as armas esquecidas no chão.
— Não, não, não; vocês precisam aprender a lutar com refinamento! — ralhou Sir Caulder com os dois. — Não podem simplesmente socar um ao outro até que alguém se canse.
Os dois meninos se levantaram, sorrindo envergonhados. Um hematoma amarelo brotava no rosto de Serafim, e o lábio de Otelo estava inchado como uma ameixa madura.
— Já que você se deu ao trabalho de fazer Uhtred entalhar essas armas de madeira para praticarmos, você provavelmente deveria usá-las. — Fletcher riu, olhando a espada larga e o machado de batalha de madeira largados no chão.
— Nós só nos empolgamos um pouco — admitiu Otelo, catando o machado e limpando a areia. Ele brandiu a arma com uma facilidade experiente, girando-a no ar antes de golpeá-la no chão ao seu lado.
— Bem, vocês melhoraram muito depois que começamos a treinar, não posso negar — admitiu Sir Caulder. — Mas Sylva e Fletcher já avançaram a um nível excepcional de esgrima. Considero que vocês já possam fazer frente a alguns dos nobres, mas vão precisar de muito trabalho para superá-los. Bom não é o bastante.
Sir Caulder olhou feio para os dois por mais algum tempo, depois saiu pisando forte em direção à saída.
— A aula de combate acabou por hoje. Vocês podem treinar feitiçaria aqui embaixo, se quiserem. Não vou impedi-los.
O estalar da perna de pau contra a pedra foi se afastando até que ele deixou a arena.
— Bem, esse foi o maior elogio que eu já ouvi dele — observou Serafim, pegando a espada larga no chão. — Ainda assim, não nos falta tempo para melhorarmos; ainda temos uns dois meses. Estou mais preocupado com a prova de demonologia da próxima semana. Com tanto treinamento, eu adormeço assim que abro meus livros!
— Vamos nos sair bem — insistiu Otelo. — Ainda não vi nenhum dos nobres botar o pé na biblioteca, e até mesmo Rory, Genevieve e Atlas passam a maior parte do tempo em Corcillum. Se obtivermos uma nota ruim, todo mundo obterá também.
— Então, vamos praticar feitiçaria? — indagou Sylva, caminhando sobre a areia e acendendo uma esfera de fogo-fátuo. — Por que você não tenta uma bola de fogo desta vez, Fletcher? Vou erguer um escudo ali e você pode usar como alvo.
Fletcher sentiu o rosto ficar vermelho, envergonhado com sua inabilidade em produzir até mesmo o mais básico dos escudos. Ele conseguia disparar ondas de fogo, telecinese ou até mesmo relâmpagos, o que era eficaz, mas gastava muito mana. Para seu desgosto, o rapaz ainda tinha dificuldades em moldá-los num raio ou mesmo uma bola. Energizar um glifo e o feitiço ao mesmo tempo era coisa demais para memorizar de uma só vez. Mesmo assim, ele melhorava lentamente, mesmo que não na velocidade desejada.
— Vocês vão em frente, já estão muito mais avançados do que eu. Vou só treinar aqui do lado, onde não atrapalho...
— Tudo bem, se é isso que você quer — respondeu Sylva, decepcionada. — Rapazes, por que vocês não tentam acertar um alvo móvel?
Ela lançou uma grande esfera de fogo-fátuo no ar, fazendo-a ziguezaguear pela arena num padrão aleatório. Otelo riu e entalhou o símbolo do fogo, soltando uma língua de fogo que moldou numa bola e a lançou no rastro da luz azul. Serafim estava logo atrás.
Fletcher se sentou deprimido na arquibancada, entalhando o símbolo do fogo repetidamente no ar. Ele tinha conseguido, com a prática, acelerar o entalhamento em alguns segundos, tornando-se capaz de formar o glifo mais rápido que qualquer um dos outros. Mas era ali que sua habilidade acabava. O rapaz pingou algum mana e observou um leque de chamas se formar. Com um esforço colossal, ele a compactou numa forma mais ou menos esférica. Fletcher olhou a bola, surpreso, então a lançou contra o fogo-fátuo antes que sua concentração se rompesse.
Ela passou em disparada pela esfera azul, pegando-a de raspão e a apagando.
— Legal! — gritou Fletcher, socando o ar.
Atrás dele, palmas lentas ecoaram da entrada da arena.
— Parabéns, Fletcher, você conseguiu lançar um feitiço — provocou Isadora. — Nossa, você conseguiu executar uma das habilidades mais básicas necessárias a um mago de batalha. Seus pais devem estar tão orgulhosos. Ah... ops.
Fletcher se virou, sua alegria imediatamente substituída pelo ultraje. Isadora lhe acenou delicadamente e desceu saltitando os degraus da arquibancada. Fletcher ficou surpreso ao ver os outros sete calouros entrando atrás dela na arena.
— Enfim, como vocês podem ver, estávamos certos. — Tarquin apontou um dedo acusador contra Sylva, Otelo, Fletcher e Serafim. — Eles estão treinando aqui, em segredo!
— É por isso que vocês nunca estão na sala comum! — exclamou Genevieve, surpresa, jogando o cabelo. — Vocês sempre dizem que estão na biblioteca.
— Mas nós estamos mesmo. — Fletcher tentou apaziguá-la. — Nós só descemos para cá depois, para praticar esgrima com Sir Caulder. Vocês não lembram? Ele ofereceu lições particulares para todos nós depois da primeira aula.
— Isso não parece prática de esgrima para mim — comentou Atlas, apontando o espaço vazio acima da arena onde a bola de fogo de Fletcher tinha apagado o fogo-fátuo de Sylva. — Sir Caulder nem sequer está aqui.
— Por que vocês não nos contaram? — gaguejou Rory. — Vocês nunca me dão respostas diretas quando pergunto o que andaram fazendo.
Fletcher não tinha resposta para isso. Ele se sentia mal em não incluir os outros. Só que teria sido muito difícil de explicar, um risco grande demais de que Tarquin e Isadora descobrissem o que faziam. Não que o segredo tenha ajudado muito, no final das contas.
— Por que eles esconderiam isso de vocês? — ponderou Tarquin em voz alta, com ar teatral. — Talvez porque... não, não pode ser. Pode?
— O que você quer dizer? — indagou Genevieve, com o lábio inferior tremendo.
— Bem, lamento informar, mas parece que os outros plebeus estão treinando em segredo para derrotar vocês — teorizou Tarquin, balançando a cabeça com nojo fingido. — Quero dizer, eles não têm a menor esperança de derrotar os nobres, vamos ser razoáveis. Porém, se puderem envergonhar vocês três na arena, quem sabe não conseguem descolar uma patente?
— Que mentira nojenta! — berrou Fletcher, levantando-se num salto e avançando até Tarquin. — E, se acha que não temos como vencer os nobres, você é mais arrogante do que eu pensava.
— Por que não descobrimos agora mesmo, então? — Tarquin levou seu rosto a alguns poucos centímetros do de Fletcher. — Estamos na arena. Com uma plateia de espectadores. O que você me diz?
Fletcher estava absolutamente furioso, com as mãos coçando de intenções violentas.
— Uma plateia de testemunhas, você quer dizer — interrompeu Sylva, puxando seu amigo de volta da beira do abismo. — Aí todo mundo poderá dizer que viu Fletcher participar de um duelo e assim garantir sua expulsão. Você não se importa com a própria carreira?
— Cipião jamais me expulsaria — retrucou Tarquin, veneno escorrendo de suas palavras. — É uma ameaça vazia. Meu pai é o melhor amigo do rei; o processo jamais iria longe. Quanto a um bastardo da ralé, como Fletcher...
Porém, Fletcher agora já percebia o plano de Tarquin, e não lhe daria o gosto.
— Você terá seu duelo, na hora certa. Quando eu puder derrotá-lo com todo mundo assistindo. Vamos ver quem é o melhor conjurador então.
O nobre sorriu e se inclinou ainda mais, até que Fletcher pôde sentir sua respiração no ouvido.
— Vou esperar ansiosamente.
Tarquin então fez uma saída dramática da arena, seguido pelo resto dos nobres. Por um momento, Rory hesitou, com o rosto marcado pela indecisão. Atlas pousou a mão em seu ombro.
— Eles foram flagrados no ato, Rory. Nós não deveríamos ter sido tolos de confiar nessa laia. Um pretendente a nobre, um bastardo, uma elfa e um meio-homem. Não precisamos de amigos desse tipo.
Fletcher se ofendeu com o ataque, então percebeu que, para Atlas dizer “pretendente a nobre”, ele só podia ter ouvido a conversa entre Fletcher e Serafim.
— Você andou bisbilhotando, Atlas — acusou o rapaz. — Aquela conversa era particular.
— Ah, sim, ouvi muita coisa nas últimas semanas. Quem você acha que contou de suas atividades extracurriculares a Tarquin e Isadora?
— Dedo-duro — cuspiu Serafim, chutando a areia com raiva. — O que ele lhe prometeu?
— Uma comissão nos Fúrias dos Forsyth, se eu jogar direitinho. Vocês dois deveriam fazer o mesmo — afirmou ele, virando-se para Rory e Genevieve.
— Você confiaria naquelas serpentes? — grunhiu Fletcher. — Eles estão mentindo para você, e farão o mesmo com Rory e Genevieve. Não façam isso, por favor!
Mas era tarde demais; eles já tinham decidido. Um de cada vez, os três deram as costas a Fletcher e foram embora. Até que os quatro ficaram sozinhos de novo.

8 comentários:

  1. Como eu odeio Tarquin e Isadora

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  2. GenTe, e nessas horas que descobrimos que é amigo de verdade

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  3. Esse Atlas sempre teve um pé atrás com eles, só ta mostrando quem ele é na real.

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  4. Que filha da putagem
    Porra genevieve eu gosta de vc pô

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  5. Bom, Fletecher não está certo nesta história. Ele deveria ter convidado todos para treinarem com eles. A reação deles, ao descobrirem que estão sendo excluidos, é perfeitamente normal.

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  6. Eu entendo Genevieve e Rory, mas Atlas é um sacana, pelo amor!
    Mas Fletcher devia ter chamado os outros dois, que também estão com dificuldades, para praticar, afs
    Eu achei no começo que o trio ia ser Genevieve, Rory e Fletcher, mas parece que não.

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  7. Pq não chamou Rory e Genevieve? Não daria isso ai... (queria esse Trio juntos)


    Ass:filho de Adão

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  8. Não sei porque, mas sinto que estou relendo Draco e Harry

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Boa leitura, E SEM SPOILER!